Na feira dos agricultores ecologistas, até flor se come e faz bem pra saúde

Tradicional feira de agricultores ecologistas de Porto Alegre realizada aos sábados pela manhã na José Bonifácio, ao lado do Parque da Redenção
Tradicional feira de agricultores ecologistas de Porto Alegre realizada aos sábados pela manhã na José Bonifácio, ao lado do Parque da Redenção
Por trás de cada banca da Feira dos Agricultores Ecologistas de Porto Alegre (RS) uma história diferente. Por trás de cada produtor um ideal. Responsabilidade social, ambiental e sustentável mostram-se presentes no olhar de cada trabalhador, que ali busca sustento, e um mundo melhor.

 

Massey Ferguson / Divulgação

3º lugar na categoria Estudante do 13º Prêmio Massey Ferguson de Jornalismo (2014)

 

 

 

Texto e fotos: Gabriela Fritsch
Jornalismo Ambiental / Noite

Salvador Rosa da Silva, mais conhecido como Dodô, trabalha aos sábados na Feira dos Agricultores Ecologistas (FAE), localizada no bairro Bom Fim, em Porto Alegre (RS). Produtor de legumes, verduras e frutas no bairro Lami, extremo-sul da capital gaúcha, um de seus cultivos chama atenção: o hibisco, planta que pode ser consumida de diversas formas e faz sucesso. “Vendo mais ou menos 70 caixinhas da plantinha por feira. O pessoal gosta porque muitas receitas podem ser feitas com a flor”, conta. Geleia, pasta salgada, chá, doces e bebidas podem ser produzidos a partir da pequena planta.

O hibisco comestível do seu Dodô é sucesso na feira do Bom Fim em Porto Alegre
O hibisco comestível do seu Dodô é sucesso na feira do Bom Fim em Porto Alegre

Seu Dodô conta, enquanto trabalha em sua banca, que sua atividade é baseada na agroecologia: “Aproveito tudo dos hibiscos. Quanto mais seco melhor, pois não há desperdício nem de água. Eu não uso nada de produtos químicos, só planto a semente na terra e espero”. Enquanto explica, Dodô vende duas caixas de hibisco. “Faço chá sempre! Nunca deixo de comprar essa maravilha”, comenta uma das clientes.

Hibisco
Hibisco

Sua simplicidade em falar sobre algo tão importante encanta. O produtor destaca mais de uma vez a relevância da planta e comenta sobre a comercialização de sementes. “Eu não tenho a intenção de vender o que tem dentro do fruto. Nós temos a troca de semente. Eu posso te dar uma semente e tu me dá outra, sem venda. A genética da vida é assim, a única certeza que temos é que vamos morrer, mas isso (o hibisco) não precisa acabar”, esclarece comovido.

Sustento familiar

Com o objetivo de prosseguir com a tradição, Shivanande Ruiz Tagle Braga, conhecido como Shiva, administra a empresa Sattva, que teve início em 1992. “A Sattva foi registrada em 2004, mas há 22 anos meus pais já comercializavam alimentos na feira dos agricultores ecologistas da Redenção”, conta. A fim de evoluir o trabalho, Shiva adequou seus produtos – entre eles hambúrgueres de soja, biscoitos integrais e salsichas vegetais – ao cultivo orgânico e dedica-se ao ramo para sustentar sua família.

Banca vende produtos à base de soja
Banca vende produtos à base de soja

Respeitando o ciclo da natureza e estudando-a, o aprendizado de como lidar com pragas e intempéries sem utilização de venenos é uma das filosofias do negócio. “Podemos citar diversos benefícios que os alimentos orgânicos proporcionam; além de refeições saudáveis, a relação entre consumidores e produtores é direta, criando vínculo de confiança que para nós é o mais importante”, esclarece Shiva.

O elo estabelecido entre os produtores e a sustentabilidade, segundo o administrador, é de compromisso com o verde. “Participamos de associações, cooperativas, grupos de trabalho ligados à produção orgânica, onde desenvolvemos diversos projetos coletivos para ações que protejam o meio ambiente e a alimentação saudável”, informa.

Dia de feira

Cinco feiras ecológicas, com autorização da Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic) de Porto Alegre, têm seus pontos fixos. Os bairros Menino Deus, Tristeza, Bom Fim, Petrópolis e Três Figueiras são contemplados com variedades de alimentos saudáveis. O uso de sistemas de responsabilidade social e valorização da mão-de-obra dos produtores fazem parte do novo conceito utilizado em meio à busca de um mundo sustentável.

O termo agroecologia, que consiste em uma proposta alternativa de agricultura familiar socialmente justa, economicamente viável e principalmente ecologicamente sustentável, pode ser vista com base nas dinâmicas da natureza, como por exemplo, sem o uso de agrotóxicos. Uma das linhas de pensamento desse conceito é de que a agricultura ecológica não se valida sozinha, pois é uma ciência que agrega conhecimentos populares, originários de experiências de agricultores.

Para o cultivo ser classificado como orgânico, os processos utilizados devem ser apenas naturais, desde o combate às pragas e fertilização do solo até o uso da água, do ar e dos demais recursos naturais, conforme o Ministério da Agricultura. Já em relação aos alimentos de origem animal, a aplicação de antibióticos, hormônios e anabolizantes não pode ser feita.

Além do que se vê

Arroz, feijão, carne, salada e uma fruta para sobremesa. Existe uma taxa considerável de produtos químicos encontrados nos alimentos que compõem esta refeição. Todos os dias, ingerimos grandes quantias de agrotóxicos, antibióticos, hormônios e transgênicos, segundo a nutricionista Caroline Flores. Interpretar esta informação é fazer com que a população se dê conta de que corremos riscos até quando nos alimentamos.

Uma alternativa saudável e saborosa são os alimentos orgânicos. Produzidos sem conservantes, agrotóxicos e afins, as frutas, verduras e legumes cultivados de forma sustentável estão cada vez mais presentes na lista de opções de restaurantes, pessoas que se preocupam com a saúde, estética e que são movidas pela curiosidade de provar os benefícios da alimentação orgânica.

De acordo com Caroline, o consumo desses alimentos é importante, pois eles têm elevado valor nutricional quando comparados aos convencionais. “São ricos em minerais, cálcio, ferro, magnésio, fósforo, potássio e zinco. Além disso, apresentam melhor absorção pelo nosso organismo”, explica.

Ao alertar para os riscos, a nutricionista elucida que os produtos químicos usados nas plantações e as substâncias incorporadas aos animais são altamente prejudiciais à saúde. “O uso crônico de agrotóxicos, hormônios, antibióticos e anabolizantes é danoso ao organismo, pois são potencialmente cancerígenos, podem reduzir a fertilidade, causar reações alérgicas e provocar lesões no fígado”.

Caroline esclarece que mesmo os produtos cultivados de maneira sustentável e classificados como orgânicos podem apresentar resquícios de agrotóxicos: “Não é possível garantir ausência total de químicos nos alimentos, uma vez que, problemas de contaminação ambiental – por meio da água ou do solo -, podem estar presentes”, argumenta.

 

 

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