Poluição do trânsito também mata

Engana-se quem pensa que automóveis só matam em acidentes; a fumaça dos carros traz muitos riscos à saúde.

1ª Semana de Combate à Poluição causada por Veículos a Diesel foi realizada em Porto Alegre em agosto de 2010 pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e EPTC e suspensa em 2014 – Crédito: Jonathan Heckler/PMPA
1ª Semana de Combate à Poluição causada por Veículos a Diesel foi realizada em Porto Alegre em agosto de 2010 pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e EPTC e suspensa em 2014 – Crédito: Jonathan Heckler/PMPA

Por Alessandra Pinheiro, Bárbara Scussel, Jenifher Mello e Jéssica Fontoura – Jornalismo Ambiental/Noite

A poluição do ar matou cerca de 7 milhões de pessoas no ano de 2012 segundo estimativas divulgadas recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Entretanto estes dados não assustam quem lida diariamente com pessoas que sofrem de problemas respiratórios.

Para o médico Pneumologista Giuliano Scornavacca, que atua na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, a poluição do ar é um sério problema que só tem aumentado com o crescimento da frota de automóveis, um dos grandes responsáveis pela emissão de poluentes.

“O monóxido de carbono que é desprendido dos carros é altamente prejudicial à saúde. Ele piora doenças como asma, bronquites e rinites. Além disso, os carros liberam alguns metais pesados que não chegam a ter um impacto tão grande à saúde, mas devem ser considerados devido ao dano que causam ao meio ambiente”, salienta Scornavacca.

O vilão é o automóvel

É difícil eleger um único vilão quando se trata da poluição atmosférica. Muitas ações dos seres humanos contribuem para piorar a qualidade do ar nas cidades. As indústrias que emitem gases tóxicos e as queimadas são fortes candidatas, entretanto é incontestável, o vilão do momento é o automóvel.

Em áreas muito populosas e com uma grande frota de veículos, como a cidade de São Paulo, a baixa qualidade do ar chega a matar mais do que o câncer de mama e do que os acidentes de trânsito, segundo estudos da Faculdade de Medicina da USP.

A queima dos combustíveis, principalmente da gasolina, emite monóxido de carbono, que pode impedir a respiração do oxigênio, fundamental para a vida. Além da fumaça, poeira e fuligem provenientes dos veículos movidos a diesel, que são emitidas diariamente.

Os idosos e as crianças são os mais atingidos pelos danos causados pelo monóxido de carbono e pela fumaça tóxica, pois não possuem a mesma imunidade de um adulto. “Essas duas faixas etárias sofrem mais do que as outras. O sistema imunológico da criança é mais sensível, não está pronto ainda, e o do idoso já está muito debilitado”, explica o pneumologista Giuliano Scornavacca.GRÁFICO COMPLETO

Combatendo o vilão

As informações trazidas pelo médico da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre não são nada animadoras. É praticamente impossível se proteger e evitar os malefícios trazidos ao respirar nas metrópoles. Quem vive nas capitais e grandes centros não tem muito o que fazer já que as medidas não estão totalmente em nossas mãos.

“O que poderia minimizar os efeitos da poluição seriam
menos carros, mais veículos híbridos e árvores”

“A não ser que você vá para um lugar onde não há carros, não dá pra fazer nada. Não adianta usar máscara cirúrgica, ela não vai te proteger de fato. O que poderia minimizar os efeitos seriam menos carros, mais veículos híbridos e árvores”, diz o médico.

E mesmo com diversos estudos já divulgados pela Organização Mundial da Saúde relacionando a poluição do ar a outros problemas seríssimos que afetam e matam a população como o câncer, infecções respiratórias, derrames e danos ao cérebro, de acordo com a mesma organização a situação do nosso ar não é ainda uma prioridade governamental.

“O poder público precisa definir a poluição do ar como um problema prioritário e que vai ser respondido por medidas específicas e em um tempo determinado. Medidas como rodízio de carros e uso de máscaras não substituem investimento em fontes de energia renováveis e no transporte público”, ressalta Carlos Dora, coordenador do Departamento de Saúde Pública e Determinantes Sociais e Ambientais da OMS, em um relatório publicado em março deste ano.

Capital desprotegida

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), Porto Alegre atingiu aproximadamente o número de 1,409 milhões de habitantes, no ano de 2010. Para cada 1,8 habitante, há um veículo na capital gaúcha, de acordo o Detran-RS. Este índice de motorização corresponde ao ano de 2013. Se olharmos dez anos atrás, a proporção era de 2,7 pessoas por carro. Com todo este aumento da frota em conjunto com a população, Porto Alegre é altamente carente em questões de responsabilidade ambiental.

Existem oito Estações de Monitoramento do Ar, entre elas: Estação Centro, Azenha e Humaitá, a mais recente, inaugurada no ano de 2013. Das oito estações que deveriam monitorar qualidade do ar na Capital, só uma funciona.

Além disso, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estas estações não medem um dos índices mais prejudicais para a saúde da população. O material particulado MP 2,5, com partículas muito pequenas (até 2,5 micrômetros de diâmetro) que podem provocar doenças respiratórias.

Mas não é só de monitoramento que Porto Alegre é desprovida. Até o ano passado, a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) realizava uma ação chamada “Operação Ar Puro”. O objetivo era medir a emissão de gases tóxicos, submetendo ao teste de emissão de poluentes (opacímetro) os veículos que utilizam o Diesel como combustível. Em conjunto com esta atividade, já era realizada a checagem de documentos e equipamentos obrigatórios.

Porém, este ano a ação foi suspensa. De acordo com Almir Raupp da Rosa Júnior, Engenheiro Mecânico da Inspeção Veicular da EPTC, não existe um motivo real para que a atuação tenha sido suspensa. “O pedido para que esta atuação volte já foi levada à diretoria. A participação do público também é fundamental”, ressalta Almir. Segundo ele, é necessário que a população entre em contato com a empresa pedindo para que esta medida retorne às ruas.

          Dados coletados nas operações da EPTC em 2013
tabela eptcA orientação do engenheiro para o cidadão que estiver interessado em fazer esta inspeção, enquanto a ação da EPTC está suspensa, é que ele procure uma oficina que contenha a aparelhagem adequada para esta fiscalização.
A volta da “Operação Ar Puro” deve ser solicitada via telefone (118) ou diretamente na sede da empresa, na Avenida Érico Veríssimo 100, onde o pedido deve ser feito por escrito. “Acredito que vale à pena o pedido da população. Saber que o público aprova este tipo de trabalho é muito importante”, afirma Almir.

A importância do catalisador de ar

A emissão de gases tóxicos por veículos automotores é a maior fonte de poluição atmosférica nas grandes cidades. Segundo o site Ambiente Brasil, esses gases são responsáveis por até 40% da poluição do ar. O problema se agrava com o crescimento do número de veículos nas ruas. Em áreas metropolitanas, com grande concentração de veículos, a presença de monóxido de carbono prejudica muito a qualidade do ar.

Por isso a utilização do catalisador de ar é indispensável nos veículos. Este filtro é responsável pela recombinação dos gases tóxicos oriundos da queima de combustível no interior do motor do automóvel. Essa recombinação permite com que estes gases sejam transformados, prejudicando menos o meio ambiente.

Cada proprietário de veículo tem a responsabilidade de fazer a manutenção correta do catalisador do seu carro. Tendo em vista que com o passar do tempo o catalisador vai perdendo sua capacidade de filtragem, ele deve ser substituído. A frequência com que deve ser feita a análise do equipamento é em média a cada 40 mil quilômetros rodados.

Segundo o Instrutor de aulas teóricas do Centro de Formação de Condutores Turing, Jorge Lucas, o condutor que não realizar a manutenção regular do catalisador de ar pode ser multado, dependendo da forma que for inspecionado o veículo.

“Essa penalidade poderá ser aplicada pela inspeção veicular. Caso na vistoria seja comprovado o mau funcionamento do catalisador, o proprietário do veículo pode ser penalizado com multa de R$ 127,00 e cinco pontos na habilitação, por se tratar de infração grave”, adverte Jorge Lucas, do Turing.

Essa vistoria varia conforme o combustível que abastece o veículo. “Os carros movidos a Gás Natural Veicular precisam ser revisados anualmente no Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). Os veículos movidos a álcool e gasolina passam por essa revisão somente no momento de transferência de veículo”, informa o despachante de trânsito João Roberto.

Além da multa, há um enorme prejuízo ao meio ambiente, já que no caso do catalisador não estar filtrando e recombinando esses gases, eles são jogados diretamente na atmosfera carregados de partículas tóxicas que irão comprometer a qualidade do ar. Por isso, desde 1992 os veículos fabricados já necessitavam o uso do equipamento, e a partir de 2014 todos os veículos, inclusive os movidos a óleo diesel, devem sair de fábrica com o equipamento.

Alternativa sustentável

Uma alternativa para driblar o uso constante dos veículos é a bicicleta. A bike é um modo de transporte alternativo, viável para pequenas e médias distâncias e quando integrada a outros modos permite atingir os destinos desejados.

O uso de bicicletas no trânsito das grandes capitais está se tornando cada vez mais adequado, já que se trata de um meio de locomoção não poluente. O apelo pela utilização deste meio de transporte alternativo é devido aos apelos globais sobre a poluição.

A utilização da bicicleta como meio de transporte individual concentra atributos que contribuem com a democratização do uso de vias públicas e com a redução de congestionamentos. Além destes pontos, a utilização das bicicletas possibilita a redução do impacto ambiental, redução de gastos com a saúde e do consumo energético.

Principais vantagens da bicicleta

• Baixo nível de ruído;
• Grande mobilidade e agilidade no tráfego;
• Baixa intrusão visual;
• Ausência de emissão de gases poluentes;
• Benefícios à saúde;
• Necessidade de pouco espaço na via e em estacionamento;
• Redução do custo nos deslocamentos diários, com baixo custo de aquisição e manutenção do equipamento.

“Desde que comecei a ir para o meu serviço de bicicleta tenho me sentido normalmente mais disposta para trabalhar. Tanto as pessoas que andam de carros, como as que se deslocam de ônibus, já chegam esgotadas pelo transtorno do trânsito”, diz Luciane Goulart, que reside no bairro Santana e trabalha no bairro Agronomia, em Porto Alegre.

 

 

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