O Jardim Botânico de Porto Alegre pede socorro

Parque abriga uma extensa variedade de vidas que vivem a incerteza da mudança de administração do local – Crédito: Daniela Knevitz
Com a decisão do governo gaúcho, sancionada pelo poder legislativo, de extinguir a Fundação Zoobotânica, transferindo suas atribuições para a Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, paira uma dúvida sobre o futuro do Jardim Botânico de Porto Alegre, considerado um dos melhores do Brasil.

Por Daiana Camillo, Daniela Knevitz e Larissa Zarpelon
Jornalismo Ambiental campus Fapa / Noite

A flora do Jardim Botânico de Porto Alegre é tão bonita que parece um quebra-cabeça, onde todas plantas que ali vivem se encaixam em seu devido lugar. É como se cada pedacinho de terra tivesse sido feito especialmente para abrigar as raízes de alguém que foi colocado ali com tanto amor, que jamais poderia sair.

No ano de 2016, o Jardim Botânico da capital gaúcha, um dos melhores do país, foi visitado por 63.294 mil pessoas e 327 escolas. Somente em janeiro e fevereiro de 2017,  passaram pelo local exatos 4.407 mil visitantes, que se mostram cada vez mais preocupados com o futuro do parque ameaçado de extinção pela gestão atual do Palácio Piratini.

Em 10 de setembro de 1958, o Jardim Botânico de Porto Alegre abriu suas portas pela primeira vez. O parque, considerado categoria A pela Resolução 266/2000 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), é um dos cinco maiores jardins botânicos do Brasil e dono de uma beleza exuberante que encanta qualquer um que passe por ali.

A professora aposentada Denise Lucena mora nas proximidades do Jardim e frequenta o local com o marido há muitos anos. Após o anúncio da extinção da Fundação Zoobotânica, as visitas diminuíram. “Nós viemos no abraço, mas depois do baque, a gente desanimou. A mudança na administração não vai ajudar em nada”, desabafou.

Patrimônio em risco

O Jardim Botânico – que fica próximo de uma das avenidas mais movimentadas de Porto Alegre – nem parece pertencer a Capital, pela calma e tranquilidade transmitidas – Crédito: Daniela Knevitz

O agrônomo e chefe da sessão de educação ambiental do Jardim Botânico de Porto Alegre, José Fernando Vargas, imagina que muita coisa venha a se modificar com a troca de comando para a Secretaria Estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. “A gente sabe do esforço que é necessário para manter isso aqui funcionando. Com o quadro atual, com 40 funcionários que temos, já precisamos nos esforçar. Como ficará o parque sem funcionários? ”, questiona.

Na gestão do Jardim Botânico há técnicos agrícolas, jardineiros, engenheiros florestais, agrônomos e botânicos. Alguns funcionários dedicaram a vida ao Jardim Botânico. “Eu trabalho aqui somente há 16 anos, mas tenho colegas que plantaram boa parte dessas árvores que estão aqui”, relata o agrônomo educador ambiental.

“Uma mudança pode trazer sequelas irreparáveis ao parque que possui 5 mil plantas, de 1.200 espécies diferentes, algumas, inclusive, já não existem mais em seu habitat natural”, diz Vargas.

A partir da década de 1970, quando a Fundação Zoobotânica assumiu a administração do Jardim Botânico, o foco do trabalho passou a ser a flora do Rio Grande do Sul. Além disso, o parque participa de estudos onde são listadas plantas que estão ameaçadas por extinção, como a Lista Vermelha da Flora do Rio Grande do Sul.

Por meio desses estudos, são definidas as prioridades de coleta e preservação. “Plantas que estão mais ameaçadas, que são raras ou nascem em uma região muito pequena, que vai expô-la a riscos, são material prioritário para nós”, explica Vargas.

Acervo que encanta

O Jardim Botânico de Porto Alegre tem casas de vegetação para coleções de cactos, orquídeas e bromélias. Mesmo não sendo considerados desse habitat, curiosamente os cactos tem um grande espaço no acervo. Para José Fernando, o conjunto é considerado como “a menina dos olhos do Parque”, já que é a segunda maior coleção do Brasil.

Há ainda uma coleção com 150 espécies de plantas medicinais classificada como didática, por ser referência de fitoterapia para o Sistema Único de Saúde (SUS). As plantas também possuem sua classificação botânica correta, o que facilita o trabalho, já que, na maioria das vezes, essas espécies têm diferentes nomes em cada região, o que acaba causando confusão na hora de fazer o tratamento adequado.

O local conta com 150 espécies de plantas medicinais que auxiliam em tratamentos fornecidos pelo SUS – Crédito: Daniela Knevitz

O jardineiro e agricultor que cuida da sessão de plantas medicinais, Pedro Ernesto, trabalha há 41 anos no Jardim Botânico, sendo 12 somente na coleção de plantas medicamentosas. Pedro explica que diversas plantas chegam ao parque e que quando não as conhece, busca ler para conseguir tratá-las da melhor forma possível. “Algumas a gente sabe para o que é, mas eu não sou fitoterápico, sou só um cultivador. Então quando chega alguma coisa nova, eu procuro descobrir todas as informações”.

A coleção conta com plantas conhecidas, como a Macela do Campo, Pimenta, Babosa, Erva Santana. Seu Pedro lembra que algumas plantas eram muito usadas no interior, onde nasceu e cresceu. “Eu conhecia lá fora a Erva Santana, usava muito para a micose. Tem muitas aqui que eu usava, tem o Gervão que a gente misturava com açúcar e leite, era um santo remédio para tosse”.

Comércio que estimula a preservação

O Jardim Botânico, através do seu Setor de Viveiro, disponibiliza para comercialização 100 espécies de mudas florestais nativas do Rio Grande do Sul (frutíferas e ornamentais), além de medicinais. Entre as mais conhecidas estão a cerejeira, o ipê amarelo, branco, roxo e a jabuticaba.

As espécies são indicadas para trabalhos de recomposição e enriquecimento ambiental e para projetos com foco no paisagismo ecológico, com utilização de representantes da flora silvestre. As mudas produzidas no parque têm como principal característica a qualidade genética, porque a busca pelo material reprodutivo prioriza coletas em ambientes naturais e ecologicamente equilibrados.

“A gente vai a campo, coleta as sementes e quando precisamos de um lote reduzido de exemplares comercializamos no viveiro o excesso”, relata o educador ambiental José Fernando Amaral.

Fernando ainda diz que as mudas têm procedência conhecida, e que se algum visitante chegar ao viveiro e expuser que quer refazer uma mata auxiliar onde ele mora, os funcionários irão explicar qual o melhor material com maior chance de viver na área.

Ele informa ainda que o viveiro do parque é diferente dos outros, pois não visa o lucro comercial e sim a conservação das plantas. “Temos plantas que tu não irás encontrar em viveiro comercial, porque lá eles vão produzir o que vende mais e o nosso objetivo não é este”.

Possíveis impactos da mudança de administração

Para o biólogo e analista ambiental da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) Luís Fernando Carvalho Perello, a extinção da Fundação Zoobotânica e consequente passagem da administração para a Sema representa um retrocesso enorme. “A perda que a gente vai ter na gestão ambiental vai ser muito grande porque a Fundação conseguiu ocupar alguns espaços muito importantes. Por exemplo, boa parte das tomadas de decisão que a Fepam faz hoje, enquanto órgão licenciador do Estado, faz com base no conhecimento gerado pela Fundação”.

Perello acredita que a extinção levará a uma perda que levará anos para ser recuperada, pois o patrimônio biológico atual só se consegue depois de muito tempo de trabalho. “Outro aspecto importante, são que essas informações e esse conteúdo, além do patrimônio de conhecimento que a Fundação conseguiu angariar, tem enorme credibilidade em nível nacional e internacional. Ela é responsável pela produção da lista de espécies ameaçadas de extinção. Quem vai fazer isso?”, questiona.

A categoria A atribuída pelo Conama ao Jardim Botânico é outra questão que tem preocupado. “Foi muito difícil chegar nessa categoria e isso significa excelência, significa que damos uma contribuição efetiva para a gestão ambiental no Estado”, explica Perello.

Flores fazem parte do acervo e encantam visitantes – Crédito: Daniela Knevitz

Entre outras atribuições, a categorização A significa que existem amostras de espécies vegetais que estão desaparecendo, além do que, a Fundação e por consequência o Jardim Botânico são a entidade no Rio Grande do Sul reconhecida pela União como a única capaz de ter um banco genético das espécies da flora no Estado.

Perello afirma que não acredita na capacidade da Sema em manter o Jardim Botânico por falta de pessoal. “É como tu pegares um profissional da secretaria que trabalha com gestão de unidade de conservação e dizer o seguinte: qual a formação desse cara? Biólogo? ‘Se é biólogo ele pode trabalhar na Fepam e a partir de amanhã ter o licenciamento’. Não é assim que funciona”.

Dentro da Biologia, assim como na área médica, existem especialidades e para o analista ambiental, apesar de um profissional estar habilitado para fazer o licenciamento ambiental no seu campo de atuação, se não possuir formação específica para isso de nada adiantará.

Qual a posição da Sema?

Falando em nome da secretária estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Ana Pellini, a assessora de comunicação da Sema, Catarina Gomes, informou ao blog de jornalismo ambiental da UniRitter que o Jardim Botânico de Porto Alegre não deixará de existir.

Catarina garantiu que o parque continuará aberto para visitações e assegurou que medidas estão sendo tomadas para a criação de um departamento dentro da secretaria, que irá “absorver esses serviços assegurando sua qualidade técnica”, referindo-se às demandas do Jardim Botânico.

Quando questionada a respeito da possibilidade de que o Jardim perca classificação A feita pelo Conama, a assessora de comunicação da Sema disse que o parque poderá perder sua categorização caso deixe de ter em seu quadro a quantidade necessária de técnicos com a titulação exigida pelo Conselho.

A reportagem não obteve resposta da Sema para as seguintes perguntas: 1) existe algum prazo para que a transição dos serviços da Fundação Zoobotânica para a Sema?; 2) há um projeto para a nova administração do parque, que conforme a emenda aprovada no texto da lei 14.982 será transferida para a Sema?

Mesmo que o RS não seja o habitat natural da espécie, os cactos tem grande espaço no acervo e são considerados “a menina dos olhos do Parque” – Crédito: Daniela Knevitz

Governo diz que não tem dinheiro

O governador do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori, alegando dificuldades financeiras do Estado, aprovou no final de 2016 um pacote na Assembleia Legislativa autorizando a extinção de nove fundações, entre elas a Zoobotânica. A Fundação administra, além do Jardim Botânico e do Museu de Ciências Naturais, ambos no mesmo terreno em Porto Alegre, o Parque Zoológico de Sapucaia do Sul.

Em entrevista, o secretário-chefe da Casa Civil, Márcio Biolchi, esclareceu que a extinção das fundações foi uma das medidas tomadas para estancar o rombo nos cofres públicos que, segundo ele, chegaria a R$ 8 bilhões atualmente. O secretário apresentou no início do mês de abril um plano de modernização das estatais CEEE, Sulgás e CRM, empresas que também passarão por mudanças significativas.

“Nós não ficamos silenciosamente aguardando a oportunidade de apresentação. Viemos cumprindo uma agenda. Fizemos algumas mudanças. Terminamos com algumas secretarias, extinguimos algumas fundações, algumas companhias, remodelamos o Estado”, relata Biolchi. O secretário garante que, antes destas medidas, o Palácio Piratini esgotou todas as alternativas possíveis.

A administração do Jardim Botânica deverá ser transferida da Fundação Zoobotânico, em processo de extinção, para a Secretaria Estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema). Uma das emendas aprovadas no legislativo estabelece que a Fundação só será extinta após a transferência total dos seus serviços para a Sema.

A comunidade se mobilizou contra a decisão do governador, que sancionou os projetos que autorizam as extinções no dia 21 de dezembro de 2016. O Ministério Público ajuizou uma ação em fevereiro de 2017 para impedir a venda do Jardim Botânico. Segundo o MP, o objetivo é impedir eventuais prejuízos à sociedade.

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