Os ruídos da cidade

O tráfego urbano é um dos maiores responsáveis por danos à saúde - Crédito: Agência Brasil
O tráfego urbano é um dos maiores responsáveis por danos à saúde – Crédito: Agência Brasil
Durante a 32º Semana do Meio Ambiente, que ocorreu em paralelo ao Dia Mundial do Meio Ambiente, no dia 5 de junho, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Porto Alegre (SMAM) quis aguçar os sentidos de quem já está acostumado ao mal dos ruídos urbanos. Em palestra, a engenheira Nara Ione Medina Schimitt contou sobre os efeitos nocivos dos sons da rua, como isso pode afetar a saúde e quais são os lugares mais caóticos na capital.

Por Mariana Pacchioni
Jornalismo Ambiental / Noite

Pensar em poluição sonora urbana nos dias atuais é um clichê: metrópoles abarrotadas de carros, obras, ônibus, aviões, tráfego, a música da revolução das máquinas. Nos passa despercebido, porém, o efeito nocivo que o barulho das cidades nos traz. Dentre as diversas atividades propostas para conscientização da população acerca de temas sobre o meio ambiente, no auditório da SMAM no último dia 8 de junho, ocorreu uma palestra intitulada “Emissões Sonoras”, com o objetivo de mostrar à população os resultados de um estudo sobre as emissões sonoras no ambiente urbano, gerado pelo tráfego veicular em vias e parques de diferentes regiões da cidade.

Embora não haja registro de reclamações frequentes sobre os ruídos de trânsito, estudos  apontam que um dos maiores responsáveis pela poluição sonora nas cidades brasileiras é o tráfego de veículos, podendo gerar, além da degradação ambiental, diversos danos à saúde humana. Neste sentido, em 2015, foi lançada campanha intitulada “Ruído de trânsito, um vilão que ninguém presta atenção” no Dia Internacional de Conscientização sobre Ruído – INAD

Doenças vão além da perda auditiva

A poluição sonora não causa apenas a perda gradativa de audição. Alterações de sono, irritação e perda de desempenho cognitivo podem desencadear cefaléia, doenças cardiovasculares e até depressão. Nara comenta:

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta sobre os impactos negativos do ruído na saúde e bem-estar do homem. Quando ultrapassa os 55 decibéis já existem registros de efeitos fisiológicos e psicológicos.”

No levantamento da SMAM, diversas regiões de Porto Alegre registraram níveis acima dos aceitáveis para emissões sonoras.  Foram realizadas medições de níveis de pressão sonora em ambientes externos: 720 pontos localizados nas principais perimetrais, avenidas e ruas da cidade. Os parques Farroupilha e Moinhos de Vento também entraram na conta.

Para o preciso recolhimentos dos dados, foram usados medidores de sons preparados para operar com a ponderação da curva “A”, em tempo de resposta lenta. Os níveis de pressão sonora equivalente foram obtidos durante 15 minutos, pela manhã e pela tarde – nos horários compreendidos entre 10h e 12h e 16h e 18h, respectivamente – em dias de semana, com tempo bom, céu claro, umidade e pressão atmosférica estabilizadas e ventos de baixa intensidade.

Posteriormente, estes dados foram sistematizados e analisados mediante visualização de sua localização e classificação de níveis de pressão sonora em mapa digital da cidade.

Palestra sobre ruido ambiental apresenta mapa de emissões de Porto Alegre - Crédito: Sérgio Louruz / Divulgação PMPA
Palestra sobre ruído ambiental apresenta mapa de emissões de Porto Alegre – Crédito: Sérgio Louruz / Divulgação PMPA

Dentre as áreas analisadas, o centro da capital – e principalmente o entorno da rodoviária – é a mais crítica. Nara explica que existe um impacto negativo do tráfego de veículos das principais vias que circundam esta área, afetando diretamente a qualidade acústica local e que medidas precisam ser tomadas para redução:

“Para minimizar este problema é fundamental implementar, manter e melhorar os espaços de recolhimento e de diminuição do “stress acústico” – como as áreas internas das áreas verdes –  delimitando as zonas de refúgio para os frequentadores dos locais públicos, melhorando o conforto acústico dos prédios, substituindo os pavimentos das vias, promovendo campanhas e a conscientização da população porto alegrense em relação ao ruído veicular.”

Atenção com o lazer na cidade

Nem os parques mais populares da cidade ficam fora da zona de atenção, como aponta a engenheira:

“O Parque Farroupilha e Moinhos de Vento estão no limite. Apenas no interior dos parques é que os níveis de pressão sonora estão conservados. O aceitável para um ambiente de lazer como esses é até 65 decibéis, e eles já estão com 63.”

Além do centro da cidade, as vias de acesso pela zona norte e a região central da cidade – bairros Centro, Bom Fim e Independência – são os mais atingidos, com resultados de medições de 75 a 80 decibéis. O terminal Rui Barbosa , o Viaduto da Conceição e a área da rodoviária, onde há maior predominância de níveis elevados (próximos a 80 decibéis), além dos viadutos das avenidas perimetrais, não sendo recomendada a permanência por longo tempo nestes locais.

A maioria dos pontos avaliados apresentou níveis acima do aceitável pela norma da ABNT NBR 10151 – Avaliação do ruído em áreas habitadas, visando o conforto da comunidade e das recomendações da OMS – nos horários de pico de movimentação de veículos.

Apesar do perigoso índice sonoro registrado por veículos, a maioria das reclamações sobre poluição sonora referem-se à atividades fixas, como explica Nara:

“A maioria das reclamações sobre poluição sonora referem-se às atividades como entretenimento noturno, comércio, bares, oficinas, indústrias, etc. Em áreas de intenso movimento comercial, é comum reclamações de moradores sobre bares que ficam abertos até tarde e música alta em clubes noturnos.”

Porto Alegre, RS - 07/06/2016 Nara Ione Medina Schimitt apresenta dados colhidos em 10 anos - Crédito: Sérgio Louruz / Divulgação PMPA
Nara Ione Medina Schimitt apresenta dados colhidos em 10 anos – Crédito: Sérgio Louruz / Divulgação PMPA

Algumas intervenções podem ajudar a tornar os ruídos menos desconfortáveis, como alargamento da via, substituição de paralelepípedo por asfalto e construção de barreiras para que a onda sonora não se alastre.

Modelo viário da capital

A cidade de Porto Alegre segue um modelo viário radiocêntrico com o desenvolvimento urbano ao longo das vias radiais estruturadoras na forma de leque.

As vias que constituem a estrutura são a Primeira Perimetral, que contorna o centro da cidade e de tráfego intenso, formada pelas  Avenidas Loureiro da Silva, Pres. Goulart, Mauá e as Ruas da Conceição e Paulo da Gama; A Segunda Perimetral, que liga o Bairro Praia de Belas ao Bairro Floresta: Ruas José de Alencar e da Azenha, Avenidas Princesa Isabel e Silva Só, Rua Mariante, Avenida Goethe, Ruas Dr.Timóteo e Félix da Cunha e a a Terceira Perimetral, ligando as zonas norte/nordeste e sul, acesso às principais áreas-pólo do município. O traçado – cerca de 12km –  de avenidas e ruas ampliadas e melhoradas, inicia no Aeroporto Salgado Filho passando pela Rua Dona Teodora até a Avenida Nonoai.

As informações foram monitorados pela SMAM entre 2005 e 2014. Em 2013, o órgão estendeu as medições aos principais parques e pontos da cidade. A ação contribui para qualificar o planejamento urbano, além de ações que incentivem a diminuição da poluição sonora.

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