Poluição nossa de cada dia

A frota de carros de passeio não para de aumentar - Crédito: Eduardo Pedroso
A frota de carros de passeio não para de aumentar – Crédito: Eduardo Pedroso

Como a poluição causada principalmente por fábricas e carros intervém na qualidade de vida das pessoas.

Por Eduardo Pedroso
Jornalismo Ambiental / Noite

O ar que respiramos é indispensável para a vida na terra, entretanto, nem todos parecem estar cientes sobre a sua importância. Desde a revolução industrial o ar vem sendo modificado em prol do lucro e progresso, aumentando a concentração de substâncias químicas prejudiciais à saúde. Apesar de invisível, o problema é visto por todos que sentem os impactos dos poluentes através de fenômenos naturais e principalmente pelo aumento de doenças relacionadas à poluição.

Na atmosfera, em qualquer ar por mais limpo que seja, já existe o material particulado. São partículas de diversos tamanhos: se muito grandes caem logo no solo pela gravidade, se menores flutuam no ar e podem ser inalados pelos seres vivos. No homem essas partículas quando muito pequenas podem chegar aos pulmões onde se alojam  podendo provocar mal estar, dor de cabeça, enjoo, problemas oftálmicos, gastrointestinais e cardiovasculares, doenças dermatológicas, pulmonares e infecciosas, alguns tipos de câncer e também afetar o sistema nervoso.

Se no passado o importante era a industrialização, hoje os debates são sobre a preservação, ou seja, maneiras de reverter os danos ou no mínimo estabilizá-los. Mas afinal, quanto vale um ar de qualidade? Para o Rio Grande do Sul custa cerca de R$ 360 milhões por ano aos cofres públicos apenas contabilizando os tratamentos de doenças causadas pela poluição.

A última pesquisa da Organização Mundial da Saúde feita em 2012 aponta que a poluição atmosférica levou 7 milhões de pessoas a óbito por problemas cardiovasculares e respiratórios. Outros problemas podem ser desencadeados a curto prazo, entre eles a irritação das mucosas, da garganta e bronquite. Apesar de não serem alvo do estudo, merecem destaque por causarem desconforto.

Bombinha para respirar

É o caso de André Luiz Tartaro, estudante de Passo Fundo que apesar de estar há pouco mais de um ano na capital já sente os efeitos do ar carregado da cidade. André sofre de bronquite asmática e faz uso continuo do famoso aerolin (bombinha), mas lembra com medo os momentos de terror que passou ao ser hospitalizado no hospital São Vicente de Paula por não conseguir respirar em função de uma crise de brônquio espasmo, bloqueando os canais (chamados de brônquios) que conduzem o oxigênio até o pulmão causando a sensação de estar “travado”, situação revertida apenas por um tratamento de duas semanas com medicamentos intravenosos.

Mesmo sendo aconselhado por seu pneumologista a morar em outro lugar pela qualidade do ar, o estudante se vê de mãos atadas por já estar cursando engenharia civil: ” Não sei até onde poderia atrasar a minha vida se eu parasse agora”.

Mas o que Porto Alegre tem feito por habitantes como André? Nos últimos anos a prefeitura tem implantado programas com a promessa de amenizar essa triste realidade, entre os projetos estava a instalação das estações de monitoramento do ar.

Em 2001, entrou  em funcionamento esses equipamentos que deveriam analisar material particulado, o que seria uma boa alternativa para possíveis providencias e mudanças, se não fosse pelo fato da maioria delas não estarem operacionais desde 2010 por falta de manutenção.

O equipamento foi adquirido por meio do Fundo Municipal Pró-Defesa do Meio Ambiente e é originário da Suécia. Quem teria o dever de controlar a poluição do ar nas regiões mais poluídas do estado é a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) e a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMAM), que ainda mantem duas de suas estações ativas.

O responsável pelo setor na Fepam, Márcio Davila Vargas, respondeu abertamente quando questionado sobre a situação das estações:”Já estaríamos contentes se recebêssemos o nosso salário. Segundo, não vejo soluções a curto prazo por falta de verba, porque eu não acredito que o estado teria os 4 ou 5 milhões para a manutenção das 3 estações.”

E relata o que está sendo feito: “Estamos pondo como condicional nas licenças de  grandes empresas como GM, Gerdau, Tractebel e CMPC – Celulose Riograndense que elas tenham uma estação de monitoramento da qualidade do ar e que nos mandem os seus relatórios, tudo fiscalizado pela própria Fepam”.

O relatório fornecido pelo site da Fepam - Crédito: FEPAM
O relatório fornecido pelo site da Fepam – Crédito: FEPAM

No licenciamento são avaliados impactos causados pelo empreendimento, tal como sua capacidade de gerar líquidos poluentes (despejos e efluentes), resíduos sólidos, emissões atmosféricas e até mesmo ruídos. É importante lembrar que há muitas variantes entre os valores e as exigências cobradas para cada tipo de material trabalhado, empresas como a CMPM e Gerdau por exemplo, que tem o mais auto potencial poluidor, com taxas e parcelas maiores de contribuição. Isso porque o processo para produção de papel e celulose é iniciado fora das indústrias, mais especificamente com o desenvolvimento das operações agrícolas que garantirão o acesso da indústria à matéria-prima.

A produção necessita de extensas áreas de florestas homogêneas(eucalipto e pinus), ou seja, áreas submetidas a uma exploração típica de monocultura onde anteriormente havia uma formação vegetal nativa.

Aos veículos, que são parte do problema pela sua emissão de CO2, são feitas vistorias. Existem três tipos de fiscalização em Porto Alegre: a obrigatória feita em veículos que transportam passageirose a voluntária solicitada por motoristas de quaisquer veículos. Caso o veículo não esteja de acordo com os padrões da Conama, fica sem a permissão de transportar passageiros até a regularização e são autuados por infração, o que não é feito quando o responsável do automóvel se dispõem a vistoria voluntaria.

E por ultimo a operação ar puro. O objetivo seria medir a emissão dos gases, submetendo ao teste de emissão de poluentes (opacímetro) dos que utilizam o Diesel como combustível. Assim como fiscalizar também outros itens, como equipamentos obrigatórios, documentação dos veículos e condutores.

A operação ocorre geralmente às segundas-feiras à tarde e às quartas-feiras pela manhã, em locais estratégicos, definidos pela Gerência de Fiscalização da EPTC. Pelo menos essa é a informação prestada no site da instituição. Entretanto, lá só constam dados até o mês de setembro de 2013.  O que pode significar que estamos sem uma das principais fiscalizações da cidade por pelo menos dois anos.

E o que fazer com esses dados? A princípio, fazer bem feito o que está deixando a desejar, que é a fiscalização. Fazendo com que as fábricas e veículos poluidores pelo menos poluam dentro do que diz a lei. E a longo prazo repensar sobre soluções há muito tempo conhecidas, mas que por falta de objetividade política ficaram esquecidas.

A  liberação de carros de passeio movidos a diesel no Brasil

A proibição está desde a década de 70 (portaria MIC nº. 346, de 19 de novembro de 1976), somos o único país do mundo a proibir a comercialização de veículos de passageiros a diesel. Enquanto isso, na Argentina, 40% da frota é movida a diesel, e na Europa, mais de 50% dos veículos de passeio utilizam este óleo combustível, afinal, o diesel é mais barato que a gasolina e seus motores chegam a ser até 30% mais econômicos que os motores a gasolina.

Medida que além de complexa pode vir a ser demorada, já que precisa de um alto nível de entendimento e comprometimento das autoridades para que se possa modificar inclusive na linha de montagem de todos esses veículos, lembrando que todo esse processo deve ser feito e cobrado através de uma legislação mais eficiente. Os atuais padrões de emissões de combustíveis no nosso país não são rigorosos o suficiente. Isso porque o país não obriga o uso de um dispositivo chamado de filtro de partículas de diesel (DPF, na sigla em inglês).

Esse equipamento é responsável por diminuir a quantidade de material particulado que os motores a diesel emitem. O limite de emissão de material particulado no Brasil é de 0,025 g/km, implementado na União Europeia uma década atrás, e cinco vezes superior ao limite atual, que é de 0,005 g/kmm, ou seja, sem uma reforma na legislação, as montadoras poderiam vender no Brasil carros tão poluentes quanto os que foram banidos do mercado europeu há dez anos.

Atualmente estudos do Conselho Internacional  de Transporte Limpo (ICCT) apontam que, seguindo os atuais limites de emissões brasileiras e sem o uso do DPF, os carros de passeio movidos a diesel emitiriam quase 30 vezes mais material particulado por quilômetro do que um veículo com motor a gasolina.

Gráfico feito pelo Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT) - Crédito: ICCT
Gráfico feito pelo Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT) – Crédito: ICCT

 

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