Onde você joga seu cigarro?

O cigarro, companhia para alguns, prejudica a saúde e suja a cidade - Crédito: Fernanda La Cruz
O cigarro, companhia para alguns, prejudica a saúde e suja a cidade – Crédito: Fernanda La Cruz
Veneno, amigo, tabaco vilão. As ruas também sofrem com o descarte incorreto e a má educação dos fumantes de Porto Alegre, maior capital geradora de bitucas de cigarro do Brasil. O que pode ser feito para limpar? Ou a solução é parar de fumar?

Por Fernanda La Cruz
Jornalismo Ambiental / Manhã

Porto Alegre reúne mais fumantes do que qualquer outra capital no Brasil. De acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são mais de 670 mil pessoas. Para ter dimensão, imagine 11 estádios iguais à Arena do Grêmio lotados produzindo fumaça – fumaça e lixo, sem parar. Ao final do dia, o total acumulado é de um milhão e quinhentas mil bitucas de cigarro. Muita gente fuma: onde é que esse lixo vai parar?

O tabagismo é uma doença global. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de seis milhões de mortes anuais são causadas pelo vício. Mas o problema tem início antes das mortes: passa pela cadeia de produção no campo e sua consequente degradação ambiental. Desde a produção do fumo, nos campos de plantio, o fumicultor está exposto a herbicidas, fungicidas e inseticidas.

O contato com esses venenos causa lesões no fígado, nos rins, esterilidade masculina, afeta o sistema nervoso em todos os níveis e, é claro, causa câncer. São utilizados 1,3 quilo de agrotóxico por hectare. Ao todo, a área utilizada para plantio no país ultrapassa a casa dos 450 mil, ou seja, mais de 600 mil litros de veneno por safra.

Nas cidades, o problema está na sujeira e na poluição do ar. Para limpar as ruas, iniciativas de recicladoras surgiram na Capital. Entretanto, o esquema se tornou inviável, já que o custo e o tempo gastos na limpeza do papel das bitucas, além da quantidade de água desperdiçada durante o processo logo mostraram que o trabalho não era economicamente rentável.

Felipe Kowal, diretor de operações do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), admite que o órgão também não dispõe de tecnologia para reciclagem. Por isso, as cooperativas recolhem a sujeira das ruas e descartam as pontas de cigarro – material tóxico – nos aterros convencionais. Para mudar esse quadro surgiu, em agosto de 2015, o Poa sem Bituca, uma ideia que daria novo fim ao resíduo deixado pelos fumantes.

O projeto consiste em recolher e utilizar as bitucas como fonte de geração de energia para produção de cimento. O processo resolveria o problema da sujeira nas ruas, trabalha com a educação e o correto descarte e ainda diminui a extração de carvão mineral, matéria que geralmente é usada nas fábricas. Seria perfeito, mas não colou.

Um dos coletores do projeto Poa sem Bituca no centro da capital gaúcha - Crédito: Divulgação
Um dos coletores do projeto Poa sem Bituca no centro da capital gaúcha – Crédito: Divulgação

Dos 10 mil coletores imaginados no início do projeto, apenas 100 foram instalados. O Poa sem Bituca míngua a cada mês em que o idealizador, Flávio Costa Leites, tem de pagar os custos de manutenção das bituqueiras com o caixa da própria empresa, a EcoPrática. É que, segundo ele, a Prefeitura de Porto Alegre não se vinculou à causa: apenas concedeu licença. Na busca pelo patrocínio privado, também não houve aderência, em razão do que Flávio chama de “entraves burocráticos”.

Quase um solitário, Flávio caminha pelas ruas do Centro da cidade e observa sua ideia que agora, abandonada e sem manutenção, está se transformando em sucata. “Parte disso é culpa da população, muito mal educada”, comenta depois de explicar que as bituqueiras são utilizadas para descarte de jornal, palitos de picolé, panfletos e papel de bala.

Convencido de que população e poder público não perceberam a gravidade do problema do lixo, Flávio parte para o Velho Continente. Garante que em Paris e Madrid, cidades com alto número de fumantes da Europa, seu projeto terá crescimento. Questionado sobre a sustentabilidade do projeto, se é efetivo recolher bitucas ou parar de fumar, rebate: “ninguém vai parar de fumar, a indústria do cigarro não vai acabar e o que posso fazer é limpar a sujeira que o fumante faz”.

Mas afinal, por que as pessoas fumam?

São muitos os caminhos que ligam uma pessoa ao cigarro. Pode ser a necessidade de autoafirmação ou aceitação dos amigos na adolescência, a busca por novos prazeres ou a eficácia dos anúncios publicitários, que, mesmo reduzidos por lei nos últimos anos, ainda sabem atingir o público-alvo. Mas a dependência não se dá, ao contrário de drogas como crack, logo de início. O que conquista o novo fumante de fato é a sensação de bem-estar que o cigarro causa de imediato.

A nicotina é poderosa: sua ação no cérebro depende de como o indivíduo está se sentindo. Se está com sono, tem efeito estimulante; se ansioso e angustiado, acaba por tranquilizar. É, portanto, uma droga bivolt, que atende as necessidades do fumante no momento do uso. Para Patrícia de Saibro, psiquiatra especialista em dependência, a nicotina é a droga perfeita. Aceita socialmente, com custo relativamente baixo, pode ser comparada ao prazer e à estimulação causada pela cocaína.

Fala-se muito em dependência psicológica. Patrícia defende que o cigarro preenche o vazio deixado pelas incompletudes do indivíduo – algo intrínseco à vida humana e cada vez mais evidente nas sociedades que veneram o poder e o consumo. “É como se o cigarro fosse um substituto (das ausências)”, afirma.

Mistura de sofrimento e prazer, o cigarro é vilão na abstinência e adorado nos momentos de prazer. Carolina Severo tem 27 anos. Destes, 15 tiveram diariamente a companhia do cigarro. “É a minha companhia nas horas estressantes, meu amigo que acalma”, diz.

A nicotina causa o vício, um ciclo de vontade que parece infinito, mas pode ser rompido. A psiquiatra orienta àqueles que desejam abandonar o vício: é possível. “A fissura é causada pela capacidade de memória do cérebro. À medida que o tempo passa, o cérebro esquece esse prazer e a vontade de fumar diminui gradativamente”, explica.

Para parar vale lançar mão da opinião médica, do uso dos adesivos, da diminuição programada. O que não vale é permitir-se que drogas façam as vezes de amigo. Amizade que adoece, deixa as ruas sujas, o ar mais poluído e aprofunda a crise das relações fluidas.

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