Pescador cria projeto em defesa do rio e do futuro da profissão

Julio Silva de Oliveira, tutor do Pitucanoa, exibe a peça artesanal que deu nome ao Projeto. Crédito: Maureci Junior
Vendo sua profissão ameaçada pelos impactos ambientais, pescador da zona sul de Porto Alegre deixa o exercício da atividade para se dedicar a projeto social de incentivo à conservação do ambiente natural. Através de atividades esportivas e de educação ambiental, “Pitucanoa” mostra às crianças a importância do Lago Guaíba. O objetivo é promover a conscientização em relação às alterações do meio ambiente e criar soluções a partir da comunidade.

 

Primeiro lugar no  VIII Prêmio Unochapecó – Caixa de Jornalismo Ambiental na categoria Estudante  / Reportagem Web (2016)

 

Por Maureci Junior
Jornalismo Ambiental / Noite

Homem simples, de fala mansa e sorriso fácil. Sob os cabelos grisalhos e a barba grande, a pele denuncia os anos de exposição ao sol do Guaíba. Esse é Julio Silva de Oliveira – o Bagre – como é conhecido pela comunidade da Vila Chapéu do Sol, no sul de Porto Alegre, o criador do Projeto Pitucanoa. Basta alguns passos ao seu lado na rua, para se notar o carinho que tem de todos. No entanto, há uma frase que o faz fechar o sorriso. A voz muda de tom. Com um semblante sério, o velho pescador arregala bem os olhos para dizer algo que parece óbvio, mas pode passar desapercebido: “o nosso planeta tá sendo consumido pela ganância”.

Criado a bordo de uma canoa, ajudando seu pai, o velho Pituca, a tirar do rio o sustento da família, o pescador viu várias espécies de peixes serem extintas do Guaíba e, com o tempo, entendeu que “se a gente não preservar, hoje, as matrizes e o habitat dos peixes, as próximas gerações não vão ter o que pescar”. Tentando compartilhar essa conscientização entre as pessoas da comunidade, Julio criou um projeto de sustentabilidade e o chamou de Pitucanoa – uma homenagem a seu pai e à tradicional embarcação de pesca que ele usou para criar os filhos.

Idosos se dedicando ao cuidado das mudas nativas. Meninos e meninas que, fora do horário de escola, aprendem a conhecer as plantas, as espécies de peixes, a consertar redes e fazer materiais de pesca artesanal. Aprendem a respeitar o pescado e a transformá-lo em alimento. Isso é parte da rotina de quem participa do projeto Pitucanoa, que, por enquanto, concentra as atividades no espaço do Clube Náutico Belém Novo (CNBN), extremo sul da capital.

Passeios de barco mostram o Guaíba de um outro ponto de vista. Crédito: Pitucanoa/Divulgação
Passeios de barco mostram o Guaíba de um outro ponto de vista. Crédito: Pitucanoa/Divulgação

Em dias de tempo bom, passeios de barco servem para que todos conheçam o Lago Guaíba, um patrimônio que, até então, só viam do lado de fora, mas quando entram e descobrem que é seu, passam a sentir que também são responsáveis pelos seus cuidados. E demonstram isso na prática, ajudando na limpeza da orla. “São crianças que poderiam estar na rua, fazendo qualquer outra coisa, mas estão em contato com a natureza, aprendendo o valorizar os recursos do rio”, diz Julio de Oliveira.

Da pesca ao trabalho comunitário

Há dez anos à frente do projeto, o morador do bairro Belém Novo conta porque deixou de pescar e aceitou trabalhar no clube onde está hoje, sediado na beira do Guaíba: “fui trabalhar no clube para poder tocar o projeto. Não recebia nada, mas queria fazer a minha parte. Não podia mais ver os peixes desaparecendo aos poucos e ficar parado”. Indignado, questiona: “ou vamos esperar acabar de vez, para depois fazer alguma coisa?”.

Em casa, o que não falta é história de pescador. E claro, sempre muita gente para ouvir. Crédito: Maureci Junior
Em casa, o que não falta é história de pescador. E claro, sempre muita gente para ouvir. Crédito: Maureci Junior

Rosana da Silva Peixoto, esposa, relata como foram os anos em que o pescador trabalhou como voluntário, após deixar de pescar: “a gente se ajuda como pode, às vezes ele não tinha nem o dinheiro da passagem para ir pro clube trabalhar com as crianças, daí eu e as filhas sempre ajudamos”. Rosana trabalha como doméstica e diz que, durante as férias, pode ajudar mais no projeto. Ela ressalta a persistência do marido diante das dificuldades, “quando não dá para ir ao clube, ele recebe as crianças aqui, na frente de casa mesmo. A casa vive cheia, todos adoram Tio Bagre”.

Casados há 29 anos, Rosana e Julio tem três filhas. Paola, a caçula de oito anos, é a única que mora com o casal, mas as duas mais velhas, Pâmela (27) e Paloma (25), moram perto e frequentemente estão na casa dos pais. Paloma é mais tímida, não gosta de dar entrevistas nem de tirar fotos. Já Pâmela Peixoto de Oliveira fala com muito orgulho da iniciativa do pai junto à comunidade, e o elogia: “ele é um cara diferente, enxerga longe, nem parece que tem pouco estudo”.

No entanto, ao comentar sobre o futuro do projeto, a filha mais velha é bastante zelosa: “o pai é uma pessoa boa, o meu receio é que alguém queira se aproveitar do projeto com ambição de tirar vantagem e acabe passando por cima dele”. E ratifica: “o projeto é para a comunidade

A preocupação com quem vive do peixe

Educação ambiental e proteção do Guaíba são as bases do Projeto. Crédito: Pitucanoa/Divulgação
Educação ambiental e proteção do Guaíba são as bases do Projeto. Crédito: Pitucanoa/Divulgação

Julio de Oliveira diz que é imprescindível respeitar o período de desova do peixe. Quanto a isso, afirma que os três meses relativos à piracema (de novembro a janeiro), em que a pesca é proibida no Guaíba, não correspondem ao período total do processo de reprodução nessa região. Segundo ele, algumas espécies de bagre, por exemplo, levam até seis meses para completar este ciclo.

Nesse sentido, o criador do Pitucanoa afirma que é fundamental para as futuras gerações de pescadores que, hoje, sejam respeitados 180 dias de proibição da atividade no Guaíba. E defende que é possível fazer esse benefício ao meio ambiente, mas sem prejudicar as famílias que dependem da pesca. Afinal, segundo o pescador, algumas colônias de pesca, como Z4 e Z5, dependem exclusivamente do bagre, “não dá é para simplesmente proibir a pesca do bagre em uma região que não tem outro peixe, sem dar assistência nenhuma para os trabalhadores”.

De acordo com a proposta do Pitucanoa, a pesca ficaria parada por seis meses em regiões específicas do Guaíba. Durante esse período, os pescadores locais utilizariam suas embarcações, três dias por semana, em uma atividade alternativa, voltada para a sustentabilidade do próprio Guaíba. Essa atividade seria dividida em três etapas: limpeza da orla, resgate das mudas nativas e replantio das mesmas para a reposição da mata ciliar (vegetação que protege a margem):

Imagem A (tabela)

Com a experiência de quem conhece na prática a realidade dessa profissão, Julio entende que este programa seria uma forma de promover um maior engajamento da parte dos pescadores, pois, dessa forma, os próprios profissionais estariam contribuindo ativamente com a preservação das matrizes e, ao mesmo tempo, com a conservação do habitat dos peixes.

 O aprendizado que vem do rio

Enquanto realizam atividade esportiva, alunos aproveitam para limpar a orla do rio. Crédito: Pitucanoa/Divulgação
Enquanto realizam atividade esportiva, alunos aproveitam para limpar a orla do rio. Crédito: Pitucanoa/Divulgação

Bagre tenta repassar às crianças o aprendizado do trabalho fluvial. No Projeto, utilizando embarcações de apoiadores e a ajuda de esportistas náuticos voluntários, ensina a meninada a navegar, tanto com remos como usando velas. Durante os passeios pela orla, o grupo aproveita para juntar embalagens plásticas e outros resíduos sólidos, que são arrastados pelas correntezas e acabam se acumulando em pontos específicos do Lago.

Após serem recolhidas, essas embalagens são reutilizadas em outra etapa do projeto, quando servem para receber mudas de árvores nativas. Algumas destas plantas estão em extinção, elas chegam à margem quando a água está baixa, e, nos períodos de cheia, são arrastadas novamente pela maré. O pescador ensina as crianças a reconhecer essas espécies e a replantá-las dentro de garrafas pet, tênis, ou de outros recipientes que forem recolhidos da própria orla do rio.

Plásticos recolhidos das margens do rio são aproveitados no processo de revitalização da mata nativa. Crédito: Pitucanoa/Divulgação
Plásticos recolhidos das margens do rio são aproveitados no processo de revitalização da mata nativa. Crédito: Pitucanoa/Divulgação

Até agora, o Pitucanoa já resgatou mais de 14 mil mudas – como corticeiras, angicos, ingazeiros, sarandis, entre outras – que foram replantadas em outros locais, dentro e fora de Porto Alegre. “Tem mudas que são muito valiosas e conseguem crescer em qualquer embalagem que armazene um pouco de húmus. É uma coisa simples de se fazer, mas evita muitas extinções”, defende Julio.

O conhecimento prático, que adquiriu convivendo com a natureza, é generosamente compartilhado pelo pescador com qualquer pessoa que o escute. Ele afirma que, olhando atentamente para a natureza, “qualquer um pode constatar as mudanças climáticas”. O homem que cresceu no Guaíba diz que, nos últimos anos, percebe o aceleramento no ciclo das estações, e explica: “o nosso primeiro pássaro a desovar é o sabiá, exatamente quando caem as folhas da amoreira e da pitangueira, e nascem os frutos. Isso tá acontecendo cerca de um mês e vinte dias adiantado”.

Artesanato no Projeto Pitucanoa

Outra atividade desenvolvida no Pitucanoa, não só com as crianças, mas também com idosos, é o artesanato. Com uma pequena faca de remendar redes, o instrutor demonstra como esculpir canoas de pesca em pequenos tocos de madeira. Além disso, a confecção de materiais de pesca artesanais, como redes, tarrafas e espinheis, desperta especialmente a atenção dos meninos.

Entre as meninas, Ariane Melo, 12 anos, aproveita a tranquilidade ao ar livre e usa de criatividade para criar bijuterias de miçanga. Ao seu lado, a pequena Brenda Nascimento, de 6 anos, acompanha atentamente cada passo da amiguinha mais velha. Bagre diz que os aconselha a vender as peças, “mas fazem aquilo com tanto carinho que geralmente preferem guardar”.

Utilizando pedaços de madeira da orla do Guaíba, Projeto Pitucanoa já produziu mais de 1000 peças artesanais. Crédito: Maureci Junior
Utilizando pedaços de madeira da orla do Guaíba, Projeto Pitucanoa já produziu mais de 1000 peças artesanais. Crédito: Maureci Junior

Em uma das visitas à sede do Pitucanoa, nossa reportagem conversou com Valdirene Veloso, responsável por algumas das crianças que estavam no local naquela ocasião, e ela avalia a importância do Projeto na rotina dos pequenos: “o mais legal é que muitas (crianças) acabam criando um vínculo, se familiarizam aqui e depois buscam ficar perto da gente mesmo em outros horários”. Valdirene também atua no projeto Mãos Unidas, no bairro Ponta Grossa, que é voltado para a reinserção social de moradores de rua da cidade de Porto Alegre, e sustenta que “a demanda social é grande e precisa que os projetos estejam interligados”.

Alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Anísio Teixeira também participam do Pitucanoa. A bióloga Cynthia Tarragô, professora na Escola, salienta o valor de algumas atividades que fazem parte do Projeto, como a coleta do lixo, o trabalho de conscientização e a revitalização das mudas e da orla do Guaíba: “poder levar os alunos para verem, de dentro do rio, os efeitos das inundações, por exemplo, é uma das peculiaridades que fazem do Pitucanoa um projeto fundamental em defesa do Guaíba”.

Cynthia, que é uma das coordenadoras do Laboratório de Inteligência do Ambiente Urbano (Liau) – uma parceria entre as escolas da rede municipal, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) e o criador do Atlas Ambiental de Porto Alegre, Rualdo Menegat ­­- afirma que “o Pitucanoa, pela sua capacidade de sensibilizar em relação ao Guaíba, deve ser amplamente divulgado, inclusive, com o envolvimento das escolas do entorno”. Além disso, a professora destaca que o Projeto cumpre importante papel de inclusão social e faz com que os alunos se sintam valorizados.

Nos últimos meses de atividade, o Pitucanoa usou os encontros com as crianças para promover conversas sobre a dengue, zica vírus e chikungunya, e para realizar atividades preventivas em relação ao mosquito transmissor das doenças. Além disso, o grupo aproveitou os passeios de barco e as caminhadas pela orla para recolher todo o tipo de objetos que pudessem armazenar água parada – o que representa um ambiente propício à reprodução do Aedes aegypti.

Segundo a página Onde está o Aedes?, disponibilizado pela prefeitura de Porto Alegre para monitorar a ação do mosquito, até o dia 28 de maio desse ano já foram registrados 298 casos de dengue na cidade (246 autóctones e 52 importados), 16 casos de zica (onze importados) e 14 casos da febre chikungunya , todos importados. O bairro Vila Nova, na zona sul, é o primeiro da lista de vítimas da dengue, com 70 casos autóctones já confirmados.

Projeto enfrenta dificuldades

Falta recursos, mas sobra solidariedade e criatividade no Pitucanoa. Crédito: Maureci Junior
Falta recursos, mas sobra solidariedade e criatividade no Pitucanoa. Crédito: Maureci Junior

Depois de vários anos trabalhando como voluntário, Julio de Oliveira passou a receber um salário para cuidar do clube náutico onde desenvolve o Pitucanoa. Com o dinheiro, podia fazer o trajeto de 8 quilômetros de ônibus – ao invés de ir de bicicleta – e às vezes ajudar no lanche das crianças. No entanto, desde março, Bagre deixou de prestar serviços ao clube e passou a se dedicar exclusivamente ao Projeto. De lá para cá – sem o salário – a falta de ajuda de custo tem dificultado o andamento das atividades.

Quando não consegue ir até Belém Novo, Julio se reúne com os grupos na própria Vila Chapéu do Sol – na praça, no pátio da escola, no quintal de sua casa ou onde for possível – mas, conforme acordado com a direção do Clube Náutico Belém Novo, o espaço permanece à disposição do Projeto Pitucanoa. “O Clube se orgulha em receber o Pitucanoa e está de portas abertas para colaborar com qualquer ideia que promova o benefício social”, confirma Vercidino Albarello, presidente do CNBN.

Projeto busca recursos junto à própria comunidade. Crédito: Pitucanoa/Divulgação
Projeto busca recursos junto à própria comunidade. Crédito: Pitucanoa/Divulgação

Para poder seguir em frente com o Projeto, mantendo e aprimorando suas atividades originais, como artesanato, esportes náuticos, educação ambiental e aulas de pesca artesanal profissional, Julio certificou o Pitucanoa e conseguiu a elaboração de um plano de captação de recursos. No entanto, ainda depende da aprovação do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Porto Alegre (CMDCA). O gráfico abaixo esboça o valor estimado para atender inicialmente a duas turmas de 20 crianças, durante três dias por semana:

Imagem B (tabela)

O orçamento mostra que, com um valor inferior a 120 mil reais, seria possível financiar um programa de um ano do projeto social. Mas, para que esses recursos possam ser captados junto à sociedade, é preciso, antes, obter o registro do CMDCA: uma comissão deste Conselho visita o local do projeto, faz a avaliação, e, se o programa for aprovado, o orçamento é lançado na página oficial do Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente – Funcriança – onde, só então, estará apto a receber as doações.

Uma vez que o projeto esteja publicado neste site oficial, a empresa que quiser colaborar poderá fazer a opção de direcionar 1% do valor do seu imposto de renda para o mesmo. Pessoas físicas colaboram com até 6% do imposto sobre suas rendas. O respectivo contribuinte tem o direito de fazer ações de marketing, atrelando sua marca ao programa de responsabilidade social. O site é de domínio público e fornece informações sobre os doadores e o destino dos valores que foram repassados.

Fernanda Kerbes, gerente do CMDCA, diz que o Conselho já visitou o Pitucanoa, mas, no dia, não estava havendo atividades no local. Kerbes diz que a visita da comissão ocorre sem aviso prévio, e explica os motivos: “como se trata de repasse de dinheiro público, é preciso ter uma série de cuidados. Pois pode acontecer de o registro ser solicitado por projetos fictícios”. A captação de recursos para programas com idosos passa pelo mesmo processo, mas quem avalia o orçamento, nesse caso, é o Conselho Municipal do Idoso de Porto Alegre (Comui).

Pitucanoa realiza ação socioambiental com escola da zona sul. Crédito: Pitucanoa/Divulgação
Pitucanoa realiza ação socioambiental com escola da zona sul. Crédito: Pitucanoa/Divulgação

No fim de abril, Julio de Oliveira foi acometido por uma forte gripe, diagnosticada com sintomas do vírus H1N1. Segundo ele, enquanto cortava grama na esquina de sua rua, “sentiu um ‘calorão’ repentino”. Ao voltar para casa, começou a febre alta – acima de 39º – seguida de dor no corpo, vômito e sensação de fraqueza. Para evitar a transmissão do vírus, manteve-se afastado das atividades sociais. Nesse período, naturalmente, os encontros do Pitucanoa foram cancelados.

Nos últimos meses, o velho pescador tem encontrado sérias dificuldades para tocar o projeto. A ausência de recursos básicos, como dinheiro para o seu próprio transporte e para as refeições das crianças, por exemplo, está atravancando o andamento do Pitucanoa. Nos dias em que consegue ajuda da comunidade, de amigos ou familiares, Bagre realiza o trabalho social com as crianças e idosos. Mas, quando isso não acontece, o projeto fica parado. Na esperança que a próxima visita do Conselho, por sorte, o encontre em atividade. O Lago Guaíba e as crianças da zona sul agradeceriam.

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