O futuro sem alimento

Crédito: Fernando Dias / FZB-RS
Crédito: Fernando Dias / FZB-RS

As primaveras do futuro terão menos flores; as mesas de jantar, menos alimento. Alguns legumes, frutas e sementes serão extintos, enquanto outros se tornarão produtos de luxo com valores elevados nos supermercados. Um holocausto silencioso se instaurou entre várias espécies de abelhas em todos os continentes, reduzindo as populações desses insetos responsáveis por cerca de 80% da polinização dos cultivos do planeta. As consequências se traduzem no agravamento da nossa já existente crise alimentar, que afetará diretamente aos humanos e colocará diversas espécies em risco de extinção.

 

Massey Ferguson / Divulgação

2º lugar na categoria Estudante do 13º Prêmio Massey Ferguson de Jornalismo (2014)

 

 

 

 

Por Paola Rebelo Casagrande
Jornalismo Ambiental – Manhã

Desde o final da década de 1960, especialistas em diversas partes no mundo começaram a notar uma abrupta redução nas populações das abelhas na Europa, e não tardou a começar a se notar o sumiço desses insetos em vários outros países, tais como no Egito, Japão, China e Austrália. O fenômeno que ficou conhecido como Distúrbio do Colapso das Colônias (CCD na sigla em inglês) pode desencadear uma crise alimentar grave em todo o planeta e, por consequência, afetar as economias de diversos países que se utilizam da agricultura para gerar capital. Após anos de pesquisa, ainda não se detectou o principal agente por trás da extinção desses insetos, mas os cientistas sugerem uma complexa interação de diversas causas como responsáveis por esse distúrbio, entre elas o aquecimento global, as monoculturas, as queimadas e o desmatamento.

A polinização é um dos fatores mais elementares para a diversidade de alimentos no planeta, contribuindo diretamente para a conservação ambiental e a produção agrícola. De acordo com documentos divulgados na reunião da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) no ano passado, 75% das culturas e 87,5% das espécies de plantas com flores dependem da ação dos polinizadores. Desse serviço, as abelhas são responsáveis por 80%, de modo que os outros animais polinizadores (tais como os beija-flores, morcegos, moscas e borboletas) não teriam capacidade de suprir a necessidade de polinização que sua extinção acarretaria. “Sem as abelhas, haveria uma série de extinções, mesmo que a longo prazo”, alerta a bióloga Sheina Koffler, doutora em ecologia pela Universidade de São Paulo que trabalha com a reprodução de espécies nativas de abelhas do Brasil.

Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, a maçã e o mirtilo estão entre os alimentos que mais sofreriam com a possível extinção das abelhas, uma vez que elas são as responsáveis por 90% de sua polinização. 48% da produção de pêssego e 27% da de laranja também só acontecem por sua causa, enquanto o restante de sua safra é predominantemente encargo da chuva, do vento e dos pássaros. Os cereais, a soja, o amendoim e frutas como o morango e a uva seriam alguns alimentos que se manteriam praticamente intactos, uma vez que sua polinização é gerada, em maior parte, via eólica, mas os legumes, as hortícolas e as amêndoas encontrariam sua extinção logo após as abelhas. Com essa redução vegetal considerável, por consequência também veríamos uma redução das populações animais de herbívoros e aves e, em certo momento, os animais carnívoros e onívoros, como nós, começariam a ser afetados.

Em entrevista ao blog de jornalismo ambiental da UniRitter, Sheina Koffler ressalta que as abelhas são importantes até mesmo para as espécies de plantas que não necessitam de polinizadores para a sua reprodução, pois podem aumentar a produção dos frutos. No caso da soja, a produção de uma safra pode aumentar em até 40%, de modo que, em uma mesma área, o agricultor produz mais alimento e é gerado um lucro consideravelmente maior. Além disso, a qualidade dos alimentos é também elevada, uma vez que os alimentos que nascem de flores polinizadas apresentam tamanhos maiores e são melhores formados. Não serão apenas severas consequências ambientais, mas também econômicas.

Parasita nas colmeias
A apis melífera é menos suscetível aos ácaros do que as abelhas europeias - Crédito: Paola Rebelo
A apis melífera é menos suscetível aos ácaros do que as abelhas europeias – Crédito: Paola Rebelo

Na Europa, cientistas já estão cientes dessa enorme redução das populações de abelhas há quatro décadas, porém esse fenômeno se agravou na virada do milênio. As espécies de abelhas europeias são mais sensíveis e suscetíveis a doenças do que, por exemplo, as abelhas asiáticas, africanas ou híbridas, como é o caso da espécie apis melífera que temos no Brasil, o que faz com que elas sejam bastante afetadas pela varroose. A doença parasitária é provocada por um ácaro chamado varroa, que vitimou, somada a outros fatores, 25% das populações de abelhas na Europa, 40% nos Estados Unidos e 45% no Reino Unido, segundo o relatório técnico do  do Greenpeace.

Por causa da epidemia provocada pelo varroa, os apicultores europeus dependem do uso de acaricidas para tornar as abelhas mais resistentes. “No entanto, os ácaros tem a habilidade de criar resistência contra os acaricidas”, afirma o agrônomo Aroni Sattler, mestre em fitotecnia e professor titular na Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sabendo disso, trabalha-se nos países Europeus com cerca de oito acaricidas de princípios ativos diferentes. “Eles recomendam trocar a cada ano o princípio ativo para que o ácaro não crie resistência a esses acaricidas”, explica o professor que também é membro efetivo do Comitê Nacional de Sanidade Apícola e ex-presidente da Confederação Brasileira de Apicultura (CBA).

O professor Aroni Sattler faz a inspeção dos produtos enviado por apicultores de todo o Rio Grande do Sul. - Crédito: Paola Rebelo
O professor Aroni Sattler faz a inspeção dos produtos enviado por apicultores de todo o Rio Grande do Sul. – Crédito: Paola Rebelo

A estratégia aplicada pelo Ministério da Agricultura no Brasil não faz uso de acaricidas, pois a abelha mais criada no país é mais resistente a viroses. Entretanto, nos últimos anos, os níveis de varroose entre as colmeias brasileiras se mostrou mais elevado, o que revela que a sensibilidade das apis mellifera aumentou e preocupa os especialistas.

De acordo com um trabalho realizado por Aroni Sattler na Estação Experimental Agronômica da UFRGS, existem colmeias no Brasil que possuem 98% de comportamento higiênico (a capacidade de remover crias avariadas ou doentes para fora da colmeia a fim de evitar uma epidemia na colônia), enquanto outras variam entre 30% e 50%, e essas se mostram mais suscetíveis ao ácaro. Por essa condição sensível das novas gerações de apis melífera ser um fator recente, não está incluído no Programa Nacional de Sanidade Apícola o uso de acaricidas para não correr o risco de mascarar linhagens mais resistentes nas crias, porém, segundo o agrônomo, alguns apicultores os aplicam eu seus enxames clandestinamente para evitar maiores perdas.

A melipona bicolor schencki, popularmente conhecida por guaraipo, é uma das espécies ameaçada no Rio Grande do Sul. - Crédito: Fernando Dias / FZB-RS
A melipona bicolor schencki, popularmente conhecida por guaraipo, é uma das espécies ameaçada no Rio Grande do Sul. – Crédito: Fernando Dias / FZB-RS
Seguro para o homem, perigoso para as polinizadoras

Outros possíveis suspeitos para a redução massiva das colônias são os inseticidas, ressalta Aroni Sattler. Em 2013, a Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos analisou um grupo de inseticidas chamados neonicotinoides, e acredita que eles podem fazer parte dos fatores combinados que provocam a morte das abelhas. Nos Estados Unidos, o Departamento de Proteção Ambiental e o Departamento de Agricultura disseram não haver provas que relacionem o uso desses produtos com a morte das polinizadoras e rejeitaram os pedidos emergenciais de ambientalistas para que fossem tirados de circulação. Inicialmente, no Brasil, o Ibama tentou a sua proibição, mas acabou cedendo no ano passado às insistências do Ministério da Agricultura para utilizá-los em pulverização aérea. Na França, Alemanha e Itália, porém, foram suspensos o uso dos neonicotinoides tiametoxam, da empresa Syngenta, e clotianidina e imidacloprida, da Bayer.

Em junho de 2014, 29 pesquisadores divulgaram um primeiro levantamento de informações a respeito dos inseticidas suspeitos no Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS, na sigla original). Após examinar 800 estudos publicados nos últimos vinte anos, chegaram à conclusão que os inseticidas neonicotinoides e fipronil possuem efeitos colaterais que afetam aves, peixes e polinizadores como as abelhas e as borboletas. O doutor Jean-Marc Bonmatin, pesquisador do Centro de Biofísica Molecular (CBM) e um dos autores do trabalho, diz ser necessário planejar a supressão progressiva dos produtos indicados em escala mundial. Atualmente, estima-se que os neonicotinoides e o fipronil dominam cerca de 40% do mercado de pesticidas.

Os neonicotinoides são aplicados nos Estados Unidos e na Europa nos grãos de cereais e nas sementes de algodão, canola, milho e girassol. Mesmo que demore cerca de 50 dias para que o pendão (ou seja, a flor) se abra para a polinização, os pesticidas possuem um efeito residual que afeta as abelhas independente do tempo de amadurecimento dos vegetais. “O produto continua circulando na seiva e contamina o pólen e o néctar”, alerta Aroni Sattler, que também afirma que a falta de diálogo entre os apicultores e agrônomos prejudica as populações de polinizadores. “Alguns casos de mortalidade de abelhas por agrotóxico poderiam ser resolvidos com uma parceria boa entre os produtores rurais e os apicultores”, diz o agrônomo. Com um diálogo entre as duas partes, devidamente supervisionado por um órgão responsável, bastaria o apicultor não liberar as abelhas em épocas em que é aplicado o veneno e o agricultor não utilizar inseticida na época da florada para reduzir pelo menos uma pequena parcela desse índice de mortalidade de abelhas por agrotóxico.

Predadores imigrantes

Até 2003, a vespa autóctone (também chamada de cabro) era o predador que mais preocupava os apicultores nos países europeus. Em entrevista ao jornal português Diário de Notícias, o doutor Paulo Russo Almeida, do departamento de zootecnia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), afirma que apesar de essa espécie trazer certo prejuízo aos trabalhadores apícolas, ela possui uma utilidade evolutiva para as abelhas. A vespa cabro se alimenta exclusivamente de abelhas fracas e moribundas, de modo que as polinizadoras mais fortes são conservadas através de uma limpeza seletiva. Esses predadores nativos afetam negativamente a economia, uma vez que a produção de mel e de outros produtos oriundos da colmeia é diminuída, e também tem seu papel na redução das abelhas, mas colaboram a longo prazo para que as gerações futuras de abelhas se tornem mais resilientes.

No ano seguinte, entretanto, começou a se perceber na França a presença de uma nova praga. A entomologista Claire Villemant, que trabalha no Museu de História Natural de New York, disse ao jornal britânico The Guardian que cientistas acreditam que a vespa velutina, também conhecida como vespa assassina ou vespa asiática, chegou de navio ao porto de Bordéus em um carregamento de bonsais trazido da China. Em 2006, notou-se que o número de ninhos de vespas já estava em centenas, e alguns meses mais tarde foram encontrados mais mil e seiscentos vespeiros espalhados pelo país. Em 2011, os insetos já podiam ser encontrados na Espanha, Alemanha, Portugal e outros países da Europa, e continuam a se difundir para o sul do continente.

A espécie é nativa do sudeste asiático, em países como a Indonésia, as Filipinas, a China e a Tailândia, porém ela já pode ser encontrada em outras partes da Ásia, como no Japão e na Coréia do Sul. As abelhas asiáticas, pelo tempo de convívio com a espécie predadora, aprenderam como sobreviver ao seu ataque: quando a vespa entra na colmeia, as abelhas a cercam, impedindo-a de sair, e começam a bater asas para elevar a temperatura da colmeia e matar o invasor. No entanto, as polinizadoras europeias não estão acostumadas com uma espécie predadora tão agressiva, e não resistem aos ataques. Após a morte de grande parte do enxame, as abelhas permanecem dentro da colmeia e morrem de fome ou abandonam a colônia para o suicídio.

As autoridades europeias utilizam o sistema GPS para detectar os vespeiros em áreas urbanas e rurais e lança-chamas para destruí-los. Os órgãos relacionados passaram a criar programas e subsídios para incentivar os apicultores a introduzirem mais colmeias no ambiente e trocar as produções em pequena escala pelos grandes apiários. Há casos em que os próprios trabalhadores apícolas deixam de produzir mel para trabalharem exclusivamente com a polinização manual de pomares, embora ela não seja tão efetiva quanto a realizada pelas abelhas. Até o momento, estudos indicam que a vespa velutina não poderá ser completamente eliminada do continente europeu.

A economia das colmeias
Atualmente, o Brasil conta com 350 mil apicultores trabalhando com produtos oriundos das colmeias. - Crédito: Paola Rebelo
Atualmente, o Brasil conta com 350 mil apicultores trabalhando com produtos oriundos das colmeias. – Crédito: Paola Rebelo

Não é só a questão ambiental de biodiversidade que preocupa as autoridades quando se trata de redução das populações de abelhas. A importância desses insetos na produção agrícola se reflete em milhares de dólares, e chama a atenção dos governos por influenciar também a economia de diversos países, seja através dos benefícios da polinização ou dos produtos que a atividade apícola produz para o consumo e a medicina humana. No entanto, apesar de o mercado do mel ser lucrativo e vantajoso para os produtores e indústrias envolvidos, a importância ecossistêmica das abelhas se apresentou ainda mais rentável.

“A grande razão da utilização das abelhas pelo homem tem sido a produção de mel, um produto de alta qualidade e muito valioso”, aponta a bióloga Sidia Witter, “entretanto, a sua importância econômica é muito inferior ao valor do serviço de polinização”. Segundo a doutora em zoologia, que trabalha com pesquisa de abelhas nativas na Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, o valor global do mel exportado em 2007 foi de 1,25 bilhão de dólares, enquanto o valor estimado pelo serviço ecossistêmico das abelhas foi de 212 bilhões de dólares.

No entanto, a polinização feita pelas abelhas não é importante economicamente apenas por causa do agravamento da crise alimentar que a redução massiva de suas populações pode desencadear. Se existirem abelhas por perto para executarem o seu devido trabalho, produções agrícolas de culturas como soja, laranja, cacau e café podem ser ampliadas e mantidas com uma produtividade mais elevada. Uma pesquisa realizada na Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenada pelo professor Breno Freitas indicou que a produção dos cajueiros pode aumentar em até 70% caso haja polinização.

Mesmo nos cafeeiros, que não dependem de polinizadores, já se viu produções de cafezais no Brasil se expandirem 15% com a presença de abelhas nativas, e em países como o Peru e a Costa Rica esse percentual subiu para 50%. No caso do feijão, a diferença se mostrou mais sutil, pois embora não tenha acrescido o número de vagens, o número de grãos por vagem se mostrou mais elevado.

Em uma palestra para a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, doutora em zoologia Vera Lúcia Imperatriz Fonseca apontou que 87 das 124 principais culturas agrícolas que são utilizadas na alimentação humana (ou seja, 70% dos vegetais que nós consumimos e um terço da produção de alimentos em nível mundial) necessitam da ação dos polinizadores. Caso essa redução populacional das abelhas não seja refreada, estima-se que o prejuízo na produção de cereais seja de 100 bilhões de reais e, na produção frutífera, 130 bilhões de reais.

Em 2009, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) aprovou um investimento de 5 milhões de reais para que grupos de pesquisa de seis estados brasileiros determinem a influência que as abelhas e outros polinizadores tem sobre as produções de castanha, caju, canola, maçã, tomate e algodão. Os Estados Unidos, por serem os maiores exportadores do mundo de amêndoas, alimento que depende essencialmente das abelhas para sobreviver, também lançaram campanhas em auxílio dos polinizadores. Lá, a redução das abelhas se fez sentir drasticamente: as 6 milhões de colmeias que existiam em 1947 se reduziram a 2,5 milhões nos dias de hoje.

Em junho de 2014, o presidente Barack Obama anunciou que o governo americano vai investir cerca de 50 milhões de dólares para financiar programas de conservação de polinizadores e pesquisas sobre a redução de suas populações. De acordo com o anúncio feito por Josh Earnest, o novo porta-voz da Casa Branca, os animais polinizadores são responsáveis pela produção de pelo menos 90 culturas cultivadas comercialmente na América do Norte, e contribuem em mais de 24 bilhões de dólares para a economia dos Estados Unidos. Desse valor, foi avaliado que 15 bilhões são gerados pelo serviço de polinização exclusivo das abelhas.

E no Brasil?

Em comparação aos outros países afetados, o Brasil pode se considerar com sorte. Ainda não foram documentados casos de vespa velutina em território nacional, e nossas abelhas apis melífera são mais resistentes a doenças provocadas por ácaros ou inseticidas. No entanto, os apicultores brasileiros já tiveram uma grande crise na década de 1950, em que foram perdidos 80% das colmeias do país por causa do surgimento de doenças como a nosemose, a acariose e a cria pútrida europeia. Naquela época já não se usava a abelha nativa brasileira sem ferrão para os trabalhos apícolas, mas sim espécies europeias que foram introduzidas no Brasil em 1840.

Aroni Sattler e José Augusto Gasparotto Sattler na sede da Confederação Brasileira de Apicultura. - Crédito: Paola Rebelo
Aroni Sattler e José Augusto Gasparotto Sattler na sede da Confederação Brasileira de Apicultura. – Crédito: Paola Rebelo

Assim, foram trazidas abelhas africanas, muito mais resilientes, agressivas, menos suscetíveis a doenças ou pragas do que as oriundas da Europa. Hoje, a apis melífera que é criada em todo o país, é uma abelha híbrida, melhorada geneticamente com uma combinação do DNA das abelhas europeias com as africanas e com uma produção de mel consideravelmente maior. Por causa dessa nova espécie, em 2001 o Brasil passou da 28º colocação entre os produtores mundiais de mel, produzindo 5 mil toneladas ao ano, para a 6º, com 20 mil toneladas durante o mesmo período.

Segundo o último levantamento realizado pelo IBGE, em 2006 foram quantificadas dois milhões de colmeias no Brasil, e atualmente dados da Confederação Brasileira de Apicultura (CBA) apontam que existam 350 mil apicultores ativos na produção de mel e pólen. Desde 2002, esse número de trabalhadores tem aumentado a cada ano devido à abertura da exportação de produtos apícolas. “Essa abertura incentivou os apicultores a aumentarem seus apiários e sua produção. Hoje encontramos apiários de mil até duas mil colmeias trabalhando”, diz José Augusto Gasparotto Sattler, nutricionista doutorando em Ciência dos Alimentos pela Universidade de São Paulo.

Apesar de o Brasil ainda ter sua população de abelhas estável, a situação é de alerta. A ausência de vespas e a maior resistência aos ácaros são compensadas por outros fatores que colaboram para a morte das polinizadoras, tais como o desmatamento contínuo, o aumento das áreas urbanas e a intensificação das alterações climáticas, além dos próprios agrotóxicos.

Em entrevista ao blog de jornalismo ambiental da UniRitter, Rodrigo Tariga Farias, da Associação Gaúcha de Apicultores (AGA), informa que o normal é perder 10% dos enxames, mas ressalta que por enquanto não houve problemas com os pequenos produtores. “Geralmente a maior parte dessas perdas está vinculada ao trabalho do próprio produtor”, explica.

Para os grandes produtores, entretanto, algumas perdas mais expressivas já podem ser sentidas, e o governo federal já trabalha com alguns programas de proteção e conservação das abelhas. Em 1999, foi divulgada a Declaração de São Paulo sobre a Conservação e Uso Sustentado dos Polinizadores, e uma década mais tarde, o Ministério do Meio Ambiente recebeu um financiamento internacional equivalente a sete milhões de reais para implantar o projeto complementar Polinizadores do Brasil. No Rio Grande do Sul, foi criado em parceria com a Fundação Zoobotânica o projeto RS Biodiversidade que, entre outros ramos de pesquisa, investiga a fauna das abelhas nativas para o planejamento de ações de conservação das espécies.

Bee or not to be?

O projeto Bee or Not to Be foi idealizado pelo professor Lionel Gonçalves da Universidade de São Paulo, um dos maiores especialistas em abelhas do país. Em parceria com um grupo de pesquisadores do Centro Tecnológico de Apicultura e Meliponicultura do Rio Grande do Norte (CETAPIS), com a empresa 6P Marketing & Propaganda e com a Confederação Brasileira de Apicultura (CBA), a iniciativa tem o objetivo de alertar a população sobre a importância dos abelhas e pressionar as autoridades a apoiarem mais programas de conservação dos polinizadores.

A campanha, divulgada predominantemente em meios de comunicação, sites ativistas e redes sociais, ganhou conhecimento do grande público após a participação de Lionel Gonçalves no Programa do Jô, da Rede Globo em abril desse ano. Além de uma petição que já conta com mais de 15 mil assinaturas, o projeto divulga informações sobre o Distúrbio do Colapso das Colônias e dá dicas de como cada cidadão pode ajudar a impedir a redução das populações de abelhas.

Um dos diferenciais da campanha é o aplicativo Bee Alert, que pode ser acessado via celular, tablet e desktop. O aplicativo é gratuito e tem a finalidade de que apicultores, meliponicultores e cientistas registrem e documentem as ocorrências de desaparecimento de abelhas em qualquer parte do mundo. Através do aplicativo, os profissionais indicam o local, a intensidade da redução das populações de abelhas e as possíveis causas, criando, assim, um banco de dados coletivo que contribui ativamente para o estudo do fenômeno.

Para conhecer mais sobre o Bee or Not to Be, acesse o site:
www.semabelhasemalimento.com.br .

 

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