Tratamento de esgoto ainda é insuficiente em Porto Alegre

 

Estação de Tratamento de Esgoto São João/Navegantes – Crédito: Karine Pinheiro
Visita à estação de tratamento de esgoto ajuda a entender os desafios da capital gaúcha para atingir a excelência do serviço.

Por Geila Passos, Karine Pinheiro e Márcia Santos
Jornalismo Ambiental – Campus Zona Sul / Noite

A universalização do acesso ao saneamento básico, garantida pela lei 11.445/2007, é uma meta que está prevista para ser alcançada até 2035 em Porto Alegre. As justificativas para isso são de que além de não existir verba suficiente, não é fisicamente possível construir ou ampliar as Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) em tão pouco tempo. Uma visita a ETE São João/Navegantes facilita o entendimento do atual quadro do saneamento na capital gaúcha.

Alan Rodrigues, engenheiro responsável pela ETE, relata que o sistema de tratamento de esgoto é insuficiente pois não atende toda a população, mas se torna eficiente pois cumpre a meta estabelecida. A ETE São João/Navegantes atende cerca de 192 mil habitantes, recebendo aproximadamente 444 mil litros de esgoto por segundo.

O esgoto cloacal é captado das residências por meio de tubulações, que formam uma rede coletora de esgoto. Depois, é conduzido por meio de bombas às ETE’s. O processo de tratamento é feito por meio de lodos ativados convencionais. Depois que o esgoto é recebido, é feita a passagem para um tanque, onde é retirada a areia e os resíduos sólidos.

Depois que esses resíduos são retirados, o conteúdo é levado até o tanque de aeração, onde é adicionado o lodo ativado. As impurezas e resquícios de matérias orgânicas são destruídas pelas células de oxigênio contidas no lodo. É neste processo que ocorre o tratamento do esgoto. No tanque de sedimentação, o lodo é separado do líquido e os produtos químicos são retirados. O volume de água tratada tem seu destino final no Lago Guaíba.

Porto Alegre tem avançado significativamente no processo de universalização do tratamento de esgoto, tratando atualmente cerca de 66,6% do que é coletado. Isso representa um número duas vezes maior do que o registrado há cerca de dois anos atrás quando o volume tratado não chegava a 30% do total coletado.

A principal obra realizada na Capital que permitiu com que  a cidade alcançasse os atuais índices e cumprisse as metas previstas no Plano Municipal do Saneamento Básico (PMSB) foi a construção da Estação de Tratamento da Serraria. A  obra, realizada através do Projeto Integrado Socioambiental (PISA) e inaugurada em 2014, faz parte do projeto de despoluição do Lago Guaíba, além de visar o aumento da capacidade de tratamento do esgoto para 80%.

Apesar dos avanços, Porto Alegre aparece em 44° no ranking do Instituto Trata Brasil de 2015, que analisou as melhorias e os avanços do Plano Municipal do Saneamento Básico nas principais cidades do país. No estudo realizado pelo Instituto é possível identificar que um dos fatores que impedem que o serviço de coleta e tratamento de esgoto atinja a capacidade total do sistema existente é a ociosidade das redes, ou seja, apesar de haver redes coletoras espalhadas pela cidade, grande parte dos domicílios não se encontram ligados a elas.

Mesmo com a Lei Federal  n° 11.445/2007, que determina que o consumidor seja obrigado a ligar o esgoto doméstico à rede coletora do Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE), uma parte da população de Porto Alegre que ainda não o fez aponta o custo incluído na conta de água como sendo um dos obstáculos. Por conta disso, o esgoto cloacal, que deveria ir para a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), segue direto para o Lago Guaíba sem o devido tratamento.

Estudos realizados pelo Trata Brasil mostram os problemas que a população enfrenta devido à falta de tratamento adequado do esgoto, sendo o principal deles os danos à saúde pública. Dados apontam que os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com problemas relacionados a diarreias em 2011 na Capital gaúcha atingiu uma taxa de 80 pessoas a cada 100 mil habitantes.

Gustavo Galvão, assistente técnico do DMAE, fala que outro grande problema gerado pela insuficiência do sistema de tratamento sanitário da Capital é a constante poluição do Lago Guaíba. “Quanto maior o índice de tratamento de esgoto realizado em Porto Alegre, menor o grau de poluição”, salienta.

Porto Alegre arca com a maior parte da responsabilidade no processo de despoluição do Guaíba. Gustavo destaca o quão importante é que as demais cidades do entorno também se envolvam nesse projeto. “Mesmo que a Capital alcance os 100% de esgoto tratado, é importante que as cidades vizinhas por onde passam os rios que compõe o Guaíba também realizem esse procedimento. Caso contrário, o lago não conseguirá se recuperar totalmente”, enfatiza.

Sobre as medidas que o DMAE adota para que a população se torne consciente e busque realizar as ligações de esgotamento sanitário às redes coletoras, Gustavo cita o Programa Conexões, que visa regularizar as ligações dos esgotos residências para que haja a separação do esgoto pluvial e cloacal, aumentando assim a quantidade de esgoto tratado na cidade.

 

Casas no entorno da ETE Navegantes – Crédito: Karine Pinheiro

Nilson Lopes, morador do Cantão do Loteamento 15, localizado no bairro Navegantes há mais de 45 anos, conta que presenciou o início das obras da estação, e que moradores do bairro viram na obra do Governo Municipal uma oportunidade de reivindicar melhorias. Por algumas vezes chegaram a ser ouvidos por dirigentes responsáveis pela estação, mas o passar dos anos só serviu para que as solicitações se perdessem e caíssem no esquecimento. “A gente se acostuma até com o que é ruim”. A frase impactante dita, por Nilson, serve para ilustrar tanto a realidade vivida pelos moradores do entorno da ETE São João/Navegantes quanto a situação da população porto-alegrense em relação ao tratamento de esgoto.

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