A sustentabilidade dos caminhos rurais

Crédito: Leandro Osório
Crédito: Leandro Osório
Demarcação das áreas rurais de Porto Alegre garante a produção de alimentos orgânicos e promove a sustentabilidade ambiental da região. O prefeito José Fortunati inseriu os Caminhos Rurais no Sistema de Gestão da Política de Desenvolvimento Rural e firmou importante pacto que assegura a qualidade dos alimentos produzidos por pequenos e médios agricultores.

Por Leandro Osório
Jornalismo Ambiental / Manhã

Quem não conhece e vai até lá, encanta-se e não acredita que a região faz parte da capital gaúcha. Localizado no extremo sul de Porto Alegre, os Caminhos Rurais ainda são regiões desconhecidas por boa parte da população urbana. Povoado na sua grande maioria por pequenos agricultores, suas áreas de plantio e comercialização de produtos, muitos cultivados sem agrotóxicos, transformam a região numa verdadeira zona rural em plena capital.

Compreendidos por 11 bairros, as propriedades recebem também visitas guiadas e incentivam o consumo de alimentos naturais plantados nas hortas e pomares.

Recentemente o prefeito José Fortunati inseriu a zona rural de Porto Alegre no Sistema de Gestão da Política de Desenvolvimento Rural, devolvendo a demarcação da área, extinta pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental de 1999, sendo esta uma reivindicação antiga e de suma importância solicitada pelos produtores rurais que enfrentavam dificuldades para licenciar algumas atividades e conseguir linhas de crédito especiais para atividades primárias.

A Lei Complementar 775/15 denomina zona rural uma área de 4,1 mil hectares, localizada no Sul e Extremo Sul de Porto Alegre, que equivale a 8,28% do território da cidade. Essa alteração tem a finalidade de garantir e resguardar a sobrevivência dos pequenos e médios produtores rurais, a preservação da fauna e flora nativa contida na região, a sustentabilidade ambiental e promoção do turismo ecológico.

Segundo Nairo Guerisoli, produtor rural e vice-presidente da Associação Porto Alegre Rural, proprietário da Cabanha Costa do Cerro, antes de 1999 a zona rural possuía ampla área rural, 33% da área total da capital. A reconquista, remarcação e retomada dos pouco mais de 8% de áreas “é melhor do que nada”, salienta Nairo.

A maior preocupação dos proprietários é frear a especulação imobiliária que faz com que sejam construídos condomínios sem o mínimo de conscientização e cuidados com o meio ambiente. O avanço imobiliário é um fator positivo para o capital, porém, há de estudar melhor as regiões e respeitar a tradição e cultura existente.

A cabanha Costa do Cerro é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Segundo Nairo Guerisoli, as pessoas que não tem tempo, que não conhecem a lida do campo, podem buscar e encontrar a natureza na propriedade que faz parte dos Caminhos Rurais de Porto Alegre.

Em função dos caminhos rurais, Porto Alegre faz parte do Pacto Mundial pela Política Alimentar Urbana (Urban Food Policy Pact), conhecido como Carta de Milão. O pacto é um movimento mundial liderado pela Prefeitura de Milão, na Itália, com a intensão de estimular a produção de alimentos nas proximidades dos grandes centros urbanos com base nos princípios de sustentabilidade.

Os caminhos da alimentação saudável 

Crédito: Leandro Osório
Crédito: Leandro Osório

Recentemente o que mais se fala, quando o assunto é “vida saudável” – fora os exercícios físicos matinais –  é o tipo de alimento que se come diariamente. Sabe-se que um prato colorido e uma regrada dieta bem elaborada fazem toda a diferença. Obviamente que não é só o prato variado que garante a manutenção correta do bem viver.

É preciso saber a procedência dos alimentos. Neste contexto os caminhos rurais podem ser considerados como o roteiro da alimentação saudável. Suas propriedades possuem uma variada gama de hortigranjeiros produzidos pelos pequenos e médios produtores rurais, muitos deles sem o uso de agrotóxicos, obtidos pelo manejo agroecológico presente na região.

Para Salvador da Silva, o Dodô, produtor popularmente conhecido na região, tudo que se planta extraindo de forma natural da terra faz bem ao corpo e a alma. Quando se mostra diretamente ao consumidor a maneira como planta e a procedência legal dos produtos a procura se faz naturalmente.

“É uma troca. Nós produzimos de acordo com a época do ano, respeitando a hora do plantio e a hora da colheita, eles avaliam e voltam a nos procurar. Há 12 anos participamos de feiras vendendo diretamente ao consumidor, diferentemente de quando vendíamos para a Ceasa”, informa o produtor.

A grande dificuldade nesse sentido, desde a saída da Ceasa, é a reposição ágil em se tratando do volume x tempo de colheita, ressalta Salvador da Silva.

“Nossa propriedade não possui recursos suficientes para alta produção e participação em mais de uma feira por semana. O que colhemos na sexta-feira  comercializamos no sábado. Precisamos de alguns dias, dependendo das condições do tempo, para poder colher novamente. Atualmente eu não conseguiria participar de uma feira no meio da semana devido a esse déficit na produção. Esse formato ajuda a manter qualidade dos alimentos”, afirma Dodô, que aos sábados está pontualmente na tradicional Feira da Rua José Bonifácio, iniciando suas atividades às 4h da madrugada.

Ele destaca ainda que nessa época, os alimentos mais procurados são as folhosas: rúcula, agrião, alfaces, salsinha, chicória. Sobre o consumo direto, devido à crise econômica atual, não há mais condições de se manter somente com o que ele extrai da própria terra. O produtor concorda que o melhor seria ter essa possibilidade de alimentar-se somente com o que é natural, considerando os Caminhos Rurais como o caminho da boa alimentação.

Eliseu Rosa da Silva, mais conhecido como tio Juca, 67 anos de idade, um dos mais antigos proprietários rurais da região – com quase 50 anos, ultrapassando gerações – diz que em virtude das chuvas a sua produção foi prejudicada. Perdeu um pomar inteiro de morangos, tendo que retomar o plantio e colheita quando o tempo firmou mais. Acredita que a mudança climática atrapalha muito o andamento da sua produção.

Para a micro empresária, consumidora assídua cliente da feira Juliana Farias, o uso de alimentos orgânicos faz uma enorme diferença nos cardápios: “Nas saladas sempre há ingredientes orgânicos; normalmente folhas. Hoje essa alimentação mais cuidadosa está se tornando necessária. São livres de produtos químicos e venenos. Acho que isso ajuda muito, ainda mais na criação da alimentação e consciência da minha filha. Ela desde pequena sabe que alimentos saudáveis são aqueles que fazem bem para o corpo da gente. E que quanto mais naturais e coloridos, mais saudáveis são”.

Para os que buscam alimentos de boa qualidade, um bom roteiro é o dos Caminhos Rurais de Porto Alegre.

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