Quem tem medo do arroio Feijó?

Parte do arroio Feijó que se situa no bairro de Americana, em Alvorada. Rua ao lado do arroio é conhecida pelos moradores como “Beira Arroio” – Crédito: Robson Hermes
Cheias ocasionadas por falta de planejamento urbano e descaso ambiental afetam centenas de moradores no município de Alvorada (RS)

Por Bruno Raupp, Lidiane Moraes e Robson Hermes 
Jornalismo Ambiental campus Fapa / Noite

De uma hora para outra o céu muda de cor. As nuvens brancas e silenciosas transformam-se em um manto acinzentado. O sol, que cobria os telhados e o asfalto, desaparece como se nunca tivesse acordado. Um trovão irrompe estrondoso no horizonte. Os pingos de chuva começam a cair rapidamente. Nesse instante, o arroio Feijó, que fica a poucos metros da casa de Carlos, começa a encher de forma vertiginosa.

Morador do bairro Americana, em Alvorada, há quase 30 anos, Carlos Maine conhece muitas histórias sobre os problemas causados pelas recorrentes cheias do arroio. Além de morador, Maine tira seu sustento em casa, em sua pequena oficina mecânica, que já foi severamente danificada pelas enchentes ao longo dos anos.

“Já chegamos a ter água na cintura ao sair de casa. Não passava nem carro nem ônibus aqui na rua. Um horror. Já mandamos fazer uma base de 20 centímetros para o guarda-roupa não estragar”, conta o mecânico.

O caso de Carlos é apenas um dentre as centenas de famílias que já foram e ainda são afetadas pelo excesso de água. Um dos principais fatores causadores deste problema é o descarte de lixo no Feijó, junto ao crescimento desordenado da urbanização nas suas margens.

A ocupação sem planejamento ambiental impermeabiliza o solo, incapacitando o escoamento da água, que antes era facilitado pela vegetação presente nas margens. Dessa forma, quando chuvas intensas atingem a região, a inundação ocorre mais rapidamente em função da perda de absorção do solo.

O descarte irregular de lixo agrava o problema, assim como o esgoto doméstico lançado sem tratamento, já que a nova Estação de Tratamento de Esgoto de Alvorada ainda não entrou em funcionamento. Ironicamente, a ETE de Alvorada fica em zona de alagamento.

Mecânico Carlos Maine relembra situações em que a rua ficou totalmente alagada – Crédito: Robson Hermes

“A promessa deles é construir um dique, aí fica só no papel, entra ano, sai ano, troca o prefeito e eles não fazem nada pelo povo”, observa Carlos Maine.

Diante de reclamações como a de Carlos, em 2012 a Metroplan angariou R$ 228,5 milhões em recursos do Governo Federal para a construção de um dique para impedir novas cheias, principalmente no município de Alvorada, um dos mais atingidos.

O Plano de Prevenção e Combate às Cheias, como é chamado, fazia parte do Programa PAC 2, e, inicialmente, continha nove estudos relacionados a pontos de alagamento, entretanto, após revisão chefiada por Carlos Tucci, pesquisador do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, os estudos foram reduzidos, pois alguns continham interrogações, principalmente em relação às barragens.

Após o corte, restaram os quatro estudos que estão em andamento atualmente, sendo o mais importante a construção do dique de Alvorada. O estudo ainda está na primeira etapa, que engloba os Estudos de Concepção e Anteprojetos de Engenharia, acompanhada pela Metroplan.

Após a conclusão desta etapa, iniciam-se os estudos ambientais que deverão ser submetidos à Fundação de Proteção Ambiental (Fepam). Só depois o início da obra será autorizado.

Para o arquiteto da Metroplan Jayme Keunecke, o estudo deverá ficar pronto até o final de junho de 2017. Após isso, calcula-se um prazo de um ano ou um ano meio para que a análise ambiental seja concluída, pois é um processo sazonal e requer uma leitura minuciosa dos técnicos.

Por este motivo, o prazo inicial de seis meses sofreu aditivos que já somam um ano. Segundo Keunecke, as chuvas e inundações que ocorreram em 2015 fizeram com que o prazo do projeto se estendesse, pois impossibilitaram diversas tentativas de levantamentos de dados. Já para a conclusão da terceira fase, o projeto de obra, ele prevê que demore mais três anos.

O orçamento inicial aprovado pelo Governo Federal também é um dos problemas que esse projeto enfrenta. Situação que a Metroplan está tentando solucionar junto ao Ministério das Cidades.

O técnico da Metroplan também ressaltou a importância do projeto para que novas ocupações de território sejam feitas de forma planejada. O estudo hidrológico incluiu o que é chamado de mancha de inundação, uma espécie de mapeamento que analisa e monitora o alcance da água em períodos de 5 em 5, 10 em 10, 25 em 25, 50 em 50 e de 100 em 100 anos. Com essas manchas, pode se ter ideia da área de inundação e assim utilizar do manual técnico para que não sejam liberadas construções em áreas com risco de alagamento.

“Esse, pra mim, é o principal produto destes estudos. Com isto, é possível chegar no Conselho do Plano Diretor e dizer: olha aqui gente, vocês estão liberando a construção de uma escola primária dentro de uma área que vai inundar anualmente, vocês vão botar dinheiro público numa área de inundação”, exemplifica o arquiteto Jayme Keunecke.

Enquanto as obras do dique não iniciam, centenas de famílias continuarão a sofrer com as cheias. Carlos lembra de uma grande enchente que ocorreu em 2008, quando ele e a família tiveram que elevar seu veículo para dormir sem que a água os atingisse.

“Quando alagou, tive que içar o carro. Tivemos que dormir nele”, contou Carlos. “Pusemos até o cachorro para dentro!”, recorda Madalena Maine, sua esposa.

Outro problema relatado não só pelo mecânico, mas por outros moradores da região, é a desvalorização de seus imóveis ao passo que o valor do IPTU aumenta de maneira estrondosa. Os moradores reclamam que nada é feito em relação ao arroio e que eles mesmos têm que desobstruir as bocas de lobo das ruas que residem para que as cheias não atinjam com força total, mesmo assim, os impostos sobem de maneira abusiva.

“Você paga um dinheirão de IPTU para morar dentro d’água. Vamos ter que comprar uma balsa! É uma vergonha!”, protesta Carlos.

Na mesma rua da oficina de Carlos, é possível observar várias casas à venda e, um pouco mais adiante, algumas residências abandonadas. A equipe de reportagem do blog de jornalismo ambiental da UniRitter tentou contato com a prefeitura do município de Alvorada para esclarecimentos sobre o andamento das obras do dique e aumento do IPTU, mas não obteve resposta.

Algumas casas ao longo da rua da oficina de Carlos Maine, onde a situação mostra o abandono dos moradores em decorrência dos gastos – Crédito: Robson Hermes

Por mais que planos tenham sido tomados com o intuito de extinguir os problemas relacionados às cheias, o medo ainda permanece um companheiro inseparável de Carlos e das centenas de famílias que escolheram o bairro Americana, em Alvorada, como residência e têm o arroio Feijó como vizinho imprevisível.

Enquanto nenhuma solução for concluída, as nuvens cinzas e o som dos trovões ainda despertarão um sentimento de incerteza e impotência em Carlos e nos demais moradores dos arredores do Feijó.

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