Quando se trata de saúde, o barato sai mais caro

Feira do Bom fim, realizada todos os sábados, das 07:00 às 13:00 - Crédito: Clícia Duarte
Feira do Bom fim, realizada todos os sábados, das 07:00 às 13:00 – Crédito: Clícia Duarte
Do interior para a cidade grande, feira ecológica resiste à pressão do mercado e mantém seu objetivo: trazer qualidade e saúde à sociedade porto-alegrense.

Por Clícia Duarte
Jornalismo Ambiental / Noite

As feiras ecológicas da capital, que acontecem nos bairros Três Figueiras, Menino Deus, Bom Fim (Redenção), Tristeza e Petrópolis, são uma pequena demonstração de que é possível levar uma vida sem consumir agrotóxicos. E o mais incrível é que os organizadores sentem prazer em desenvolver os produtos totalmente orgânicos.

“Mesmo com toda dificuldade na plantação, cuidado especial com o solo e tendo que acordar às 04:30 da madrugada para vir a Porto Alegre, nada é mais gratificante do que saber que estamos contribuindo para uma alimentação saudável das pessoas”, afirma Regina Souza dos Santos, 57 anos e há 15 atuando na feira do Bom Fim. Trabalha na roça desde os oito anos de idade e aprendeu com o pai, que tinha fazenda, a plantar com responsabilidade, sem utilização de agrotóxicos nas hortas. Traz consigo, desde cedo, a visão de uma agricultura consciente.

Ao visitar a feira do Bom Fim, percebe-se um ar diferente. Encontramos frutas, verduras e legumes reais, maçãs com furinhos, tomates em sua cor original e não naquele vermelho gritante falso. O formato e tamanho dos alimentos são compatíveis com sua aparência. São de verdade. Temos a oportunidade de adquirir – nesse caso comer – um produto hortigranjeiro sem culpa ou preocupação. O ambiente é agradável e ideal para reunir a família em um passeio no sábado pela manhã.

Molho de cenoura, fresquinho e com cheiro do campo - Crédito: Clícia Duarte
Molho de cenoura, fresquinho e com cheiro do campo – Crédito: Clícia Duarte

O preço dos produtos é diferenciado e completamente justo, visto o esforço e dedicação que os agricultores têm para produzir os alimentos vendidos. Em entrevista, donos de algumas bancas afirmam que vários clientes reclamam do custo, já que o mesmo oferecido nos mercados muitas vezes é menor. A feira também sofre com a concorrência, pois a poucas quadras dali estão localizados mais de um hipermercado.

Segundo levantamento realizado pela reportagem do blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter, quatro dos cinco hortigranjeiros são mais caros na feira dos agricultores ecologistas do que no Zaffari e no Nacional. Dos cinco, apenas a cCenoura sem agrotóxico é mais barata do que a produzida com veneno.

A pesquisa aponta uma diferença de valor que pode levar o consumidor preocupado apenas com o preço a escolher o local onde terá menos gastos, sem se preocupar com malefícios dos agrotóxicos e os benefícios que um alimento orgânico traz. Quando o assunto é alimentação saudável, o barato pode sair mais caro para a saúde.

Confira a tabela de preços:Tabela

Mesmo com a “disputa” comercial, a feira vem ganhando espaço e admiração do público, instigando cada vez mais clientes curiosos a começarem a frequentar o local.

Dona Maria Lúcia, 49 anos, é a prova disso. “Não conhecia a feira, quando visitei foi amor à primeira vista (risos). Chega a ser engraçado, mas realmente percebi mudanças na minha saúde e de meus familiares, nos sentimos mais saudáveis, mais dispostos. Hoje me desloco do bairro Restinga periodicamente todos os sábados até a Redenção para fazer minha feirinha e sempre a indico pras pessoas”, comenta.

Questionada sobre os preços, Maria responde que não se importa em gastar um pouco a mais, pois tem certeza que compensará nos anos de sua vida. “Sei exatamente o que estou comprando, sei de onde vem, vejo e conheço quem está me vendendo. Há confiança e um vínculo entre clientes e fornecedores. Acho que isso não tem preço”, desabafa.

Dados de uma pesquisa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberados no site do Portal Anvisa, apontam que produtos como pimentão, morango, pepino, cenoura e alface, são os cinco com maior quantidade de agrotóxicos.

Segundo informado pelo órgão, um brasileiro chega a ingerir, em média, 5,2 litros da substância por ano. O atual relatório traz resultados de 3.293 amostras de 13 alimentos, incluindo arroz , feijão, tomate e os cinco anteriormente citados. Dados como esse, tornam o Brasil campeão em uso de agrotóxicos.

Mesmo tendo consciência das complicações do cultivo de alimentos orgânicos, os produtores rurais optam por uma agricultura nos proporcionando a alternativa de viver mais. Os consumidores agradecem.

“Formigueiro” de gente aos sábados

Por Vanessa Vieira
Jornalismo Ambiental / Noite

As manhãs de sábado na José Bonifácio tem se tornado palco de momentos onde a alegria dos feirantes da feira agroecológica que ocorre lá se completa com a satisfação dos clientes que procuram suas bancas para adquirirem um produto totalmente livre de agrotóxicos. Iniciada em 1989 pela Cooperativa Ecológica Coolmeia, a Feira dos Agricultores Ecologistas (FAE) conta hoje com mais de 130 bancas e famílias que trabalham junto no negócio. Normalmente quem vende os produtos são os mesmos que trabalham nas terras para prepará-los.

Ao lado de algumas bancas, encontramos músicos com os seus instrumentos tocando na maioria das vezes rock e blues, e junto deles, logo ao chão um chapéu na esperança de conseguir algum valor em dinheiro pelo seu trabalho artístico. Nos dois sábados visitados pela reportagem do blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter, o lugar estava sempre cheio. Chamam a atenção os casais com filhos plantando uma sementinha de aprendizado sobre o que é melhor para a saúde.

O Brasil já ocupa posição de destaque na produção mundial de orgânicos. Valorizando então a busca de mais consumidores pelo produto. Clientes fiéis ou curiosos que apenas passeiam pela redenção que fica logo ao lado não perdem tempo de se achegarem um pouco mais e descobrirem o que existe de tão harmônico e de especial na feirinha. Que nos sábados pela manhã mais se parece com um “formigueiro” de tanta gente.

Um dos exemplos de que a curiosidade também tem os seus benefícios é o de Adriana Cardoso, 38 anos. Ao passear pela redenção ela sentiu uma vontade de ir conhecer mais de perto a feira. Hoje faz quatro meses que frequenta o local. “Me sinto bem ao comprar os alimentos orgânicos, pois sei que é o correto a fazer com a minha saúde. Sofri de anemia e os alimentos orgânicos se tornaram parte da minha vida”, relata.

Perguntamos a sua opinião sobre os preços. “Às vezes acho abusivo, mas aí penso em todo o esforço que essas pessoas tem, tanto para a produção, quanto para trazer a Porto Alegre. Chega a ser barato”, responde Adriana Cardoso.

Dúvidas e respostas

O que é um alimento orgânico?
Para ser considerado orgânico, o produto deve ser cultivado em um ambiente que considere sustentabilidade social, ambiental e econômica e valorize a cultura das comunidades rurais A agricultura orgânica não utiliza agrotóxicos, hormônios, drogas veterinárias, adubos químicos, antibióticos ou transgênicos em qualquer fase da produção.

O produto que você consome na feira é orgânico mesmo?
O produtor sem certificação orgânica deve apresentar um documento chamado Declaração de Cadastro, que demonstra que ele está cadastrado junto ao Ministério da Agricultura e que faz parte de um grupo que se responsabiliza por ele. Neste caso somente o produtor, alguém de sua família ou de seu grupo pode estar na barraca vendendo o produto.

Já os produtos vendidos em mercados, supermercados, lojas, devem ter estampado o selo federal do SisOrg (Sistema Brasileiro de Avaliação de Conformidade Orgânica) em seus rótulos, sejam produtos nacionais ou estrangeiros.

Os restaurantes, lanchonetes e hotéis que servem pratos orgânicos ou pratos com ingredientes orgânicos devem manter à disposição dos consumidores listas dos ingredientes orgânicos e dos fornecedores deste ingredientes.

Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

 

2 ideias sobre “Quando se trata de saúde, o barato sai mais caro”

  1. Acho que deveriam ter comparado os preços com os dos orgânicos dos supermercados.

    É nesta comparação que vemos o quanto vale a pena comprar na feira.

    Não dá pra comparar preço o do orgânico produzido em pequena escala com o alimento produzido em grande escala e com agrotóxicos e que ainda é vendido em grandes redes que têm preços mais competitivos.

  2. Achei um belo testo na defesa dos produtores,sou cliente habitual..sempre busco além da qualidade preço já que os produtores não tem os produtos tabelados.Só tenho uma consideraçãoà fazer..o fato de não aver intermediaários acho
    que eles poderiam reduzir suas margens de lucro,afinal estas feiras são de alguma forma elitistas porque muito gente gostaria de comprar mas a diferença dos preços afasta muitos consumidores.Afinal produzir orgânicos é mais barato do que produzir alimentos na agricultura convencional,isto é fato.

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