Uma natureza escondida no extremo sul da capital

Entrada da trilha ecológica da Reserva Bilógica do Lami José Lutzenberger no extremo sul de Porto Alegre - Crédito: Carolina Ferreira
Entrada da trilha ecológica da Reserva Bilógica do Lami José Lutzenberger no extremo sul de Porto Alegre – Crédito: Carolina Ferreira
A reportagem do blog de jornalismo ambiental foi até a Reserva Biológica do Lami José Lutzenberger para conhecer a área que ajuda a conservar diversas espécies da flora e da fauna gaúcha.

Por Carolina Ferreira
Jornalismo Ambiental / Manhã

Quem visita pela primeira vez o bairro Lami, na zona sul de Porto Alegre, sequer consegue acreditar que o bairro realmente está situado na capital. Pouco movimento de carros, as ruas pacatas, o ar puro da zona rural, o cheiro de mato e o silêncio, que volta e meia é quebrado pelo canto dos pássaros, enganam facilmente quem está acostumado com a vida na cidade grande.

No bairro, localizado a pouco mais de 30 quilômetros do centro da cidade, encontra-se a Reserva Biológica do Lami José Lutzenberger. Em seus 204,04 hectares, a Unidade de Conservação guarda uma biodiversidade e ecossistemas únicos na cidade, com matas ciliares, banhados, juncais e matas de restinga, que contribuem para a diversidade de espécies da flora e fauna silvestre.

Fundada em 1975, a Reserva Biológica do Lami é imprescindível para a sobrevivência de inúmeras espécies na região. É o caso da Ephedra, um vegetal da família das Gimnospermas da época dos dinossauros, característico das matas de restinga, um dos ecossistemas mais ameaçados no Rio Grande do Sul. A motivação inicial da criação da reserva foi justamente preservar a Ephedra e muitas outras espécies de vegetais e animais encontradas no local.

A bióloga Patrícia Witt é a gestora da unidade de conservação e recepciona pesquisas de instituição de ensino e outras instituições voltadas a pesquisa, sendo todas de grande importância para o aperfeiçoamento dos processos de Gestão do Espaço Territorial Especialmente Protegido.

De acordo com Patrícia, a reserva do Lami foi a primeira reserva biológica administrada por um órgão ambiental municipal no Brasil. E é também a única reserva que possui um livro dos estudos científicos feitos desde a sua criação, há 41 anos.

Livro compilado de todas as espécies da fauna e da flora que já foram estudadas pela reserva biológica do Lami – Crédito: Carolina Ferreira
Livro compilado de todas as espécies da fauna e da flora que já foram estudadas pela reserva biológica do Lami – Crédito: Carolina Ferreira

‘’O livro é um compilado de espécies da fauna e da flora que já foram estudadas pela reserva biológica do Lami’’, informa a bióloga. Ela conta também que por meio de estudos científicos foram identificados na reserva mais de 300 espécies de vegetais e 400 de animais. E tudo isto está presente no livro, que foi publicado em 2013.

No ano seguinte, em 2014, foi publicada também uma Cartilha Ilustrada de Educação Ambiental, na qual Patrícia foi autora de todos os textos com auxílio das ilustrações da arquiteta Ângela Ponsi.

O principal propósito das publicações, assim como também é o principal objetivo da reserva biológica, é ensinar sobre importantes aspectos do meio ambiente, além de despertar a consciência ecológica das pessoas.

A estudante de Gestão Ambiental e moradora do entorno da reserva Jéssica Machado, de 23 anos, julga que o benefício mais importante de morar tão próximo à reserva é a oportunidade de obter a conscientização ambiental que é possível absorver e usufruir devido à essa proximidade.

‘’É indiscutivelmente importante, principalmente pela questão da preservação da biodiversidade mantida dentro dela e um pedacinho da flora e fauna incrível que vem sendo protegido da ação antrópica (humana) ’’, constata Jéssica Machado.

A fauna e a flora

O patrimônio proporciona uma herança de vida ecológica e é um banco genético que deve ser visto como método para a geração atual e também para as futuras gerações.

Na área da reserva, mais de 100 espécies de aves nativas já foram encontradas, até mesmo, aves migratórias. Nas elevações arenosas é possível encontrar ovos de tartaruga e lagartos. No arroio, é há capivaras (que são consideradas o maior roedor do planeta) nadando, pastando nos campos ou escondidas nas matas.

Em áreas próximas aos banhados ou ao Guaíba, conhecidas como Matas de Restinga, são facilmente encontradas duas espécies de cágados, o Cágado-de-barbelas-cinzento e o Cágado tigre d’água, normalmente muito tranquilos, alimentando-se de pequenos insetos, moluscos e peixes. Os bugios-ruivos também são muito encontrados na região da reserva no Lami, apesar de estarem ameaçados de extinção em razão do desmatamento das florestas onde vivem.

Já na flora, logo na entrada da reserva se encontra a timbaúva, uma árvore nativa e típica da flora brasileira que pode medir de 20 a 35 metros de altura e de 80 a 160 centímetros de diâmetros de tronco. A timbaúva é conhecida também como ‘’orelha de macaco’’, devido ao seu fruto que possui o formato recurvado e a cor preta, que faz lembrar uma orelha de macaco.

Assim como a timbaúva, todas as plantas dentro da reserva possuem identificação - Crédito: Carolina Ferreira
Assim como a timbaúva, todas as plantas dentro da reserva possuem identificação – Crédito: Carolina Ferreira

Espécies também como a figueira são comuns na reserva e na região de entorno. É uma árvore nativa, grandiosa, com troncos grossos e frutos que servem de alimento para pássaros e bugios. Além disso, ela é protegida por lei. Nos galhos da figueira, vivem outras plantas menores como bromélias e orquídeas, que não causam nenhum mal à figueira.

A bióloga Patrícia Witt, gestora da reserva, conta que no início de sua gestão, em 2005, teve inúmeros problemas com a caça e a pesca, já que o Guaíba está junto da Unidade de Preservação. Mas hoje, ela declara que possui grande êxito no cumprimento dos objetivos de preservação da reserva devido a todo o trabalho de educação ambiental realizado junto à comunidade do Lami pelo Centro de Educação Ambiental Augusto Carneiro.

Centro de Educação Ambiental Augusto Carneiro, localizado na Reserva Biológica do Lami José Lutzenberger  - Crédito: Carolina Ferreira
Centro de Educação Ambiental Augusto Carneiro, localizado na Reserva Biológica do Lami José Lutzenberger  – Crédito: Carolina Ferreira

O nome do centro de educação é uma homenagem ao ambientalista que ao lado de José Lutzenberger (que dá o nome à Reserva Biológica do Lami) fundou a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, uma das primeiras entidades do movimento ecológico brasileiro.

De acordo com a bióloga, a vegetação do bairro Lami é uma área de preservação permanente e por isso é protegida por leis federais. ‘’A mata ciliar é um eficiente corredor ecológico entre a reserva e os demais remanescentes que fazem parte do entorno da reserva, é por ali que ocorre todo o movimento dos animais. Por isso é tão importante a preservação deste local’’, explica Patrícia.

Sala de entrada do Centro de Educação Ambiental - Crédito: Carolina Ferreira
Sala de entrada do Centro de Educação Ambiental – Crédito: Carolina Ferreira

A psicopedagoga e servidora pública Silvia Rosana Fornazari, de 46 anos, mora no Lami desde sua infância. Para ela, é um privilégio possuir uma reserva biológica tão perto de sua residência e relatou que sempre que tem alguma dúvida a respeito do meio ambiente ou sobre a fauna e flora do Lami, entra em contato com a reserva biológica e recebe informações de como proceder.

Exposição de animais empalhados, todos mortos por causas naturais - Crédito: Carolina Ferreira
Exposição de animais empalhados, todos mortos por causas naturais – Crédito: Carolina Ferreira

 

‘’Foi através de uma planta endêmica ameaçada de extinção que a reserva foi criada e é mantida em preservação durante todos esses anos. Agora precisamos seguir preservando nosso ecossistema’’, defende a moradora da região. Silvia enfatizou também a importância de manter a preservação dos juncos, que abrigam toda a orla do guaíba: ‘’Eles servem de habitat para muitas espécies de animais e também é nossa proteção em caso de cheias’’.

No mês de dezembro, com a chegada do verão, é normal que os moradores e frequentadores da praia do Lami cortem os juncos, porque consideram que dificulta o acesso ao Guaíba. Mas os juncais (assim como os banhados) servem como berçários para muitos organismos aquáticos, como peixes, anfíbios e moluscos.

Os juncos são fundamentais para a reprodução destas espécies e atuam como filtros naturais de poluição e impurezas da água, do solo e do ar, evitando erosões e inundações. Além disto, quaisquer danos provocados ao ecossistema de áreas de reserva biológica são considerados crimes e são passíveis de multa e prisão, de acordo com a legislação.

As reservas biológicas no Brasil só podem ser utilizadas para fins de pesquisas científicas e educação ambiental. E na reserva do Lami não é diferente. Ela não é aberta para a visitação pública, somente para atividades com propósitos educacionais. As visitas em grupos, agendadas previamente, podem realizar a trilha ecológica, que é uma área destinada às práticas de educação ambiental.

O bairro Lami preserva uma biodiversidade e ecossistemas únicos na capital  -Crédito: Carolina Ferreira
O bairro Lami preserva uma biodiversidade e ecossistemas únicos na capital  -Crédito: Carolina Ferreira

 

Sair da reserva e voltar para o movimento da cidade grande é uma tarefa árdua. Abandonar o clima de zona rural e trocar o som do canto dos pássaros pelo barulho de buzinas e motores é quase como trocar um sonho pela realidade. Mas o melhor de tudo é saber que do outro lado da capital, lá quase no finalzinho da cidade, tem uma natureza extraordinária sendo preservada. E o que fica é a vontade de voltar outro dia.

Quem foi José Lutzenberger

O nome da Reserva Biológica do Lami é em homenagem ao agrônomo, escritor, filósofo, paisagista e ambientalista brasileiro José Lutzenberger - Crédito: Carolina Ferreira
O nome da Reserva Biológica do Lami é em homenagem ao agrônomo, escritor, filósofo, paisagista e ambientalista brasileiro José Lutzenberger – Crédito: Carolina Ferreira

Nascido em Porto Alegre, José A. Lutzenberger formou-se engenheiro agrônomo pela UFRGS em 1950 e fez pós-graduação em ciência do solo na Lousiana State University em 1951. Em 1957 foi para a Alemanha trabalhar na BASF, empresa multinacional em química agrícola. Em dezembro de 1970 pediu demissão porque sua visão ecológica não condizia com as práticas da agro-química e voltou a sua terra natal.

Lutzenberger preocupava-se com energias limpas, renováveis e tecnologias brandas ou suaves que são as tecnologias ecologicamente sustentáveis e socialmente desejáveis. Ajudou a fundar um movimento ambiental militante, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), conhecida no mundo inteiro. Fundou ainda, em 1979, a empresa “VIDA produtos e serviços em desenvolvimento ecológico” que faz consultorias e empreitadas em engenharia sanitária e reciclagem de resíduos industriais, jardins e paisagismo.

Fonte: Fundação Gaia

 

 

 

 

 

Uma ideia sobre “Uma natureza escondida no extremo sul da capital”

  1. Interessante matéria .Gostaria de sugerir para quem tem interesse , de fazer um trabalho de concientizacao com os moradores do Lami para que nosso Arroio Manecao possa sobreviver novamente. Ele deságua no Guaiba e em breve toda a praia vai estar poluída inclusive na Reserva.

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