“Minha querida, tu vai ter que por a mão no lixo!”

Trabalhadores usam luvas e equipamentos para não se machucar na Unidade de Triagem da Nova Chocolatão – Crédito: Viviane Santos
A história de quem precisou – literalmente – colocar a mão no lixo para sobreviver

Por Cristine Fogliati Nunes e Viviane Santos
Jornalismo Ambiental campus Fapa / Noite

A bordo do táxi, Daniela, a mãe e seus dois filhos pequenos. Saindo de Bagé, a caminho da capital com dois sacos de roupas, um liquidificador, cinco quilos de açúcar e uma esperança que se desfazia cada vez que passavam em frente aos prédios da avenida Borges de Medeiros sem que nenhum fosse sequer parecido com a moradia de sua mãe. Em frente ao Centro Administrativo Fernando Ferrari, os sonhos da jovem de 20 anos pareciam distantes.

Uma montanha de lixo foi o primeiro contato visual dela com o lugar. Vila Chocolatão, seria seu novo lar. Hoje, com 33 anos, Daniela do Carmo Gonçalves relembra da sua surpresa ao chegar a Porto Alegre. Seu único pensamento naquele dia era: “eu quero voltar”. Mas, era tarde demais.

A única saída encontrada por sua mãe foi chamar a jovem para auxiliá-la no Centro de Triagem. Assim, pelo menos com uma pequena renda ajudaria na nova vida. No princípio, Daniela se opôs à ideia de trabalhar naquele lugar. A realidade só veio à tona quando ouviu do seu padrasto: “Minha querida, tu vai ter que por a mão no lixo!”.

Sua vinda aconteceu depois de uma separação tumultuada que lhe deixou cicatrizes psicológicas. Em Bagé, se dedicara somente ao lar. Na capital, sozinha, teria que encarar o sustento dos pequenos. A jovem estava totalmente sem rumo, sem emprego e até sem documentos. Quando se deu por conta da real situação, com filhos pequenos, indefesos e famintos, sem ter sequer certidão de nascimento, ela concluiu que tinha duas opções: continuar sentada, chorando, se sentindo vítima, ou, arregaçar as mangas e colocar as mãos no lixo.

Após cerca de dois anos trabalhando no Centro de Triagem da Vila Chocolatão, Daniela, que estava estudando, conseguiu sair. Arrumou emprego como auxiliar de higienização e logo em seguida foi promovida para auxiliar de cozinha. Tudo parecia bem. Nesse meio tempo, as famílias foram transferidas para um lugar novo, longe do centro, na avenida Protásio Alves.

Ganharam novas moradias, creche, galpão para reciclagem e biblioteca, mas  não era a mesma coisa. “Ficou tudo muito longe, o centro, os parques, aqui não tem área de lazer”, relata. A jovem saiu da empresa em que trabalhava e voltou para o Centro de Triagem, agora na Nova Chocolatão.

Trabalhou por mais cinco meses, mas logo lembrou porque havia saído: porque achava aquele não era seu lugar. De uma hora para outra surgiu uma oportunidade ela iniciou um trabalho como educadora social na própria biblioteca da comunidade. Ficou um tempo lá, mas logo saiu para uma oportunidade melhor. Atualmente, Daniela trabalha em uma pizzaria.

Ela começou na reciclagem da antiga vila, e é grata por isso. Assim como Daniela, há na comunidade muitas histórias interligadas de algum jeito pelo lixo.

“Aqui, a falta de carga é um problema”

A Unidade de Triagem da Nova Chocolatão sustenta atualmente 32 famílias – Crédito: Cristine Fogliati

De família humilde, Willian Menezes Garcia, 26 anos, é mais um dos rostos de trabalhadores da Unidade de Triagem da Nova Chocolatão. Ele viu nascer na antiga Vila Chocolatão o galpão de reciclagem, feito de PVC, que com a ajuda dos moradores e do ‘’Seu Léo’’, antigo Presidente da Associação de Triagem, foi erguido.

Quando criança, ia com a mãe para o trabalho. Ela era uma das recicladoras que trabalhou na prensa do papel por sete anos na antiga vila, mas parou devido a problemas cardíacos. Sorrindo, Willian lembra do trabalho da mãe na reciclagem, e como aprendeu a gostar e ganhar a vida com esse trabalho, que exerce com gosto.

Antes de trabalhar no galpão da comunidade, tinha seu carrinho e reciclava por conta. Saia para pegar o material e em casa trilhava. Após, vendia. Ao comparar sua vida hoje, conta que na antiga moradia havia problemas como: incêndios, esgoto que corria a céu aberto e ratos. Mesmo assim, sente saudades.

Ao chegar na nova casa, as 181 famílias reassentadas pelo Departamento Municipal de Habitação, no dia 12 de maio de 2011, se viram em meio a um território em disputa pelo narcotráfico. Os moradores saíram da Antiga Chocolatão para a Avenida Protásio Alves, longe do centro, perto do crime.

A vila ficava em um terreno próximo ao prédio marrom da Receita Federal, conhecido como Chocolatão, localizado entre a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a Câmara de Vereadores de Porto Alegre.

As primeiras famílias começaram a ocupar a rua Otávio Francisco Caruso da Rocha em 1984, se denominavam ”aldeia”.  Em 1990, se formou a ocupação na Rua Loureiro da Silva, que deram nome a vila e era constituída de papeleiros, catadores e triadores de resíduos. O novo loteamento foi doado pela União (Ministério do Planejamento). Dispõe de ruas pavimentadas, iluminação pública, quatro unidades de comércio e serviço, centro social, creche, além de uma unidade de triagem de resíduos recicláveis, construída pela Usiminas, e que traz sustento as famílias que trabalham nela.

“A maioria que era da antiga se espalhou. Porque lá na antiga construíram os prédios, tiraram as famílias. Eles vieram, numeraram as casas, coletaram o nome das famílias, fizeram cadastros e nós de acordo, viemos pra cá. Quem ficou aqui já se adaptou”, conta pessoalmente a equipe.

Conforme contato por e-mail com Ana Lúcia dos Santos Marques Meira, do Gabinete da DLC-DMLU, do núcleo de Coleta Seletiva, o Centro de Triagem recebe diariamente três cargas de materiais recicláveis, tais como: papéis, plástico, metais, isopor, papelão, vidro, garrafas pet, Tetrapac e alumínio. Os materiais são trazidos pelo DMLU (Departamento Municipal de Limpeza Urbana), das 10h30min às 15h30min. Os recicladores ficam responsáveis por receber, trilhar, fazer os fardos e deixá-lo pronto para a chegada da Embrapel, empresa responsável pela reutilização do material, que segue o ciclo: volta a reciclagem e novamente a empresa.

Um dos problemas enfrentados na triagem é o lixo que chega como reciclado, mas está misturado a resíduos orgânicos e materiais médicos, como a seringa (que traz diversos riscos aos trabalhadores). Segundo a Assessora da Triagem, Jovana do Amaral, eles fizeram uma parceria com o Posto de Saúde, pois como não podem evitar o contato dos trabalhadores com materiais infectados, eles assim que se ferem vão diretamente fazer exames.

Todos os dias de segunda a sexta-feira, às 6h30min Willian já esta de pé. Prepara o seu café enquanto assiste desenho, e já se apronta para a “pegada”, como se refere ao inicio do expediente, às 8h.

A rotina é quase sempre a mesma. Às 10h40min, os trabalhadores podem sair para tomar café – na Lancheria da Tia Sharlene se vende fiado, mas só para os conhecidos. São 20 minutos de intervalo. O descanso para o almoço é de uma hora e meia. A próxima parada, de 15 minutos, será às 15h15min, para o café. O horário de saída está marcado para as 17h. Porém, devido a queda de material para reciclagem a tarde, os trabalhadores soltam às 12h, assegura Willian, com desânimo.

“Aqui a falta de carga é um problema. É muito baixa, aí não tem produção. Não está vindo material para reciclar, as pessoas não estão botando lixo para rua ou os caminhões não estão pegando”, questiona.

Conforme contato via e-mail com Maraglai Bica Velasques, da Assessoria de Imprensa do DMLU, no ano de 2016, eram entregues seis cargas por dia. Porém, neste ano, houve uma queda no número de descarte, devido a quantidade de resíduos a disposição da Coleta Seletiva da Capital que acabou afetando todas as unidades de triagem conveniadas ao DMLU. Segundo Ana Lúcia, do Núcleo de Coleta Seletiva, os resíduos diminuíram devido a crise no País. Para ela, o poder aquisitivo da população foi reduzido, portanto a população não compra tanto e por consequência há uma queda no descarte.

Os resíduos levados a triagem, são feitos com base em um cronograma. Eles vêm dos bairros que ficam ao entorno das áreas de descarga e que atendem a todas as unidades conveniadas. Os bairros que têm seus resíduos direcionados para a Chocolatão são: Itu-Sabará, Jardim Planalto e Rubem Berta. Segundo a empresa, é necessária a ajuda dos conveniados.

“É importante para as pessoas que ali trabalham e estão organizadas, sem a necessidade de irem para as ruas coletar resíduos para triarem”, conta Maraglai.

“Ou aceitávamos aqui ou ficávamos na rua”

As casas na nova Chocolatão são simples. Dois quartos, um banheiro, uma sala, cozinha e o pátio na frente e atrás. O que muda são as casas térreas e os sobrados, destinados a quem tem maior número de filhos na família, ambas escolhidas pela prefeitura. Não existe espaço para o lazer, o qual a comunidade está na luta para conseguir. Quem conta pessoalmente a equipe do Blog de Jornalismo Ambiental é a antiga Presidente da Associação dos Moradores, Fabiana Pereira Machado da Silva, de 38 anos. Ela vive com o marido e a filha.

O sustento da família vem das garrafas pet que o marido junta e do emprego de Fabiana como babá. Ela conta que abandonou o cargo como presidente da associação devido ao tamanho da pressão. Além de ter que tirar o dinheiro do próprio bolso para as melhorias.

“Não recebemos ajuda de ninguém. O governo e o Prefeito quando nos botaram, disseram que iam nos ajudar, mas isso não  aconteceu.  Não poderíamos ficar lá embaixo (antiga Chocolatão). Ou aceitávamos aqui em cima ou ficávamos na rua. Fomos obrigados”, desabafa.

Para ela, o papel do lixo na vida da comunidade é muito importante para a sobrevivência.  “É daqui do galpão que sai o sustento das famílias que trabalham ali e, mal ou bem, ganham para sobreviver. Porque, além dos que trabalham no galpão, tem muitos fora que também ganham e usam o lixo para sobreviver”, ressalta.

Na reciclagem trabalham 32 famílias. A triagem já teve muitos presidentes e atualmente quem está no cargo é o trabalhador Anderson Fagundes Helmann. Quem quer trabalhar na triagem, anota o nome em uma lista que fica na Unidade e espera até que alguém não queira mais trabalhar na reciclagem. No momento, cerca de 40 pessoas estão na lista de espera. Os trabalhadores recebem um salário menor que o mínimo: exatos R$ 392,00 por quinzena e uma cesta básica, todo o dia cinco de cada mês, doada pela empresa em que buscavam materiais em Cachoeirinha.

“Não temos direito a nada, tudo que temos conquistamos. Nós trabalhamos para sobreviver, mas compensa porque conseguimos o rancho lutando daqui e ali. Estamos levando, é difícil”, desabafa Willian.

O rapaz é mais um dos muitos recicladores espalhados pela Chocolatão. Assim como Daniela, encontram no lixo um meio para a sobrevivência. Quanto menos casas fazem a separação do lixo, menor será o trabalho realizado, menor será a renda – que já é baixa. Consequentemente, maior serão os impactos causados no meio ambiente. Sem a reciclagem de resíduos, 276 toneladas de recicláveis vão para aterros todos os dias. E você, já parou para pensar sobre isso?

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