Mulheres das mãos verdes

No Sítio de Carolina, os cuidados com o plantio orgânico são redobrados já que a briga com lagartas e besouros é diária – Crédito: Arquivo Pessoal
No Sítio de Carolina, os cuidados com o plantio orgânico são redobrados já que a briga com lagartas e besouros é diária – Crédito: Arquivo Pessoal
Três mulheres transformaram seus ideais em negócio. Apostaram em suas crenças de uma relação amigável e respeitável com o planeta ao escolherem pelos produtos orgânicos e veganos. Cada uma com uma história diferente, mas com pontos em comum, as três defensoras do meio ambiente contam como iniciaram a trilhar esse caminho.

Por Débora Neto
Jornalismo Ambiental / Manhã

Após anos trabalhando com produção audiovisual, moda e publicidade, Paola Salerno encontrou seu verdadeiro amor quando decidiu transformar seu hobby em profissão. Formada em jornalismo e cinema, passou a infância frequentando a fazenda de seus avós maternos, onde ficou muito íntima da agricultura de subsistência – plantio em pequenas propriedades que utiliza métodos tradicionais de cultivo para garantir a sobrevivência do agricultor e de sua família – até sua fase adulta, quando foi se distanciando. O que ela não esperava era que, ao entrar na faculdade de gastronomia, em uma cadeira voltada para sustentabilidade, ela reencontraria suas raízes em um caminho sem volta.

Paola, ou Gringa como prefere ser chamada, é hoje uma defensora dos orgânicos e das iniciativas de zero desperdício. Especializada em Permacultura-Biodinâmica e pós-graduada em Gestão Ambiental Empresarial, voltou todos seus negócios para o cultivo e sustentabilidade. “Foi assim que o amor virou estilo de vida, que virou meu ganha pão”, conta a moça que hoje comanda três projetos na área.

Paola Salerno, 26 anos, a Gringa - Crédito: Débora Neto
Paola Salerno, 26 anos, a Gringa – Crédito: Débora Neto

O mercado de produtos orgânicos tem previsão de crescimento de até 30% em 2016, com faturamento de R$ 2,5 bilhões, segundo o Ministério da Agricultura. Apesar da maior aceitação do público a esses alimentos, ainda é muito difícil convencer uma senhora que vai à feira, de que aquele produto mais caro é o melhor para saúde dela. Para Paola, é questão de tempo até que os orgânicos cheguem ao preço comum. “Tudo se resume a uma questão mercadológica simples: quanto maior for a procura, cada vez mais será fomentado o crescimento e aparecimento de produtores orgânicos, e consequentemente os preços irão diminuir”, diz.

O valor elevado se deve aos cuidados no cultivo. Sem o uso de agrotóxicos, é necessária mão de obra qualificada e o dobro de cuidado com cada alimento. Ainda assim, a produção orgânica é mais eficaz e rentável. “Ela mantém a saúde do solo e dos biomas e assim, com uma simples rotação de culturas, mantém a produtividade das terras sem prazo de validade ou a necessidade de aragem ou queimadas”, explica Paola.

A Gringa leva hortas orgânicas até as empresas deixando os ambientes mais verdes – Divulgação
A Gringa leva hortas orgânicas até as empresas deixando os ambientes mais verdes – Divulgação

Alimentos que curam

Mas os produtos orgânicos e veganos são capazes de mais do que apenas uma dieta saudável. Algumas pessoas já conseguiram tratar questões de saúde com a mudança em sua alimentação diária. É o caso da estudante de Publicidade e Propaganda Carolina Camargo, que percebeu, depois de um longo processo, que a cura começava por sua alimentação.

“Eu tenho psoríase, vivia com azia, tinha refluxo, dor de cabeça, falta de ânimo, e foi a partir de uma consulta com uma médica ayurveda – medicina tradicional oficial da índia, uma das mais antigas da humanidade – , que eu entendi que durante anos eu vinha intoxicando o meu corpo”, conta a estudante.

Carolina Camargo, 20 anos - Crédito: Arquivo pessoal
Carolina Camargo, 20 anos – Crédito: Arquivo pessoal

Assim como Paola, Carolina também teve contato com os alimentos orgânicos na infância, no sítio da família. Mas foi somente em 2014 que ela e sua mãe resolveram se dedicar mais a esse meio, cultivando morangos, uvas e figos orgânicos para comércio. O processo todo foi feito de forma artesanal por sua mãe. Ela planejou a estufa, fez cursos de fertirrigação, costurou as bolsas de terra e plantou as mudas.

“Não utilizar agrotóxicos foi uma escolha pessoal dela, pois ia mais de acordo com os seus valores morais. É um trabalho lindo, feito com muito amor”, explica Carolina, que também tem aderido à alimentação vegana graças à sua progenitora. A estudante percebeu que suas questões médicas pioravam quando consumia laticínios, glúten e açúcares.

Donut vegano feito pela Carolina – Arquivo pessoal
Donut vegano feito pela Carolina – Arquivo pessoal

A farinha já era evitada por tabela devido à intolerância de sua mãe ao produto e aos poucos Carolina passou a não consumir alguns alimentos e se aproximar da culinária vegana, mesmo ainda não tendo aderido totalmente. “Hoje passo longe dos industrializados, laticínios, açúcar refinado e farinha de trigo branca, e foi procurando receitas sem leite de vaca que acabei gostando da alimentação sem origem animal”, explica a estudante.

Negócio vegano

Além de um estilo de vida, o mercado vegano tem inspirado adeptos a apostarem na causa para abrir um negócio. Mônica Carpes é dona da VegAmor, uma das primeiras confeitarias por encomenda de doces, salgados e lanches totalmente veganos e saudáveis em Porto Alegre e a primeira a trabalha com a matéria-prima Alfarroba – fruto substituto do chocolate.

O projeto começou no fim de 2014, após um processo espiritual e de questionamento sobre sua missão na vida. Psicóloga de formação, Mônica decidiu largar tudo e iniciar uma nova fase. “Eu já era vegetariana e fazendo diversos cursos como de ayurveda, reiki, yoga, meditação e trabalhos voluntários percebi que aquele ciclo havia se encerrado. Assim começou o meu despertar para o veganismo e um novo olhar sobre a minha relação e conexão com a natureza”, conta.

Cupcakes veganos da VegAmor - Divulgação
Cupcakes veganos da VegAmor – Divulgação

Nesse período, Mônica começou a se testar na cozinha e o retorno era sempre positivo. “As provinhas às amigas sempre vinham com muitos elogios em relação ao sabor e a surpresa de que os doces e salgados não tinham nenhum ingrediente de origem animal. Foi quando vi que havia uma carência no mercado de alimentos veganos saborosos”, relembra. A empresa, que começou com o objetivo principal de compartilhar amor e educação através dos alimentos, hoje conta com diversos colaboradores que acreditam na causa, além da idealizadora e sua mãe.

“O que move a causa é um respeito sistêmico à natureza”
Mônica Carpes, 31 anos - Crédito: Arquivo pessoal
Mônica Carpes, 31 anos – Crédito: Arquivo pessoal

O veganismo, no entanto, engloba mais do que apenas a parte alimentar. Para Mônica, o estilo de vida vegano permite uma série de benefícios, não só ao corpo, mas à alma e ao planeta. “Me visto com sintéticos, uso cosméticos orgânicos, de marcas locais e sem testagem em animais, uso minha bicicleta como meio de transporte, não uso sacolas plásticas e quando possível levo meus potes e compro produtos a granel, dispensando o uso de embalagens”, conta. Segundo a ativista, o que move a causa é um respeito sistêmico à natureza, é se vincular e compreender que todos têm direitos iguais e ninguém está no topo da pirâmide. Me sinto leve e coerente com o que falo e faço”, diz aliviada.

Os salgados de Mônica, além de veganos prezam pela saúde também, evitando gorduras e agrotóxicos – Crédito: Divulgação
Os salgados de Mônica, além de veganos prezam pela saúde também, evitando gorduras e agrotóxicos – Crédito: Divulgação

Cobaia ecológica

Na casa de Paola também não entra nada de origem animal. Não só alimentos mas produtos de beleza, higiene, limpeza, roupas e qualquer outra coisa. “Quando você entra nesse meio, passa a focar seus estudos e curiosidades para o ciclo todo, e não mais para o produto final ou origem do que consome”, explica a empresária que ressalta que todos aspectos de produção e descarte são de suma importância. “O cultivo da matéria prima, a força de trabalho e energia que manuseia e transforma a matéria prima, o transporte e a cadeia da pegada de carbono que utiliza, a produção final, os custos e o repasse dos lucros para que a distribuição de renda seja justa e favoreça a economia local”, destaca Paola

Há mais de um ano, a Gringa usa seus próprios produtos, feitos em casa, como desodorante, creme dental, tônico facial, desengordurante e produtos para lavar roupas. Assim surgiu o #Funca, uma sessão de um de seus projetos –www.gringadodedoverde.com – onde ela é cobaia de testes para algumas receitas com produtos biodegradáveis e não poluentes. Paola faz os produtos, usa e depois conta como foi o processo, sugerindo formas de uso para seus leitores.

Paola lava suas roupas ralando sabão em barra ecológico, vinagre de álcool como amaciante e bicarbonato como alvejante – Crédito: Arquivo pessoal
Paola lava suas roupas ralando sabão em barra ecológico, vinagre de álcool como amaciante e bicarbonato como alvejante – Crédito: Arquivo pessoal

A moça é multifacetada, mas sempre “voltada ao respeito e compaixão aos seres que habitam nosso planeta”, diz a jornalista que deu início à sua saga ambiental com o site “Gringa do Dedo Verde”, hoje “A Gringa – Hortas Urbanas e Sustentabilidade”. Uma plataforma onde Paola fala sobre formas de cultivo e sustentabilidade em geral, alimentação orgânica, receitas de zero-desperdício, PANCs (plantas alimentícias não convencionais) e o que mais estiver relacionado. É através da Gringa que é feito o planejamento e execução de hortas orgânicas baseadas na permacultura-biodinâmica para pessoas, empresas, ongs e escolas, além de workshops.

Seu segundo projeto é O Mapa Verde, que faz um mapeamento colaborativo para negócios e iniciativas sustentáveis e de impacto positivo pelo Brasil, através da alimentação, moda, design, produtos, serviços e feiras. Já seu terceiro e futuro projeto é A Feirinha – que será lançada ainda em 2016 – que é uma plataforma de vendas online para comercializar a sua linha de cosméticos naturais e artesanais e mobiliário para hortas.

Apesar de ainda ser pequena a preocupação dos governantes, recentemente a Câmara Municipal aprovou (por 17 votos a sete) o projeto de lei que inclui alimentos orgânicos na merenda escolar de Porto Alegre. A lei obriga a Prefeitura da Capital a comprar produtos sem agrotóxicos para incluir no lanche de alunos da rede municipal de ensino. Os percentuais desses alimentos vão de 10% para o primeiro ano a 50% para o quinto ano e os seguintes.

Com mais fácil acesso à informação, o público está muito mais aberto a novas ações e estilos de vida, quando se trata do planeta em que vivemos. Por décadas o homem fez – e infelizmente ainda faz – o que bem queria com a natureza. Hoje se entende que já passou da hora de nos redimirmos e devolver tudo que nos foi dado de bom grado. Iniciativas como as da Griga, da Mônica e da Carolina dão esperança e incentivo aos que ainda têm medo de começar seu negócio no ramo ou de simplesmente aderir à causa. Muito mais do que sua saúde, o planeta agradece.

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