O impacto da poluição nos peixes do Guaíba

Mapa dos pontos de coleta dos peixes pesquisados pelo Laboratório de Ictiologia da Ufrgs – Crédito: Laboratório de Ictiologia da Ufrgs
Mapa dos pontos de coleta dos peixes pesquisados pelo Laboratório de Ictiologia da Ufrgs – Crédito: Divulgação
O Guaíba é um ecossistema que sustenta uma rica biodiversidade, onde interagem diversas espécies que dependem de sua boa qualidade e preservação. Há décadas o lago vem sendo poluído por esgoto doméstico e por efluentes industriais. Estudos sugerem que o caldo de poluição já pode estar causando deformações ósseas em algumas espécies de peixes.

Por Juan Molina
Jornalismo Ambiental / Manhã

“Eu não tive estudo. Sobrevivi por causa dos peixes”. O relato acima retrata a realidade de quem dedicou uma vida inteira à pesca. Alfredo Gonçalves, de 96 anos, é o pescador mais antigo da Ilha da Pintada, uma das ilhas do Delta do Jacuí, em Porto Alegre. Alfredo entrou cedo nesta vida, quando junto do pai vendia peixes pela região. Hoje em dia já não é mais assim. Através do desenvolvimento desenfreado de atividades econômicas e o descarte incorreto de resíduos, o Guaíba não está mais para peixe. 

Alfredo Gonçalves, 96 anos, joga a linha no lago Guaíba para pescar – Crédito: Juan Molina
Alfredo Gonçalves, 96 anos, joga a linha no lago Guaíba para pescar – Crédito: Juan Molina

 

Desde 1992, há o projeto “Análise da frequência de anomalias morfológicas, IGS e desenvolvimento gonadal em peixes do lago Guaíba” realizado pelo Laboratório de Ictiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Financiada pela empresa CMPC Celulose Riograndense, a pesquisa tem como objetivo verificar se há significância ou não nas alterações ósseas, estruturais ou branquiais dos peixes.

“Entre 1992 até 1997 nós achamos significância, ou seja, nós achamos que estas anomalias aconteciam acima do esperado em duas espécies. Uma espécie de cascudinho, que aparecia com raios tortos, e uma espécie de lambari que apresentava uma deformação na coluna”, informa Júlia Giora, professora e pesquisadora no Laboratório de Ictiologia do Instituto de Biociências da Ufrgs.

Diapoma Alburnus, o famoso “lambari”, apresenta deformação na coluna – Crédito: Luiz Roberto Malabarba / Divulgação
Diapoma Alburnus, o famoso “lambari”, apresenta deformação na coluna – Crédito: Luiz Roberto Malabarba / Divulgação

Neste biênio, o estudo ainda não constatou anomalias com significância nos peixes coletados. Porém, isto não significa que o problema terminou. “Às vezes não é um fator. Não é o aumento de orgânicos jogados na água. Não é o aumento de esgotos domésticos. São várias coisas associadas que causam essa resposta sistêmica do organismo”, explica a pesquisadora da Ufrgs.

Segundo Júlia Giora, para notar se há significância em certa deformação, é preciso observar se esta acontece acima do nível em tal espécie, em tal ponto de coleta ou se a própria anomalia ocorre acima do esperado.

O projeto é realizado em cinco pontos do lago, são eles: Usina do Gasômetro e Saco da Alemoa em Porto Alegre, Foz do Arroio Celupa e Praia da Alegria em Guaíba e no município de Barra do Ribeiro. “Fazemos coletas com esforço padronizado, só arrasto de margem, ou seja, só pegamos peixes pequenos que ficam às margens do lago, mas que são os que têm maior adversidade mesmo”, ressalta Júlia Giora.

Através do projeto realizado pela Ufrgs não é possível identificar a causa de tais deformações. Segundo o biólogo Diego Sevalt, consultado pelo blog de jornalismo ambiental do UniRitter, os peixes são seres muito sensíveis há quaisquer alterações que ocorram no meio em que vivem, como por exemplo, a poluição. “Essas anomalias servem como marcadores quantitativos e qualitativos da água em relação à presença ou não de poluentes”, explica ele.

Astyanax fasciatus coletado no Guaíba, não possui a segunda nadadeira esquerda – Crédito: Amanda Carolina Tolentino / Laboratório de Ictiologia da Ufrgs
Astyanax fasciatus coletado no Guaíba, não possui a segunda nadadeira esquerda – Crédito: Amanda Carolina Tolentino / Laboratório de Ictiologia da Ufrgs

O art. 1º da Resolução de 23 de janeiro de 1986 do Conselho Nacional do Meio Ambiente afirma que “considera-se impacto ambiental qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria e energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam a saúde, segurança e o bem-estar da população”.

Considerando o artigo, nota-se a falta de responsabilidade de governo, empresas e população que, em função da desinformação e de bens econômicos, rompem com esta resolução. “Em Porto Alegre o esgoto também não é bem tratado. E a CMPC, que acaba impactando o Guaíba com suas atividades, financia tudo aqui na capital”, declara o secretário geral da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Heverton Lacerda.

Ainda em relação à falta de tratamento de esgoto na capital gaúcha, a meta do Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE) é chegar ao final de 2016 com 69% de esgoto tratado.  A infraestrutura de tratamento disponível ainda não atende toda a capital. “Não tem rede de esgoto, vai jogar aonde? As indústrias jogam aí no Guaíba também. É uma vergonha”, diz Marco Antônio, integrante da colônia de pescadores Z-5.

Marco Antônio afirma que na região do Delta do Jacuí, onde se encontra a colônia de pescadores Z-5, não há tratamento de esgoto – Crédito: Juan Molina
Marco Antônio afirma que na região do Delta do Jacuí, onde se encontra a colônia de pescadores Z-5 (foto), não há tratamento de esgoto – Crédito: Juan Molina

Tão difícil quanto determinar a causa é determinar o seu causador. “Enquanto ninguém apontar um culpado, eles vão continuar poluindo o Guaíba”, lamenta Heverton Lacerda, da Agapan.

Para saber mais:

Flores-Lopes, F. 2006. Monitoramento ambiental da bacia hidrográfica do lago Guaíba – RS – Brasil, através da utilização de diferentes metodologias aplicadas a taxocenoses de peixes. Porto Alegre, Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal, UFRGS, 225 p.

Flores-Lopes, F., L. R. Malabarba, J. F. P. da Silva & E. H. L. Pereira. 2002. Histologia de deformidades vertebrais em Cyanocharax alburnus (Hensel, 1870) (Ostariophysi: Characidae) do lago Guaíba, Rio Grande do Sul, Brasil. Comunicações do Museu Ciências Tecnologia PUCRS Sér. Zool., 15(1):137-155.

Flores-Lopes, F., L. R. Malabarba, E. H. L. Pereira & J. F. P. da Silva. 2001. Alterações histológicas em placas ósseas do peixe cascudo Rineloricaria strigilata (Hensel) (Teleostei, Loricariidae) e sua frequência no lago Guaíba, Rio Grande do Sul, Brasil. Revista Brasileira de Zoologia, Curitiba, 18(3):699-709.

 

 

 

 

 

 

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