Budismo e sua reverência à natureza

“A vida não é uma pergunta a ser respondida e sim um mistério a ser vivido” (Buda) – Créditos: Nathalia Kerkhoven
Inspirado pela inauguração do Instituto Zen Maitreya no Centro Histórico de Porto Alegre, o blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter entrevistou praticantes do budismo para compreender como esta religião oriental chegou até o Rio Grande do Sul e por que seus ensinamentos são quase um manifesto ecológico.  

Por Ana Paula Lima, Nathalia Kerkhoven e Thayane Lopes

Jornalismo Ambiental – Campus Fapa / Noite

O Budismo Zen é uma filosofia de vida que procura fazer o ser humano sair da zona de conforto e entender seu lugar na natureza. A cultura ética ocidental traz o egoísmo do homem, prejudicando a natureza com sua maneira de pensar, excluindo ela de sua vida, agindo como se as pessoas fossem feitas e mantidas no planeta Terra por outras funções. A biodiversidade, cadeia alimentar e todo o ciclo dado para manter a espécie humana são esquecidos.

Assim o ser humano afeta diretamente a natureza, gerando o aquecimento global, alerta o filósofo Celso Marques, 72 anos, em entrevista concedida no seu novo Instituto Zen Maitreya, inaugurado recentemente no Centro Histórico de Porto Alegre. A estrutura capitalista selvagem, segundo ele, não apresenta cuidado nenhum com o meio ambiente, levando todos à autodestruição, sem qualquer tipo de reverência pela vida.

Local de prática de meditação no Instituto Zen Maitreya de Porto Alegre – Crédito: Thayane Lopes.

Para Celso Marques, daqui a alguns anos Porto Alegre estará debaixo d’água, por conta da poluição no Guaíba. A população ainda não percebeu o tamanho da importância do rio. “Somente o ser humano faz coco na água que bebe”, protestou.

Seikaku San é o nome monástico de Celso Marques, que cultua o budismo. No seu Instituto, há oficinas de origami para Fukushima, no Japão, lugar onde ocorreu o segundo maior desastre nuclear, depois de Chernobyl, que contaminou grande parte da água e do mar. O significado e resultado desse trabalho é compreender que a natureza caminha junto com o ser humano, entrando em um conceito de ecologia profunda.

 

Celso Marques apresentou para o blog de Jornalismo Ambiental da Uniritter, o Instituto Zen Maitreya – Crédito: Leonardo Alencastro

Janice Saraiva Moreira, 49 anos, formada em secretariado, começou a trabalhar no Instituto Zen Maitreya no ano de 2013, quando o centro ainda estava em reforma. Para ela o budismo zen pensa no todo e um de seus principais aprendizados começou no Via Zen em Porto Alegre.

“Comecei a entender melhor sobre reciclagem, meio ambiente e separação do lixo no Via Zen, onde também trabalhei por um tempo e praticava a meditação. As pessoas não têm visão sobre a reciclagem, elas jogam o lixo fora, mas não estão preocupadas em separá-lo ou para onde ele vai”, diz Janice, ressaltando que o budismo é uma grande escola e que as pessoas só vão entender sobre meditação se meditarem todos os dias.

Via Zen em Porto Alegre

“O budismo é praticamente um manifesto ecológico”, afirma o jornalista José Fonseca, 72 anos, um dos fundadores do Via Zen Porto Alegre e também um dos criadores do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJRS), primeira entidade brasileira formada por jornalistas especializados na cobertura de temas ambientais. Segundo ele, tudo que a ecologia hoje nos propõe está relacionado com o budismo, como o respeito e a proteção a todo tipo de vida.

José Fonseca relata que o Via Zen foi fundado nos anos 1970, por um grupo de pessoas da capital gaúcha que teve contato com um monge japonês que vivia no Brasil. Os frequentadores começaram a se reunir para praticar o zazen na casa do Celso Marques, atualmente monge, que na época tinha contato com o Zen de São Paulo.

Em um mosteiro no Espírito Santo, o grupo foi iniciado formalmente no zen, e, na volta para Porto Alegre, Alfredo Aveline, também praticante zen na época, encontrou o mestre tibetano criador do templo Chagdud Gonpa Brasil, em Três Coroas, levando um número de pessoas para o budismo tibetano, junto com ele.

Outras pessoas continuaram no budismo zen e foram à procura de um apartamento para então fundar o Via Zen. Hoje todos os grupos de budismo zen estão condicionados à Associação de Budismo Zen do Rio Grande do Sul.

José Fonseca começou a sua relação com o budismo através de leituras, principalmente pelo livro “Os três pilares do zen”, surgindo assim uma noção literária do zen. Quando morava na França, ele leu um cartaz de um mestre sentado em um templo de Paris com o endereço e decidiu visitar este mosteiro, começando a praticar a meditação. Ao retornar para Porto Alegre, encontrou o grupo que auxiliou na fundação do Via Zen e juntos começaram a praticar.

O Via Zen tem seções regulares de meditação (zazen) e grupos de estudos sobre textos budistas. O espaço também é compartilhado com grupos que apresentam afinidades com o zen e com os afiliados que ajudam a manter o instituto.

O jornalista e fundador do Via Zen José Fonseca concedeu entrevista à reportagem do blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter no dia 17 de junho, no Via Zen de Porto Alegre – Crédito: Leonardo Alencastro

O zen é um método prático de realização da natureza de Buda, que significa dizer que é uma atitude de vida decorrente de todas nossas ações. O zen budismo é uma tradição religiosa com princípios filosóficos próprios e que, como muitas outras tradições, possui diversas cerimônias e liturgias.

O zazen significa sentar em silêncio, de frente para a parede. O foco é a respiração e o livre fluir dos pensamentos, sem fixar em nenhum deles, o que proporciona ao praticante uma diminuição da agitação mental, conforme explicações do site Via Zen.

“A prática fundamental do zen é zazen. Agora isso não quer dizer também que seja apenas isso, porque a meditação também é toda a nossa vida diária, questão de estar atento àquilo que acontece, tudo que nós fazemos. O mestre japonês fala muito nessa prática constante, que é a prática da própria vida, viver com atenção com o que se faz. E dentro dessa atenção temos os ensinamentos do Buda que apresenta ligação com a compaixão, sempre fazer o bem, pois o Buda diz que existe um sofrimento, mas também tem uma maneira de acabar com ele”, explica José Fonseca.

Vila Zen em Viamão

A religião budista segue a linha de todas as outras religiões. Além de ser dividida entre budismo zen e budismo tibetano, existem outras subdivisões. O budismo zen se adapta ao local onde ele está, ou seja, quando se fala em zen, é preciso dizer qual a origem. Em entrevista no Vila Zen, em Viamão, a monja Shoden, de Porto Alegre, ordenada em 2009, que não se identificou com o nome com que foi registrada, afirma que existe o zen chinês, zen vietnamita, zen japonês e logo vai existir o zen brasileiro que só não existe porque o zen chegou há pouco tempo no país.

A escola no Japão possui um tripé de pontos de defesa e referência: 1. Direitos humanos; 2. Cultura de paz; 3. Meio ambiente. Por isso, a questão ambiental é muito forte e importante para os praticantes do zen budismo. A área mínima de preservação necessária em um espaço de prática zen é de aproximadamente 20%.

O budismo é originário da Índia, mas devido à outra religião japonesa, o país tem maior influência sobre as práticas e ligação com a natureza. O xintoísmo nunca se expandiu, e é primitivo, vem antes do budismo. Para os praticantes, tudo é cuidado com a natureza: os elementos da natureza são deuses. “Eu fui para o Japão, e não tinha ideia do que era aquilo, a explosão de beleza da natureza do Japão, é um espetáculo”, declara Shoden.

Quando se estuda os ensinamentos de Buda, descobrimos que ele fala dos seis mundos e que temos uma relação com todas as manifestações da natureza: temos as pedras, montanhas, águas, seres humanos e animais, tudo é sagrado e considerado ser vivo. “Mesmo uma pedra é considerada um ser vivo. Tem uma montanha de rochas, a pessoa arrebenta a montanha, para levar um pedaço de rocha para casa, então é tipo, deixa a montanha lá. Porque foi o homem que deu a ideia de que aquilo vai dar sorte ou vai ficar embelezando, porque é pura cultura. Cultura é uma coisa humana”, ressalta Shoden.

Zen é meditação, mas não a meditação que conhecemos. Porque meditar é verbo e significa que será feito algo e meditar. Nesse contexto, é sentar para simplesmente sentar, sem expectativa e sem buscar nada, para perceber essa inter-relação com todos os seres e permitir essa conexão, porque estamos sempre desconectados corpo e mente.

Estar com a cabeça e corpo no mesmo lugar é um desafio, porque não se trata de parar de pensar e sim de permitir as coisas e não ir atrás da história que aquela coisa traz. É poder ver a coisa passar e não ir atrás. É isso que o zen budismo defende: o exercício de simplesmente sentar e poder perceber o que está acontecendo, sem passar todo o tempo prestando atenção.

A ideia do zazen é conectar-se com o fora e com o dentro, sem fechar nada, apenas ampliar e ter uma atenção plena para perceber o que acontece fora e o que acontece dentro. Tendo essa via de mão dupla, é possível perceber que não existe fora ou dentro, é tudo uma única coisa.

Shoden explica a principal prática zen com uma analogia: “Se tu começas a parar, é que nem uma bexiga. Tu colocas a bexiga em cima da mesa, a bexiga para, mas dentro a água continua se mexendo, então a agitação interna continua. Tu tens mil desculpas para levantar e isso é um treino, no momento em que tu consegues acalmar a água dentro da bexiga, essas coisas internas, aí tu começas a entrar em um outro estágio que tu vais ter que repousar nessa condição”.

Fundado em 2000, o Vila Zen é uma extensão do Via Zen, localizado em Porto Alegre e pratica o zen japonês, denominado “Soto Zen”. O novo local surgiu como solução para um problema que afetava a sede localizada no bairro Petrópolis. Tendo como prática principal a meditação conhecida como zazen (za = sentar), os responsáveis da sede urbana enfrentavam a dificuldade alugando espaços para a realização de retiros, até que um praticante comprou uma terra de 50 hectares e doou cinco deles para a instituição. A sede viamonense é considerada a sede principal.

Há um ano e meio a sede adquiriu, com ajuda de doações de simpatizantes, um terreno de 35 hectares ao lado do terreno que já possuía. A propriedade é da associação, mas quem doou tem direito de superfície, como eles chamam, de construir uma casa, para residir ou para ir quando quiser.

Nesse espaço, além da área residencial, um novo alojamento será construído e 45% do terreno será de preservação, com sangas e córregos e outro espaço será destinado à produção, com vacas, galinhas e plantio, tudo baseado em um curso de permacultura, realizado em 2016, para uma implementação com o menor impacto possível, aproveitando todos os recursos locais.

Shoden é uma das responsáveis pelo local. Ela conta que conheceu o budismo através do shiatsu, uma técnica de massagem vinda do Japão. Além dele, existe o zen shiatsu, que foi o pontapé inicial. Em 1994, ela conheceu um mestre Zen japonês que estava vindo morar no Brasil e oferecia oficinas de teatro. Ela passou a frequentar e, tendo esse contato, passou a praticar o zen, principalmente depois de 2000, quando o mestre se mudou definitivamente para o país.

“Ele fundou a Via Zen em 1996, mas ele ainda ia para o Japão e voltava. Em 2000 ele veio para o Brasil e se estabeleceu de 2000 a 2005, até que voltou. Aí, quando ele retornou para o Japão, eu e meu marido assumimos a diretoria”, relata.

 

Shoden: “A gente está totalmente automatizado dentro de padrões condicionados que a gente não se dá conta e tu parar e aprender a sair do condicionamento e perceber o que vai realmente ser importante pra ti fazer, o que tu realmente quer da tua vida e enfim, isso é um ato revolucionário” – Crédito: Leonardo Reis de Deus

Ecologia Profunda

O documento da Unipaz Recife diz que a ideia central de ecologia profunda é a natureza, cuja evolução é eterna, e possui valor em si mesma, independente da utilidade econômica que tem para o ser humano que vive nela.

Na percepção de José Fonseca a ecologia profunda, no contexto do budismo, é cada um de nós termos que encontrar nosso próprio caminho e a maneira de ver o mundo. E o budismo diz que nós não somos seres dependentes e sim interdependentes.

“A ecologia profunda é a compreensão de que nós todos somos um, embora nós tenhamos a nossa individualidade, mas sem a existência de cada um de vocês, eu não tenho a minha existência. Somos toda a história da vida”, exemplifica Fonseca. Ele ainda complementa que toda a natureza é interdependente e por causa disso os seres se alimentam de outros seres.  E finaliza com a frase: “Ao cuidar de si, você cuida do outro”.

(Vídeo): Entrevista com o José Fonseca – Créditos Ana Paula Lima

Em entrevista por Whatsapp, a professora Luana Bitencourt Gomes, 36 anos, graduada em filosofia e mestre em teoria da literatura, explicou o conceito de ecologia profunda: “Uma ecologia pessoal, o cuidado que se tem consigo e com a natureza, o meio em que se vive. Somos parte de todo um processo. O ser humano é apenas uma gotícula no meio de uma imensidão de coisas que há no mundo, por isso dessa harmonia. A espécie humana tem que agir como agente na proteção do meio ambiente”.

Já Celso Marques explica o conceito como a Harmonização da Natureza com os Seres Humanos e não o distanciamento de ambos. Ele ainda destaca que há espaço para todos viverem juntos e completando um ao outro.

Shoden conta que no budismo não existe a cultura antropocêntrica, a ideia é não centralizar nada no homem, o que sugere a ideia do “Não Eu”. O “Não Eu” é abrir mão do ego, abrir mão do eu. “Se não tem nuvem e chuva, não tem eu, porque sem nuvem e chuva não tem alimentos e sem alimentos não tem eu. Então eu sou feita de não eu. Sou feita de tudo mais.”

A ideia de “Não Eu” faz com que o homem saia um pouco da cultura de que somos o centro do mundo, quando na verdade, é o contrário. Se tivermos essa noção, a nossa relação com o resto do universo, plantas e animais, vai ser diferente, porque estamos vendo essa metamorfose o tempo inteiro. Assim, para ser um conceito budista, é preciso ter o conceito de inter-relação e de interdependência de todas as coisas e do “Não Eu”, isso é a ecologia profunda e esse é o fundamento do budismo.

E o Jornalismo?

Essa compreensão de que homem e natureza estão em relação permanente também pode ser aplicada à postura do jornalismo diante dos temas ambientais, como explica José Fonseca, um dos fundadores  do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJRS): “Todo jornalismo deveria ser ambiental e se todos os jornalistas tivessem compromisso com o meio ambiente, seria um jornalismo verdadeiro. É importante, porque a não ser o jornalista ambiental, quem vai mostrar a realidade e o que está acontecendo? Mas a grande maioria não tem ainda essa compreensão de que é importante e é o principal entre todos os outros jornalismos. No país deveria existir apenas um ministério, o Ministério do Meio Ambiente.”

Uma ideia sobre “Budismo e sua reverência à natureza”

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