Não há para onde correr!

Más condições ambientais causam 12,6 milhões de mortes por ano no planeta. Décadas de poluição fizeram com que o homem transformasse a Terra em um lugar perigoso à sua própria saúde. E agora?

Por Orlando A. Moraes
Jornalismo Ambiental – Campus Zona Sul / Noite

Acidentes vasculares cerebrais, doenças isquêmicas, diarreicas, câncer, infecções e até quadros de depressão. A lista de doenças ligadas direta ou indiretamente ao meio ambiente só não é maior do que a de pessoas afetadas por elas em todos os cantos do globo terrestre. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são 12,6 milhões de mortes causadas por más condições ambientais no planeta. E as causas variam, indo desde presumíveis problemas pulmonares até impensáveis enfermidades psíquicas.

Não há para onde correr, estamos em perigo. Os alertas para a ameaça à saúde, e a sobrevivência da vida na Terra, especialmente a humana, advém de toda parte. Séries e filmes de ficção científica, por exemplo, há tempos já alertam, em alguns casos, para a extinção da raça humana, em outros, para mutações genéticas e sociais de nossas vidas ocasionadas em ambos os casos pelo aquecimento global e riscos ambientais gerados pela poluição.

Recentemente, o físico britânico Stephen Hawking somou-se ao grupo cada vez maior de “mensageiros” do apocalipse ambiental. Em matéria, o jornal O GLOBO divulgou a fala de Hawking durante o festival de ciência Starmus, em Trondheim, na Noruega, que afirmou que a Terra está ficando pequena para nós, e que não trata-se de ficção. Segundo ele, as mudanças climáticas e o crescimento populacional desregrado podem favorecer para que a raça humana comece a ser extinta em até 30 anos.

Ainda que surpreendente para muitos, a previsão do professor é um prenúncio do que ele chama de “lei da probabilidade”. Garantindo que se continuarmos a viver como estamos vivendo serão improváveis resultados diferentes do anunciado.

E ele não é o único a garantir o mesmo. Diversas organizações, grupos de estudiosos, pesquisadores e ambientalistas ao redor do mundo alertam constantemente para os perigos futuros e até mesmo para os impactos atuais para a saúde humana, causados pela poluição e a negligência com o meio ambiente.

Alerta constante

Alertar sobre o perigo ao qual estamos expostos é o que tem feito através de estudos e análises o grupo do Laboratório de Estresse Oxidativo e Poluição Atmosférica da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). A equipe de pesquisadores do laboratório desenvolve atividades relacionadas aos danos causados pela exposição à poluição atmosférica, e é uma referência quando se trata da relação entre saúde e qualidade do ar.

“Estamos realizando os primeiros estudos diretamente com humanos. Nosso trabalho sempre foi feito com animais, ou bioindicadores vegetais. Recentemente é que demos início a pesquisas com bioindicadores humanos, com avaliação de alteração genética de células epiteliais da mucosa oral perante a exposição a poluentes”, pondera Claudia Ramos Rhoden, professora responsável pelo laboratório.

O quadro de pesquisadores liderado por Claudia já realizou diversas pesquisas sobre a problemática, apresentando resultados alarmantes sobre a qualidade do ar na capital. O mais recente é a dissertação de mestrado defendida em junho de 2017 pela pesquisadora Roseana Boek Carvalho. A estudante analisou a exposição dos motoboys à poluição do ar, e concluiu que o grupo dos motociclistas profissionais é muito mais vulnerável aos efeitos deletérios da poluição do ar que a maioria da população.

O perigo está no ar

Ainda assim, eles definitivamente não são os únicos atingidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 92% da população mundial está exposta a níveis alarmantes de poluição. Estes dados fazem parte do relatório Ambient air pollution: A global assessment of exposure and burden of disease (Poluição do ar: Uma exposição global da exposição e da carga de doenças), apresentado ainda no ano passado e que compila os estudos mais recentes sobre a relação entre a saúde humana e a poluição.

Segundo a OMS, a poluição do ar é o maior fator de risco ambiental à saúde humana. Globalmente estima-se que os níveis de material particulado (partículas poluentes) no ar aumente anualmente 8%. De 2012 para cá a poluição do ar tem causado em média 3 milhões de mortes por ano e assombrosos 85 milhões de registros de casos de pacientes que devido à exposição a gases poluentes tiveram grandes perdas no que diz respeito à qualidade de vida, devido a doenças como a asma por exemplo.

Dentre as patologias associadas a este fator, os casos de asma e alergias respiratórias se destacam, sendo destes 44% causados pelas impurezas no ar. O número chama a atenção de grupos de pesquisadores que trabalham com pacientes asmáticos. O Instituto de Asma e Alergias Respiratórias do RS (IAAR) é um deles.

Constituído por educadores físicos, médicos, fisioterapeutas, psicólogos, técnicos de enfermagem, além de pacientes e seus familiares, o IAAR realiza em Porto Alegre um trabalho voluntário a fim de promover e difundir informações sobre saúde respiratória.

 

Estande de atendimento do IAAR — RS durante evento alusivo ao dia mundial da asma. – Crédito: Divulgação

“Realizamos palestras, campanhas preventivas, cursos e debates sobre a temática. Nosso objetivo é conscientizar a população sobre os cuidados com a saúde, e sobre a necessidade de se diminuir o nível de tabagismo e de poluição”, informa Gabriela Carvalho, formanda do curso de Medicina da UFRGS e integrante do IAAR.

Gabriela Carvalho, estudante de medicina, realizando testes com voluntário durante evento do IAAR RS – Crédito: Divulgação

O Instituto é coordenado pela Dra. Maria Angela Moreira, e realiza um trabalho educacional através de suas ações para o controle ambiental, que segundo eles, vai além do uso da medicação indicada: é um elemento essencial para evitar crises asmáticas e alergias.

Mas ele não é o único mal que chega ao nosso organismo pelo ar, pelo menos 5% das anomalias congênitas de recém-nascidos, 25% dos casos de acidentes vasculares cerebrais, e mais de 500 mil mortes ao ano por infecções respiratórias são causadas pela poluição atmosférica.

Preservar é a solução

As poluições do ar, da água, do solo, além da sonora e das más condições de saneamento e higiene são os principais condutores ambientais de doenças. Inúmeras patologias têm ligações comprovadas com a poluição e a má qualidade do meio ambiente em que seus portadores vivem.

Foram estas e outras conclusões às quais chegaram os estudiosos que elaboraram um dos mais recentes relatórios da OMS sobre a saúde humana e o meio ambiente, o Preventing disease through healthy environments (Prevenção de doenças através de ambientes saudáveis).

O parecer enfatiza que 23% de todos os óbitos do planeta poderiam ser evitados se houvesse modificações nas políticas de educação e proteção ambiental. Além disso, traz dados comparativos entre as mais diversas enfermidades humanas e suas relações com o ambiente, levando em conta o gênero, a idade e ainda as condições sociais.

Desigualdade socioambiental

O estudo da OMS garante ainda que mesmo que os problemas de saúde gerados pela poluição não sejam um problema exclusivo de um grupo ou de uma região do planeta, existem aqueles que estão diariamente mais expostos aos riscos ambientais.

Os mais afetados são as crianças com menos de cinco anos e os idosos com idade aproximada aos 70. E quando se trata de gênero, os homens são ligeiramente mais afetados pelo ambiente do que as mulheres. Em geral isso acontece por conta de seus padrões de atividades ocupacionais e recreativas.

Segundo o relatório, outro fator determinante na comparação da carga de doença por exposição é a localização geográfica dos grupos de indivíduos no globo terrestre. Os países de baixa e média renda tem maior índice de doenças causadas por fatores ambientais. E isso se dá entre outros fatores pelo sistema de fabricação de produtos. Muitas das fábricas geradoras de poluentes estariam localizadas em países emergentes como a África do Sul, fabricando lá produtos a serem comercializados fora, como na Europa por exemplo.

 

Psicologia ambiental

Muito se fala sobre os riscos físicos para a saúde desencadeados pela poluição, mas além destes, os psíquicos são o foco do debate de um dos mais recentes ramos da psicologia, a psicologia ambiental.

Trata-se do estudo da relação entre o homem e o meio ambiente. Considerada uma área em ascensão dentro do campo da medicina, a psicologia ambiental visa compreender o comportamento humano nas mais diversas relações com o meio, como suas reações às horas perdidas no trânsito, por exemplo.

Ainda que sejam em menor quantidade, as publicações sobre a área psíquica trazem resultados tão alarmantes quanto às demais esferas da medicina. No que diz respeito ao meio ambiente e a saúde psíquica humana, diversos estudos garantem que a poluição do ar está direta ou indiretamente associada a doenças como a depressão, o mal de parkinson e a epilepsia, por exemplo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 12% a 20% da população mundial sofre com distúrbios do sono e crises de ansiedade devido à má qualidade de vida ligada à poluição ambiental.

“Se considerarmos a violência urbana como um dos ingredientes, associada aos problemas de mobilidade urbana e a poluição, teremos o cenário responsável pela má qualidade de vida nos grandes centros”, avalia a médica psiquiatra Mariana Ribeiro de Almeida.

Assim como Mariana, o psicólogo Rafael Garcia destaca as disfunções psíquicas geradas por problemas ambientais. “Em Porto Alegre, por exemplo, além de problemas que já se tornaram comuns, como o da mobilidade urbana cotidiana, temos outros mais pontuais como o das enxurradas e os alagamentos em dias chuvosos. Além das contaminações possíveis devido a esses alagamentos, o transtorno gerado por eles causa em nosso cérebro um desconforto incomum. E quando isso é associado a um dia-a-dia já problemático devido aos demais problemas de mobilidade o desgaste psíquico é ainda maior, podendo, sim, gerar quadros de depressão e ansiedade”, comenta.

Surpreendente

A qualidade de vida é constantemente prejudicada pelo ambiente caótico dos grandes centros urbanos. E os estudos desenvolvidos ao redor do mundo sobre as problemáticas que envolvem essa perda de qualidade de vida apresentam dados surpreendentes.

Um deles, desenvolvido por pesquisadores da Universidade do Estado de Ohio, nos Estados Unidos, expôs durante 10 meses camundongos a níveis de poluição atmosférica encontrados em grandes centros urbanos.

Depois de expostos, foram realizados testes comparativos entre eles e camundongos mantidos longe da poluição. Através dos testes, associados a análise do hipocampo (zona do cérebro responsável pela memória e aprendizado) dos camundongos, foi possível verificar que os que haviam sido expostos a poluição tinham sofrido alterações em seus neurônios –  o que os levou a perda de memória, incapacidade de realização de testes, e a quadros de depressão.

Outro estudo com conclusões ainda mais chocantes foi realizado pela Universidade de Seul, que analisou 4 mil suicídios. Observando os níveis de PM10, partículas de poluição trazidas pelo ar de 10 micrômetros de diâmetro ou menos, como as que são liberadas pelo escapamento do carro, concluíram que os suicídios eram mais comuns em dias em que a poluição era maior. E que os humanos analisados estiveram 9% mais propensos a suicidarem-se em dias em que o nível de PM10 ultrapassava a metade da escala criada por eles. Sendo que esse número subia para 19% naqueles que sofriam de problemas cardíacos.

Ambos os estudos foram publicados pela revista americana Science, e sugerem que as consequências para tanta poluição vêm chegando a níveis impensáveis.

A hora de agir é agora!

Muito precisa ser feito para que se tenha de fato ambientes mais saudáveis para todos. Dados como os 23% de óbitos que poderiam ser evitados por ano se fossem feitas modificações, muitas delas bastante simples, nas políticas públicas de proteção ambiental são a prova de que cuidar do meio ambiente é sinônimo de zelo por parte do homem para com seu próprio bem estar.

E o tempo está se esgotando. As ações precisam ser feitas em conjunto e de maneira emergencial. A OMS destaca quatro intervenções fundamentais para reduzir os poluentes climáticos e aliviar, se ainda for possível, as pressões das mudanças climáticas sobre a saúde humana:

  • Reduzir as emissões de carbono e outros co-poluentes dos combustíveis fósseis, para melhorar a qualidade do ar e reduzir a carga de doenças atribuível à poluição;
  • Políticas e investimentos que priorizam o trânsito rápido, como ônibus e trens, e promovam redes de pedestres e ciclo seguros, promovendo múltiplos benefícios, incluindo: viagens mais seguras e riscos de saúde reduzidos de poluição do ar e ruído, inatividade física e acidentes de trânsito;
  • Fornecer alternativas de combustível, mais limpas e eficientes;
  • Incentivar o consumo de alimentos nutritivos à base de plantas para reduzir os casos de doenças cardíacas e alguns tipos de câncer, além das emissões de metano associadas a alguns alimentos de origem animal.

Estas e muitas outras medidas sugeridas pela OMS são apenas alguns dos caminhos que precisamos seguir emergencialmente. Porém, as mudanças mais efetivas no que tange a poluição, emissão de gases e a qualidade de vida na Terra, dependem de decisões governamentais — em sua maioria reféns de negociatas eleitoreiras e empresariais. E os números alertam, não há para onde correr, ou se começa a governar para salvar o planeta, ou poderá não haver mais planeta para governar.

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