Uma vida em duas rodas

Jhonattan Queiroz enfrenta o caótico trânsito porto-alegrense – Crédito: Robson Hermes
Como o ciclismo tem modificado a rotina de quem busca um meio de transporte sustentável em Porto Alegre.

Por Bruno Raupp, Lidiane Moraes e Robson Hermes
Jornalismo Ambiental – Campus Fapa/Noite

A mudança pode ocorrer a qualquer momento. Um salto para fora da rotina extenuante ou um ímpeto por alterar o status quo. Essa busca incontrolável pelo novo gera novas ideias e muda, diariamente, milhares de vidas. Assim aconteceu com Jhonattan Queiroz, 29 anos, empresário e morador de Porto Alegre. Ele trocou o carro pela bicicleta e há oito anos a utiliza como seu principal meio de transporte.

Buscando uma maneira mais sustentável de transporte, o empresário transformou sua paixão por andar de bicicleta em uma parte vital da sua vida. “Eu uso a bike para qualquer coisa”, conta o jovem ciclista.

A troca dos meios de transportes tradicionais pelos sustentáveis tem angariado mais adeptos nos últimos tempos, principalmente entre jovens estudantes e trabalhadores. Conforme pesquisa realizada em 10 grandes cidades brasileira pela ONG Transporte Ativo e o laboratório de mobilidade da UFRJ, 45% dos entrevistados eram novos ciclistas. Entretanto, ainda há um certo receio em pedalar entre o caótico trânsito das vias porto-alegrenses.

A violência do tráfego de carros, motos e outros veículos influencia negativamente quem deseja incorporar o ciclismo em sua rotina. Todavia, quem consegue superar o medo e torná-lo um meio de transporte viável, nota que o receio de pedalar diminui gradativamente. “Existem diversos ciclistas que respeitam os motoristas e motoristas que respeitam os ciclistas, mas é claro que também existem exceções”, ressalta Jhonattan.

Atualmente, Porto Alegre possui um plano cicloviário que pretende estender a cobertura de ciclovias – que são espaços destinados para o trânsito de pessoas que estejam em bicicletas.

O Plano Diretor Cicloviário Integrado de Porto Alegre constitui-se em um instrumento executivo para a condução das ações de planejamento e implantação de soluções para o transporte cicloviário da região.

Há usuários que defendem o direito das bicicletas de andar em meio aos demais veículos. “Essa corrente de ciclistas defende que ‘não há necessidade de tapete vermelho para passarmos’, e é verdade! A bicicleta tem que se impor”, afirma Christine Tessele Nodari, professora do Instituto de Pesquisa de Engenharia de Produção e Transporte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Segundo a pesquisadora, não é economicamente interessante e nem viável em questão de espaço que hajam ciclovias em todo o território. A criação de ciclovias, muitas vezes, se torna um desfavor aos usuários das bicicletas, pois muitos motoristas acreditam que esses espaços se tornam o único lugar para a circulação da bicicleta.

Do lazer ao trabalho

Ciclista utiliza um dos serviços privados disponíveis em Porto Alegre – Crédito: Lidiane Moraes

Caso fosse assim, o uso de bicicletas para serviços de delivery seria muito limitado e o ciclista mensageiro da Eco Bike Courier Jean Felipe Wink não faria o seu serviço de maneira tão eficiente como faz há quatro anos. O Eco Bike faz entregas com o uso de bicicletas e acredita na humanização dos seus serviços.

A equipe, que trabalha em um pequeno espaço com clima descontraído, ressalta que a bicicleta não é apenas um meio de transporte mais barato, mas um meio de transporte no qual acreditam.

“A bicicleta faz parte da nossa filosofia, fazemos esse serviço porque faz bem para nós e para as outras pessoas. É uma contribuição para o trânsito”, afirma Jean Wink. Para que não haja um grande desgaste, os ciclistas mensageiros realizam entregas próximas à sua sede, que fica localizada no bairro Floresta, em Porto Alegre.

Ciente de que o transporte em bicicletas é um exercício físico que exige esforço, a professora Nodari acredita que a troca plena para esse meio de transporte seja para poucos. “A bicicleta consegue atender uma determinada quilometragem, independente da condição física da pessoa e, quanto a isso, não existem números exatos. Para grandes distâncias, ela não irá funcionar, assim como não funcionará todos os dias, devido ao clima”.

Uma estratégia para incluir a bicicleta nos meios de transporte viáveis é o que Nodari chama de complementaridade. Para a pesquisadora, a bicicleta tem uma grande capacidade de complementar os outros meios de transporte. No entanto, ressalta ela, para que houvesse, de fato, uma redução significativa no trânsito polarizado em algumas regiões, deveriam existir regras como o bloqueio do fluxo de carros para a área central e a disponibilização de estacionamentos dissuasórios, que servem para dissuadir a pessoa a seguir seu trajeto de carro. A viabilidade da ideia consiste na construção de um maior número de pontos de compartilhamentos de bicicletas próximos aos estacionamentos.

Compartilhamento de bicicletas

Bike POA é um dos serviços de aluguel de bicicletas utilizado pelos porto-alegrenses – Crédito: Lidiane Moraes

Foi através da percepção dessa necessidade que os alunos do curso de Engenharia Ambiental da UFRGS desenvolveram um projeto de compartilhamento de bicicletas de pessoas chamado We Bike. O projeto consiste na formação de uma comunidade, na qual os usuários disponibilizam suas bicicletas para o uso coletivo.

Quando foi desenvolvido, em 2016, os cerca de 30 usuários solicitavam a retirada das bicicletas via Whatsapp. Atualmente, o projeto está em fase final de desenvolvimento de um aplicativo que facilitará a comunicação dos usuários e, assim, o serviço de bike sharings, como são chamados os compartilhadores de bicicletas, poderá ser ampliado.

O Loop Bike, novo nome adotado pelos desenvolvedores, segue com o propósito inicial. “As pessoas precisam ter acesso às bicicletas onde quiserem”, afirma Lorenço Boettcher, co-fundador do projeto.

Para a professora Christine Nodari, os movimentos urbanistas são importantes para implantação da bicicleta nas cidades e é preciso quebrar a mistificação de que é perigoso andar de bicicleta nas ruas. A troca deve ser feita de forma gradual. Seja em um dia, um turno ou até quinzenalmente.

Ela explica que a noção de risco é maior quando o ato de pedalar nunca é colocado em prática. “É mais assustador pensar do que fazer”, afirma. Além de benefícios à saúde, o usuário que adapta a bicicleta no seu uso diário também beneficia o trânsito.

A mudança de cenário entre o pensar e o fazer foi o que levou um grupo de voluntários a desenvolverem um projeto para realizar o sonho de quem deseja aprender a andar de bicicleta na cidade ou simplesmente aprender a pedalar.

Bicicleta humanizada

Aos 75 anos, Afra Specht aprende a pedalar com o voluntário Maurício Ariza – Crédito: Lidiane Moraes

O Bike Anjo, como é chamado o projeto, é uma iniciativa de ciclistas que ajudam quem deseja usar a bicicleta como meio de transporte. A plataforma online conecta ciclistas experientes com iniciantes para que juntos realizem o trajeto desejado de forma segura.

A partir de uma grande demanda de pessoas que não sabiam pedalar foi criado a Escola Bike Anjo (EBA). O evento, realizado todo último domingo do mês, conta com a participação dos voluntários. “O Bike Anjo termina sendo uma forma com que as pessoas que não tiveram oportunidades de aprender a pedalar, aos poucos, comecem a mudar esse cenário”, explica Maurício Ariza, voluntário do programa.

Essa mudança logo começa a ser reconhecida. Receosa, Afra Specht montou em uma bicicleta pela primeira vez aos 75 anos, incentivada pela filha, pois pretendem pedalar juntas em Amsterdã. “Na minha época de pequena, mulher não podia andar de bicicleta”, lamenta Afra, que garantiu praticar o ciclismo durante e depois da viagem.

Essas mudanças sociais e ambientais que projetos urbanos tentam implantar em Porto Alegre tem potencial para transformar a cidade em um local mais adepto ao ciclismo, tornando o trânsito mais humano e as pessoas mais saudáveis.

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