Boatos sobre rompimento do dique aumentam junto com as chuvas em Cachoeirinha

Dique de Cachoeirinha que protege os moradores das cheias do Rio Gravataí preocupa a população – Crédito: Renato Kubaszewski
As fortes chuvas de 2017 vêm sendo motivo de preocupação para os moradores de Cachoeirinha, na Região Metropolitana de Porto Alegre, principalmente com os rumores de um possível desmoronamento do dique construído para conter as águas do rio Gravataí.

Por Renato Kubaszewski
Jornalismo Ambiental – Campus Fapa / Noite

A cidade de Cachoeirinha possui, desde a década de 1970, um sistema de proteção contra as cheias devido as fortes chuvas. Construído para evitar o aumento do nível do rio Gravataí, o sistema composto por um dique de terra garante a segurança da população que mora ao redor do rio.

Nos últimos anos, porém, muito tem se falado na região sobre possíveis rachaduras nas paredes do dique que mantém a cidade a salvo. Segundo alguns desses rumores, o dique estaria rachado e, consequentemente, ameaçado de ceder. Tais acontecimentos causariam uma tragédia irreversível. A ameaça preocupa os moradores dos arredores do Rio Gravataí.

Conduto forçado e abastecimento das bombas

Conduto forçado e a casa de bombas são responsáveis pela segurança dos moradores nas cheias – Crédito: Renato Kubaszewski

Há algum tempo existem rumores de que as paredes do dique de Cachoeirinha estão rachadas e, devido a isto, são grandes os riscos de o dique ceder e desmoronar com a pressão da água. Além do desmoronamento e da tragédia do rio inundar as ruas e destruir casas, outra preocupação é com a poluição do Gravataí. Como a água que inundaria a cidade é muito contaminada, isto causaria graves problemas de saúde para os moradores.

Segundo a secretaria ambiental do município, essas histórias não são verdadeiras. Todos afirmam que o dique não se encontra com os problemas de rachaduras anteriormente levantados. O único transtorno admitido como possível é o alagamento das ruas devido as fortes chuvas.

Com a experiência de 20 anos trabalhando nas bombas do Rio Gravataí, Clodoaldo Caetano, funcionário da prefeitura de Cachoeirinha, não acredita que o dique possa vir a ceder, mesmo que as chuvas se intensifiquem como ocorreu em 2017. “Não acho que o dique possa ceder ou desmoronar. Nessas últimas semanas de chuvas fortes e com grande pressão, o nível subiu muito, o tempo todo tínhamos que deixar alguma bomba funcionando. No pico das chuvas deixamos quatro das seis bombas ligadas. Foi assim que conseguimos baixar o nível e controlar o rio”, disse Clodoaldo.

O funcionário ainda falou sobre a importância de sempre ter alguém cuidando das bombas e também destacou que, mesmo em caso de falta de energia no bairro, as bombas têm seu próprio transformador para continuar o serviço. “Aqui tem que ficar alguém 24h cuidando das bombas e monitorando o nível da água. Temos um transformador próprio e, mesmo quando falta luz, ligamos o transformador e conseguimos deixar pelo menos uma bomba funcionando até a luz voltar”, disse o funcionário.

Jaílton dos Santos, que trabalha como guarda nas bombas desde 2006, junto com Clodoaldo, também não acredita que o rio possa fazer com que o dique estoure e ceda.

“Muita gente fala sobre as rachaduras no dique ou que as paredes estão abrindo, mas isso não é verdade. As pessoas falam muito e não sabem o que acontece. É verdade que a pressão dessa última chuva foi bastante forte e encheu muito o rio, a água chegou a ficar na borda da margem, mas não tem como ceder”, garante Jaílton

O guarda também desabafou sobre as reclamações dos moradores sobre as cheias que acontecem nas bombas quando chove muito, alagando as ruas e as casas ao redor do dique. “Sempre que chove e alaga, as pessoas vêm reclamar do nosso serviço, mas não sabem que isso tudo é a água que vem da cidade e não apenas do rio. Ligamos as bombas e baixamos o nível do rio que sobe, mas como disse: muitas vezes as ruas alagam pela água que vem da cidade, não do rio”, explicou o guarda.

Casos recorrentes

São muitos os casos em que a força da chuva causa um aumento consideravelmente alto no nível da água do rio Gravataí, resultando no alagamento das ruas da cidade. Além disto, o rio também transborda e em algumas vezes a água acaba subindo e invadindo a pista da Assis Brasil, na ponte que liga Cachoeirinha a Porto Alegre. O excesso de água é tanto que as pistas acabam sendo interditadas por algum tempo, até conseguirem baixar o nível da água novamente.

Há três anos, em 2014, o gerador que ajuda a bombear água de um arroio em Cachoeirinha explodiu na madrugada e deixou diversas casas alagadas. A casa de bombas abastecida pelo gerador capta o esgoto pluvial dos bairros no entorno e bombeia até o Rio Gravataí, evitando que a água acumule na região. O problema viria ser ocasionado por um defeito do gerador. O equipamento com problema foi substituído pela RGE e o nível da água começou a diminuir. Este acontecimento acabou deixando cerca de 100 moradores de Cachoeirinha fora de suas casas devido ao alagamento.

Já no ano seguinte, em 2015, Cachoeirinha passou pela sua maior enchente desde a construção do dique, na década de 70. Em apenas uma semana, choveu equivalente a quatro vezes mais que a média do mês. O rio ficou com quase 5 metros acima do nível normal, mas os prejuízos à cidade seriam imensamente maiores se não fosse o conduto forçado.

Com esse volume de chuva, sem o conduto e a casa de bombas, o rio e seus quase 7 metros atingidos invadiriam Cachoeirinha e a água chegaria  na escola Presidente Kennedy (que fica a cerca de 1km do rio), desalojando milhares de pessoas e causando prejuízos irreparáveis. A tragédia só não ocorreu porque o conduto forçado está funcionando bem e leva a água da chuva diretamente para o Rio Gravataí.

Os alagamentos em Cachoeirinha se dão muito devido ao esgoto da cidade que não era muito bem tratado e fazia com que os esgotos entupissem, forçando o nível da água a subir. Hoje, o município tem 54,2% de esgoto tratado, segundo dados da Corsan, responsável pelo procedimento. Com esses números, Cachoeirinha se torna a cidade com maior índice de tratamento de esgoto no estado. As previsões da Corsan para a cidade são ainda melhores, já que a expectativa é de que em até quatro anos Cachoeirinha chegue a 80% do seu esgoto tratado.

José Homero Finamor, engenheiro civil e superintendente em gerenciamento na Corsan há mais de 40 anos, afirmou que Cachoeirinha é a cidade com maior índice de tratamento de esgoto no estado e caminha para aumentar e melhorar ainda mais a sua porcentagem.

“Cachoeirinha é a cidade com maior índice de esgoto tratado no estado, chegando a 60% do seu esgoto tratado. Temos grandes financiamentos que estão começando a serem executados que vão levar Cachoeirinha a até 80% do esgoto tratado. O Rio Gravataí tem pouca vazão de água, é um rio extremamente poluído por causa disso”, disse José sobre o índice de tratamento da rede de esgoto.

José Homero também falou sobre os investimentos feitos para que o tratamento de esgoto em Cachoeirinha melhore ainda mais. O engenheiro falou sobre as obras que estão encaminhadas para serem iniciadas.

“Estamos investindo forte no esgoto da região metropolitana para fazer redes coletoras e estações de tratamentos para jogar no rio. Para atingir os 80% do esgoto tratado em Cachoeirinha dependemos de três obras, sendo que uma delas já começou e as outras duas estão a ponto de serem iniciadas”, explicou o engenheiro civil da Corsan.

A poluição do Rio Gravataí

Segundo a IBGE, o Gravataí é o quinto rio mais poluído do Brasil – Crédito: Renato Kubaszewski

O Gravataí é muito conhecido por ser um rio que passa por diversas cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre. Porém, o rio também carrega, infelizmente, a má reputação por causa da poluição, chegando a estar entre um dos cinco rios mais poluídos do Brasil. Segundo o IBGE, o Rio Grande do Sul possui três dos 10 rios mais poluídos no país. Devido aos problemas da poluição, Cachoeirinha é uma das cidades que sofre com suas consequências.

Devido à degradação, grandes partes do Rio Gravataí quase não têm oxigênio e isso dificulta a sobrevivência dos peixes e demais seres vivos no rio. De acordo com a Fepam (Fundação Estadual de Proteção Ambiental), no trecho entre o arroio Demétrio e a Foz do Gravataí, as concentrações de coliformes fecais são superiores a 500.000 a cada 100 ml de água, enquanto os números deveriam ser inferiores a 1.000 nmp/100 ml.

Rio Gravataí possui partes críticas na poluição devido a lixos jogados pelos moradores – Crédito: Renato Kubaszewski

Apesar de toda a poluição e contaminação do Rio Gravataí, Cachoeirinha tem passado por fortes investimentos para tentar corrigir e melhorar a situação em que se encontra o rio. Através da secretaria ambiental que faz o que pode e projeta campanhas para conscientizar as pessoas sobre o rio e também da Corsan no tratamento da rede de esgoto, o Rio Gravataí respira um pouco de esperança na cidade de Cachoeirinha.

Para Cláudio Pinheiro, que trabalhou na Corsan por 30 anos e agora em 2017 assumiu o cargo de diretor da Secretaria Ambiental de Cachoeirinha, a população tem grande parcela de culpa na poluição e preservação do rio.

“Não são todas as partes do rio que estão contaminadas, existem partes menos poluídas onde o problema é considerado normal. A cidade deveria preservar mais, principalmente a comunidade. Serem mais responsáveis com o lixo e com os objetos largados no rio. São coisas que os próprios moradores fazem que acabam prejudicando o Gravataí”, disse Cláudio.

O diretor ambiental de Cachoeirinha também destacou a ideia de valorizar o meio ambiente para que as pessoas enxerguem com outros olhos e comecem a ajudar na preservação do dique.

“Temos que valorizar a questão do meio ambiente para fazer com que as pessoas enxerguem a situação com outros olhos, pois somos nós mesmos quem fazemos tudo isso. Temos dificuldades em algumas coisas, mas a polução também tem a sua culpa na preservação”, falou o diretor da secretaria ambiental.

Levando-se em conta que a poluição do rio se deve ao esgoto doméstico, ao lixo e aos resíduos industriais que são despejados diretamente no rio, a Associação de Preservação da Natureza do Vale do Gravataí realiza desde 2014 um projeto chamado Rio Limpo. O objetivo do trabalho, patrocinado pela Petrobras, é conscientizar a população residente no sistema hídrico do Rio Gravataí a fim de reduzir os índices de poluição e nos seus arroios.

O projeto aposta na divulgação de valores para a conscientização e práticas do uso racional das águas, na preservação e plantio de mudas para a recuperação da mata ciliar, tentando reverter o quadro de degradação do rio.

Investimentos, projetos e melhoras na cidade

Prefeitura de Cachoeirinha aposta nos investimentos para corrigir problemas e preservar o dique e o Gravataí – Crédito: Renato Kubaszewski

Cachoeirinha tem melhorado muito nos seus problemas e tem dado esperança para os seus moradores. Desde a despoluição do Rio Gravataí, até os problemas corrigidos no abastecimento das bombas e aos cuidados no dique da cidade, Cachoeirinha tem evoluído na situação ambiental. A cidade vem trabalhando e investindo forte para corrigir problemas ambientais e proporcionar melhorias para seus moradores.

Segundo o vereador de Cachoeirinha Marco Barbosa, a cidade tem feito investimentos para diminuir a poluição do rio, principalmente a causada pela má ligação nas redes de esgoto. Essas são algumas das medidas que fizeram Cachoeirinha atingir a marca de melhor índice de tratamento de esgoto no Estado.

“Sobre o Rio Gravataí e a poluição, há investimentos do governo através da rede de esgoto. Quanto ao dique, ele não está rachando como dizem. Essa história é apenas conversa. Houve um problema pontual no passado e foi divulgada essa informação, mas não é verdadeira”, afirmou o vereador.

Moradora de Cachoeirinha há mais de 40 anos, Eliane dos Santos, sempre morou perto do dique e também viu a sua construção. A moradora se mostra bastante triste com a situação do rio e pede por mais projetos e campanhas da prefeitura.

“É muito triste ver o Rio Gravataí neste estado. Acho que o governo não investe no tratamento do esgoto tanto quanto dizem. Em minha opinião falta mais investimento, falta criarem projetos e campanhas para as pessoas preservarem o rio e o dique. As pessoas deveriam cuidar mais e a prefeitura deveria cuidar melhor do dique, limpar mensalmente no entorno para preservar ele e as árvores que ainda são uma das poucas coisas que ajudam no dique e na despoluição”, relatou a moradora.

Há exatamente dois anos atrás, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA) repassou 200 mudas de árvores nativas visando à recuperação da mata ciliar às margens do Rio Gravataí, em apoio ao Projeto Rio Limpo coordenado pela Associação de Preservação da Natureza do Vale do Gravataí (APN-VG). A SMMA plantou 200 pés de árvores na tentativa de enriquecer o entorno do rio, recuperando a mata vegetal.

Embora a Corsan esteja lidando com a rede de esgoto, as bombas de água trabalhando no nível do rio e a Secretaria Ambiental tratando da preservação do Rio Gravataí e do dique, as pessoas e a comunidade também devem ter as suas obrigações com o meio ambiente.

Por mais que muitos aspectos ainda necessitem receber investimento para serem tratados e corrigidos no meio ambiente, também cabe aos cidadãos ajudar na conscientização e preservação do dique e do nosso rio. Tudo deve funcionar em conjunto para que os problemas sejam corrigidos e sanados na maneira que se deve.

Uma ideia sobre “Boatos sobre rompimento do dique aumentam junto com as chuvas em Cachoeirinha”

  1. Sensacional essa matéria! Parabéns!
    Nos anos 80, ainda antes da construção do dique, todos invernos geravam enchentes. as águas subiam e ultrapassavam os limites do rio, levando aos arredores do mesmo as cheias que deixavam os moradores sem onde ficar, pertences, móveis e literalmente sem chão.
    Depois da construção do dique, um dos grandes medos da população era o roubo dos cabos de força que alimentavam as bombas. Vagabundos furtavam os cabos para vender como cobre, deixando as bombas sem energia elétrica.

    Excelente matéria Renato
    Meus parabéns!

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