Alerta ligado para a transformação do clima

Tempestade avançando do Uruguai para o Rio Grande do Sul em março deste ano pouco antes do desastre de São Francisco de Paula – Crédito: Julito Ribas
Fenômenos extremos têm acontecido com mais frequência no Rio Grande do Sul. Números mostram que a incidência, que já é alta, tem aumentado. Novos serviços de atendimento a emergências têm surgido, como a parceria firmada entre a Defesa Civil Estadual e a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais.

Por Lorenzo Albella, Luka Pumes e Rafael Acosta Martins
Jornalismo Ambiental campus Fapa / Noite

O despertador tocava pontualmente às 06h45min. Paulo, sempre atencioso com a esposa, levantava alguns minutos depois de lhe dar um beijo de bom dia e arquitetar o caminho para levar as crianças à escola. Naquele dia o celular tocou mais cedo e quebrou a rotina matinal da família Costa. Antes de acordar seu primogênito, que carrega seu nome, e a pequena Ana Clara, que havia assistido desenho até tarde no dia anterior, Paulo recebeu a notícia que poderia mudar totalmente a vida de sua família. Estava em sobreaviso, mas não havia decidido. Conversou com a família, largou as crianças na escola e foi até seu escritório que se localizava no palco de diversas inspirações poéticas de grupos musicais icônicos brasilienses como a Legião Urbana: o bairro da Asa Sul.

Trabalhando com ações humanitárias em diversos países do mundo desde 1997, Paulo de Tarso Costa foi o escolhido pela Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA) para a direção geral da instituição no Rio Grande do Sul. Motivo? Sua experiência internacional foi considerada a única capaz de enfrentar os fenômenos adversos que vem acontecendo no estado.

A ADRA está presente em mais de 130 países do mundo e dedica suas atividades a levar mais qualidade de vida aos necessitados. Presentes não só onde a Igreja Adventista está – como na Coréia do Norte e na Síria, por exemplo – a organização tem sido preponderante nas ações de resposta a desastres no Rio Grande do Sul.

Basta um contato da Defesa Civil, e lá está a ADRA. O trabalho das instituições se entrelaçam desde o ano de 2015. A Agência Adventista conta com uma unidade móvel que possui uma lavanderia industrial para auxiliar pessoas desalojadas/desabrigadas a manter suas roupas limpas em situações extremas, e uma cozinha que prepara mais de 1500 porções de comida por refeição.

Paulo conta que a agência, ao se dividir em estados no ano de 2014, se instalou primeiramente em localidades do Norte e Nordeste que já apresentavam histórico de adversidades climáticas, meteorológicas e de vulnerabilidade social. No entanto, o número de casos graves no Rio Grande do Sul fez com que o cearense de 47 anos fosse transferido de Brasília (DF), onde era Diretor Nacional de Programas, para focar seu trabalho unicamente no território gaúcho. Aceitou o desafio e chegou fortalecendo as relações entre a Defesa Civil local e a ADRA. Já havia trabalhado, antes da vinda em definitivo, em desastres como o de Rolante e São Francisco de Paula.

Defesa Civil e ADRA trabalham em conjunto para atender os desabrigados – Crédito: Bruna Staub / Defesa Civil RS

Caso São Chico

A última adversidade meteorológica grave do estado ocorreu em março de 2017, no município de São Francisco de Paula. Dados fornecidos pela Defesa Civil do Rio Grande do Sul RS apontam que 10% da população total da cidade foi afetada pela ocorrência meteorológica que contou com chuvas intensas e uma ventania – que se discute ter sido microexplosão de ar, ciclone ou tornado.

A Defesa Civil, órgão que tem como função atuar nas fases de prevenção, mitigação, preparação, resposta e reconstrução de cenários nos desastres naturais ou provocados pelo homem, teve de trabalhar intensamente no caso de São Francisco de Paula. Vistorias, intermediações de doações e auxílio nos trâmites da Situação de Emergência foram tratados pelos oficiais de Defesa e Proteção do estado com muito cuidado e preparo.

Mais de duas décadas como bombeiro e dois anos como membro da Defesa Civil fazem com que o Tenente-coronel Jarbas de Trois Avila seja uma fonte imprescindível para entender os fenômenos meteorológicos que tem ocorrido no estado. Como Subchefe da Defesa Civil do Estado do Rio Grande do Sul, o oficial já enfrentou casos de inundação, enxurrada, vendaval, chuva intensa, granizo, tornado e outros. Para cada caso uma solução diferente. Um trabalho minucioso para que nenhum município deixe de receber auxílios humanos e fiscais por falta de preparo em suas documentações.

Desde 2014, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul registra um total de 538 casos de localidades afetadas com gravidade, por ocorrências meteorológicas adversas. Abaixo, a tabela que especifica a tipologia e a incidência das adversidades entre o início do ano de 2014 e o fim do ano de 2016 no RS.

Estes dados parecem de diminuição em relação ao período entre 2011 e 2013, mas se desconsiderarmos a estatística de estiagem – que é um evento de ordem climática e não meteorológica – podemos perceber o aumento dos fenômenos meteorológicos no estado em quase 200 casos.

Estes registros, no entanto, mostram apenas a dimensão de quantos eventos afetaram diretamente as comunidades gaúchas de 2014 a 2016. A Defesa Civil, através de relatos dos moradores, calcula que para cada evento que gera danos humanos, há a ocorrência de dois ou três da mesma natureza, nos mesmos municípios, que acabam não atingindo construções e/ou afetando o cotidiano dos moradores – o que inviabiliza o cálculo de quantos fenômenos realmente atingiram o estado. Apesar disto, o alerta é claro: as adversidades meteorológicas estão aumentando.

Fenômenos extremos têm ocorrido com mais frequência no Estado e deixando várias pessoas desabrigadas – Crédito: Defesa Civil RS / Divulgação

Perspectivas não são favoráveis

A incidência de fenômenos climáticos extremos tem aumentado muito nos últimos anos, e a tendência é piorar. Segundo relatório divulgado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência especializada da ONU, o ano de 2016 registrou temperaturas em nível recorde, superando a antiga marca em 0,06ºC, alcançada em 2015.

O aumento constante da temperatura média mundial é algo preocupante. Além disso, o aquecimento do oceano tem ocorrido de maneira ainda mais rápida, o que poderá proporcionar grandes fenômenos no planeta. O El Niño provocou um aumento na temperatura do Pacífico que gerou secas e precipitações acima da média. Os pesquisadores acreditam que as mudanças no Ártico modificarão a circulação oceânica e afetarão as condições meteorológicas de outras regiões do mundo.

“A concentração de CO2 na atmosfera não para de bater recordes, o que demonstra cada vez com mais clareza a influência das atividades humanas no sistema climático”, disse o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, em um comunicado.

Fortes temporais atingiram o município de Catuípe, no RS, causando grandes estragos – Crédito: Defesa Civil RS / Divulgação

Por estar localizado fora da rota de terremotos, vulcões ativos e grandes furacões, o Brasil não está entre os principais países para incidência de fenômenos desta natureza, ocupando apenas a 123º posição em um índice mundial de países mais vulneráveis a esse tipo de eventos. Porém, cerca de 85% dos desastres são causados por três espécies de ocorrências comuns em território nacional: inundações bruscas, deslizamentos de terra e secas prolongadas.

Os desastres naturais foram responsáveis pela morte de 10 mil brasileiros nas últimas cinco décadas. Em entrevista à Revista FAPESP, o chefe da Divisão de Produtos Integrados de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), José Marengo, relatou que “os impactos tendem a ser maiores no futuro, com as mudanças climáticas, o crescimento das cidades e de sua população e a ocupação de mais áreas de risco”.

Com isso, estiagens severas, que antes eram vistas apenas no Nordeste, deverão se intensificar por todo o Brasil. Chegando, inclusive, ao Sul do país, o que aumenta em 30% a vulnerabilidade de inundações e enxurradas. De acordo com dados apresentados pela FAPESP, o aumento de incidência de queda de encostas deve variar entre 3% e 15% nos lugares já atingidos por esse fenômeno. O destaque negativo fica para os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, nos quais áreas sujeitas a deslizamentos deverão se expandir até 2100.

Inundações e deslizamentos de terra vão se tornar mais frequente no Brasil nos próximos anos – Fonte: Reprodução da Revista FAPESP

Todas essas projeções de riscos futuros apresentados na Revista foram desenvolvidas por dois modelos climáticos globais, sendo um na Inglaterra e outro no Japão, e interligados ao modelo desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Estados localizados mais ao Sul e Sudeste estão entrando na rota de desastres naturais (Reprodução Revista FAPESP)

Segundo projeções apresentadas na Revista FAPESP, o aumento constante da temperatura e a maior intensidade de chuvas e secas no país indicam que a temperatura média do Brasil ficará cerca de 3º graus mais quente até o final do século e as chuvas poderão aumentar em 30% nas regiões Sul-Sudeste e diminuir até 40% no Norte-Nordeste. Todas essas mudanças podem se manifestar de diferentes formas, com chuvas mais fortes e com mais frequência, secas prolongadas e altos picos de temperatura, aumentando os riscos de desastres.

Anos de descaso

O cenário do clima atual não é nada favorável. Foram anos de descaso, chegando em um nível quase irreversível. É isso que alerta o cientista brasileiro Carlos Afonso Nobre, especialista na emissão de gases que provocam o efeito estufa desde 1980. Em entrevista ao Jornal Zero Hora, o climatologista revela que já deveria ter sido feito algo para salvar o Planeta desde as gerações das décadas de 1960 e 1970, para que não deixasse chegar no nível que temos hoje.

“Se essa geração tivesse tido a consciência que nossa geração tem hoje, dava praticamente para não afetar muito. Se diminuíssem as emissões (de gases estufa) ou se escolhessem outro modo de desenvolvimento, o impacto no ambiente seria pequeno, e o planeta voltaria a seu estado anterior. Já passamos desse ponto”, alerta o cientista.

Nobre ainda fala sobre os grandes esforços que estão sendo feitos pela Convenção do Clima das Nações Unidas para que o aumento médio da temperatura do planeta desde a revolução industrial fique abaixo dos 2º graus. Porém, com seus estudos, a quantidade de gases já emitidos torna-se quase impossível frear esse aquecimento, o que causaria derretimento de geleiras e aumentaria o nível do mar e acabaria com cidades da costa e ilhas.

Soluções possíveis

“A tendência ecológica tem crescido muito, e diversos países já têm aderido a fontes alternativas, como a energia solar fotovoltaica e eólica, por exemplo. Um dos fatores causadores disso é o alto consumo de matérias primas fósseis que já passaram do seu ápice de quantidade e agora já estão se encaminhando para extinção, entre eles o petróleo, que já tem previsões reais de término”, informa a aluna do curso de Engenharia de Energia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Bruna Trierveler

A estudante acredita que o rumo energético tem vários caminhos positivos a serem tomados e pode ser solucionado da melhor forma possível. Países europeus já vêm investindo neste mercado sustentável em relação à geração de energia, ressalta a estudante que já venceu prêmio interno da UFRGS com um trabalho sobre energia osmótica, uma fonte alternativa de energia.

Na Europa, ressalta Bruna, já tem sido adotada uma política de microgeração, que incentiva a população a produzir sua própria energia e tornar-se autossuficiente. Ela destaca que no Brasil essa iniciativa pode ser adotada em um futuro próximo.

“Houve uma atualização na norma brasileira que rege a microprodução de energia, eliminando os impostos e as taxas que eram cobradas para injeção do excedente de energia produzida na rede, e, com isso, tudo que for produzido vai ser barateado e dar início ao incentivo da própria produção de energia”, explica.

Os gaúchos estão em sobreaviso, como Paulo de Tarso Costa ao saber que poderia vir para o Rio Grande do Sul. A diferença é que não temos a opção de refutar a proposta de viver em meio a tantos desastres, nem o preparo suficiente para enfrentá-los. Com certeza passou da hora de agir. Esperar o despertador bater novamente pode ser tarde demais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *