Greenwashing pode estar com os dias contados

O estudante de jornalismo da UniRitter Nando Donel entrevista Ricardo Voltolini no segundo dia do Seminário Internacional da Virada Sustentável em Porto Alegre – Crédito: Roberto Villar Belmonte
O estudante de jornalismo da UniRitter Nando Donel entrevista Ricardo Voltolini no Seminário Internacional da Virada Sustentável em Porto Alegre – Crédito: Roberto Villar Belmonte

“A empresa não muda por livre e espontânea vontade, ela muda porque a sociedade muda, ela muda porque a ciência muda, porque os valores mudam, então as empresas estão acompanhando esse movimento e mudando também”, explica Ricardo Voltolini nesta entrevista exclusiva concedida durante o Seminário Internacional da Virada Sustentável, realizado no primeiros dias de abril em Porto Alegre.

Por Nando Donel
Jornalismo Ambiental / Noite

Diante dos desafios da sustentabilidade, as empresas estão se modificando. Para o diretor-presidente da consultoria Ideia Sustentável, Ricardo Voltolini, não é mais concebível, com todos os problemas ambientais vistos nos últimos anos, que uma empresa para obter lucro, trabalhe de forma que prejudique o meio ambiente e as pessoas. No entanto, ressalta o consultor, “a empresa não muda por livre e espontânea vontade, ela muda porque a sociedade muda, ela muda porque a ciência muda, porque os valores mudam”.

A sustentabilidade é um novo jeito de pensar e fazer negócio, considerando a premissa de que não é mais possível agir de forma que traga prejuízo para as pessoas e o meio ambiente. Ricardo Voltolini, que é um dos mais requisitados consultores de sustentabilidade empresarial do país, considerado referência nacional no tema, explica que não é possível definir a quantidade de empresas sustentáveis por ser um conceito relativo, mas é otimista em relação ao crescimento dessa ideia.

“Muitas empresas estão caminhando para serem sustentáveis, muitas empresas trabalhando para mudar suas práticas, olhando de um jeito diferente os seus impactos, isso já é um movimento global que vai empurrando o nível de consciência”, ressalta o jornalista, consultor e empresário.

Por outro lado, existem algumas empresas que, se aproveitando do conceito de sustentabilidade ser relativo, tentam colar em sua imagem uma ideia falsa de ser ‘empresa verde’, usando a publicidade para alavancar esse pensamento, é o chamada Greenwashing, do inglês green, verde, a cor do movimento ambientalista, e washing, lavagem, no sentido de modificação que visa ocultar ou dissimular algo.

Contudo, Voltolini acredita que essa atitude falsa não se mantém por muito tempo pelo crescente aprendizado das pessoas. “A sociedade vai se informando e ninguém mais cai em conto de vigário. Quando você vai no supermercado, onde tem um produto que diz que é mais verde, as pessoas já estão mais críticas querendo saber o porquê que é mais verde. Então eu acredito que o Greenwashing não vai frutificar. Vai pegar alguns desavisados, mas os desavisados estão diminuindo”, diz.

Um dos argumentos usados por empresas convencionais para justificarem a não adoção da ideia sustentável é o econômico, entretanto para Voltolini não existe nenhuma incompatibilidade entre ter lucro, ser rentável e ser sustentável. “Pra mim há uma diferença grande entre custo e investimento. Quando eu penso em custo, eu penso em despesa, é algo que eu vou gastar. Quando eu penso em sustentabilidade, eu penso em investimento, é algo que eu vou colocar recurso e obter resultado”, elucida.

Como exemplo ele fala de duas crises vivenciadas em todo o mundo, a da água e da energia.  “Se eu tenho mecanismo para economizar água, como, por exemplo, reaproveitamento circular de água e eu não gasto mais água, isso vai ter um impacto nos custos da empresa e o impacto me parece positivo. Se eu economizo energia por uma série de medidas estratégicas eu também vou ter um impacto positivo nos meus custos. Se eu economizo custo a tendência é ter um resultado melhor”, explica.

Na avaliação otimista de Ricardo Voltolini, as empresas sustentáveis tendem a crescer cada vez mais por uma série de vantagens em relação às convencionais. “A empresa mais sustentável economiza custo. Ela atrai e retém mais talentos. Já há pesquisas que mostram que as pessoas querem trabalhar em empresas mais sustentáveis, empresas que tem um propósito mais elevado”, garante.

“Já há indicadores que mostram que para empresas de capital aberto, tendo a sustentabilidade como componente, ela aumenta valor, então o valor das ações na média é maior do que as ações de empresas convencionais”, afirma. Voltolini ressalta ainda que as empresas sofrem menos crises de imagens e consequentemente tem uma relação melhor com os bancos. “São empresas que conseguem mais facilidades para financiamentos”, exemplifica.

Leis ambientais brasileiras: teoria versus prática

Apesar das empresas estarem obrigatoriamente mais preocupadas com as questões ambientais, para o Pós-Doutor em Direito Ambiental e dos Desastres Delton Carvalho, a lei brasileira, que é muito ambiciosa e muitas vezes desconectada da realidade, pode estar contribuindo para a irregularidade e consequentemente acaba sendo uma barreira para o desenvolvimento sustentável.

“Com as dificuldades de se obter rapidamente licenciamentos ambientais, se adequar a projetos urbanísticos da cidade, se obter outorga para uso de recursos hídricos, isso tudo acaba pressionando empresas e a própria cidade para a irregularidade, para ocupação de espaços de risco sem nenhum tipo de controle estatal”, afirma Carvalho.

As leis ambientais brasileiras estão entre as mais completas e avançadas do mundo. Até meados da década de 1990, a legislação cuidava separadamente dos bens ambientais de forma não relacionada. Com a aprovação da Lei de Crimes Ambientais, ou Lei da Natureza (Lei Nº 9.605 de 13 de fevereiro de 1998), a sociedade brasileira, os órgãos ambientais e o Ministério Público passaram a contar com um mecanismo mais completo para punição dos infratores do meio ambiente.

Para Delton Carvalho, a lei ambiental brasileira é bem produzida na teoria, mas na prática tem suas precariedades. “Ela é em alguns pontos desconectada com a realidade, o que acaba pressionando a sociedade, as cidades e as empresas para um crescimento e desenvolvimento desordenado e irregular”, critica.

“No nosso direito nós pensamos uma cidade, uma vida ideal e tentamos aplicar na realidade e isso já mostra um déficit. Hoje nós temos que retomarmos o direito ambiental e fazer ele mais eficaz na prática”, defende o Pós-Doutor em Direito Ambiental e dos Desastres formado na University of California, Berkeley, USA, e Mestre e Doutor na Unisinos.

Para Delton Carvalho, a solução é primeiramente quantificar economicamente os danos e cientificamente os riscos, levando em consideração uma lógica de custo e benefício não voltada apenas para a economia, mas sim para os problemas ambientais e sociais. “Tem que computar quantas vidas são perdidas, qual o prejuízo econômico esperado para perda de produtividade, por exemplo, que as mudanças climáticas vão fazer na agricultura. Se não levar em consideração esses números, a prevenção vira um mero discurso”, alerta.

Ele diz ainda que a fiscalização brasileira é rígida, mas não é generalizada, pois falta investimento técnico e uma capacitação intelectual e de meios para ser possível realizar uma fiscalização adequada. “O que vemos hoje são órgãos ambientais sucateados. Precisamos de um número de fiscais adequados, instrumentais adequados, uma base jurídica e cientistas que deem suporte para que possam fiscalizar”, explica.

O que deu errado no desastre de Mariana?

O rompimento da barragem de rejeitos da Samarco em novembro de 2015, que destruiu o distrito mineiro de Bento Rodrigues, é o maior desastre do gênero da história mundial nos últimos 100 anos. Se for considerado o volume de rejeitos despejados que foi de 50 a 60 milhões de metros cúbicos (m³), o acidente em Mariana (MG) equivale, praticamente, à soma dos outros dois maiores acontecimentos do tipo já registrados no mundo, ambos nas Filipinas, um em 1982, com 28 milhões de m³; e outro em 1992, com 32,2 milhões de m³ de lama.  Os dados estão presentes em estudo da Bowker Associates, consultoria de gestão de riscos relativos à construção pesada, nos Estados Unidos, em parceria com o geofísico David Chambers.

O Pós-Doutor em Direito Ambiental e dos Desastres Delton Carvalho caracteriza o acontecimento de Mariana como uma série de fatores que deram errado, primeiro ele denuncia a falta de planejamento. “Quando se lida com grandes empreendimentos a ideia é que tenha um plano de respostas a emergências e uma esfera de prevenção forte e qualificada. O licenciamento ambiental mostra uma série de falhas nessa análise de risco”, explica.

Depois ele cita o fraco plano de resposta, que previa a lama percorrendo 70 quilômetros, quando na prática ela percorreu 770 quilômetros. “Foi feito todo um planejamento de prevenção de desastres, que foi aprovado. E no momento que um desastre desses acontece eu não posso pensar o que eu vou fazer agora, eu preciso ter tudo planejado”, critica.

“Precisa-se pensar de forma antecipada e quem serão as entidades competentes para lidar com isso, os planos no Brasil são meramente teóricos, sem que tenha uma cobrança mais robusta em planejamento”, avalia Delton Carvalho.

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