Eles estão morrendo!

Baleia-de-Bryde de aproximadamente 13 metros encalhada em Imbé – Crédito: Ignacio Moreno / Ceclimar
A fauna marinha está ameaçada com a mudança do clima, com a falta de saneamento e com o lixo jogado nos mares, com destaque para a quantidade crescente de plástico. Para conhecer de perto as causas do problema e possíveis soluções, uma equipe de reportagem do blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter foi até Imbé (RS) conversar com o diretor ajunto do Centro de Estudos Costeiros,  Limnológicos e Marinhos (Ceclimar / UFRGS), o biólogo Ignacio Benites Moreno, pesquisador de referência em mamíferos marinhos que habitam a rica costa gaúcha.

Por Ana Hoffmann, João Pedro Tavares e Alice Fortes
Jornalismo Ambiental campus Fapa / Noite

A ação humana tem salvado e condenado diversas espécies marinhas que habitam o Litoral Norte gaúcho. A prova disso está no Centro de Estudos Costeiros Limnológicos e Marinhos (Ceclimar / UFRGS), localizado na cidade de Imbé (RS). A rotina inclui resgate e tratamento de pinguins, leões marinhos, botos e tartarugas.

Uma grande parte dos animais direcionados para a reabilitação não sobrevive as primeiras 48 horas pelas mais variadas causas detectadas pelo centro.  Os bichos tem a vida ameaçada por despejo de resíduos, poluição, pesca predatória, mudança climática e a quantidade cada vez maior de plástico lançado no ambiente marinho.

A maioria desses animais examinados pela equipe de veterinários do Ceclimar tem sido encontrada com estômago tomado por lixo.  A ingestão de plásticos aumentou significativamente nos últimos 15 anos, segundo pesquisas do Marine Pollution Bulletin,  jornal internacional de cientistas ambientais marinhos.

Os filhotes têm sido as maiores vítimas, por falta de experiência e adaptação ao clima. O óbito deles é constante. Os pinguins, por exemplo, que se reproduzem na Patagônia argentina, logo que trocam as penas, em torno de abril e maio, seguem viagem. Eles migram para o litoral norte gaúcho pela corrente das Malvinas.

No mar, os jovens pinguins encontrariam diversos alimentos para sua sobrevivência. Porém, não tem sido dessa forma que as coisas têm ocorrido. Eles passaram a enfrentar uma série de dificuldades como o inverno rigoroso, parasitas, pouco alimento, muita contaminação nos peixes e pesca irregular.

Devido às plantações de arroz, resíduos de agrotóxicos chegam ao mar gerando problemas endócrinos, hormonais e imunológicos em diversas espécies.  Os pinguins necessitam manter a temperatura em torno dos 45 °C. O metabolismo deles precisa estar acelerado para gerar energia e criar gordura extra para proteção.

Os pinguins que migram da Patagônia têm sido alvos de maiores adversidades como óleo que se fixa em suas penas.  Logo que chegam ao Litoral Norte encontram um ambiente desfavorável, um mar com derramamento frequente de óleo dos navios petroleiros. A descarga é feita em duas boias da Petrobras em frente à Tramandaí (RS).

Essas aves nadam na superfície da água, e o óleo fica exatamente nesta região, grudando em suas penas e causando um grande estrago. Uma glândula chamada uropigial, que fica nas costas da ave, é impermeabilizante e não permite o contato da água com a pele. Assim eles mantêm a temperatura corporal regulada.

Porém, quando o petróleo entra em contato com o pinguim desestrutura toda a impermeabilização. As penas molham e começam a colar no corpo e a forma que o animal encontra é começar a limpar com o bico, e isso leva a ave a ingerir o óleo. Os que conseguem sobreviver e chegar até a praia são levados ao Ceclimar.

O tratamento inclui desde a limpeza das penas dos pinguins, uso de antibióticos e muitas vezes até cirurgia para retirada do lixo do estômago do animal, realizada em Porto Alegre. Alguns desses animais são devolvidos ao habitat natural.  No pinguim, devolvido ao bando, uma anilha é colocada sinalizando que a ave passou por análise clínica.

Biólogo e diretor adjunto do Ceclimar, Ignacio Benites Moreno, explica causas de morte dos mamíferos marinhos – Crédito: Alice Fortes

Segundo o diretor adjunto do Ceclimar, biólogo Ignácio Moreno Benites, o lixo aliado à poluição tem sido o maior culpado pela mortandade da fauna marinha.  Os mais afetados são: pinguins, botos, baleias e atuns. Com intenso sofrimento causado pela ação humana, muitos botos morrem em consequência do quadro imunológico.

“O lixo é um problema gravíssimo, que precisa ser revertido com urgência. Temos que mudar as atitudes drasticamente! Muitas espécies marinhas, como esses pinguins e botos, que estão ameaçados de extinção, estão morrendo pela ingestão de plástico. A ausência do tratamento de esgoto em grande parte do nosso litoral também é alarmante”, alerta.

Infecção e morte

Nas últimas cinco décadas, o lixo tem aumentado nos mares gaúchos e, consequentemente, as aves marinhas juntamente com as tartarugas têm sido os maiores alvos. A morte por ingestão do lixo leva o animal à sufocação, debilitação do quadro imunológico e ao emaranhamento. O plástico gera uma série de infecções secundárias.

De acordo com o veterinário Fábio Aldabó, a vulnerabilidade do animal aumenta. “A hipoglicemia ocasiona a perda dos depósitos de gordura que o corpo necessita. Todas essas alterações alteram o bem-estar dos animais afetados. Eles ficam mais vulneráveis aos predadores, com sofrimento crônico e muitos morrem”, acrescentou.

Os objetos ingeridos também geram saciedade dentro do estômago e ocorre o travamento do trato digestivo reduzindo drasticamente o consumo de alimentos. O bloqueio da secreção da enzima gástrica e os ferimentos internos causam úlceras no sistema digestivo. O animal não consegue mais sobreviver em seu habitat natural.

Pesca cooperativa

Os pescadores de Imbé que resistem, em meio ao movimentado tráfego de navios na barra, travam uma luta diária em busca de peixe, a cada dia mais escasso. Com a presença dos botos costeiros diminuindo na região, a pesca cooperativa abre espaço para a pesca ilegal, que prejudica as espécies e pode, inclusive, acabar com a própria pesca.

Pescador na barra de Imbé – Crédito: Ignacio Benites / Arquivo Pessoal

Ignacio entende a pesca cooperativa, não só como prática cultural da região, mas também como ato de preservação das espécies. “Os botos trazem o cardume, usam a costa como armadilha e deixam os peixes encurralados no canal da barra. Os pescadores, por sua vez, esperam a chegada do cardume e tarrafeiam. O que sobrar da tarrafa fica para os botos. Um ajuda o outro. Humanos e golfinhos interagindo durante a pesca”, afirma.

Boto mostra o momento exato para pescador tarrafear – Crédito: Ignacio Benites / Arquivo Pessoal

De acordo com o Ceclimar, a possível extinção destes animais é consequência da ação humana. A pesca ilegal, o lixo e o turismo náutico, e algumas doenças causadas pela poluição, são os principais fatores da destruição da fauna da região. O diretor adjunto informa que a costa gaúcha é a mais biodiversa do país, com cerca de 80% dos cetáceos identificados no Brasil.

Alguns botos da região foram encontrados acometidos por doenças ligadas à qualidade ambiental das cidades (Tramandaí e Imbé), como a lobomicose. Uma infecção cutânea causada por fungo. A doença foi responsável pela morte de um boto e pode ter sido a causa do sumiço de outros que estão aparecendo com menos frequência no local.

Com problemas de saneamento básico e resíduos de lixo acumulados na costa, a qualidade e a quantidade de peixe, ano após ano, é inferior. Alguns profissionais na área da pesca relatam encontrar muitos animais mortos na barra, e dizem encontrar em suas tarrafas diversos tipos de lixos. Como consequência, a região sofre não só com problemas ambientais, mas também econômicos.

Botos da Barra

O projeto Botos da Barra desenvolvido pelo Ceclimar tem o objetivo de gerar conhecimento científico e fortalecer a pesca artesanal no litoral norte. Um dos principais focos do estudo executado pelo Centro de Estudos Costeiros Limnológicos e Marinhos da UFRGS é incentivar a pesca cooperativa entre botos e pescadores.

Criado por alunos da universidade e pelo professor e pesquisador Ignácio Benites Moreno, diretor adjunto do Ceclimar, o projeto tem a intenção de ampliar o conhecimento ambiental das pessoas sobre as espécies que ocupam o local e monitorar e controlar a população de botos que aparecem em Tramandaí e Imbé.

Cooperação de pescador e boto na hora da pesca – Crédito: Ceclimar / Divulgação

A pesca artesanal praticada principalmente para sustento familiar é ameaçada na localidade pela superlotação de veranistas que ocupam as cidades litorâneas no verão. Com isso, os habitats de espécies de mamíferos marinhos são colocados em risco, pois os municípios costeiros não tem infraestrutura para suportar o aumento populacional.

Os pescadores artesanais de tarrafa percebem a chegada do cardume através dos sinais sonoros emitidos pelos botos e por sinais característicos feitos com a cabeça facilitando a identificação do momento certo para jogar a rede. Este ritual é realizado somente nas cidades de Tramandaí/Imbé e Laguna (SC).

Nadadeiras de botos monitorados pelo projeto Botos da Barra – Crédito: Ceclimar / Divulgação

Os pescadores reconhecem cada boto e dão nome a eles como se fossem apelidos. Essa identificação se dá através das marcas, cicatrizes e manchas na nadadeira dorsal e no corpo dos botos como se fosse uma impressão digital. “A Geraldona, uma fêmea de 30 anos que sempre está com seu filho Chiquinho, que tem em torno de 12 anos, é bem conhecida na barra”, declara o biólogo Ignacio Moreno.

O aperfeiçoamento das iniciativas do projeto é necessário, pois ajuda na conscientização de ações benéficas na barra do rio Tramandaí. A preservação do ecossistema gerado por essa relação mútua é um fenômeno que ocorre somente na Região Sul do País e em nenhum outro local do mundo. Eles estão morrendo, mas ainda há esperança.

 

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