Refugiados da nova ponte do Guaíba

Famílias da Ilha Grande dos Marinheiros acompanham a ponte se aproximar cada vez mais de suas casas enquanto esperam notícias sobre o reassentamento – Crédito: Ana Carolina Pinheiro
A construção da Nova Ponte do Guaíba já é uma realidade. Enquanto muitos gaúchos aguardam ansiosamente a conclusão das obras, as famílias da Ilha Grande dos Marinheiros e de outras duas comunidades de Porto Alegre (Tio Zeca e Areia) esperam notícias sobre o processo de reassentamento. O desencontro de informações, o constante atraso nas obras, a possibilidade iminente de serem removidos de suas casas e o apego às plantas, aos animais e às construções que compõem o ambiente da comunidade vêm assombrando os moradores, que esperam desde 2014 pela remoção.

Por Ana Carolina Pinheiro e Lucas Silveiro de Arruda
Jornalismo Ambiental campus Zona Sul / Noite

Foi numa tarde de trabalho que Imaculada Galvão nos recebeu na sede da Cooperativa Resgatando a Dignidade, na Ilha Grande dos Marinheiros. Com muito orgulho ela nos apresenta um peso de porta feito com caixa de leite, em formato de sofá, como sendo o mais novo produto da Cooperativa, que busca transformar o lixo reciclável em artesanato. Porém, toda essa animação some de seu rosto quando anunciamos o tema da nossa conversa: a construção da Nova Ponte do Guaíba e o reassentamento dos moradores da Ilha.

Aos 50 anos, Dona Imaculada teme perder tudo o que construiu nos 27 anos em que mora na mesma casa, na rua Nossa Senhora Aparecida: “Quando eu soube do reassentamento foi um choque, um impacto enorme. Saber que vou ter que sair do meu cantinho, da minha casa”. O terreno onde Imaculada mora com seu marido, Daniel, tem cerca de 12 metros de frente e 17 metros de comprimento, terminando no rio. Na frente da casa, o casal cultiva um dos jardins mais bonitos da comunidade, com diversas espécies de árvores frutíferas, bromélias e orquídeas. Nos fundos, o deque de madeira e o barco indicam que ali vive uma família de pescadores.

Dona Imaculada é mãe de três filhos, de 27, 25 e 21 anos, os dois mais novos nascidos na Ilha. Hoje, com os filhos já adultos, a casa é habitada apenas por ela e seu marido. Pelo perfil familiar, Imaculada está entre as pessoas que deverão ser reassentadas em um apartamento pequeno, nos moldes dos do programa Minha Casa, Minha Vida. A iminência de perder seu jardim, seu barco e o contato com o rio vem sendo motivo de sofrimento: “A minha casa é um refúgio para mim. Quando eu e o Daniel temos um tempo livre, até mesmo durante a semana, a gente coloca o motor no barco e sai rio afora.  A gente tem o barco, a gente pesca, a gente tem material para pesca. Onde é que a gente vai por tudo isso? Onde a gente vai guardar o barco em um apartamento? Isso é uma coisa que eu penso todos os dias…. Onde é que a gente vai colocar tudo o que tem? Eu tenho um jardim em casa. Um jardim, uma horta. Eu planto, eu colho, eu me alimento das coisas naturais da minha horta. Meu marido trabalhava na Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema),  era marinheiro. Lá eles tinham uma distribuição de árvores nativas, e ele trazia para plantarmos na nossa casa”.

Dona Imaculada em seu jardim – Crédito: Ana Carolina Pinheiro

Vidas deixadas para trás

A preocupação de Imaculada com o processo de transição é também compartilhada por inúmeros moradores. Em uma visita ao posto de saúde, conhecemos Jeannifer Stephanie da Silva, de 22 anos. Estudante do 5º semestre de Jornalismo, a jovem atua há dois anos como agente comunitária de saúde na Unidade de Saúde Ilha dos Marinheiros. Nascida na Ilha, Jeannifer afirma estar preocupada com os efeitos do reassentamento na população: “A gente tem pessoas que nasceram aqui, que tem suas raízes, que moram aqui há mais de 40, 50 anos. E agora querem tirar essas pessoas das suas casas? Estão acabando com a cultura, a história, a realidade das pessoas. Acabando com quem as pessoas são. Sabe quando tem aquelas campanhas ambientais de preservação que dizem para não mexermos no habitat dos animais? É a mesma coisa! Eu acompanho os idosos no posto de saúde e sei que muitos vão acabar morrendo! Morrendo de depressão, de saudade do seu cantinho, saudade das suas coisas, do seu modo de vida. Não estão reassentando pessoas, estão acabando com o habitat das pessoas. Acabando com a identidade da Ilha Grande dos Marinheiros”.

Outra preocupação que vem tirando o sono dos moradores é em relação aos seus animais. Segundo as orientações do reassentamento, cada morador teria direito a levar consigo apenas um animal de estimação, como gato ou cachorro. Em uma simples volta pela comunidade, já somos capazes de notar a aflição que isso gera: é difícil encontrar uma casa com apenas um cachorro, por exemplo. Isso sem contar as inúmeras galinhas e cavalos que são facilmente avistados.

“A minha mãe tem dez galinhas e sete cachorros. Das galinhas a gente colhe os ovos, usa a carne. Tem muita gente que cria galinha, por isso que eu digo que aqui ninguém passa fome. Mas até as galinhas vão nos tirar. Dos cachorros, eles já nos orientaram que só vamos poder levar um na mudança. A minha mãe adora cachorro, ela resgata os vira-latas da rua e leva para casa debaixo do braço. Ela vai fazer o que com eles? Escolher no uni-duni-tê qual vai com ela?”, afirma Jeannifer.

A estudante de Jornalismo Jeannifer Stephanie da Silva compartilha suas preocupações com o futuro da comunidade – Crédito: Ana Carolina Pinheiro

Além de todas essas mudanças sociais e de modo de vida a que os moradores estarão sujeitos, pontos de referência históricos da comunidade também sofrerão com a passagem da Nova Ponte, e acabarão sumindo do mapa. A Capela Nossa Senhora Aparecida e o Galpão de Reciclagem da Associação dos Catadores de Materiais, construído em 1985 com a ajuda do Irmão Antônio Cechin (1927-2016), fundador da Comissão Pastoral da Terra no Rio Grande do Sul, e que serviu de referência para as outras 16 unidades de triagem de Porto Alegre, estão com os dias contados.

Segundo o site oficial do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), pensando no impacto nas comunidades gerado pela perda de suas referências, foram realizadas oficinas comunitárias denominadas Cartografia de Referências Comunitárias: “O principal objetivo dessa ação foi reconhecer e demonstrar o devido respeito pelas construções e relações estabelecidas nas regiões que sofrerão a intervenção da obra da Segunda Ponte do Guaíba. Foram duas oficinas em cada comunidade e o resultado obtido foi uma cartografia que contempla as referências não formalizadas (ou não institucionais ou não conhecidas) daqueles locais, mas que fazem parte do cotidiano e da memória das pessoas”.

Para os moradores, o cuidado demonstrado no discurso não corresponde na prática com as ações. A constatação da falta de escuta da comunidade pelos assistentes sociais durante o processo esteve presente em todas as entrevistas. “Eles vieram aqui e nunca perguntaram se a gente queria ou não sair. Eu acredito que eles deveriam ter perguntado se a gente queria ser reassentado, deveriam ter ouvido as pessoas, saber quem era pescador para manter na beira do rio”, afirmou Dona Imaculada. Constatação semelhante à de Jeannifer: “Eles sempre dizem: ah, mas tu vai ganhar uma casa boa… Mas pra mim não vai ser bom. Eu tenho as minhas coisas, o meu cachorro, toda uma estrutura. Mas isso aos olhos do DNIT não é nada, afinal eu vou ganhar uma casa boa. É só isso que eles dizem: que eu vou ganhar isso, que eu vou ganhar aquilo. Mas ninguém quer saber do que eu vou perder”.

Moradores não querem perder suas casas, seus sonhos e suas memórias – Crédito: Ana Carolina Pinheiro

Vizinhança partida

Foi num fim de tarde de sábado que nossa equipe, acompanhada de Jeannifer, chegou na casa de Fabiane Soares, moradora da lha há 18 anos. A casa de Fabiane fica na rua Nossa Senhora Aparecida, há apenas alguns metros de Imaculada. Porém, essa pequena distância que hoje separa as vizinhas é suficientemente grande para afastá-las de vez com o reassentamento. Isso porque a casa de Fabiane fica em uma área que não foi afetada pela construção da Nova Ponte. Segundo o plano de reassentamento, as casas construídas do Beco 18 em direção à BR deverão ser reassentadas. Já as construídas depois do Beco 18 não serão mexidas.

Se a parte da comunidade que será removida encontra milhares de preocupações com o reassentamento, com a parte que fica não seria diferente. “Eu vou ficar, mas eu também me sinto prejudicada. O Clube de Mães sai. O Posto de Saúde sai. A Biblioteca sai. O CRAS sai. A Cooperativa sai. O Galpão sai. Nossos vizinhos saem. E a gente vai ficar aqui, sozinhos com a ponte.  A estrutura que a gente tem aqui hoje já é precária, mas com o reassentamento vamos ficar sem nada”, afirma Fabiane.

Para Imaculada, tanto quem fica quanto quem sai vai sofrer com a divisão da comunidade: “A gente tem os amigos, os vizinhos…  Eu tenho vizinhos que moram do lado da minha casa há 27 anos. A minha casa é do lado do Beco 18. Só tem a minha e mais uma que sai…. A ponte vai passar bem em cima da Igrejinha, do Galpão da Associação e da quadra, que fazem parte da identidade da comunidade. E isso todo mundo vai perder”.

Casas marcadas pelo DNIT – Crédito: Ana Carolina Pinheiro

Limpeza social

A comunidade da Ilha Grande dos Marinheiros é fortemente marcada pela relação com a reciclagem do lixo e, portanto, foi muito impactada com a Lei Municipal 10.531/08. A Lei das Carroças, como ficou conhecida, estabeleceu um período de oito anos para que os veículos de tração animal (VTA) e de tração humana (VTH) fossem gradativamente reduzindo a circulação na Capital.

Para Jeannifer, o reassentamento vem como mais uma medida para maquiar as desigualdades sociais: “Aqui na comunidade tem muita gente que tem cavalo ainda, do pessoal que trabalhava como carroceiro. Aí acabaram com as carroças, que era uma fonte de renda. Tá, aí tu não pode mais ser carroceiro e ganhar aquela graninha ali. Aí tu não pode mais criar galinha, afinal tu vai pra um apartamento. Tu não pode mais pescar. Tu não pode mais ter os teus cachorros. Tu não pode mais ter o teu jardim, tuas plantações. O que eles estão fazendo é uma limpeza social. Primeiro eles terminaram com as carroças, o próximo passo é terminar com quem trabalha com as carroças. Para eles, só o que interessa é tirar essa gente pobre e feia daqui. É construir a ponte, passar uma maquiagem na vila e depois dizer como a ponte melhorou a vida nas ilhas, como deixou tudo bonito”.

Com o constante crescimento da cidade, cada vez mais clubes de luxo e grandes empresas se instalam na região das ilhas do Delta do Jacuí. Esse movimento não passou despercebido aos olhares zelosos dos moradores. “Eu acho que eles estão tirando agora só uma parte das famílias para irem aos poucos. Mas, para mim, logo eles vão dar um jeito de terminar de tirar essa parte todinha. Eu acho que eles vão tirar todo mundo e deixar só mansão. Essa área da beira do rio é uma zona nobre. A gente sabe disso. Tem clubes. Na ilha das Flores tem seis marinas, com os luxuosos iates. Para nossa ilha já veio estaleiro do Catamarã. É aqui a garagem deles, onde eles fazem os reparos e ficam estacionados. Mas atender a população daqui ele não atende”, constata Fabiane.

Segundo Dona Imaculada, o reassentamento prejudica também as pessoas que trabalham com a triagem do lixo seco nas suas próprias casas, que vão perder mais esse espaço: “Tem muita gente que trabalha nos galpões, mas tem mais gente ainda que trabalha em casa mesmo. Tem seu próprio galpão em casa. E vão colocar essas pessoas em apartamentos?! Como vai ser isso? Aí tu começa a pensar e vê que já tiraram os carrinhos e as carroças das pessoas… Aí agora vão tirar a casa e o espaço de trabalho que eles têm em casa também. Eles não entendem que trabalhar com a reciclagem não é nem mais o trabalho das pessoas… É a realidade! A realidade do povo aqui da Ilha Grande é trabalhar com a reciclagem. Por mais estudo que tu tenha, a gente aqui não tem muita chance lá fora. E eu falo por experiência própria. Lá fora a visão da Ilha Grande é como se fosse o último lugar do mundo. A ideia que as pessoas têm é que aqui todo mundo mora abaixo da linha da miséria. O pessoal não enxerga que isso aqui é um lugar maravilhoso, é um lugar lindo! ”.

Mapa da Região da Nova Ponte do Guaíba – Fonte: http://www.dnit.gov.br/copy_of_sala-de-imprensa/arquivos-soltos/ponte-do-guaiba.jpg/view

O reassentamento

O Loteamento Ilha Grande dos Marinheiros, local onde deverão ser construídas as casas e os apartamentos das famílias removidas, fica do outro lado da atual área da comunidade, que foi ocupada de forma irregular. A área de 15 hectares está localizada na Travessa Engenheiro Regis Bitencourt, 200, às margens da BR 290, e fica entre os canais Furado Grande e Saco da Alemoa, dentro de uma Área de Preservação Permanente e também do Parque Estadual Delta do Jacuí.

Para Jeannifer, a iminente remoção não seria uma ideia ruim se fosse efetivamente pensada para as famílias, e não para a ponte: “A princípio, a ideia do reassentamento, de garantir uma casa melhor, é ótima. Ainda tem gente na comunidade que não tem banheiro em casa. Mas a gente está vendo que não vai ser isso. Eles querem construir prédios de apartamentos de cinco andares em cima de uma área de banhado. Vai afundar! Em um ano afunda! Racha, cai.”.

Apesar de não ser distante da atual localização da comunidade, a desconfiança dos moradores está no fato de o terreno destinado ao reassentamento ser um enorme banhado. “Parece que eles não perceberam ainda que isso aqui é uma ilha! Aquela área que eles escolheram sempre alaga. Eles vão fazer casas que em um ano já vão estar danificadas, pois lá vai água, alaga! Eu moro aqui há 27 anos, eu conheço! A gente vê isso e fica bem apreensivo”, afirma Dona Imaculada.

Segundo Neusa Dias, moradora há 34 anos da Ilha, a comunidade já teve provas de que terrenos como aquele não são ideais para a construção: “A creche lá da Ilha do Pavão foi a mesma coisa. O pessoal avisou para eles que era pouco aterro, mas eles falaram que estava perfeito. Aí deu a enchente e o que aconteceu: a creche ficou meia janela d’água. A creche da Ilha das Flores foi a mesma coisa. Eu trabalhei na creche das Flores em 2010. Eu estava com uma turma de maternal e fui obrigada a sair da sala porque o chão se abriu. A creche está rachando ao meio. Imagina construírem um prédio de cinco andares assim! Construir os prédios e as casas ali em seis meses, um ano? Não acredito que vá dar certo”.

Reassentamento Ilha Grande dos Marinheiros – Fonte: http://pontedoguaiba.com.br/site/fotos/

Outro ponto do processo de remoção que ainda não é consenso entre os moradores é a possibilidade ou não de Compra Assistida. Para Jeannifer, que diz não acreditar na possibilidade de integrar o programa de compra, a confusão se deu porque as primeiras equipes de cadastro ofereciam essa possibilidade, que com o tempo foi descartada. “Eles nos perguntavam se a gente teria interesse. Muita gente disse que sim, pensou em se mudar para o interior, ir para perto da família. Mas depois mudaram o discurso, falaram que nunca houve a possibilidade de compra assistida, só o reassentamento. Ofereceram também Aluguel Social, mas ninguém aceitou. A comunidade inteira rechaçou a ideia”, relata.

Sobre a escolha de quem seria reassentado em casa ou em apartamento, nada ainda é claro. Uma orientação do perfil familiar é o que tem guiado os moradores, que esperam saber logo quais vão ser as características do seu imóvel. “Na verdade, eles apresentaram o perfil de quem ia ser reassentado em casa e quem ia para apartamento, mas ao certo ninguém sabe. Nunca me disseram: tu vai para um apartamento que vai ser assim, tem esse tamanho, é desse jeito. Nas reuniões eles nos mostram um show de animação. Na animação é tudo lindo, mas a planta física mesmo, com as medidas das casas, a disposição das peças, a metragem, eles nunca nos mostraram. ”, questiona Jeannifer.

Mobilidade urbana

Outro fator levantado pelos moradores é o de a obra da ponte já estar obsoleta antes mesmo de concluída. Para Jeannifer, que no dia da nossa primeira entrevista havia ido trabalhar de bicicleta, o projeto da nova ponte deveria contar com um espaço para as ciclovias: “O pessoal aqui usa muito a bicicleta. A minha faculdade é aqui na descida da ponte, e eu poderia ir pedalando. Eu só não vou porque é muito perigoso, dá muito acidente. É uma BR, têm muito movimento. Muita gente vai trabalhar de bicicleta, mas é um risco. Eu acho que se a ponte tivesse uma ciclovia seria um jeito de integrar mais as Ilhas ao centro da cidade”.

A ausência de ciclovias e faixas para pedestres no novo acesso à capital gaúcha retrata o descaso e o planejamento deficitário das autoridades para com os transportes alternativos. Pensando nisso, em 2014, a ONG Mobicidade se manifestou através de uma carta aberta ao Ministério dos Transportes e ao DNIT, externando a insatisfação com os rumos que a obra vinha – e ainda vem – levando. No documento, afirmam: “Viemos através desta carta manifestar nosso repúdio à decisão do DNIT de não incluir acesso para pedestres e ciclistas na nova ponte sobre o Guaíba, em Porto Alegre, e solicitar uma urgente revisão do projeto, a fim de não prejudicar a mobilidade e a segurança de pessoas que realizam seus deslocamentos de bicicleta na região metropolitana da Grande Porto Alegre.

Hoje, a atual ponte sobre o Guaíba é a única opção para quem precisa realizar o trajeto entre Porto Alegre, região das Ilhas, Guaíba, Eldorado do Sul e demais cidades da Região Metropolitana na região a oeste da capital gaúcha. Entretanto, essa ponte não apresenta uma travessia segura para quem faz esse trajeto em bicicleta, obrigando os ciclistas a compartilharem as rampas de acessos e a ponte sem acostamento com um trânsito pesado e agressivo de veículos que nem sequer respeitam a velocidade máxima de 40 km/h estipulada para o local”.

Ainda de acordo com a ONG, a obra ligará pontos da Região Metropolitana e bairros de Porto Alegre, portanto, é dever das organizações que fazem parte do desenvolvimento do projeto garantir a mobilidade daqueles que se deslocam em ambos os sentidos, independentemente do tipo de veículo utilizado e, em especial, para os cidadãos que terão apenas esta opção para chegar ao grande centro. A organização vem realizando, desde 2014, constantes reuniões com responsáveis do DNIT, apontando situações que violam a Política Nacional de Mobilidade Urbana.

A nova ponte contará com duas faixas para a circulação de automóveis nos dois sentidos, além de acostamentos laterais com três metros de largura que, futuramente, poderão se tornar as terceiras faixas. No entanto, não será permitido o fluxo de pedestres e veículos não motorizados, mesmo com o crescente interesse pelo cicloturismo e práticas ciclísticas. Vale lembrar que as avenidas de acesso ao novo empreendimento, Voluntários da Pátria e Dona Teodora, contarão com ciclovias, segundo o Plano Diretor Cicloviário Integrado de Porto Alegre , aumentando assim o número de ciclistas na região.

A previsão do DNIT é que 50 mil veículos circulem diariamente pela Nova Ponte do Guaíba, o que implica em milhares de motores emitindo gases tóxicos todos os dias no deslocamento entre o Delta do Jacuí e Porto Alegre, e vice-versa. Se permitidos, os transportes alternativos causariam impactos positivos no meio-ambiente da região, reduzindo o volume de poluentes e incentivando à adesão de práticas saudáveis e sustentáveis.

Andamento da obra da Nova Ponte do Guaíba – Crédito: Ana Carolina Pinheiro

Dados incertos

A insegurança das famílias afetadas tem justificativa: o desencontro de informações alegado pelos moradores fica explícito também nos documentos oficias do processo. Segundo release do site oficial do Consórcio Ponte do Guaíba/RS, responsável pela construção da ponte e dos reassentamentos, o DNIT teria cadastrado 1014 famílias e 33 estabelecimentos comerciais para as três áreas de reassentamento. Ainda segundo o texto, datado de janeiro de 2016, “os moradores da ilha Grande dos Marinheiros irão para a área localizada na margem sul da BR-116/290 onde serão construídas 573 unidades habitacionais divididas entre casas e apartamentos. A comunidade das vilas Tio Zeca e Areia será dividida, ficando uma parcela na mesma área onde serão construídos 14 prédios com cinco pavimentos cada e quatro apartamentos por andar, além da revitalização da área. Os demais irão para loteamento a ser construído na Avenida Ernesto Neugebauer, na antiga área da Superintendência de Patrimônio da União (SPU), onde serão construídas as demais unidades habitacionais (casas e apartamentos)”.

Já segundo o site oficial do DNIT, foram cadastradas 1031 famílias. Além da diferença numérica, outro dado importante chama a atenção: no que tange as opções de moradia para as famílias reassentadas, o texto afirma que “para abrigar as famílias consideradas vulneráveis, será disponibilizado o Programa de Compra Assistida. Na falta imediata de unidades habitacionais, nas proximidades das comunidades afetadas, será adotado o Programa de Abrigamento Provisório, que consiste no estabelecimento de moradias de caráter temporário. Uma das modalidades trata do Aluguel Social, possivelmente praticado para um pequeno número de moradores, que possuam suas residências em locais estratégicos e que interfiram no planejamento executivo das obras”, e não faz referência nenhuma às áreas de reassentamento que deveriam ser construídas pelo Consórcio Ponte do Guaíba/RS.

Há também divergências na Licença Prévia emitida pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (Fepam) para o reassentamento da Ilha Grande dos Marinheiros que está disponibilizada no site do Consórcio e a versão que pode ser consultada no site da Fundação. Ambas falam em 1465 habitantes reassentados, mas na primeira licença, que ainda pode ser encontrada no site do Consórcio, está descrito que esse número equivale a 250 residências unifamiliares, informação que é omitida na licença atual e que destoa – e muito – das 573 unidades citadas no release do Consórcio. Vale ressaltar que a versão que omite o número de casas que serão construídas é a mais recente, e revoga a anterior.

Diferenças entre a Licença Prévia encontrada no site do Consórcio e no site da Fepam

A equipe de reportagem tentou entrar em contato com o Consórcio Ponte do Guaíba/RS na tentativa de esclarecer os números e obter os dados corretos sobre o reassentamento, mas foi informada que todas as demandas deveriam ser encaminhadas para o DNIT. Já a assessoria do DNIT informou que não seria possível disponibilizar técnicos ou engenheiros capazes de esclarecerem as nossas dúvidas devido ao andamento das obras da Nova Ponte do Guaíba, e que tais profissionais realizavam contato permanente com as famílias que serão reassentadas na Ilha Grande dos Marinheiros.

Resposta do Consórcio aos questionamentos da equipe de reportagem

Operação Lava Jato

A construção da nova ponte está nas mãos do Consórcio Ponte do Guaíba/RS. Segundo o site oficial, o Consórcio é constituído pelas empresas Construtora Queiroz Galvão S/A, que responde por 97% das obras, e EGT Engenharia Ltda, que responde por 3%. O grupo Queiroz Galvão, responsável pela prestação de serviços técnicos especializados de engenharia para execução das obras de construção da nova ponte, esteve envolvido recentemente no maior escândalo de corrupção do cenário político brasileiro. Citado na 33ª fase da Operação Lava Jato, a construtora foi acusada de pagar cerca de 10 milhões de reais à Petrobras ilegalmente. Em agosto do ano passado, o ex-presidente e o ex-diretor foram presos preventivamente sob a alegação de possuírem ligações com dezenas de crimes fiscais, ligados à empreiteira.

Os desdobramentos da Operação recaíram, logicamente, sobre o andamento das obras da Nova Ponte do Guaíba, atrasando ainda mais o empreendimento, que deveria ser finalizado em setembro de 2017. A última estimativa apontou que, caso os reassentamentos sejam realizados conforme o planejado, a obra será entregue em dezembro de 2018, gerando, ao que tudo indica, uma legião de refugiados.

Uma ideia sobre “Refugiados da nova ponte do Guaíba”

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