Fast fashion x slow fashion

Campanha do movimento Fashion Revolution Brasil
Campanha do movimento Fashion Revolution Brasil
A problematização dos processos da cadeia produtiva está despertando para um consumo mais consciente.

Por Caroline Correa Nunes
Jornalismo Ambiental / Manhã

O fast fashion é um padrão de negócio cada vez mais utilizado pelo mercado mundial da moda. Este conceito é designado às marcas que produzem em larga escala, lançando diversas novidades ao longo do ano. Ao contrário do modelo tradicional, onde eram apresentadas apenas duas coleções – outono-inverno e primavera-verão -, o fast fashion investe em minicoleções – ao longo das estações – criadas e produzidas rapidamente, com base nas tendências e desejos dos consumidores.

Enquanto este modelo de produção garante uma gama maior de variedades e oferece preços finais mais baixos, pagamos um preço alto quando se trata de questões sociais e ambientais ligadas aos processos de produção da indústria têxtil.

Os negócios de moda movimentam bilhões de dólares em todo o mundo, segundo a Associação Brasileira de Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o faturamento da cadeia têxtil e de confecção somou US$ 53,6 bilhões em 2014, a produção chegou a 6 bilhões de peças (entre vestuário, cama, mesa e banho), sendo a Ásia o responsável por 73% da produção mundial – o Brasil encontra-se em quarto lugar no ranking.

As grandes empresas do ramo estão lucrando milhões ao venderem peças baratas enquanto os consumidores estão felizes com o poder de compra em suas mãos.

As produções artesanais de peças começaram a perder mercado no início dos anos 90 com a globalização de marcas estrangeiras – que ofereciam roupas conectadas às tendências mundiais. A procura por estes produtos cresceu de forma rápida, inviabilizando o seu processo de criação que durava meses.

A indústria precisou repensar seu modo de produção para atender tamanha demanda e o tempo reduzido. O nascimento do fast fashion abalou a qualidade e a ética do mercado de moda, com a contratação de mão de obra barata em países subdesenvolvidos e o uso de materiais com qualidade inferior, minimizando o seu clico de vida.

Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção (ABIT), estima-se que o Brasil produza 175 mil toneladas de resíduos têxteis por ano – apenas no processo de confecção, o último da cadeia têxtil.

Estes materiais, quase na sua totalidade, são descartados de maneira despreocupada, sem um destino ideal para reaproveitamento. No Brasil, somente 4% do material descartado é reciclado, sendo 60% enviado a aterros sanitários.

O Programa da Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) avalia que a massa de resíduos urbanos deve crescer 1,3 bilhão de toneladas para 2,2 bilhão de toneladas até 2025, em todo o mundo.

foto 2 Fonte httpwww.abit.org.brconteudoinformativosrelatorio_atividades2014abit_digital-final.pdf

Caminhando no sentido oposto à produção em massa e ao consumo exagerado estimulado por grandes redes varejistas, o movimento slow fashion – um segmento do estilo slow moviment – busca consciência e equilíbrio nas formas de produção e consumo, respeitando todos os aspectos que constituem a cadeia produtiva e que compõe a atmosfera ao seu redor.

Idealizado pela professora inglesa de design sustentável Kate Fletcher do Centre for Sustainable Fashion, baseado no conceito slow food, o conceito slow ligado à moda também busca a conscientização do consumo e a valorização de produtores locais.

Até pouco tempo, este novo conceito era visto como um produto caro, inacessível, feito de forma caricata especialmente para um público seleto, distante da maior parte do público consumidor. Mas, nos últimos anos, o slow fashion vem mostrando que a sustentabilidade está ao alcance de todos e pode sim estar associado a tendências e designs diferenciados.

Evelise Biviatello, criadora do movimento Trocaria, acredita que o consumo consciente da moda esteja tangível, mas falta informação para a maior parte da população. “Para que a gente consuma de maneira mais sustentável, é preciso haver conscientização sobre a problemática, por que até então os impactos dos fast fashion não são tão difundidos entre a grande massa”, afirma Evelise.

Campanha do movimento Trocaria
Campanha do movimento Trocaria

Quem faz?

A disseminação do movimento slow modificou a forma de produção de algumas empresas, impulsionou o surgimento de diversas novas marcas e propiciou na formação de coletivos dispostos a discutir esta nova forma de pensar a moda.

Fashion revolution

O Fashion Revolution Brasil  faz parte de um movimento internacional que busca aumentar a conscientização sobre o verdadeiro custo da moda e seus impactos. A campanha envolve estilistas, celebridades, lojas, marcas, produtores, operários, ativistas – e qualquer pessoa que tenha interesse em saber o que esta por trás da produção do que veste – e tem o dia 24 de abril como o Fashion Revolution Day, onde todos se reúnem para amplificar as suas preocupações com a moda e apresentar soluções capazes de serem realizadas. Na página do facebook, todos são convidados a participarem da campanha, vestir uma roupa do lado avesso, fotografar e publicar com a hashtag #whomademyclothes (quem fez minhas roupas?).

Trocaria

Outro projeto que trabalha com ideias sustentáveis é o Trocaria. A digital Marketer Evelise Biviatello, cofundadora do movimento ao lado da designer Maitê Hotoshi, afirma que a ideia proposta por elas é promover a conscientização acerca do desperdício e incentivar o uso prolongado das roupas, seja por meio de trocas, doações ou reciclagem, e mostrar que é possível reduzir o impacto causado por nosso consumo de maneira divertida, consciente e com estilo.

“Pequenas ações como: trocar ou consertar ao invés de comprar algo novo, doar ao invés de descartar, ou fazer as roupas durarem são ações acessíveis e já fazem uma grande diferença no final das contas”, afirma Evelise.

Insecta Shoes

A marca de sapatos ecológicos e veganos Insecta Shoes nasceu em Porto Alegre como resultado da parceria entre Pam Magpali e Babi Mattivy e, posteriormente, Laura Madalosso. As peças são resultado da transformação de roupas vintage e garrafas PET, utilização de tinta a base d’água – para não poluir o meio ambiente – e nenhum uso de matéria-prima animal. Segundo o site da marca, até o final de 2014 (durante um ano de existência da empresa), a Insecta reaproveitou 500 peças de roupas e 150 kg de tecidos.

Ominimo

A Ominimo propõe uma nova fórmula para consumir moda. Tem como proposta não oferecer coleções, mas novas peças que se transformam em diversos modelos diferentes. Com uma produção pequena e local, a marca está atuando deste março de 2016, coordenada pelo designer gaúcho Rafael Körbs.

Peça Ominimo pode ser usada de diferentes formas
Peça Ominimo pode ser usada de diferentes formas

O consumo consciente idealizado pelo movimento slow fashion nasceu para frear o ritmo descompassado das grandes redes varejistas. Propondo a adoção de um número reduzido de peças no guarda-roupa, mas com uma qualidade superior e designs que combinem com artigos que já possuímos, para que durem mais tempo, evitando descartes excessivos e desnecessários que compactuem com um colapso ambiental.

Mais do que um conceito de moda, o slow é um estilo de vida, que instiga conhecermos a fundo aquilo que vestimos, compreendendo o impacto das nossas escolhas.

PARA SABER MAIS
O documentário lançado em 2015 The True Cost (O Verdadeiro Custo) analisa todas as escalas da cadeia fashion. Andrew Morgan, diretor do longa, aborda como o consumo desenfreado no mercado da moda impacta na vida das pessoas e do planeta. Morgan busca a reflexão sobre o verdadeiro custo das peças que compramos a preços irrisórios comparando com as condições de vida dos trabalhadores explorados em países de baixa renda e o impacto ambiental desenfreado causado por essas indústrias.

foto 5Fonte divulgação -

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