Energia solar caminha a passos lentos

Painéis solares começam a brotar no Rio Grande do Sul – Crédito: Palácio Piratini / Divulgação

Apesar de ser um mercado promissor, falta de dinheiro e de incentivo a pesquisas impedem a popularização do uso de energia solar no Brasil.

 

Por Drysanna Espíndola, Gilberto Echauri Junior e Leonardo Dutra
Jornalismo Ambiental – Campus Zona Sul / Noite

No dia 25 de abril de 1954, uma coletiva de imprensa realizada pela Bell Laboratories – criada por Alexander Graham Bell, o inventor do telefone – anunciou a primeira célula comercial capaz de captar energia do sol. O comunicado foi tão impactante que o New York Times caracterizou este evento como “o início de uma nova era”. Contudo, passados 63 anos, ainda não é fácil encontrar painéis solares no Brasil.

Dados de junho de 2017 da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) atestam que a energia solar é responsável por apenas 0,02% de toda a energia gerada no país. No Rio Grande do Sul este número é ainda menor. Segundo informações do Atlas Socioeconômico do Estado, em 2013, meros 0,00003% de toda a energia produzida foi feita por captação solar.

A velocidade é diferente em outros países. Segundo dados do Ministério de Minas Energia, 9,3% de toda a matriz energética do ano de 2015 na Itália foram produzidas através de energia solar. Grécia, Alemanha e Espanha também já passaram dos 5% de toda sua energia gerada por esse sistema.

Em países referência no assunto, como China, EUA e Japão, apesar de suprir menos da demanda nacional, a geração de energia solar é maior. Nos Estados Unidos, dados da US Energy Information Administration indicam que a energia solar é responsável por 0,9% da produção total no país, mas esse número corresponde a 39 Terawatt-hora (TWh), segunda maior geração do mundo, perdendo apenas para a China.

O que é energia solar?

A energia solar fotovoltaica acontece através de células solares, lâminas de silício, que, após passar por diversos processos para ser melhor aproveitado, transforma a luz solar em energia elétrica. “Essas células são bem finas, da ordem de 0,2 milímetros, e, quando recebem radiação solar, convertem a luz em energia elétrica, por meio do efeito fotovoltaico. O silício cristalino domina o mercado em quase 90%, é abundante e o Brasil produz muito”, diz Sérgio Boscato Garcia, engenheiro e pesquisador do Núcleo de Tecnologia em Energia Solar (NT-Solar) da PUCRS.

O engenheiro esclarece que esse tipo de energia é complementar, pois só capta energia enquanto há radiação solar. Segundo ele, o armazenamento é inviável. “Produz energia enquanto tem sol. Não podemos guardar a energia, diferente das hidrelétricas. Existem as baterias, mas não é viável para sistemas de grande porte”, afirma.

Pequenas usinas em casa

Ao mostrar os espaços do centro de pesquisa para a reportagem do blog de Jornalismo Ambiental, Sérgio explica que as células são interligadas e formam um módulo solar, que, lado a lado nos telhados das casas, constituem um painel que passa a produzir energia integralmente, enquanto houver radiação.

Em Porto Alegre, a CEEE é responsável por interligar um novo registro na rede pública, com possibilidade de entrada e saída de energia das casas. O que é gerado além da utilização é captado pela companhia e isso leva a um abatimento na conta da luz no fim do mês.

Sérgio acredita que isso pode servir como um modelo de negócios. “Não precisa colocar no telhado apenas o que consome, pode-se colocar mais painéis, pensando em vender essa energia para a CEEE. O telhado se torna uma pequena usina”.

Segundo a Resolução Normativa nº 482/2012 da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), que entrou em vigor no dia 17 de abril de 2012, o consumidor brasileiro pode gerar energia elétrica para uso próprio a partir de fontes renováveis ou cogeração qualificada e, se desejar, fornecer o que não for utilizado para a rede de distribuição de sua localidade. Conforme a agência, trata-se da micro e da minigeração distribuídas de energia elétrica, que reúne economia financeira, consciência socioambiental e auto sustentabilidade.

Sérgio Garcia diz que as empresas porto-alegrenses que realizam as instalações desses painéis negociam os módulos com a China. O diretor comercial da Solaxis, Maikel Ferrazza, explica que isso acontece porque atualmente o país conta com os principais fabricantes do produto, todos homologados e registrados no Inmetro.

Mercado em evolução

Para Ferrazza, o mercado de energia solar está em evolução no Rio Grande do Sul. “São mais de 1.100 clientes que já estão conectados na Rede, conforme a ANEEL. Em Porto Alegre, existem muitas empresas que prestam este serviço, sendo o mercado residencial o que mais prospecta esse segmento”.

O diretor fala do Brasil como um país emergente no assunto, com o investimento de capital estrangeiro para a construção de usinas e com universidades investindo em atividades de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico (P&D). “Ainda não avançamos a um mercado no modelo europeu, onde é possível gerar e vender energia, mas temos modelos que possibilitam o compartilhamento de energia solar”, avalia o diretor comercial da Solaxis, Maikel Ferrazza.

A Young Energy é um exemplo desta evolução. Ela foi motivada a entrar no mercado da energia fotovoltaica devido à facilidade de instalação, praticidade e tendência. É o que explica o diretor comercial, Tiago Grazziani, durante uma visita a UniRitter para falar sobre o projeto social que leva o nome da empresa.

“Quando a gente começou a pesquisar sobre isso, vimos primeiro a questão da mudança nas leis, que auxiliaram a se ter as energias alternativas”. Grazziani diz que o mercado residencial é o mais interessado entre os clientes, seguido do mercado comercial e do mercado industrial.

Ainda segundo Grazziani, o processo de energia solar é caro por dois fatores: a importação dos equipamentos e a alta carga tributária. O diretor conta que a tecnologia utilizada não é barata pelo custo do material, sendo inversores ou módulos, o que eleva os valores dos produtos.

Contudo, ele destaca algo positivo. “Agora, com fábricas sendo instaladas no Brasil e com a importação baixando os custos de impostos, está começando a ficar mais barato”. Grazziani também comenta sobre a mudança no sistema de energia do Brasil. “Hoje o sistema energético brasileiro é um pouco mais inteligente. Tem energia vindo de forma convencional e tem a energia solar contribuindo e abastecendo parte desse sistema”.

As empresas Alternative Energy, Epi Energia, Elysia e Renobrax também foram contatadas, através de e-mail, porém, até o fechamento desta matéria, não responderam.

Projeto com a UniRitter

A Young Energy, em parceria com a UniRitter e o Centro Comunitário Vila Orfanotrófio (CENCOR I), criou um projeto que incentiva o uso de painéis solares para geração de energia fotovoltaica na Vila Orfanotrófio. A ideia é oferecer cursos de qualificação sobre energia solar para os estudantes da UniRitter, cursos de instalador de painéis solares para os moradores da comunidade e, como o mais importante, articular entidades privadas, organizações não governamentais e moradores da região para a arrecadação de recursos para implantar tal sistema sustentável de captação de energia.

John Wurdig, coordenador do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária, e responsável pelo projeto, está engajado no desenvolvimento dessa iniciativa. Sua intenção é mostrar à população que a geração de energia solar não é necessariamente uma prática exclusiva de quem tem dinheiro. “Nós queremos provar que não é algo só de primeiro mundo, que é algo possível de se instalar aqui e que te dá um retorno”.

Segundo o coordenador, todos os envolvidos serão beneficiados, pois o projeto visa a qualificação profissional para geração de empregos, populariza o modelo em Porto Alegre, atrai investidores e ainda ajuda na produção de energia limpa. “Esse projeto expressa o que é o conceito de sustentabilidade. Não fica apenas na questão ambiental, mas também no econômico e no social”.

Centro de referência fechado

Apesar da popularização de produção de energia fotovoltaica ser empolgante em teoria, na prática é diferente. A reportagem foi atrás do Centro de Referência em Energias Renováveis e Eficiência Energética (CRER) da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Porto Alegre e descobriu que a iniciativa foi extinta há cinco anos, pouco tempo depois de ser criada.

O centro tinha como objetivo firmar parcerias com outros órgãos para a implantar em diversos locais estruturas capazes de captar a energia do sol e transformar em eletricidade. As informações são do coordenador da SMAM, Gláuber Zettler Pinheiro, que complementou dizendo que o único trabalho realizado pelo CRER, em parceria com o ICLEI (uma associação internacional de autoridades locais vocacionada para a prevenção e resolução de questões ambientais), foi a implantação de um aquecedor de água no Zonal Norte da SMAM, localizado na Av. Ceará. A página do CRER no site do SMAM permanece ativa, como se o centro da Prefeitura continuasse em funcionamento.

Pesquisa ainda é deixada de lado

A área da pesquisa científica ainda sofre com falta de incentivos. Para o pesquisador da NT-Solar, isso afeta todas as áreas de conhecimento do país. “Este cenário inibe o desenvolvimento e a capacitação de profissionais em áreas específicas da cadeia produtiva, as quais ficam restritas ao mercado externo.” A NT-Solar já desenvolveu diversos artigos, que podem ser encontrados na aba de publicações do site www.pucrs.br/cbsolar.

O próprio núcleo foi criado como uma planta piloto que serviria para mostrar que é possível de se ter uma produção em escala industrial com tecnologia nacional no Brasil. Segundo Sérgio, foi criado um plano de negócios, mas não houve interessados. “Fizemos uma análise de todos os custos para fabricação no Brasil, mas foi decidido não colocar em prática, porque não há demanda suficiente de compra de energia para se tornar lucrável a uma empresa”.

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