O pedal conquista as ruas de Porto Alegre

A bicicleta é meio de empoderamento da mulher nas cidades – Crédito: Gisele Barbosa
A bicicleta é meio de empoderamento da mulher nas cidades – Crédito: Gisele Barbosa
As ruas e avenidas movimentadas da capital gaúcha servem de palco para diversos grupos de cicloativistas. De acordo com a Parceria Nacional Pela Mobilidade em Bicicleta, há uma revolução acontecendo nas cidades brasileiras. A integração deste meio de transporte à propulsão humana ao sistema de trânsito é pauta nos encontros do grupo Pedal das Gurias.

Por Gisele Barbosa
Jornalismo ambiental / Manhã

A bicicleta deixou de ser apenas um meio de lazer em Porto Alegre. De acordo com os resultados do Perfil do Ciclista Brasileiro, 85,8% dos ciclistas entrevistados utilizam a bicicleta na capital gaúcha como principal meio de transporte para ir até o local de trabalho.

A pesquisa da Parceria Nacional Pela Mobilidade em Bicicleta, coordenada pela Associação Transporte Ativo, traçou o perfil do ciclista brasileiro de 2015 . O estudo, que contou com mais de 5 mil ciclistas de dez cidades de diferentes regiões brasileiras, revelou dados até então desconhecidos.

Perfil do Ciclista Brasileiro 2015 – Fonte: transporteativo.org.br
Perfil do Ciclista Brasileiro 2015 – Fonte: transporteativo.org.br

Para 45,1% dos ciclistas entrevistados em Porto Alegre, a maior motivação para permanecer pedalando é a rapidez e a praticidade proporcionada por esse meio de transporte. É o caso da cicloativista e Analista de Marketing, Cristiane Oliveira, de 31 anos.

Para Cristiane, que mora na Cidade Baixa e trabalha no bairro Petrópolis, o principal fator que influenciou a troca do uso de coletivos pela bicicleta foi a considerável redução no tempo de deslocamento. “Com o ônibus T7 eu levo de 35 a 40 minutos, isso sem trânsito, enquanto de bike, consigo fazer em até 12 minutos o mesmo percurso”, calcula.

A cicloativista participa de movimentos em prol do uso da bicicleta. Um deles é o Pedal das Gurias, onde Cris, como é chamada, junto a outras meninas, desenvolve projetos para mulheres que gostariam de aprender a usar a bicicleta no trânsito, além da troca de informações como melhores rotas e horários. Gerando assim uma grande rede de ajuda.

Bicicleta é qualidade de vida para Cristiane Oliveira – Crédito: Gisele Barbosa
Bicicleta é qualidade de vida para Cristiane Oliveira – Crédito: Gisele Barbosa

Para o professor de Educação Física Pablo Espíndola, 34 anos, a bike é considerada uma das mais completas atividades físicas, pois trabalha simultaneamente diversos músculos do corpo e também aumenta a capacidade cardiorrespiratória. Mas para Cris, os benefícios do uso da bicicleta vão além.

“A bike me proporcionou muitos momentos bons, me permitiu aumentar meu ciclo de amizades”, diz. A bubbaloo, como chama sua bicicleta, trouxe à Cris, sobretudo, qualidade de vida. Reduzindo o stress diário e tornando-se uma válvula de escape.

O Pedal também é das Gurias

O projeto, que nasceu em janeiro de 2016, tem a intenção de fazer com que as mulheres se empoderem através do uso da bicicleta, minimizando seus medos de pedalar em meio ao trânsito e ganhando mais autonomia em seu direito de ir e vir. Os encontros ocorrem em diferentes dias da semana.

Para participar das pedaladas não é necessário ter sua própria bicicleta, em alguns casos as meninas usam bicicletas emprestadas por outras participantes. Outra opção, são as bicicletas do BikePoa, projeto de sustentabilidade da Prefeitura de Porto Alegre em parceria com o banco Itaú e o Sistema de Bicicletas Samba. “ Quem quer participar só precisa saber das duas regras: tem que ser guria e pedalar”, brinca.

As pedaladas de terça-feira são no ritmo treino, normalmente com velocidade média de 20 a 25 km/h (ou de acordo com as ciclistas que estiverem na pedalada). Já na quinta-feira acontecem em um ritmo mais tranquilo, para participantes que pretendem aprender a pedalar em meio ao transito da cidade. Segundo Cris, este formato é aconselhável para as que estão querendo curtir um pedal com as amigas e ir evoluindo aos poucos.

O ponto de referência para os encontros das meninas do Pedal das Gurias é a Rótula das Cuias, na Av. Aureliano de Figueiredo Pinto Crédito: Gisele Barbosa
O ponto de referência para os encontros das meninas do Pedal das Gurias é a Rótula das Cuias, na Av. Aureliano de Figueiredo Pinto Crédito: Gisele Barbosa

Comparado com outros grupos, o Pedal das Gurias é relativamente novo, mas aos poucos está conquistando visibilidade entre os ativistas. No Bicicultura, maior encontro nacional de mobilidade por bicicleta e cicloativismo, as gurias tiverem os dois projetos inscritos escolhidos.  A escolha dos projetos fez com que outros grupos de cicloativistas do país se interessassem pelo trabalho desenvolvidos pelas gurias de Porto Alegre.

Redes Sociais como meio de divulgação

A internet aproxima as pessoas. Quando Cris, que também trabalha com Marketing, percebeu que o número de meninas estava reduzindo, iniciou um grande projeto para impulsionar o Pedal das Gurias nas redes sociais.

O trabalho rendeu bons resultados. Atualmente, o Pedal das Gurias conta com grupo fechado no Facebook com mais de 1.400 meninas, uma página aberta, também no Facebook, com mais de 1.500 curtidas, um grupo no Telegram com aproximadamente 100 membros, além de 140 meninas que participam ativamente no grupo do WhatsApp.

Para as gurias, as redes sociais servem de base para trocas de informações, a partir delas são levantadas questões de como ajudar as outras ciclistas a irem ao Pedal, as dificuldades encontradas por todas, além de obter soluções para enfrentarem os desafios sem deixar de usar a bicicleta.

Em alguns casos as meninas usam bicicletas emprestadas por outras participantes - Crédito: Gisele Barbosa
Em alguns casos as meninas usam bicicletas emprestadas por outras participantes – Crédito: Gisele Barbosa

Atualmente, o número de meninas que participam dos encontros não baixa de 30, e para Cris, a divulgação fez valer a pena. “O encontro mais especial foi num dia que fez 5 graus e a sensação térmica estava muito baixa. Naquela noite atingimos o total de 50 gurias pedalando”, comemora.

Desafios

De acordo com o representante da Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (Mobicidade), Maurício Ariza, de 27 anos, o que muitas vezes as pessoas – e o próprio poder público – não entendem, é que não se planeja a infraestrutura cicloviária de acordo com a demanda de ciclistas. Para ele, a infraestrutura é geradora de demanda.

“A infraestrutura em Porto Alegre está tão atrasada que a demanda já a superou e muito”. Segundo Ariza, a infraestrutura atual é insuficiente, exclui as regiões periféricas da cidade e falha na sua integração. Maurício afirma ainda que a missão da Mobicidade é a luta e defesa de uma cidade mais humana, focando em políticas públicas para as pessoas, abrangendo no termo mobilidade urbana todos os modais não-motorizados.

A Mobicidade tem representantes no Conselho Gestor do Fundo Cicloviário, na Jari do Detran e no GT Segurança dos Ciclistas do Detran. A Associação nasceu em 2012 da necessidade de os interesses coletivos de ativistas terem uma representação a fim de dialogar com o poder público e outras instituições.

2 ideias sobre “O pedal conquista as ruas de Porto Alegre”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *