Tempestades no horizonte

O evento climático que atingiu São Francisco de Paula no mês de março será mais frequente e intenso em um planeta mais quente – Crédito: Sidd Rodrigues
Tornados, cheias e supertempestades estão se tornando eventos climáticos cada vez mais comuns na Região Sul do Brasil. Estamos preparados? Para compreender a realidade de um planeta mais quente, a reportagem do blog de jornalismo ambiental da UniRitter esteve em São Francisco de Paula, assolada em março por um tornado, e no Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, referência em pesquisas sobre mudança do clima.

Por Sidd Rodrigues e Ariel Freitas
Jornalismo Ambiental campus Fapa / Manhã

Num piscar de olhos, o dia virou noite em São Francisco de Paula, na Serra Gaúcha. A manhã daquele domingo, 12 de março, foi engolida pela muralha de nuvens vinda do oeste. Eram 7h50 da manhã quando, levadas por um tornado – com ventos estimados em mais de 140 km/h – centenas de residências, prédios comerciais e públicos foram arrancados do chão, jogados aos ares, deixando para trás um rastro de destruição. Um mês depois, ainda restavam as cenas de terror. Nos cacos de vidro espalhados pelas ruas, nas vigas de ferro retorcidas pelo vendaval ou na memória de uma população traumatizada.

“Quando eu vi o horror não deu para fazer nada, o telhado já tinha vindo para cima de mim”, conta, ainda abalada, a dona de casa Zeli Lindons, 58 anos. Ela viu os dois andares da casa onde morava com seu marido, no bairro Santa Isabel, serem reduzidos a escombros em
poucos segundos. “Começaram a voar casas por cima da nossa. Nós ficamos só com a roupa do corpo”, explica Zeli, com os olhos machucados afogados em lágrimas, que segurava para não derramar. “Roupeiro, cama, casa… eu não sei onde foi parar”, relata.

A dona de casa Zeli Lindons relata seus momentos de terror – Crédito: Sidd Rodrigues

Andar nas ruas do município de pouco mais de 20 mil habitantes é como caminhar pelo cenário de um bombardeio. O tornado devastou diversos bairros, matando uma pessoa e ferindo outras dezenas. Cerca de mil casas foram danificadas, boa parte completamente destruída. Após uma noite quente e muito escura, os raios de sol da manhã vieram acompanhados de um evento meteorológico extremo, que afetou 2665 pessoas, e deixou prejuízo de R$ 33 milhões.

O coordenador municipal de Defesa Civil, Maurício da Silva Borges, foi pego de surpresa pelo tornado devastador. Nomeado apenas algumas semanas antes, no dia 10 de janeiro, o agente e sua equipe ainda estavam estruturando o órgão municipal, segundo ele “começando do zero”. Em situação desfavorável, Maurício precisou agir rápido com uma cidade destruída em suas mãos. Foi necessário organizar o socorro, comandar o corpo de voluntários – que não parava de chegar, de todos os cantos do Estado – destinar donativos e preparar a documentação para o decreto de situação de emergência.

O coordenador municipal de Defesa Civil, Maurício Borges, havia sido nomeado poucas semanas antes do tornado – Crédito: Sidd Rodrigues

“No primeiro fim de semana depois do tornado nós tivemos 500 voluntários subindo a Serra para nos ajudar. Começamos a servir o almoço às 11h30 para eles, e só terminamos depois das 15h. As pessoas vinham trazer suas doações e ficavam para auxiliar São Francisco”, relembra o técnico de Defesa Civil. Graças à rede de solidariedade que se formou na região, foi dispensada a ajuda humanitária colocada à disposição pelo Governo do Estado. Tijolo a tijolo, a cidade busca começar de novo.

Um mês depois, cerca de dez voluntários ainda se revezam no Ginásio Municipal de São Francisco de Paula. Entre o time está Leniza Pinto, que desde que o tornado atingiu o município, trabalha pelo restabelecimento da cidade. Ela relembra os primeiros momentos de socorro, enquanto os atingidos eram deslocados para o ginásio. “Era muito horrível. Pessoas chorando, desesperadas, foi muito triste”, afirma.

Cenário de terror contrastou com a solidariedade – Crédito: Sidd Rodrigues

Futuro tempestuoso

Para entender o tornado que atingiu São Francisco de Paula, é necessário dar alguns passos para trás e analisar todo o cenário. Afinal, os eventos climáticos estão ficando mais intensos com o decorrer dos anos no Rio Grande do Sul?

Segundo o climatologista Francisco Aquino, do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a resposta é um categórico sim. “Nós temos mais tempestades, elas estão mais intensas e estão mais frequentes”, afirma o pesquisador. Os eventos

meteorológicos intensos, como enxurradas, enchentes, granizo e estiagem, que naturalmente tinham picos isolados, estão se repetindo com maior frequência. Perguntado se a tendência é piorar, ele é lacônico: “sem dúvida”.

Loteamento Santa Isabel foi o mais atingido pelo tornado em São Francisco de Paula – Crédito: Sidd Rodrigues

As mudanças nos padrões climáticos do Rio Grande do Sul estariam fortemente ligadas às mudanças que ocorrem no clima global, afetando processos naturais estabelecidos há milhares de anos. “A temperatura média da região sul já subiu 1,0 °C e a precipitação subiu 10% a 15%. Significa que você tem aumento das chuvas e do efeito dessas tempestades”, explica Aquino.

Conforme relatório científico sobre eventos extremos em cenários regionalizados de clima, coordenado em 2007 por José Marengo, um dos mais importantes cientistas do clima da América do Sul, durante os últimos 50 anos pode se observar um aumento gradativo de extremos de chuva e de temperaturas noturnas nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, levando a um aumento gradativo na frequência de noites quentes e redução de noites frias. Esta variação sugere aumento na tendência das temperaturas mínimas, um dos principais indicadores de aquecimento.

Outros pontos que a comunidade científica adota como parâmetro para análises de longo prazo são variações de pressão atmosférica, comportamento das massas de ar, variação de precipitação e diversos outros, que formam uma imagem das causas da mudança e das tendências para o futuro. O Sul, historicamente, é a região brasileira que mais sofre prejuízos em decorrência de eventos meteorológicos no Brasil. “A gente observa que as maiores tempestades que ocorrem na América do Sul tem um endereço preferencial: Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina”, confirma Aquino.

Próximos da Antártida e com um clima fortemente influenciado pelas massas de ar provenientes dos oceanos Pacífico e Atlântico, os três estados sofreram prejuízos de pelo menos R$ 7 bilhões entre 1995 e 2014, segundo dados do relatório de danos elaborado pelo
Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres da Universidade Federal de Santa Catarina (Ceped / UFSC).

Os meses de setembro, outubro e novembro são, na média, os que mais contabilizam danos, principalmente na agricultura. Neste período, naturalmente mais chuvoso, a sensibilidade às mudanças climáticas fica evidente ao colocar na ponta do lápis os prejuízos registrados nas lavouras. Soja, arroz, milho e tabaco, os principais produtos de exportação do RS, são geralmente os setores que mais sofrem.

Um dos fenômenos naturais que já está entrando no imaginário popular é o El Niño. O aquecimento das águas do Pacífico, na altura da linha do Equador, é observado há mais de dez mil anos em reconstituições de cenário, se repetindo em ciclos de três ou quatro anos. Este aquecimento natural faz com que a evaporação das águas seja mais intensa, cruzando a América do Sul em forma de nuvens, aumentando as chuvas na região mais austral do Brasil e diminuindo nas regiões mais ao norte.

Ventos ultrapassaram os 100 km/h em São Francisco de Paula – Crédito: Sidd Rodrigues

O problema começa quando o Oceano Pacífico começa a absorver mais energia que o normal, provocando El Niños mais longos, perigosos e destrutivos. “O Oceano também está mais quente, então parece que o El Niño não termina nunca. Sai a fase mais intensa dele e o oceano continua aquecido. Assim vemos enchentes e inundações associadas a uma água mais aquecida na Costa Oeste da América do Sul”, diz o pesquisador da UFRGS Francisco Aquino, que tem larga produção científica na área da oceanografia. “Assim, nós estamos
interpretando que a interferência na temperatura e em diversos outros fatores não estão deixando ciclos naturais acontecerem. Corremos o risco de em alguns anos vivermos eventos ainda mais intensos”, alerta.

Foi justamente durante a ocorrência do El Niño mais forte dos últimos anos, em 2015, que Porto Alegre viveu sua última grande cheia do Guaíba. O lago que banha a cidade atingiu a marca histórica de 2,93 metros, a mais alta desde 1967. Duas mil pessoas foram atingidas nas ilhas da cidade, e no Centro Histórico a água avançou sobre o Cais Mauá, obrigando o fechamento das comportas de contenção de cheia da cidade.

População mais pobre é a mais vulnerável

O loteamento Santa Isabel, o bairro mais afetado pelo tornado em São Francisco de Paula, carrega semelhanças com as ilhas do Guaíba, históricas vítimas das cheias. A população, majoritariamente de baixa renda, vive situações de risco, apontadas nos estudos de
vulnerabilidade dos seus municípios.

Quando se fala em desastres – temporais, tempestades severas que geram inundações, deslizamentos – evidencia-se a ligação com a ocupação irregular de áreas urbanas. A densidade populacional crescente nas metrópoles, fenômenos sociais como a gentrificação e a especulação imobiliária fazem com que a população mais pobre, cada vez mais, seja empurrada para zonas periféricas onde o aumento populacional é desordenado e os riscos mais imediatos, como encostas de morros ou zonas sem saneamento básico. “Você tem uma parcela importante da sociedade que está marginalizada e ela ocupa áreas de risco. Então você tem essa combinação em um cenário que só fica pior, com questões ambientais e climáticas piorando”, sintetiza o climatologista Francisco Aquino.

O subchefe de Defesa Civil do Rio Grande do Sul, tenente-coronel Jarbas Trois de Ávila, também aponta a ocupação urbana como um dos fatores para o aumento do prejuízo deixado pelos grandes desastres climáticos. “Existe um aumento da população em locais de risco. Onde não havia gente, agora tem”, constata o coronel. Ávila, que fez carreira no Corpo de Bombeiros Militar, e comandou alguns dos principais batalhões da Região Metropolitana, como a Companhia Especial de Busca e Salvamento, destaca a importância da prevenção como política pública a ser adotada. “Estimativas nos mostram que a cada US$ 1 gasto com prevenção, economizamos US$ 5 em prejuízos. O Rio Grande do Sul é o estado que mais sofre com eventos meteorológicos intensos, com certeza prevenir gera economia”, defende.

O subchefe ainda relata como funciona o planejamento do sistema de prevenção de desastres do eixo sul. O programa de prevenção é realizado a partir de Planos de Contingência, que possuem a finalidade de decidir as medidas a serem tomadas, incluindo os atos de socorro, auxílio humanitário e a reabilitação de cenários para que possam voltar a funcionar plenamente, ou numa condição minimamente aceitável, no menor espaço de tempo possível. “A Defesa Civil do Rio Grande do Sul tem o dever de acompanhar todo o andamento do projeto, ajudando sempre que possível”, declara Ávila.

O pesquisador Francisco Aquino destaca, entretanto, o crescente prejuízo decorrente dos eventos meteorológicos. Levando em conta o aumento da densidade populacional, associada às mudanças climáticas que estão ocorrendo e se intensificarão no futuro, é possível acender a luz amarela de alerta. “O Brasil tem tido muito mais desastres, cada vez mais bem mapeados, cada vez mais bem monitorados, mas o custo é cada vez maior. Então as cidades cresceram desordenadamente, e os planos ideais para se ter um suporte adequado nestes momentos não foram executados. Então, simplificadamente eu diria: nós ainda fazemos muito pouco”, adverte ele.

ENTREVISTA: FRANCISCO AQUINO

A reportagem do blog de jornalismo ambiental da UniRitter esteve na tarde do dia 13 de abril no Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para entrevistar o pesquisador Francisco Eliseu Aquino, geógrafo, mestre em sedimentação glaciomarinha, doutor em Climatologia e Mudanças Climáticas entre a Antártica e o sul do Brasil. Ele já identificou modificações no clima nos últimos tempos no Rio Grande do Sul. E garante: “Nós da comunidade acadêmica afirmamos que as mudanças climáticas existem”. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Francisco Eliseu Aquino, pesquisador do Centro Polar e Climático da UFRGS – Crédito: Sidd Rodrigues

As mudanças climáticas existem e afetam o sul do Brasil? 
Francisco Aquino: Não temos dúvidas. Nós da comunidade acadêmica afirmamos que as mudanças climáticas existem. O clima está interagindo com o aquecimento global, e enquanto ainda tivermos massas de gelo nos Andes, na Antártica e na Groenlândia, isso ainda vai contribuir para aquelas ondas de frio intensas, aquelas nevascas intensas, em oposição às ondas de calor, epidemias, febres, outras doenças que estão complicando. Então, um planeta mais quente deixa a região tropical mais quente, e esses vetores se amplificam e se propagam dos trópicos para as regiões subtropicais, que é o caso do sul do Brasil. Um exemplo claro de como o clima do sul tem sofrido mudanças nas últimas décadas é o surgimento da dengue, que nós não tínhamos. Você pode identificar por diversos vetores que hoje existem e que antes não havia. E isso significa que todo o sistema ambiental e climático da América do Sul, do Brasil e do sul do Brasil têm sofrido alterações.

Como funciona a mudança de intensidade do El Niño?
Aquino: Bom, essa é uma pergunta interessante porque o fenômeno El Niño é um fenômeno de variabilidade natural. Até onde foi reconstituída a história, nós podemos falar em cerca de 10, 20 mil anos atrás, o fenômeno El Niño sempre existiu. Em algumas épocas mais intensas, em outros momentos mais fracos. Nunca vamos conseguir ter El Niños idênticos ou La Niñas idênticas. Então o fenômeno natural El Niño consegue perturbar a atmosfera dando sinais. No sul do Brasil chove mais e fica mais quente do que a média. No norte chove menos, fica mais seco. Então ele tem um sinal global. O que tá acontecendo? Nós estamos observando que o El Niño do século, em 1997-98, foi superado ou equiparado pelo de 2015-16. Depois vieram anos normais, sem o evento. O ano de 2015 foi o mais quente do século e superou a marca anterior. Em 2016 tivemos na metade El Niño, e superou 2015. Provavelmente a gente já esteja enxergando que a variabilidade natural do El Niño está sendo alterada pelo aquecimento global. E que anos quentes tornam esses eventos mais intensos.

E o ciclone Catarina, considerado um furacão, que atingiu a região de Torres (RS) em março de 2004? Foi um evento raro ou possui chances de se tornar algo mais frequente?
Aquino: O ciclone Catarina foi um evento raro de se acontecer na nossa região. Porque tínhamos a costa sul-brasileira como um local tranquilo em relação a fenômenos de intensidade. Quando falamos a palavra ciclone significa que é uma área de baixa pressão, ou seja, de instabilidade. Catarina foi classificado no final como um ciclone tropical, isto é, um furacão (mesmo não possuindo a origem numa área tropical). Não é um ciclone típico que você vê na costa leste dos Estados Unidos, da Austrália. Ele teve o desenvolvimento em um sistema híbrido. Um ciclone extratropical, esses que geram a frente fria e tempestades mais severas aqui no sul. E depois de ter passado, se desenvolvido, e quase desaparecido, o fenômeno voltou a ganhar intensidade e se reorganizar, fazendo um caminho totalmente atípico para eventos que normalmente temos na nossa costa atlântica. E de acordo com os estudos e nas palestras que presenciei, ficou estabelecido que a combinação de fluidez atmosférica com águas mais aquecidas do oceano possibilitaram o surgimento de um fenômeno totalmente intenso, excepcionalmente raro e nunca presenciado por nós. E se continuar o aumento na temperatura e as tempestades mais severas prosseguirem, com certeza, fenômenos como esse serão mais frequentes.

E como tem sido essas mudanças? Elas podem afetar economicamente?
Aquino: Eventos extremos têm sido identificados no planeta inteiro. Algumas regiões com a característica de mudança mais marcada: mais chuva, mais seca. Um exemplo é se vocês olharem para os Estados Unidos. A costa Leste dos EUA com mais chuvas, mais eventos de frio. A costa Oeste mais quente, muito mais tempo na seca e se agravando. No Brasil, temos regiões mais secas como o Centro-Oeste e o Nordeste. Todo o Planalto Central hoje tem menos precipitação do que décadas atrás, e a temperatura está subindo muito. Temos estimativas que em 50 anos suba mais de dois ou três graus, o que vai se tornar proibitivo, economicamente e ambientalmente falando, se continuar com agricultura e biodiversidade que tem lá, então isso se torna uma crise ambiental. Se formos falar especificamente em desastres, que são temporais e tempestades severas, que geram inundações, que contribuem para deslizamentos, prejuízos para a agricultura, vamos combinar tudo isso com a ocupação de áreas urbanas irregularmente. Então temos ali uma parcela importante da sociedade que está marginalizada e elas ocupam áreas de risco. Então essa combinação em um cenário que só fica pior, com questões ambientais e climáticas piorando. O Brasil perde hoje algo como R$ 800 milhões/ano com desastres. Seja na agricultura, seja com destelhamento de casas, etc. Isso é uma fortuna. A gente precisaria de uma fração disso para investir em ciência, tecnologia e infraestrutura para melhorar. Isso é dinheiro que a gente perde. É um dinheiro que se perde porque perdeu vidas, perdeu infraestrutura – a péssima infraestrutura que você já tinha.

Um projeto porto-alegrense de futuro

Não é apenas de ameaças que é feito o futuro. Iniciativas estão sendo tomadas, em diversas linhas de frente, para enfrentar as previsões meteorológicas. Grupos de estudo, financiados por grandes instituições, buscam encontrar soluções para os desafios climáticos. E todas elas passam pelo desenvolvimento sustentável.

De acordo com o IBGE, 84% da população brasileira habita em áreas urbanas. Uma parcela significativa desta população reside em locais de riscos, devido a diversos fatores econômicos e sociais. Segundo o Guia da Adaptação à Mudança Climática nas Cidades, são as áreas mais pobres que possuem maiores chances de serem afetadas com maior intensidade, precisando assim de uma maior preparação para eventos adversos.

Resiliência é desafio para o futuro da cidade Foto: Sidd Rodrigues

“A expectativa é que, em breve, o Brasil possa se preparar para desastres de grande proporção com estruturas mais sofisticadas”, explica a arquiteta Thaise Machado. Ela destaca também que, em países com mais experiência para enfrentar eventos extremos, a arquitetura adaptada já não é futuro, mas uma necessidade. “Onde desastres naturais são mais frequentes, ou possuem maiores probabilidades de acontecer, como no Japão por exemplo, os projetos já são adaptados para isso, com tecnologias que impedem o desmoronamento de edifícios, barreiras contra tsunami, etc.” complementa.

Porto Alegre, mesmo com entraves burocráticos e financeiros, está em busca da inovação. Em parceria com a Fundação Rockefeller, idealizadora do Projeto 100 Cidades Resilientes no mundo, foi lançada no início de 2016 a estratégia “Porto Alegre Resiliente”,  baseada em preparar a cidade para futuros impactos e desafios socioambientais presentes, e de certa maneira buscar métodos para reduzir suas gravidades.

O intuito principal da estratégia é que a Capital alcance o objetivo de se transformar em uma cidade mais sustentável em suas causas físicas, sociais e econômicas, valorizando a prevenção de riscos contra eventos extremos, possuindo um ecossistema urbano dinâmico e inovador. “Sabemos que, se não mudarmos o modo como planejamos nossas cidades hoje, muitos irão sofrer, em razão de desastres, choques e estresses atuais e futuros”, afirma o ex-prefeito José Fortunati, na Carta de Apoio ao  Desafio  Porto Alegre Resiliente.

Espelhada em outras cidades pelo mundo, o Cidades Resilientes é voltado para a mitigação de impactos que impõem custos à sociedade, incluindo consequências adversas à saúde humana, perdas de bens e degradação de recursos naturais, sobretudo no caso das populações de baixa renda, dos moradores de assentamentos informais e de outros grupos vulneráveis.

Prefeitura de Porto Alegre lançou em 2016 projeto que busca garantir resiliência da capital à mudança do clima – Crédito: Ricardo Giusti / PMPA

Mesclando justiça social e sustentabilidade, os gestores do projeto buscam avançar na proteção da população da cidade, que já conta com uma população de mais de 1,4 milhão. Boa parte do plano de ação passa pela capacitação da gestão pública, dando capacidade de resposta e prevenção para diversos processos, conforme indicado no Guia da Adaptação à Mudança Climática nas Cidades.

Até 2050, o ambicioso plano espera adaptar 100% dos prédios municipais para utilizarem ou gerarem energia limpa, carregando um município que emitiu 2, 82 toneladas de CO2 na atmosfera em 2013 para a vanguarda do desenvolvimento sustentável. Uma trilha estreita e difícil, pavimentada pelo investimento, boa vontade e consciência ambiental, programada para cuidar do que é nosso.

Em agosto de 2016, candidatos ao cargo de prefeito de Porto Alegre se reuniram no Centro Comunitário Marista do Loteamento de Santa Terezinha com a Rede de Referência do Desafio Porto Alegre Resiliente, para assinarem uma carta-compromisso com o projeto. Após a eleição, foi apresentado em dezembro ao prefeito Nelson Marchezan Júnior, as estratégias e os desenhos do programa. O prefeito eleito, na ocasião, comprometeu-se em dar continuidade a estratégia de resiliência. “Recebemos a sinalização que o projeto deveria continuar, pois era um plano que visava melhorias para a cidade. Não era apenas um projeto de gestão, mas, sim, algo para o futuro”, afirma a secretária executiva do projeto Clarisse Abrahão.

Prefeitura de Porto Alegre busca a resiliência Foto: Ariel Freitas

Atualmente, a cidade de Porto Alegre é considerada um exemplo para as demais cidades resilientes. De acordo com o vice-coordenador do Desafio Porto Alegre Resiliente, David Madalena, o objetivo do prefeito Marchezan é ampliar o programa dentro da própria prefeitura, abrangendo todas as secretarias e gerando resultados que colaborem com o desenvolvimento do município. “O projeto existe, está fortalecido e começa a construir o seu próprio caminho”, conclui.

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