De galho em galho, os corredores que salvam a vida nativa

Espécies em risco de extinção, como o bugio-ruivo, se beneficiam dos corredores para se reproduzir - Crédito: Projeto Corredores de Vida Nativa / Divulgação
Espécies em risco de extinção, como o bugio-ruivo, se beneficiam dos corredores para se reproduzir – Crédito: Projeto Corredores de Vida Nativa / Divulgação
O crescimento desorganizado de Porto Alegre criou uma barreira urbana para a fauna que vive no Morro do Osso, impossibilitada de se deslocar entre as áreas verdes da região. Além de trazer diversos problemas às espécies, alguns animais, como o bugio-ruivo, sofrem risco de serem extintos. Um projeto de corredores ecológicos tenta contornar a situação.

Por Débora Neto
Jornalismo Ambiental / Manhã

Imagine você e sua família isolados em uma ilha. Sem conseguir sair dali, vocês teriam que arranjar formas de se alimentar e de se reproduzir. É aí que começam os problemas. Em algum momento acabaria a comida. A espécie seria contaminada pelos efeitos da reprodução entre parentes próximos. Uma doença não atingiria um, mas todos que ali estivessem e em caso de desastres naturais, sem ter pra onde fugir, todos seriam mortos. Agora imagine que já existem famílias vivendo nessa situação.

É o caso dos bugios-ruivos, que surpreendem moradores de Porto Alegre que sequer sabem de sua existência na Capital. Eles e outras 4 espécies de mamíferos, 110 de aves, 10 de répteis e 12 de anfíbios vivem no Parque Natural Municipal o Morro do Osso (PNMO), onde ocorrem também 140 espécies de árvores, que representam 80% da diversidade registrada no município. O Parque, que protege 127 hectares de mata nativa, é hoje uma “ilha” de vegetação isolada e rodeada pelas paredes de cimento da urbanização.

Além de abrigar diversas espécies, o Parque do Morro do Osso é utilizado para lazer, tendo diversas atividades voltadas ao meio ambiente - Crédito: Projeto Corredores de Vida Nativa / Divulgação
Além de abrigar diversas espécies, o Parque do Morro do Osso é utilizado para lazer – Crédito: Projeto Corredores de Vida Nativa / Divulgação

O Morro do Osso é refúgio para a fauna e a flora nativa ameaçadas de extinção. No entanto, as atividades humanas distanciaram essas espécies de outras áreas verdes da cidade, impossibilitando sua reprodução, segurança e alimentação. Os animais que tentam percorrer o longo trajeto até a mata mais próxima correm riscos de atropelamento, ataque por moradores, cães e gatos, além de choques com a fiação elétrica. “A cidade foi crescendo e a ocupação sendo feita de forma tão desordenada que acabou destruindo as áreas naturais, trazendo prejuízo não só para os bichos e plantas, que ficam isolados, sem recursos e espaço, mas para nós”, diz o biólogo e consultor ambiental André Alonso.

Devido à invasão urbana, os animais sofrem diversos perigos quando tentam se locomover para sobrevivência, como o atropelamento - Crédito: Corredores de Vida Nativa / Reprodução
Devido à invasão urbana, os animais sofrem diversos perigos quando tentam se locomover para sobrevivência, como o atropelamento – Crédito: Corredores de Vida Nativa / Reprodução

Formado pela UFRGS e mestre em conectividade ambiental, André é, há seis anos, coordenador do Projeto Corredores de Vida Nativa do Morro do Osso – ou Corredores Ecológicos. “Quando eu entrei na faculdade, me mudei para o Morro do Osso com meus pais e entrei no projeto Macacos Urbanos da UFRGS, em 1999. Lá comecei um trabalho de mapeamento dos bugios no morro. Nós entrávamos no mato e tentávamos avistar, escutar ou encontrar as fezes do bicho. O lema era: onde há merda, há esperança”, conta o biólogo que se diverte lembrando da frase que diziam durante a procura aos animais. Na ocasião, apenas um bugio foi encontrado. Não contentes com o resultado, André e um grupo de pesquisadores começaram a fazer um trabalho de educação ambiental no entorno, perguntando aos moradores quais animais eles costumavam ver. Foi quando um vizinho conseguiu tirar uma foto de um bugio, afirmando também que ele estava junto de outros da mesma espécie.

Um relatório foi feito e entregue à Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), que nada fez até 2004. “Era difícil saber como proceder. O morro estava completamente isolado e não sabíamos se tinha ligação com outras áreas verdes. Então não podíamos colocar outros animais ali porque eles iriam se reproduzir e uma hora faltaria espaço. Tirar eles dali também era arriscado e custoso, podendo machucar o animal e até matá-lo”, explica André.

A bióloga da Smam Maria Carmem reconhece que havia dificuldade para tratar do assunto. “Houve um empenho de alguns técnicos em levar o projeto adiante, mas não houve sucesso. Em algumas gestões este tema foi aberto para debate, em outras foi reprimido. Depende muito das lideranças políticas que estão no poder executivo”, diz a  bióloga que atualmente é a gestora do  Refugio de Vida Silvestre do Morro São Pedro, outra unidade de conservação em Porto Alegre.

O contorno rosa delimita a área de amortecimento protegida por lei do Parque Morro do Osso  e as linhas amarelas são os corredores - Crédito: Projeto Corredores de Vida Nativa / Divulgação
O contorno rosa delimita a área de amortecimento protegida por lei do Parque Morro do Osso  – Crédito: Projeto Corredores de Vida Nativa / Divulgação

Em 2010, André iniciou um estudo no seu mestrado de modelagem ecológica que o permitiu ver que as áreas verdes de Porto Alegre estavam ficando isoladas, não apenas o Morro do Osso. “Vi quais dessas áreas que eram melhor conectadas e por onde elas estavam sendo ligadas, onde estavam esses caminhos de natureza. Usei imagens de satélite e um algoritmo parecido com o do Waze e do Google Maps, que traça caminhos entre as áreas verdes, os corredores, dando mais de uma opção de rota”, conta André. Segundo o biólogo, é importante que elas estejam conectadas para haver colonização em outras áreas, para que os animais possam se deslocar e para as plantas, que também transitam. “As sementes são transportadas pelos animais que voam e defecam, ou pelas penas. Eles são os jardineiros da natureza”, diz.

O plano era conectar o Morro do Osso a fragmentos de mata maiores de 10 hectares, áreas mínimas para a sobrevivência da fauna. Apenas três fragmentos próximos foram encontrados pelo programa e outros 13 mais distantes, 47 corredores foram mapeados. Mas o que são esses corredores? Como funcionam e para que servem?

Corredor ecológico

Os corredores de vida nativa, ou corredores ecológicos, têm comprimento variado, alguns com 4 km outros com 200m, e todos têm 14m de largura. “Defini esse tamanho porque eu não poderia fazer um corredor muito largo, pegaria muita área urbana e ficaria inviável”, explica o coordenador do projeto. O algoritmo procura áreas verdes, com a largura mínima estipulada, que formem um caminho do Morro do Osso até a maior e mais próxima área de vegetação de no mínimo 10 hectares (definidos pelo biólogo), como o Morro do Sabiá, em Ipanema, a área mais conservada na região.

Os corredores já existem, porém precisam de um acompanhamento e algumas adequações para que não ofereçam mais riscos aos animais - Crédito: Projeto Corredores de Vida Nativa / Divulgação
Os corredores já existem, porém precisam de um acompanhamento e algumas adequações para que não ofereçam mais riscos aos animais – Crédito: Projeto Corredores de Vida Nativa / Divulgação

São caminhos de vegetação que já existem, mas que são organizados para que os animais possam usar para deslocamento de um bioma a outro, evitando os acidentes que acontecem quando eles tentam cruzar avenidas, cabos de rede elétrica e casas. “Por seis meses fomos a todas as propriedades em que passam os corredores para conversar com os moradores, traçar um perfil, e vimos que muitas pessoas não se importam com o meio ambiente, só estão ali por comodidade. As pessoas ficaram apavoradas achando que não poderiam mais construir em suas casas, mas elas podem. Só não devem fazer um corte zero, inclusive é ilegal”, conta André, que logo entregou o mapeamento à Smam, para que quando houvesse empreendimentos em um corredor ecológico, eles pudessem adequar o projeto para não interrompê-lo.

Na Avenida Coronel Marcos são três pontes aéreas que fazem a reconexão do corredor - Crédito: Débora Neto
Na Avenida Coronel Marcos em Ipanema são três pontes aéreas que fazem a reconexão do corredor – Crédito: Débora Neto

Além disso, em áreas como a Avenida Coronel Marcos, em Ipanema, foi feita uma reconexão do corredor onde ele era interrompido pela avenida, colocando pontes de corda aéreas. “Quem usa essas pontes são principalmente os animais arborícolas, como o bugio e o gambá, mas também aves, insetos, sapos, cobras. É para toda fauna”, explica. Há também dois lugares com passagens subterrâneas (canos que passam por baixo das ruas). Em ambos recursos de reconexão foram instaladas armadilhas fotográficas que, através de um sensor de calor e movimento, monitoram os bichos que passam tirando uma foto.

Os animais aprendem sozinhos a utilizar as pontes, de forma instintiva, para fugir dos carros - Crédito: Débora Neto
Os animais aprendem sozinhos a utilizar as pontes, de forma instintiva, para fugir dos carros – Crédito: Débora Neto

Outros corredores também foram implementados fora da Capital, como os Microcorredores Ecológicos de Itapeva, que abrangem Torres, no litoral norte, feitos pelo Instituto Curicaca, do qual a bióloga Bruna Meneses faz parte. “Eu trabalho com tudo que for relacionado à espacialização das informações, sejam coletadas em campo, sejam obtidas por imagens de satélites ou dados que já estejam disponíveis na internet”, explica a ambientalista.

Bruna participou também do planejamento de outros três corredores do Estado. “Nos corredores na Área de Proteção Ambiental do Banhado Grande e nos corredores do Parque Estadual do Espinilho eu fiz a interpretação do uso e cobertura, baseada em imagens de satélite e nas análises espaciais que resultaram nos desenhos dos corredores. Já nos corredores da Quarta Colônia, eu contribui nas análises espaciais”, conta. A bióloga ainda explica que os corredores do Banhado Grande não tem nenhuma defesa legal, eles são defendidos por instituições parceiras. Já na Quarta Colônia, os corredores tem parceria com a Secretaria Estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, existindo ações que garantem que os corredores cumpram seus objetivos.

Obstáculos e benefícios

Apesar de parecer algo claramente benéfico, nem todos concordam com os corredores ecológicos. Moradores sentem que seus terrenos estão sendo controlados e limitados, construtoras reclamam de menos espaço para empreendimentos, além da própria Prefeitura que não acredita no projeto. “Todas as secretarias oferecem resistência em reconhecer os corredores, assim como os empreendedores. Eles veem esta questão como um entrave, como uma limitação do uso da terra e uma burocracia a mais. Poucos são os exemplos de funcionários da Prefeitura que entendem o seu valor”, lamenta Maria Carmem, que apoia o projeto desde o início.

O professor de Botânica Paulo Brack também acredita que a dificuldade é política. “Não existe vontade política de implementá-los, pois podem restringir desejos imediatistas de setores da economia – que degradam a natureza – que têm influência no Prefeito e na gestão inclusive da Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Há 30 anos o setor de planejamento da conservação da Biodiversidade não consegue planejar ou criar um plano para proteger o Ambiente Natural/Biodiversidade no Município”, aponta Paulo, que também é ambientalista da ONG Ingá.

As construtoras enxergam os corredores como algo prejudicial para sua expansão, mas utilizam o verde como forma de atrativo para vendas - Crédito: Débora Neto
As construtoras enxergam os corredores como algo prejudicial para sua expansão, mas utilizam o verde como forma de atrativo para vendas – Crédito: Débora Neto

Para André, é necessário organizar o crescimento da cidade e ocupá-la de forma inteligente. “Existe um plano de desenvolvimento da cidade que diz onde pode e onde não pode construir, e essa área já foi ocupada, então não tem por que trazerem essa urbanização para cá. A zona sul é chamada de cidade jardim, justamente por todo esse verde. As pessoas procuram esses bairros buscando isso”, analisa.

Para o biólogo, as áreas verdes não trazem benefícios só para os animais, mas principalmente para os moradores que usufruem da tranquilidade, conforto sonoro, ar mais puro, menos trânsito, além de um clima mais ameno já que as árvores servem como reguladores naturais de temperatura. “É uma série de benefícios que, se tu urbanizar uma área assim, se perde. Pessoas que tem qualidade de vida são mais felizes”, diz André. “As construtoras inclusive usam o verde para vender condomínios, mas se todos começarem a construir vai deixar de ser verde”, enfatiza.

O irônico de toda essa questão é que quem financiou os corredores foi uma das principais discordantes do projeto, a Maiojama, uma construtora do Grupo RBS. Para construir em um terreno na beira do Guaíba, ela cortou a vegetação e a população não gostou, entrando com um processo contra a empresa. Depois de algumas reuniões, foi feito um Termo de Compensação Vegetal (TCV) para o plantio de novas árvores nos arredores, que logo foi transformado em um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), pois não havia espaço para aquela quantidade de nova vegetação. O TAC beneficia a unidade de conservação mais próxima, que, nesse caso, era o Parque do Morro do Osso. Calculou-se quanto gastariam com o plantio e essa renda foi revertida para projetos ambientais.

Quem mora nas áreas dos corredores ecológicos tem uma série de benefícios para a saúde e bem estar - Crédito: Débora Neto
Quem mora nas áreas dos corredores ecológicos tem uma série de benefícios para a saúde e bem estar – Crédito: Débora Neto

Mariluze Gradaschi morava em um sítio no interior do Estado. Quando veio para Porto Alegre, não abriu mão de continuar perto da natureza. “Sempre tivemos muito contato com os animais e as plantas, viemos para a zona sul buscando exatamente isso e não nos arrependemos. Acordar com cheiro de mato é maravilhoso. É triste que algumas pessoas não vejam como isso é importante”, conta a moradora da Pedra Redonda. “A gente vê uma mudança drástica de uns anos para cá. Antes víamos muitas árvores e pouquíssimas casas. Hoje as árvores disputam espaço nos terrenos”, lamenta. Para ela, o bairro não é mais o mesmo, mas ainda assim é bem mais próximo do verde do que outros locais da Capital.

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