Aos poucos, Porto Alegre descobre a bicicleta

Em meio ao caos nas vias da capital gaúcha, surge uma alternativa saudável – não só para o ser humano, como para o meio ambiente. A bicicleta está sendo vista como a melhor alternativa sustentável para escapar dos transtornos motorizados.

As ciclovias, além de proporcionarem segurança nos trajetos do dia-a-dia, auxiliam no lazer e na prática de exercícios – Crédito: Bruna Fonseca
As ciclovias, além de proporcionarem segurança nos trajetos do dia-a-dia, auxiliam no lazer e na prática de exercícios – Crédito: Bruna Fonseca

Por Bruna Fonseca
Jornalismo Ambiental / Manhã

Existem pessoas que, além de pensar ecologicamente e sonhar com um mundo melhor para as gerações futuras, colocam suas filosofias de vida em prática. A Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (Mobicidade) foi criada em 2012, em Porto Alegre, por pessoas que defendem o desenvolvimento de uma cidade que valorize políticas públicas que beneficiem todos os usuários de meios de transporte não motorizados.

Dados da pesquisa Frota em Circulação no RS afirmam que, em fevereiro de 2015, havia 808.989 veículos com motor em Porto alegre. O número, que cresce mensalmente, colabora para o aumento da emissão de gases poluentes na atmosfera da cidade.

De acordo com o 1º Inventário de Emissões Atmosféricas das Fontes Móveis do Estado do Rio Grande do Sul de 2009, elaborado pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), a região Metropolitana de Porto Alegre é responsável por 40% de toda a poluição do estado, chegando a emitir 160.000 toneladas de monóxido de carbono (CO) por ano.

A Associação pela Modalidade Urbana em Bicicleta possui associados – voluntários – que trabalham na sugestão de estratégias pertinentes para determinados locais da cidade. Além disso, dialogam com o poder público e fiscalizam o andamento do Plano Diretor Cicloviário – apontando as falhas, valorizando os acertos e propondo melhorias. Segundo o voluntário Cadu Carvalho, de 32 anos, se o ritmo das obras for mantido, a totalidade do Plano só será atingida daqui a 120 anos.

O ciclista afirma que, mais do que atuar na associação, os membros da Mobicidade procuram atuar como cidadãos. “Mais ainda do que ‘combate’ direto com o poder público, a nossa prioridade é informar as pessoas a respeito do uso da bicicleta como um meio de transporte”, complementou Cadu, que acredita que o contato com as outras pessoas, de certa forma, já influencia as decisões governamentais.

Cadu é defensor da bicicleta por acreditar que ela é um meio, e não um fim. “Para mim, ela reflete uma maneira de viver, na qual se valoriza o caminho e os detalhes”, acrescentou. Além de ser seu principal meio de transporte, é sua recreação e forma de interação com o ambiente em que vive.

Plano Diretor Cicloviário

Desde 2009, a Prefeitura de Porto Alegre está implantando o Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI) – projeto que visa estimular o uso da bicicleta como meio de transporte por meio da construção de vias próprias, cômodas e seguras para os trajetos. A ação faz parte, em nível municipal, do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA).

A Lei Complementar 626, de 15 de julho de 2009, prevê uma Rede Cicloviária Estrutural de 495 km de vias que deverão tornar-se ciclovias – vias exclusivas para ciclistas separadas por canteiros ou semelhantes das vias para automóveis – ou ciclofaixas – espaços pintados nas vias.

Vinícius Vitelo, de 19 anos, é morador da zona Sul de Porto Alegre e usa a bicicleta para o auxiliar no trajeto diário de ida e volta do trabalho. “Gosto de ir assim. Além de tirar o sono, é legal poder conciliar o útil com o agradável”, disse. Para ele, a capital gaúcha ainda peca devido à falta de infraestrutura para os adeptos do meio de transporte. “Apesar de tudo, observo a ampliação e implantação de novas ciclovias”, acrescenta Vinícius.

Bicicletas laranjinhas

Sistema SAMBA proporciona bicicletas para os usuários cadastrado – Crédito: Bruna Fonseca
Sistema SAMBA proporciona bicicletas para os usuários cadastrados – Crédito: Bruna Fonseca

Buscando incentivar o meio de transporte de duas rodas e não motorizado, a Prefeitura de Porto Alegre implementou o projeto Bike Poa – executado em parceria com o banco Itaú e o Sistema de Bicicletas SAMBA.

As bicicletas “laranjinhas” estão disponíveis em estações inteligentes, conectadas a uma central de operações via wireless, alimentadas por energia solar e divididas em pontos estratégicos da capital gaúcha. O intuito do projeto é implantar a bicicleta – um meio saudável e não poluente -, combater o estilo de vida sedentário da população e diminuir os engarrafamentos e a poluição na cidade.

Para usufruir do sistema, o usuário precisa se cadastrar no site www.movesamba.com.br/bikepoa. Quando quiser retirar a magrela, basta ligar do celular para o número 4003-6052, digitar o número da estação e da posição da bicicleta escolhida e confirmar a operação quando a luz verde acender. É possível fazer inúmeras viagens durante o dia, das 6h às 22h. Toda locomoção de até 60 minutos é gratuita (para quem paga o passe mensal de R$ 10,00) – sendo necessário um intervalo de pelo menos 15 minutos entre um passeio e outro. Excedendo o tempo, é cobrado R$ 5,00 por cada hora.

A estudante de administração Rafaela Welter, de 19 anos, é adepta do Bike Poa e defensora do projeto. Segundo ela, que não possui bicicleta em casa, é a forma que encontrou para exercitar-se e curtir a vida ao ar livre da capital de forma saudável.
Rafaela acredita que o sistema é muito bem sucedido, pois não é complicado. A única crítica, mas extremamente relevante, é sobre os defeitos constantes nos objetos – como, por exemplo, pedais quebrados.

“Já vi bikes com esse defeito várias vezes. Acho a iniciativa Bike Poa muito boa e benéfica pra todos, mas é preciso cuidar um pouco mais da infraestrutura”, alerta. “A iniciativa visa tornar esse meio popular, certo? Então não nos coloquem a andar em bicicletas quebradas”, acrescenta.

“Buscamos benefícios não só para o ambiente, mas para nosso bem-estar físico também”, desabafa Rafaela, que acredita que o poder público deveria investir mais nas manutenções periódicas nas estações, facilitando, assim, a opção por esse meio.

De acordo com a EPTC, até junho de 2015 uma nova licitação para o serviço de bikes compartilhadas será lançada, com a possibilidade de ampliação das estações para outras regiões da cidade.

 

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