A paixão dos velejadores pelo Guaíba

Paulo Renato Paradeda e Carlos Henrique de Lorenzi – Crédito: William Dias
Paulo Renato Paradeda e Carlos Henrique de Lorenzi – Crédito: William Dias
Campeões da vela pelo Clube dos Jangadeiros, Carlos Henrique de Lorenzi, um dos juízes escalados para trabalhar nas Olimpíadas de 2016, e Paulo Renato Moller Paradeda falam ao Blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter sobre seus momentos especiais em um dos pontos mais importantes da cidade de Porto Alegre, desde a infância nos tradicionais banhos de rio até a conquista dos títulos no esporte.

Por William Dias
Jornalismo Ambiental / Manhã

Após receber o convite de um amigo do Colégio Três de Outubro, Carlos Henrique de Lorenzi teve em 1957 o seu primeiro contato com os barcos do Clube dos Jangadeiros, tradicional clube de vela localizado no bairro Tristeza em Porto Alegre (RS). E foi na temporada 1965-1966 que iniciou sua carreira na classe Snipe, formando uma parceria com Geraldo Linck, fundador da Ilha dos Jangadeiros, em um barco chamado Sarrafo. Depois de anos velejando com Linck, Lorenzi ainda formaria parceria ao lado de destaques do clube como os campeões brasileiros Kurt Egon Keller e Henrique Schmitz, mas foi em 1967 que Carlos iniciou uma trajetória de vitórias na vela. Ao lado de Nelson Piccolo conquistou o Campeonato Brasileiro e o Mundial de Snipe de 1967, além de garantir a medalha de ouro nos Jogos Panamericanos daquele mesmo ano. A dupla encerraria a parceria em 1969, depois de conquistar o quinto lugar no Mundial, em Luanda. Depois de observar que o clube tinha uma carência em juízes de regatas, começou a desenvolver um trabalho nessa área, e se tornou gerente nacional de regata e juiz nacional, em 1998. Depois de exercer a função no Pan de 2007, no Rio de Janeiro, é um dos juízes escalados para trabalhar nas Olimpíadas de 2016.

Quando começou na vela?
Carlos Henrique de Lorenzi – Eu comecei na vela em 1957, morava na Tristeza há alguns anos e estudava no Colégio Três de Outubro. Tinha dois colegas que eram sócios do Clube. Um deles se chamava Boris Ostergren, que me convidou uma vez para ir ao clube, e então eu acabei vindo, gostei, voltei mais vezes e comecei a me interessar pelo esporte da vela.

O que despertou o interesse na prática do esporte?
Lorenzi – Eu gostei dos barcos, gostei de velejar, já tinha uma proximidade com a água, então praticamente uni o útil ao agradável. Comecei a frequentar o clube, um ano e pouco antes do mundial de 1959. Fui desenvolvendo, velejando, correndo e iniciando a minha carreira na vela.

Qual é a sua relação com o Guaíba?
Lorenzi – A minha relação com o Guaíba é muito forte. Eu entrei no clube com 17 anos, e desde lá eu sempre vivi no rio. Antes mesmo de entrar no clube, eu frequentava muito as orlas do Guaiba. Era uma época que não existiam piscinas, então a gente tomava banho de rio. Desde o tempo de criança a gente vivia no rio, adorava tomar banho e pescar, sempre com a vista do clube de longe nas águas, com os barcos passando, fato este que despertou a minha curiosidade. Eu morava duas quadras da Tristeza, em uma rua chamada Pedro de Oliveira Bittencourt, que sai em frente à praça do bairro. Praticamente minha vida toda foi aqui, morei aqui, casei aqui, tive filhos aqui, tudo na Tristeza.

Na sua opinião, qual a importância do rio? Você acompanha os processos de despoluição?
Lorenzi – Bom, eu classificariao Guaíba como a coisa mais importante que Porto Alegre tem. A cidade é o que é, cresceu e se desenvolveu sempre tendo em vista o rio e suas margens. Na minha época de criança ele não era poluído, a gente tomava banho, fazia de tudo no rio sem problema nenhum. Com o decorrer do tempo, a população aumentando, o rio tornou-se poluído, muito até, e hoje graças a esse programa do Pisa (do DMAE) nós estamos despoluindo o rio, vagarosamente, mas estamos despoluindo. Eu acompanho todo o processo. Participei de algumas reuniões representando o clube, mas sempre acompanhei o processo para melhorar o nosso rio. Temos participação nas reuniões sobre o Guaíba. O Clube acompanhou as ações do Pisa, do lançamento dos canos, da abertura do canal no fundo do rio para enterrar os canos. Bancos de areias deixados pelas escavações.

Como imagina que possa ficar o rio futuramente?
Lorenzi – Acho que ele pode ser despoluído, ficar como era na minha infância, mas vai demorar muito porque o rio foi muito poluído ao longo de todos esses anos. Todos os esgotos largando nele, o rio sempre absorveu, tendo em vista que tem corrente, descida do rio. Ele vai melhorar, nós vamos melhorar, vai demorar de 8 a 10 anos. Nós já temos um sistema de esgoto muito grande na Serraria, com as lagoas de decantação largando uma água 80% limpa lá perto da Ponta Grossa, então acho que o trabalho está feito, é só continuar e todos devem ter uma conscientização de cuidar do rio. Temos que lembrar que ele não é uma lata de lixo e só largar no rio aquilo que o peixe pode comer.

Qual a diferença entre o Guaíba na sua época de velejador e o rio atual?
Lorenzi – Eu não sei se teria muito diferença entre antes e agora. Há 50 anos se velejava em uma água mais limpa. Hoje nós sabemos que o rio é poluído e velejamos da mesma maneira. O rio é a fonte de vida do clube e dos velejadores, velejamos igual, sujo ou não estamos sempre dentro da água. É aquela paixão pela vela, então nós vamos para água, velejamos muitas vezes em ventos fortes, acabamos tomando a água, mas estamos sempre lá.

ENTREVISTA
PAULO RENATO MOLLER PARADEDA

Paulo Renato Moller Paradeda conheceu o Clube dos Jangadeiros em 1952, iniciando na vela no projeto Filhotes do Jangadeiros, velejando em barco com o nome do clube, a “classe Jangadeiros”, criada pelo fundador Leopoldo Geyer para o aprendizado dos jovens no esporte. Entre os seus destaques na vela estão os títulos conquistados na classe Snipe como Bicampeão Sul Americano, Tricampeão Gaúcho e também Vice-Campeão Brasileiro.

Como é a sua relação com a Guaíba e qual foi o seu melhor momento na vela?
Paulo Renato Moller Paradeda – Relação umbilical desde menino, quando tomava banho em uma prainha próxima ao Iate Clube Guaíba e assim foi a vida inteira até chegar o Jangadeiros. Todos os momentos foram especiais. A vela pra mim sempre foi um prazer muito grande, tive melhores momentos quando ganhei campeonatos, mas essa relação com o clube é o que sempre me encanta. A minha vida inteira foi assim, pois eu sempre gostei, achei um espetáculo.

Como era velejar no Guaiba antigamente?
Paradeda – A gente saía de barco e ficava cinco, seis dias fora. A água que se bebia e se usava para fazer comida era do rio. Muitos anos depois a gente ainda continuava, quando estava velejando em barco pequeno, com a mania de meter a mão em concha e tomar a água no meio da regata.

Como você definiria o Guaíba?
Paradeda – O Guaíba é uma coisa maravilhosa, ele dá vida para Porto Alegre. Até hoje o porto-alegrense não se dá conta da importância do Guaíba para a cidade, não só para capital, mas do outro lado do rio também, como o município de Guaíba, Barra do Ribeiro. Depois ele forma a Lagoa dos Patos, esse “mar” interior maravilhoso.

Você acompanha o processo de despoluição?
Paradeda – Já acompanho há muito tempo. Quando o ex-diretor do DMAE Flávio Presser começou a tocar este projeto com as obras para a despoluição, eu participei no sentido de orientar a forma de colocar esses canos.

Como você vê o Guaíba futuramente?
Paradeda – Eu vejo que o Guaiba vai estar cada vez melhor, os órgãos ambientais estão cada vez mais proativos e controlando de perto poluição, como a química, por exemplo, que havia dos curtumes de São Leopoldo que acabou completamente. Quanto à poluição fecal, o tratamento de esgoto de Porto Alegre vai ter 78% de tratamento, quer dizer, é um salto muito grande e pelo trabalho que o DMAE faz hoje, verificando rua a rua, no programa chamado Esgoto Certo, verificando quais são as ligações clandestinas que existem e resolvendo cada uma delas, de forma que daqui a uns 15 ou 20 anos é possível que nós não tenhamos mais poluição no Guaíba, nem nos arroios.

Por que as pessoas devem navegar ou praticar esportes?
Paradeda – Porque é uma coisa espetacular, maravilhosa. O dia em que o porto-alegrense conhecer o Guaíba e as adjacências todas do sul, ninguém mais vai ficar em casa, vai estar velejando, andando de barco ou remando, ou até mesmo o Stand Up, que a cada dia tem mais pessoas praticando. Para ter uma ideia, tem apenas um só acesso para barcos desde o centro de Porto Alegre até Ipanema, fora disso tu acessas só pelos clubes náuticos, isso não deve ser assim porque não é democrático. São 78 quilômetros de orla do centro da cidade até o Lami. Precisa fazer rampa no parque Marinha do Brasil, no Gasômetro, para as pessoas acessarem o Guaíba.

O que a vela contribuiu para sua vida?
Paradeda – Contribuiu muito, com o meu conhecimento cultural. Nós tivemos a oportunidade de representar o clube em campeonatos pelo mundo inteiro, então isso nos trouxe um conhecimento muito grande e quem proporcionou isso foi o clube.

Se pudesse voltar em alguma competição que disputou, qual seria?
Paradeda – Campeonato Mundial de Snipe em Málaga, na Espanha. Fiquei em quinto lugar. Foi com Carlos Altmayer. Porque é um campeonato que me marcou muito na época, podia ter ganho. Deu uma falhadinha de vento em uma ou duas regatas mas eu gostei muito, foi o momento top da minha carreira de velejador.

 

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