O desafio de conscientizar num mercado efêmero

Ateliê da marca Carina Brendler Eco Clothing em Porto Alegre – Crédito: Cristine Fogliati
Em meio a retalhos, tecidos e peças usadas, empreendedoras buscam alternativas de viés sustentável para diminuir os impactos negativos do mercado da moda – segunda maior indústria poluidora do mundo. Combate à cultura do consumismo exagerado e conscientização do público destacam-se entre os principais desafios para quem aposta nesse nicho.

Por Cristine Fogliati, Daiana Camillo e Larissa Zarpelon
Jornalismo Ambiental – Campus Fapa / Noite

Tudo muda o tempo todo. O mundo da moda também. Entra ano e sai ano, as tendências chegam, mudam ou voltam conforme a estação. A ânsia pela novidade e a formação de uma geração de consumidores que cresceu com o imediatismo das redes sociais certamente faz da moda uma das indústrias mais impactadas por essa revolução comportamental. Segundo reportagem recente da BBC, a moda é também a segunda maior indústria poluidora do mundo.

Em meio a essa velocidade, tornar os processos que envolvem a moda algo sustentável surge como solução. No Brasil, segundo a professora de Moda da UniRitter Anne Anicet, a técnica está em crescimento. “De uma maneira geral, o processo está iniciando, mas já mostra bastante crescimento nos últimos anos. Tem algumas marcas que focam mais na sustentabilidade ambiental, outras na responsabilidade social e outras na econômica, ou em várias delas”, informa.

Para Anicet, o principal desafio é ser sustentável em todos os níveis, ter certificações ao longo de toda cadeia têxtil e conscientizar os consumidores. Ela ainda acredita que as pessoas em geral, precisam conhecer mais os processos que envolvem a moda. “E também ter maior conhecimento de como devem fazer compras e uso das roupas, visto que é na fase de uso que possui maior consumo”.

Mas afinal, o que é moda sustentável? A moda sustentável preza, em todas as suas etapas, pelo respeito ao meio ambiente, valorizando as pessoas envolvidas na produção e incentivando o consumo consciente. Com base nisso, ela trabalha com matérias-primas menos poluentes e os seus principais nichos são a produção com fibras naturais ou com tecidos alternativos, como os feitos com garrafa pet, reaproveitamento de rejeitos de tecidos, couro, dentre outras.

Peças que fazem os olhos brilhar

Com a ideia de sustentabilidade movida pelo aproveitamento de peças já existentes, Carina Brendler faz peças de “brilhar os olhos” – Crédito: Cristine Fogliati

Carina Brendler começou em 2010 o curso de moda no SENAC, fez estágios na área e viu a quantidade de materiais que são jogados fora. Sua vontade era pegá-los para que não fossem descartados. Nesse momento com pouca noção sobre o assunto, começou a despertar seu interesse por retalhos. Quando fez seu TCC, optou por trabalhar com vestidos de festa feitos de retalhos. “Fiquei naquele impasse: e agora? O que eu faço? E então, resolvi juntar os dois e as pessoas não entendiam direito. Se iria ficar bom ou não”, conta.

Ao se formar em 2012, fez cursos, trabalhou em ateliês e continuou fazendo roupas para uso próprio. Quando começaram a lhe perguntar sobre suas roupas, notou que poderia comercializá-las. Quando questionada, falava que eram produzidas com retalhos descartados. Em 2015, começou a fazer algumas peças. Precisando de uma marca, criou uma com seu próprio nome: “Carina Brendler Eco Clothing”. Abriu conta em redes sociais, criou um site, e só chamou uma amiga para ajudar com o logo e a identidade visual dos cartões. Para as fotos e maquiagem contou com a ajuda de conhecidos. As modelos são suas amigas.

Quando o empreendimento começou a dar certo, procurou ajuda do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Mesmo com o apoio, ela conta que não vendia nada, o que a deixava desanimada. As dicas ajudaram – e muito –, mas não combinava com o projeto que tinha em mente, que seguia uma linha sustentável. Dessa forma, junto com uma colega que fez no Sebrae, decidiu abrir uma loja na Cidade Baixa. As duas ficaram seis meses com o negócio, vendendo produtos próprios, de outras marcas gaúchas e de estudantes que estavam começando. “Foi uma experiência bem legal, foi importante para vermos o que a gente queria e o que não queria. Aí, a loja não deu certo por vários fatores”, lembra.

As poucas vendas fizeram a loja fechar. Eram roupas do dia a dia, mas não exatamente o que Carina queria. Ela prefere “fazer peças que façam brilhar os olhos”. Depois de fechar sua loja, ficou seis meses em casa, pensando no próximo passo e desenvolvendo mais modelos. No início de 2017, começou a produzir mais roupas e buscar parcerias. Nessa busca encontrou a blogueira Luisa Ramirez, que ajuda a divulgar a marca até hoje.

Assim, aos poucos as pessoas começaram a conhecer sua marca e a procurar os serviços de Carina. Esse crescimento nas vendas a auxiliou na arrecadação, o que possibilitou abrir sua loja própria, inaugurada em abril. Os retalhos que necessitava foram adquiridos de uma loja de shopping que estava fechando. A empreendedora comprou por quilo, ao preço de R$ 35. Outra fonte de matéria-prima são os brechós, nos quais ela pode garimpar, peça por peça. Entre as opções está o “Me Gusta Brechós”. Carina compra também em bricks virtuais como o “Brick dos Desapegos”. Nem todos os tecidos, no entanto, podem ser reaproveitados. Os tecidos que valem mais, para ela, são os leves e finos. Roupas com bordado estão sempre em seu radar.

Ao produzir as peças Carina busca aproveitar todos os materiais que possam estar no tecido, como aviamentos, zíper, botão, bojo, entretela, etc. Ela revela que o processo de criação é demorado. Sobre os preços, Carina acredita que o valor é justo para quem compra e para quem faz. Os seus vestidos para alugar variam de R$ 50,00 a R$ 400,00, dependendo do trabalho feito e o modelo solicitado.

“Vamos pegar um exemplo, no centro eu consigo achar por R$ 30,00 um tecido estruturado. Se eu for comprar com o fornecedor um tecido sustentável, ele custa R$ 85. Claro que tem tecidos normais de R$ 85,00 e R$ 100,00, mas são poucas as clientes que podem pagar esse valor né?”, explica.

Atualmente, consegue sustentar o ateliê, mas como esta em fase inicial, requer investimentos constantes para melhorias. Carina acredita que está crescendo, pois no início do ano trabalhava em casa e agora tem seu próprio negócio. Além disso, participa do coletivo de moda 30 Graus Sul, que tem marcas de moda autoral e sustentável.

“Estou minimizando o impacto, não estou resolvendo o problema. Hoje, se pararmos de produzir, teremos roupas para usar por anos. Existe essa pesquisa. O produzir, atualmente, ainda é insustentável. Na teoria deveríamos usar as coisas que já tem no mercado ou em brechó. Enfim, isso seria o mais sustentável”, defende.

 O maior desafio é fazer chegar ao consumidor

A jovem conta que antes apresentava suas criações dizendo que eram sustentáveis e, logo que as clientes olhavam, iam embora. Hoje, ao mostrar citando os bordados e o lado sustentável, a clientela se encanta. A transformação das peças, ressalta Carina, são para dar mais tempo de vida a cada uma delas. Isso, porém, não quer dizer que um dia não terão de ir fora.

“A pessoa pode se sentir bem com o que esta usando e sem o peso na consciência de ter comprado. Tem clientes minhas que compram, alugam ou me trazem peças que um dia compraram, e hoje não usam mais. Então faço algo com isso para elas ou para venda. Elas estão criando isto de dar valor”, relata.

Para ela, as pessoas não pensam em diminuir a agressão ao meio ambiente. Carina conta que muitas marcas sustentáveis querem impor seu estilo e conceito para o consumidor, mas deve-se fazer o contrário. A empresa que deve se adaptar a isso, pois aos poucos a mentalidade irá mudar.

Ao falar sobre moda, Carina instantaneamente sorri. Trabalhar neste meio é fazer exatamente o queria e não consegue se imaginar em outra profissão. Mesmo sendo uma ‘formiguinha’, como diz, ela sabe que tem muito que fazer ainda. No seu entendimento, no momento que as pessoas que trabalham com a moda se conscientizarem um enorme passo terá sido dado.

Segundo estudo apresentado pela estilista Roberta Lapertosa, dona do La pen Atelier, destinado a roupas de noivas, que customiza e trabalha suas peças com tecidos naturais,  9 milhões de unidades são confeccionadas anualmente no Brasil. O número faz do país o 5º maior parque têxtil do mundo. Dessas peças, algo entre 15% e 20% do tecido são desperdiçados por cada corte. Ainda, segundo dados, a indústria da moda brasileira, movimenta R$ 50 bilhões por ano e emprega mais de 1,7 milhões de pessoas. Cerca de 75% desse índice é composto por são mulheres.

O que está por trás da roupa é bem mais bonito

A gaúcha dona do blog Magra de Ruim destinado à gastronomia, Luisa Ramirez, 24 anos, soube da marca de Carina através de amigas em comum.  Para ela, falta consciência das pessoas, além de terem certo preconceito em relação a roupas reaproveitadas. Pois a maioria, ao fazer um vestido para um grande evento, não quer uma roupa que seria jogada fora.

A blogueira utiliza sua conta no Instagram, recheada de seguidores – cerca de 10 mil –, para promover a marca. Segundo ela, suas fotos quebraram um pouco o preconceito das pessoas. Seus seguidores a questionam sobre o que usa e terminam por seguir Carina nas redes sociais. Muitos, inclusive, já fizeram roupas com ela. Para Luisa, o que está por trás da roupa, o conceito e a ajuda ao planeta, é o que há de mais bonito.

Luisa Ramirez usando saia criada por Carina Brendler – Crédito: Divulgação

Desde criança, Luisa foi ensinada sobre sustentabilidade. Para ela, moda sustentável é o futuro. Por isso sempre apoiou e defendeu. A ajuda à marca de Carina foi por se alinhar ao conceito que as roupas passam e pelo talento que viu na estilista. Luisa afirma que as roupas feitas por Carina não são só um conceito de beleza, têm bordados e são feitas com carinho e isso a agrada. Para ela, a parceria das duas deu muito certo.

Como a sustentabilidade motivou a inovação

A necessidade por produtos produzidos de forma sustentável motivou a bióloga Beatriz Kats a empreender – Crédito: Daiana Camillo

“Depois que tive filhos, vi que era muito difícil de encontrar produtos saudáveis para o bebê”. Foi esta necessidade que motivou Beatriz Kats a pensar mais no meio ambiente e na forma que seu consumo trazia impactos para o planeta. A bióloga de 49 anos sempre foi engajada nos movimentos ambientais. Sua dúvida era: seu trabalho era efetivo para mudar o mundo para melhor?

A escolha do nicho de roupas para bebês foi pensada pela sua constante busca de opções menos industrializadas, uma vez que a maioria das roupas é de material sintético. Após meses de pesquisa, Beatriz começou a produzir peças com algodão orgânico, produzido sem o uso de agrotóxicos ou outros insumos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. Ela afirma estar sempre em busca de novas alternativas de matéria-prima.

O projeto da Green is Great, a marca de Beatriz surgiu em 2010. Era algo pequeno, que começou com três ou quatro produtos para a família e os amigos. No ano passado, com a maior aceitação do público e a divulgação boca a boca, chegou a ter 28 peças comercializadas, entre trocadores, macacões e bolsas.

Beatriz produz atualmente cerca de 300 peças por mês, mas o número varia bastante por ser empreendedora individual. Como as peças são produzidas individualmente e não em escala, também dependem do tempo de produção, que pode variar de duas semanas a três meses. Isso ocorre, porque ela envia para uma cooperativa que corta e costura nos seus moldes. Os produtos têm preços que variam entre R$ 25,00 e R$ 200,00.

A questão da distribuição e venda dos produtos preocupa a bióloga. “Eu vendo pela internet e entrego pelos Correios. Mas acho difícil vender pela internet, porque às vezes as pessoas encomendam um gorro para um bebê que nasce no verão. Eu digo que a criança não vai usar, mas a pessoa diz que achou lindo. Meus amigos me criticam, dizendo que devo deixar as pessoas comprarem, mas acho que meu papel não é só vender, é fazer com que as pessoas comprem de forma consciente e não pelo impulso”.

Além das matérias-primas, Beatriz quer investir na logística reversa, mas ainda há muitos obstáculos. “A ideia existe. Como sou sozinha, é complicado. Mas tenho dez pontos de coleta de guarda-chuvas em Porto Alegre, que eu recolho e depois uso os tecidos nos meus produtos. Os que sobram, eu doo”, relata.

A Green is Great produz peças para crianças até dois anos. As cores são neutras e podem ser usadas tanto para meninos, quanto para meninas. Beatriz afirma, entretanto, que há outras formas de buscar sustentabilidade. Investigar quem são e de onde vem a mão de obra que produz as roupas; evitar as que são suspeitas ou acusadas de utilizar trabalhos análogos à escravidão; buscar brechós, doações e reutilizar aquelas peças mais antigas para remodelá-las, são algumas ações possíveis. A bióloga diz também que há um longo caminho para percorrer. Mas já observa uma melhora considerável no mercado.

Re Roupa: cada roupa tem uma história

Roupas são feitas por cooperativas – Crédito: Divulgação Re Roupa / Derek Mangabeira

“Estima-se que no Brasil cerca de 170 mil toneladas de resíduos têxteis são descartadas por ano. Desse material, 85% não são reaproveitados, indo parar em aterros sanitários e, dependendo do tipo do material, leva anos para se decompor”. Esta é uma das frases utilizadas pela marca Re Roupa, do Rio de Janeiro, para se apresentar ao público.

Foi durante um intercâmbio na França durante seu projeto de graduação em uma escola de arte têxtil, há 10 anos, que Gabriela Mazepa descobriu o quanto as pessoas guardam memórias afetivas em suas roupas. Mais do que isso, a história de cada um pode ser contada através delas.

A carioca viu que, em produções de escala industrial, muitas roupas sobram. Assim surgiu a marca Re Roupa. O projeto visa criar peças novas a partir de resíduos reaproveitados como: fios de rolo de tecido, retalhos, roupas com pequenos defeitos. Dessa forma, o ciclo das roupas é estendido.

O ateliê sustentável, localizado no Catete, Rio de Janeiro, trabalha com os tecidos que chegam, compram por quilo ou de veem de confecções. Atualmente, contam com a parceria de grandes marcas e ganham os tecidos. Na empresa trabalham, regularmente, duas costureiras. Gabriela, além de criadora do projeto, ajuda na parte de criação. A equipe fixa é de quatro pessoas, para projetos maiores, contam com oito pessoas. É um público pequeno de pessoas que compram as peças, segundo Gabriela, que ainda completa afirmando que não tem como disputar o mesmo lugar de grandes marcas que gastam muito dinheiro em marketing.

“As pessoas que consomem são um público que vamos treinando e formando, e que gostam do projeto, seguem o projeto e tem interesse em ter peças feitas dessa forma”, informou à reportagem do blog de Jornalismo Ambiental via Whats App.

Gabriela cresceu no meio da confecção de sua mãe. Lidar com roupas sempre foi natural. Sem ser o meio sustentável, não vê outro meio de atuar. Para ela, o mercado está crescendo a cada dia. Ela percebe, porém, que a sustentabilidade está sendo muito banalizada.

“Sustentabilidade é um assunto muito complexo, que as pessoas confundem um pouco e saem falando que qualquer coisa é sustentável. Porém, porque atuar em uma linguagem de moda que tenha menos impacto? Porque eu acho que no mundo já tem tanta roupa e são feitas de maneira completamente abusiva com os trabalhadores que as produzem”, ressalta.

O projeto valoriza a produção de obra local. As peças são feitas pelas costureiras das comunidades do Rio, que trabalham de forma independente ou em cooperativas. As peças vendidas pelo site têm seus valores entre R$ 69,00 e R$ 239,00. Gabriela conta que ao ver pessoas se beneficiando com as roupas é muito legal, pois além de ajudar o planeta, existe a questão social de trabalhar com cooperativas e de ensinar, pois seu foco é maior na parte educacional, dos projetos, palestras e oficinas.

Gabriela faz parte do movimento roupa livre e é embaixadora do Fashion Revolution no Brasil, que, conforme o site, surgiu com o objetivo de aumentar a conscientização do custo da moda, seu impacto nas fases de produção e consumo. Os participantes também estão engajados na criação de um futuro mais sustentável. Este movimento foi criado por um conselho global de líderes da indústria da moda sustentável, após o desabamento de um fábrica de tecidos em Bangladesh deixando 1.133 mortos e 2.500 feridos.

Além disso, ela é Coordenadora da Escola da Malha. Foi vencedora do British Council Fashion Awards representando o Brasil em 2009 na Inglaterra e já fez uma parceria com uma das maiores confecções do Sri Lanka, transformando peças usadas em novas. E não irá parar. A estilista, conta que é do tipo de pessoa que ama o que faz e consegue viver disso. Para ela, trabalhar com sustentabilidade é gratificante e agradece por ter chegado onde está.

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