Dá para comer saudável sem sair de casa: tele-entrega não é só Fast Food

Projeto simples e inovador, visa aproximar produtores de orgânicos dos consumidores

Por Lauren Dourado
Jornalismo Ambiental / Noite

Bárbara Behs, proprietária da Cesta Feira Tele-entrega de produtos orgânicos - Crédito: Lauren Dourado
Bárbara Behs, proprietária da Cesta Feira Tele-entrega de produtos orgânicos – Crédito: Lauren Dourado

Foi no trabalho de conclusão de curso que a proprietária do e-commerce de produtos orgânicos Cesta Feira, Bárbara Behs, 25 anos, formada em Zootecnia, teve a ideia de aproximar pessoas que teriam interesse em consumir produtos orgânicos, de quem os produz. A agricultura familiar em Santa Catarina, onde Bárbara realizou o curso é bastante praticada, porém segundo ela, estes produtores não tem uma estruturação bem formada, o que dificulta a inserção destes pequenos agricultores no mercado.

“Perceber essa dificuldade entre aproximar o pequeno agricultor dos consumidores foi o que me chamou a atenção, então vi o gancho para a criação da Cesta Feira porque tinha bastante gente produzindo e bastante gente querendo, mas essas pessoas não conseguiam chegar umas nas outras”, pontua Bárbara.

A produção de alimentos orgânicos passa por inúmeros aspectos climáticos, e a não utilização de produtos químicos para acelerar ou, “proteger” a plantação contra pragas faz com que os produtores às vezes não consigam atender a demanda dos consumidores, um dos fatores que torna o alimento orgânico mais caro.

Em substituição do uso de produtos químicos, na agricultura orgânica, são utilizadas práticas sistêmicas no campo, com o intuito de manter o equilíbrio da plantação e do desenvolvimento da lavoura, onde o produtor consegue identificar onde e como agir para poder reestabelecer o controle do cultivo.

Pequena horta de temperinhos que Bárbara organizou no pátio do escritório - Ctédito: Lauren Dourado
Pequena horta de temperinhos que Bárbara organizou no pátio do escritório – Ctédito: Lauren Dourado

“Não é utilizado nenhum produto que vá prejudicar o solo nem o meio ambiente, tem toda uma estrutura de pensar no controle do crescimento demasiado de uma população de insetos por exemplo, que possa causar danos aos alimentos. Acontece de os agricultores fazerem um canteiro na horta só de plantas para os insetos, para que os alimentos que vão para a comercialização não sejam atingidos”, afirma Bárbara.

Segundo a empresária, o nicho de consumo de orgânicos é bem estabelecido:

“É possível afirmar que 90% do público de consumidores adeptos ao orgânico é de mulheres, geralmente com idades entre 28 e 50 anos pertencentes as classes a e b, e mães. Há uma preocupação maior com a saúde dos filhos, o que influencia bastante na hora de escolher entre um alimento orgânico ou não.”

O grande diferencial da empresa criada por Bárbara é a forma de atendimento que ela oferece aos clientes. A partir de um escritório em formato Coworking (atitude também sustentável, já que é possível abranger diversas empresas num só ambiente, reduzindo custos e principalmente o consumo) ela faz as vendas pela internet e realiza as tele-entregas.

Detalhes do ambiente de trabalho onde Bárbara atende para a Cesta feira - Crédito: Lauren Dourado
Detalhes do ambiente de trabalho onde Bárbara atende para a Cesta feira – Crédito: Lauren Dourado

A consciência dos impactos ambientais que as práticas irresponsáveis da produção de alimentos que naturalmente eram para fazer mais bem do que mal tem tido uma crescente mudança na forma de consumo. Locais que comercializam produtos orgânicos vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado agroecológico da capital porto-alegrense. Além da questão ambiental, alimentos orgânicos trazem o apelo da consciência de ingestão de alimentos que protejam a saúde do indivíduo que o consome. Quanto mais informado o cidadão estiver sobre os efeitos do consumo a longo prazo de alimentos com alto índice de agrotóxico, mais ele começa a optar por alimentos que de origem orgânica.

Experiências exitosas

A Coordenadora do curso de Publicidade e Propaganda da UniRitter Campus Zona Sul, Tânia Almeida, é cliente da Cesta Feira, e apesar ser adepta do consumo de orgânicos há menos de um ano, prioriza sempre que pode, locais que ofereçam esta opção. A professora conta que conheceu a página da empresa pelo facebook e que resolveu arriscar:

– Realizei minha primeira compra numa sexta-feira à noite o que me permite avaliar que a compra dos alimentos são disponibilizados em horários alternativos, isso é um diferencial interessante.

Com relação à preocupação com o meio ambiente, Tânia destaca: o fato de vender alimentos orgânicos sinaliza uma preocupação, um negócio que lida com essa temática já é um exemplo de trabalho diferenciado por estimular os empreendimentos de agricultura familiar que plantam orgânicos. Isso aquece a economia porque a Cesta Feira é um facilitador no processo de plantio e distribuição dos produtos orgânicos.

Feiras agroecológicas em Porto Alegre

Há quem prefira escolher a dedo seus alimentos e ver de perto a qualidade do que irá consumir como Maria da Graça Gonçalves, frequentadora assídua das feiras de orgânicos da Redenção.  Porto Alegre é considerada cidade pioneira no assunto  agroecologia.

“Quase todo sábado eu vou à feira. É uma experiência muito enriquecedora saber que estamos consumindo realmente alimentos saudáveis, livres de produtos que façam mal à nossa saúde, além de estabelecer uma relação mais próxima com os próprios produtores dos alimentos que levamos para nossa mesa”, destaca Maria.

Com lugar reservado na feira da Redenção há 27 anos, dona Helena Frozi, 81 anos, conta que nunca ingeriu alimentos que contivessem agrotóxico. Começou vendendo mel e doces coloniais. Comprou um sítio na cidade de Canela e começou a plantar para consumo, quando começou a notar que estava produzindo mais do que consumindo, levou os alimentos para vender na feira. Todos os meses dona Helena participa de reuniões junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que é o órgão que fiscaliza e autoriza o produtor a possuir e manter o selo de certificação de alimento orgânico.

Os alimentos trazidos por Dona Helena para vender na feira são selecionados com carinho - Crédito: Lauren Dourado
Os alimentos trazidos por Dona Helena para vender na feira são selecionados com carinho – Crédito: Lauren Dourado

Na banca do seu Flávio Zanotto, que é expositor na feira há 15 anos, a maior motivação de largar a antiga profissão de cerâmico, foi a preocupação em levar a mesma qualidade de vida que sempre teve no consumo de alimentos orgânicos para a população.

“O que se compra aqui na feira é uma forma de preservar a saúde para que lá na frente não se tenha que mitigar doenças com remédio de farmácia”, exclama Flávio.

Flávio Zanotto exibindo na feira a fartura de seus alimentos - Crédito: Lauren Dourado
Flávio Zanotto exibindo na feira a fartura de seus alimentos – Crédito: Lauren Dourado

O uso exagerado de substâncias agrotóxicas no Brasil

O uso de agrotóxicos que é aplicado, segundo a Anvisa, em mais de 70% dos alimentos do Brasil, serve para controlar que os insetos, as doenças ou as plantas daninhas prejudiquem a plantação. É crescente o número de pesquisas que comprovam a quantidade de substâncias tóxicas presentes nestas anti-pragas, conhecidas como pesticidas, herbicidas e fungicidas, e o quão prejudicial são à saúde. Esta proporção assusta os brasileiros, que estão em destaque no ranking mundial como o país mais consumidor destes químicos, impregnados em grande parte dos produtos no supermercado.

A aplicação de produtos agrotóxicos nos alimentos, se fossem rigorosamente cuidadosas e utilizadas corretamente, não fariam tão mal para a saúde do consumidor, como afirmam seus defensores. Muitos são regulamentados por leis específicas para uso, mas o grande quesito é que a maioria não mais utiliza desta maneira apropriada. O interesse de produzir em grandes quantidades e com isso aumentar o lucro vai muito além da preocupação que se deveria ter com o bem-estar do cidadão e com o trabalhador, que fica diretamente em contato com essas substancias altamente tóxicas. Acidentes com agrotóxicos podem causar graves problemas ambientais e de saúde por todo o mundo durante o processo de plantio.

A Anvisa, pensando na segurança do consumidor, criou o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, que visa assegurar que a quantidade de agrotóxicos utilizado nos alimentos esteja de acordo com o limite máximo de resíduo. E a forma mais precisa e que garante a diminuição de ingeri-los, é optar por consumir alimentos orgânicos, isentos de insumos artificiais e produzidos em solo trabalhado, assim como fazem os muitos adeptos das feiras e estabelecimentos que proporcionam os alimentos orgânicos em Porto Alegre.

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