Rubén Pesci: urbanismo e sustentabilidade devem estar de mãos dadas

Rubén Pesci, referência na área de urbanismo – Crédito: Arquivo Pessoal
Rubén Pesci, referência na área de urbanismo – Crédito: Arquivo Pessoal

O arquiteto argentino Rubén Pesci fala nesta entrevista exclusiva concedida ao blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter como seria a sociedade ideal e questiona a forma com que a sustentabilidade é aplicada nas construções modernas.

Por Rafael Bernardes
Jornalismo Ambiental / Noite

Arquiteto argentino, nascido em La Plata, 73 anos, Rubén Pesci é referência na área de arquitetura e urbanismo. O fechamento do seminário da Virada Sustentável de Porto Alegre, ocorrido nos 1 e 2 de abril, contou com sua palestra sobre desenvolvimento sustentável. Além de ser formado em arquitetura, Rubén cursou pós-graduação em Roma, com Bruno Zevi, e em Veneza, com Giancarlo de Carlo, Sérgio Los, Humberto Eco e Tomás Maldonado.

Em 1974, criou a Fundação CEPA, referência na América Latina em projetos ambientais, e a Revista Ambiente. No ano de 1989, criou o Foro Latino Americano de Ciências Ambientais (Flacam), que conta com 40 sedes em países como Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Chile, Espanha, México, Paraguai, Peru e Venezuela. Hoje, a Flacam é cátedra Unesco para o Desenvolvimento Sustentável.

As obras e ideias em arquitetura, urbanismo, planejamento e desenvolvimento sustentável do arquiteto foram premiadas e publicadas em mais de 300 artigos em 15 países. Além disso, é autor de 10 livros sobre desenvolvimento sustentável e questões ambientais.

O arquiteto questiona há mais de 20 anos a forma como a sociedade trata os assuntos ambientais na área do urbanismo. Em entrevista exclusiva para o blog de Jornalismo Ambiental, Rubén Pesci conta como foi palestrar na primeiraVirada Sustentável de Porto Alegre e opina sobre assuntos como arquitetura e urbanismo de forma sustentável, sociedade ideal e propriedade privada.

A sustentabilidade pode ser definida como?
RUBÉN PESCI: Existem muitas definições, ninguém sabe muito bem do que se trata. Nós temos tentado realizar construções mais profundas. Sustentabilidade deve ser relacionada à responsabilidade que temos pelo nosso mundo, por nosso bairro, nossa realidade, nosso próprio grupo humano e pensar na terra como um ser vivo. Se a sustentabilidade se responsabilizasse por tudo, certos sentidos dos hábitos tradicionais começariam a ficar envelhecidos.

Como seriam propriedades sustentáveis ideais?
PESCI: A questão é: por que existem propriedades privadas? O ambiente é contínuo, o ar, a terra, a água. As propriedades privadas sempre são obstáculos e agregam mais dificuldades ao meio ambiente do que facilitam. Nas antigas civilizações, em qualquer lugar do mundo a população vivia agregada, formando quase como se fossem colinas habitáveis. Isso ocorria principalmente na Europa, em países como a Itália, mas também acontecia na China. Eles moravam em um tipo de estádio de futebol, cem famílias juntas, como se fosse um grande hotel.  Então por que aceitamos a propriedade? As divisas? Nós dividimos o território em pequenas partes e tomamos como posses. Esse é um dos princípios de não sustentabilidade. Nós inventamos um sistema humano com algumas premissas que fraturam essa continuidade e geram problemas de esgoto, de propriedade e confrontos com vizinhos.

Você já teve a experiência de morar em algum lugar mais social e sustentável?
PESCI: Eu, que tive a sorte de morar na Europa por quatro anos, vivi uma situação onde uma família em cima da casa onde eu estava me passava comida. Eu pegava e retribuía com algo que havíamos feito e colocava em uma cesta. Era uma vida muito mais cooperativa, muito mais familiar, no sentido amplo da palavra.

“O máximo da modernidade, quando se trata de sustentabilidade, consiste em voltar a morar como antigamente.”

 

Seria possível construir moradias totalmente sustentáveis?
PESCI: A sustentabilidade na construção de casas e edifícios tem alguns preceitos completamente errados, que partem da fragmentação do uso do solo. Naturalmente se for colocada uma “coberta verde” que pode absorver água da chuva, se tu utilizas uma construção que possui uma maior inércia térmica, melhora essas condições. Porém a melhora que as tecnologias proporcionam não soluciona o outro problema que é de base jurídica e cultural. Esse problema é a privatização do solo. Estão tentando algumas soluções, como nos Estados Unidos, onde estão propondo moradias nos centros históricos. Nós havíamos feito uma urbanização em Monterrey e eles praticavam um urbanismo inteligente, onde não havia carros, moradias individuais, onde tudo era mais coletivo. Então a pessoa desce e encontra bares, Starbucks, lojas, música, gente na rua. Como se morassem nos antigos centros urbanos. Então, o máximo da modernidade quando se trata de sustentabilidade consiste em voltar a morar como antigamente.

Você conhece algum exemplo de propriedade sustentável?
PESCI: Parece que Pedra Branca, em Santa Catarina, está na direção certa. Nós temos feito uma cidade na Argentina que se chama Nordelta. É uma cidade completa, deve ter por volta de 150 mil moradores. Neste local, muitos aspectos da sustentabilidade estão perfeitamente aplicados. Mas infelizmente é um pouco elitista, é para poucos que possuem muito dinheiro. Buscando exemplos mais integrais, meu mestre Giancarlo de Carlo comprou junto com empreendedores um grande terreno muito antigo, desabitado. Ele construiu moradias inteligentes nesse local. Têm serviços comuns, apartamentos subterrâneos e com isso recebeu diversos prêmios. Porém esses empreendimentos também são sempre um tanto elitistas. Creio que o grande desafio, que não conheço exemplos, seria obter as mesmas qualidades em moradias sociais. Isso é um grave erro de política de estado. Não é por conta do custo da moradia e sim por conta do custo da terra. O estado não tem terra para fazer moradia social, então sai para comprar terra o mais barato possível e essa terra fica longe de tudo, da saúde dos serviços, da educação. O culpado de não existir moradias mais sustentáveis e sociais é o estado, que não entende que deve gerar moradia social perto das cidades, investindo um pouco mais na compra do solo, pois a rentabilidade seria enorme durante o tempo.

“Eu conheci a Fazenda do Arado e seria perfeitamente possível utilizar uma parte do terreno para a rentabilidade e deixar a outra parte intacta.”

 

Qual a sua opinião sobre a possível construção de um condomínio no terreno onde fica a Fazenda do Arado Velho, em Belém Novo?
PESCI: Sou completamente contra empreendimentos realizados em locais ambientais. No plano diretor de Florianópolis, construímos junto com a sociedade um conceito de valorização do solo onde os valores ambientais são inegociáveis. Tem quem queira transformar em rentabilidade e eu acho que não é certo. O solo não pode ser utilizado para a rentabilidade. Eu conheci a fazenda do Arado e seria perfeitamente possível utilizar uma parte do terreno para a rentabilidade e deixar a outra parte intacta. A parte onde se encontram a fauna e a flora.

Como seria um futuro mais sustentável?
PESCI: O mundo do futuro deve parecer com a ilha de Manhattam, em Nova Iorque. Águas nos lados e o Central Park no meio. Lá você pode viver uma vida urbana quase natural. Existem muitas espécies animais e vegetais, a água da chuva pode ser reaproveitada. Estamos construindo um conceito chamado Stepping stones, que é constituído por setores verdes, cercados por lagos. Isso nos aproxima da natureza, são espaços culturalmente construídos.

Como você se sentiu quando foi convidado para palestrar no fechamento da primeira Virada Sustentável de Porto Alegre?
PESCI: Me senti muito honrado por ter sido convidado para um evento tão importante. Fui um pouco confuso, não sabia se iria falar para um público muito ecologista, muito ambientalista. Fazer o encerramento foi fácil, de certo modo, para transmitir o pensamento da Flacam.

Qual é a importância desse evento para a cidade?
PESCI: Trazer de volta à cena da cidade o assunto da sustentabilidade é muito importante. Assunto que Porto Alegre conhece muito bem. Uma cidade que têm nomes importantes na história da sustentabilidade. Mas creio que a luta é muito maior do que imaginamos e é necessário fazer esses encontros que incentivam mudanças para que possamos colocá-las em prática. As mudanças devem ser politico sociais.

Como você vê o fato de patrocinadores e apoiadores do evento serem empresas que causam malefícios ao meio ambiente?
PESCI: É uma contradição universal. Algumas empresas querem fazer parte dessa causa ambiental com boas intenções, mas não sabem como. Outras estão procurando investir nisso para que sejam reconhecidas e para evitar que fiquem de fora dessa causa, mesmo que ocasionando danos ao meio ambiente.

Como você se sentiu após ter realizado a palestra de fechamento?
PESCI: Tive um mal estar antes da palestra, mas me senti muito bem, pois estava com dois mil fãs da sustentabilidade e isso é muito importante para quem trabalha com essa causa todos os dias.

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