Fundação Zoobotânica luta contra a sua extinção

Bolsistas Deivid Pereira e Dener Hiermann durante manifestação em prol da Fundação Zoobotânica realizada no Parque da Redenção na Semana de Porto Alegre – Crédito: Ana Paula Lima
Funcionários denunciam que o fim programado da Fundação Zoobotânica fragilizará ainda mais as políticas de conservação ambiental no Rio Grande do Sul, pois a Secretaria Estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema) não apresenta condições de assumir as funções científicas desempenhadas atualmente pela FZB.

Por Ana Paula Lima, Nathalia Kerkhoven e Thayane Lopes
Jornalismo Ambiental campus Fapa / Noite

“Onde fica o Jardim Botânico? É um parque? Fica em Porto Alegre? A Fundação fica dentro desse Jardim Botânico? ”, responde ao telefone funcionário da Secretaria Estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema), que optou por não se identificar, ao ser perguntado sobre a extinção da Fundação Zoobotânica, decidida pelo Palácio Piratini com aval do Palácio Farroupilha.

Com a decisão, o governo gaúcho terá que passar todas as atribuições da Fundação Zoobotânica para a Sema. Se conseguir, umas das medidas necessárias será treinar os seus funcionários. Os críticos da extinção afirmam que não há pessoal suficiente na Secretaria e nem capacitado para exercer as novas atribuições. Focado no corte de gastos, o executivo estadual garante que é possível e não arreda pé da decisão.

A Assessoria de Comunicação Social da Sema informou por e-mail que um novo departamento será criado para assumir as funções da Fundação Zoobotânica e cuidar do seu acervo, que tem valor ambiental, científico e paisagístico. O Jardim Botânico de Porto Alegre, o Museu Riograndense de Ciências Naturais e o Parque Zoológico de Sapucaia do Sul serão tratados como Patrimônio Ambiental do Estado.

Em resposta via e-mail, a Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável afirma que, mesmo com a extinção da Fundação, “o Estado permanece como protagonista” – Crédito: Blog Jornalismo Ambiental/Reprodução

Já a bióloga da FZB Janine Oliveira Arruda, 35 anos, garante que não há funcionários na Sema em condições de assumir as especificidades dos serviços prestados pela  Fundação, e informa que o Ministério Público acompanha de perto o processo. Em visita ao Museu de Ciências Naturais, relata Janine, a promotora do Meio Ambiente de Porto Alegre, Ana Marchesan, constatou a importância do trabalho realizado.

A Assembleia Legislativa autorizou a extinção de oito fundações: Fundação Zoobotânica, Fundação de Economia e Estatística, Fundação Piratini, Fundação de Ciência e Tecnologia, Fundação para o Desenvolvimento de Recursos Humanos, Fundação de Planejamento Metropolitano e Regional, Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore e Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária.

“Os deputados já estavam comprometidos com seus cargos e não cederam à nossa pressão e nem à pressão popular e votaram com o governo para não perder seus benefícios. Agora nosso esforço para manter a FZB tem se dado mais no âmbito judicial do que político”, informa o biólogo Marco Azevedo, 43 anos, funcionário do Museu de Ciências Naturais desde 2005.

Assim como Janine, ele também entende que a Sema não tem condições de assumir os serviços da Fundação. “Questionamos judicialmente esse ponto porque a gente tem certeza de que a Secretaria não tem profissionais com essa formação, com essa qualificação. Os próprios funcionários da secretaria reconhecem isso, manifestam isso, temos cartas dando esse recado”, relata Azevedo.

Entrada do Jardim Botânico de Porto Alegre, onde se localiza a sede da Fundação Zoobotânica (FZB) – Crédito: Nathalia Kerkhoven

A Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) também entrou na luta e cita em seu site algumas das atribuições da FZB. Entre elas são destacadas: o fornecimento de veneno para soro antiofídico; a lista de espécies ameaçadas de extinção;  os laudos paleontológicos; as pesquisa e monitoramento da biodiversidade; os banco de sementes; o monitoramento da qualidade do ar; os laudos sobre floração de algas tóxicas; as diretrizes de gestão, planejamento e licenciamento ambiental.

A Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul presta serviços à sociedade desde 1972. Ela mantém espaços públicos de lazer e cultura, promove ações de educação ambiental, orienta estudantes em projetos de pesquisas, proporciona treinamento em identificação e manuseio de fauna, elabora o mapeamento de ecossistemas e de áreas de risco ambiental, entre outras funções que a Sema, tudo indica, não dará conta.

Faixa exposta no Jardim Botânico expressa luta contra à extinção –
Crédito: Nathalia Kerkhoven

Parque Zoológico já estava na mira

“Já existiam projetos do governo para conceder o Parque Zoológico de Sapucaia do Sul para a iniciativa privada antes mesmo desse projeto que autorizou a extinção da FZB. É preciso ter uma empresa interessada naquilo e sendo uma empresa vai querer tirar lucro, vai querer reformular a proposta. Hoje o local recebe público de baixa renda, com ingressos acessíveis, projetos de educação ambiental de escolas, tem monitoramento”, avalia Azevedo.

O temor é que um zoo privado perca seu papel social. O biólogo salienta ainda que a própria equipe do Zoológico da FZB participou de diversos grupos de trabalho, que já vinham propondo uma melhoria da gestão do local, prevendo a ampliação das concessões dos espaços para exploração comercial, como estacionamento. Isso possibilitaria a melhoria da gestão, com mais recursos para investir no parque que poderia, assim, ser mantido público.

O biólogo do Museu de Ciências Naturais Marco Azevedo concedeu entrevista à reportagem do blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter dia 25 de março, no Jardim Botânico de Porto Alegre – Crédito: Leonardo Alencastro

“O Zoológico também tem hospital veterinário, toda uma estrutura organizada e apresenta um centro de triagem de animais selvagens. Então aqueles animais que são aprendidos, que são alvo do tráfico, de maus tratos, de atropelamento, de acidentes, por exemplo, muitas aves e muitos primatas que sofrem choque de cabo elétrico e ficam debilitado, enfim, todos esses animais são levados para lá. O zoo não é apenas um parque de visitação”, ressalta o biólogo.

Depois que a extinção da FZB foi aprovada, com o objetivo de reduzir gastos, o governo não fala mais publicamente em privatizar o zoo. Em relação ao orçamento total do Estado, a Fundação Zoobotânica, segundo Marco Azevedo, corresponderia a apenas 0,046% e o orçamento de todas as fundações que estão para serem extintas não ultrapassaria 1%. “A extinção das fundações não vai solucionar de maneira alguma a condição financeira do Estado nem resolver a crise financeira”, denuncia o biólogo.

Ciência na Praça

Faixa exposta durante o evento Ciência na Praça – Crédito: Nathalia Kerkhoven

Visando divulgar o trabalho de pesquisa realizado pela Fundação Zoobotânica no Museu de Ciências Naturais, o Ciência na Praça populariza o conhecimento científico, levando a biodiversidade gaúcha para a praça. Levando partes das coleções de fungos, algas, plantas, insetos, moluscos e peixes para a rua e proporcionando atividades lúdicas com a população, o evento existe desde 1986.

“A gente vem e traz um pouquinho do que tem no acervo da coleção científica para população conhecer, tanto a diversidade de animais e plantas que tem no Rio Grande do Sul, quanto no mundo, porque ali dentro do museu a gente tem exemplares preservados do mundo inteiro”, relata Janine que é bióloga especialista em moluscos na FZB.

Da mesma forma que seus colegas, Janine entende que a extinção das atividades da fundação vai deixar em aberto algo que não pode ser feito pela iniciativa privada. Isso porque os dados gerados pelos funcionários da instituição são imparciais. “A gente pesquisa e dá o resultado assim como ele é. A gente não sofre pressão pra liberar um laudo ou alguma coisa desse tipo”, garante Arruda.

A bióloga trabalha na Fundação há dois anos e seis meses e acredita que o atual governo não tem noção do que é a instituição. “Tem algumas pessoas que estão lá para trabalhar na passagem das coisas para a Sema. Essas pessoas estão levantando todos os dados e já têm ciência de que não dá para extinguir. Acho que até a secretária [do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Ana Pellini] consegue ver hoje que não tem como”, especula Janine.

Aproveitando o aniversário da capital gaúcha, o Ciência na Praça carregou um propósito ainda mais forte em março de 2017: defender a FZB. “É uma pena termos que provar agora o que a gente faz, porque sempre fizemos. Esse é um momento bastante difícil, mas continuamos trabalhando”, afirma Márcia Spadoni, 45 anos, técnica em educação ambiental no Museu de Ciências Naturais.

Para Acacia Britto Winter, 27 anos, bióloga e tratadora de animais silvestres na Fundação Zoobotânica, a importância da instituição de pesquisa pública abrange diversos campos. “Tem a parte de preservação do meio ambiente, tem a parte de saúde pública, tem a parte cultural – uma vez que tu tens três locais que podem ser visitados pela população”, ressalta.

O Parque Zoológico é um espaço de aprendizado, de preservação de espécies, de diversão junto com aprendizado. O Jardim Botânico é um local lindo, afirma Acacia Winter, com um banco genético de plantas que tem a rastreabilidade de todas as espécies, de todos os indivíduos lá dentro. “Sabemos onde cada planta está e qual a origem da semente, o nome científico daquela espécie”, relata.

No Museu de Ciências Naturais há educação ambiental e pesquisa, com trabalhos na área de saúde pública, epidemiologia e acidentes com serpentes peçonhentas. Os funcionários que trabalham com qualquer espécie de importância médica – aranha, escorpião, serpente, cianobactérias – capacitam profissionais de outros órgãos, como Brigada Militar e Departamento Municipal de Águas e Esgotos (DMAE).

Funcionários da FZB organizam atividade Ciência na Praça – Crédito: Ana Paula Lima

Deivid Pereira, 23, e Dener Hiermann, 20, são estudantes de Biologia e bolsistas de iniciação científica na Fundação Zoobotânica, na seção de herpetologia, com anfíbios. Para Dener, a Fundação tem importância para todo o planeta, pois “a conservação do meio ambiente hoje em dia é uma questão urgente de se falar porque está sendo negligenciada e precisa de instituições desse tipo”.

Segundo Deivid, a FZB é muito importante como instituição porque ela possibilita que os estudantes de Biologia entrem no mercado de trabalho e tenham uma experiência com a natureza e com os animais. Sobre a sua extinção, o estudante acredita ser absurdo que um projeto como esse tenha sido aprovado no legislativo: “O corpo técnico é muito qualificado e não tem como ser substituído”.

Contraponto

O Diretor do Museu de Ciências Naturais, Paulo Cezar Cerutti, 43 anos, acredita que a extinção da Fundação Zoobotânica não irá trazer danos tão grandes à sociedade, como temem os funcionários entrevistados pela reportagem do blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter. Para ele, as pesquisas feitas pela instituição serão passadas para a Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e deverão continuar.

“A extinção [da FZB] é uma questão de governo, uma questão política. Há uma determinação governamental pela extinção, uma vez que isso foi aprovado através de lei, então lei é uma coisa que a gente não discute, foi aprovado pela Assembleia Legislativa e a gente tem é que cumprir o que determina a lei, essa é a questão”, sentencia Cerutti. Muitos não concordam.

Rodrigo Pompermaier, 45 anos, chefe escoteiro no Grupo Escoteiro do Mar Passo da Pátria, acredita que toda a população que tem consciência de vida e da importância da Fundação é contra a sua extinção. Ele acredita que devia haver mais investimentos, e não cortes, porque a Fundação tem uma importância muito grande nas questões de meio ambiente e de conhecimento para o jovem.

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