Moradores de Guaíba convivem com o custo ambiental do progresso

Moradores do entorno da CMPC Celulose Riograndense reclamam do impacto ambiental da fábrica quadruplicada - Crédito: Isabelle Silva
Moradores do entorno da CMPC Celulose Riograndense reclamam do impacto ambiental da fábrica quadruplicada – Crédito: Isabelle Silva
Após quadruplicação da fábrica CMPC Celulose Riograndense, moradores e ambientalistas se veem preocupados com o futuro de Guaíba.

Por Isabelle Silva
Jornalismo Ambiental / Manhã

No ano de 2013, a cidade de Guaíba teve uma grande surpresa: a fábrica Celulose Riograndense aumentaria de tamanho. Um conjunto de iniciativas desenvolvidas com diferentes colaboradores locais, estaduais e federais trouxe para a cidade um grande salto no aspecto tecnologia e desenvolvimento.

A fábrica ofereceu um número significativo de empregos e projetos sociais. Porém, após a criação da segunda fábrica, aumentando a produção de celulose branqueada de eucalipto de 450 mil toneladas para 1,75 milhão de toneladas anuais, cresceu também a preocupação entre os moradores das redondezas.

“Como uma empresa desse porte, que é uma das maiores do mundo, se estabeleceu em uma cidade desse tamanho?  Não existe outro lugar no mundo com exceção de Guaíba que permita um empreendimento deste porte, pois é impossível lidar com uma empresa desse tamanho sem poluir o município”, comenta um químico que trabalha no município e prefere não se identificar com medo de represálias.

Desde que foi quadruplicada, um dos problemas mais complicados que a fábrica gerou na região foi a emissão de odor, típico do processo industrial de fabricação da celulose. A empresa informa que há monitoramento mensal e que está tudo dentro do limite exigido pelo órgão ambiental do Estado, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam).

A empresa conta com uma rede de monitoramento de odor, composta por funcionários que avaliam periodicamente as percepções externas à fábrica, de forma espontânea. Embora haja um controle rígido por parte da empresa, as emissões aéreas ainda requerem atenção especial, principalmente em relação ao material particulado.

Em busca de respostas

Moradores de Guaíba denunciaram fábrica de celulose ao Ministério Público do Rio Grande do Sul - Crédito: Isabelle Silva
Moradores de Guaíba denunciaram fábrica de celulose ao Ministério Público do Rio Grande do Sul – Crédito: Isabelle Silva

Logo após a fábrica CMPC ser quadriplicada, alguns moradores da redondeza sentiram-se incomodados com o pó da madeira despejado no ar e também com os odores. A fim de fazer algo a favor da população, algumas pessoas organizaram um abaixo assinado com cerca de 500 assinaturas para encaminhar a denúncia ao Ministério Público de Guaíba, para que fossem apurados os impactos no entorno do empreendimento.

De janeiro de 2014 a maio de 2015, foram registradas 40 ocorrências, na grande maioria relacionada a ruídos. Outra reclamação feita pela comunidade está ligada ao alto volume de tráfego de caminhões nas ruas do entorno durante as obras, que incomodava os moradores tanto de dia, quanto pela madrugada.

Após nada ser feito, alguns moradores decidiram que seria melhor se mudar das redondezas da fábrica, já que ela estava causando muito desconforto. Porém, essa informação só chegou até a CMPC através de empresas imobiliárias que, em alguns casos, chegou a elevar o custo médio dos imóveis do entorno da fábrica em até 100% do valor de mercado.

Após a confirmação que estava havendo incomodo na vizinhança, a Celulose Riograndense propôs alugar as casas que ficassem perto da fábrica, para que os moradores pudessem se mudar por um tempo determinado, até que tais problemas fossem resolvidos.

Quando voltaram, no entanto, nada havia mudado, explica a moradora Karen Souza, de 32 anos: “A empresa propôs alugar nossa casa para que pudéssemos sair dali até que a portaria fosse fechada. Moramos um ano e meio fora da nossa casa, retornamos em janeiro de 2016 e os problemas continuam, como barulho, sujeira (particulado, que é o pó da madeira) e o odor, e é muito constante”.

Assim que foi entregue o abaixo assinado, foram ouvidos moradores, através da comissão nomeada pelo Ministério Público, Fepam e a empresa. O inquérito que foi instaurado ainda está em andamento. Enquanto isto, a empresa tenta controlar, mas não está conseguindo dar conta.

Mudança no trânsito

Com as grandes mudanças que ocorreram em Guaíba desde 2013, muitas coisas precisaram ser adaptadas para que os moradores conseguissem viver suas vidas da mesma forma como viviam antes da quadruplicação. Com a fábrica localizada em um dos bairros da cidade, foi preciso que algumas estradas fossem ampliadas, o que acabou criando alguns transtornos.

O biólogo Juliano Galeão Pacheco, de 39 anos, acredita que apesar da fábrica estar ajudando a cidade no sentido do desenvolvimento econômico, muitas coisas que foram modificadas prejudicam os moradores. Um exemplo é a reformulação viária. “Moradores da zona sul de Guaíba precisam agora rodar cerca de três quilômetros a mais para poder sair do bairro, além de ser um transtorno, o consumo de combustível aumenta, emitindo mais poluição”, constata.

Fábrica tenta controlar problemas

A Celulose Riograndense está buscando investir no relacionamento com a população de Guaíba e região. Desde que houve a expansão da empresa, ficou cada vez mais claro que era preciso informar a população de algumas situações que a fábrica acabava causando. Assim, buscaram criar alguns laços com a comunidade, principalmente com as pessoas que moravam no entorno, já que eram afetados diretamente.

Além de um canal de ouvidoria específico que funciona 24 horas por dia e as reuniões mensais do Conselho Consultivo da Comunidade (onde as pautas eram elaboradas e discutidas de acordo com o impacto causado pelo andamento das obras), a Celulose Riograndense recebeu por inúmeras vezes alguns moradores que solicitavam algum posicionamento a respeito de impactos pontuais, principalmente relacionados a ruído, odor ou emissão de particulados (finos da madeira).

O analista de Comunicação e Relacionamento com a Comunidade da CMPC Celulose Riograndense, Daniel Andriotti, de 48 anos, explica quais os métodos usados para manter uma boa relação com os guaibenses: “Em função do Guaíba 2, as ocorrências externas – solicitações, reclamações e dúvidas da comunidade – cresceram consideravelmente. Para monitorar e atender de forma ágil e objetiva a essas ocorrências, foi criado um canal de ouvidoria específico, por meio de uma parceria entre a fornecedora de serviços Meta, a área de Segurança do Trabalho e as equipes de Coordenação de Construção, Coordenação de Turno e Relacionamento com a Comunidade”.

Apesar dos grandes esforços da fábrica para manter o equilíbrio entre as partes, ainda é muito evidente que existem falhas que por sua vez perturbam uma parte significativa da população, que ainda está em busca de resolver esses problemas. Enquanto a empresa procura desenvolvimento, os moradores de Guaíba buscam poder viver adequadamente, sem precisar sentir o odor ou ouvir os ruídos da indústria.

Uma ideia sobre “Moradores de Guaíba convivem com o custo ambiental do progresso”

  1. Estamos em 2017 e a empresa ainda polui o ar, com particulados e som…imginem tentar dormir com o barulho de um avião tentando decolar? É isso que passamos aqui…isso que moro a mais de 1 km da fábrica…

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