Poa com bituca

 

Comumente jogadas no chão, as bitucas de cigarro são nocivas ao meio ambiente – Crédito: Osmar Martins
O projeto Poa Sem Bituca desenvolvido pelo empresário Flávio Leite, em 2015, foi interrompido devido à falta de apoio. O descarte inapropriado dos tocos de cigarro gera problemas ambientais.

Por Jean Costa, Osmar Martins e Rafael Costa
Jornalismo Ambiental – Campus Fapa / Noite

É muito comum ver, ao andar pelas ruas, centenas de bitucas se decompondo no chão ou na terra de canteiros. Baseando-se no descarte indevido desses resíduos, o empresário Flávio Leite apresentou, em 2015, a ideia do Poa Sem Bituca. A ação desenvolvida pelo dono da empresa EcoPráticas consistia em espalhar bituqueiras pela cidade onde o descarte do cigarro teria um fim adequado. O projeto nasceu após Leite fazer uma pesquisa na qual apontou que não havia um destino correto para a remoção das bitucas, o que prejudicava ainda mais o meio ambiente.

“Apresentei ao DMLU e também à prefeitura de Porto Alegre não só os números, mas todo o projeto. Vai desde a instalação dos coletores, manutenção, recolhimento das bitucas. Assim como distribuição de panfletos à população, tudo isso sem dinheiro público”, informou o empresário, em entrevista por e-mail.

A prefeitura e o DMLU entraram apenas com o nome no projeto, concedendo a licença e colaborando para a divulgação. Em dezembro de 2015, o Poa Sem Bituca alcançou meio milhão de bitucas recolhidas, segundo reportagem do jornal Zero Hora. O projeto acabou encerrado em dezembro do ano passado, a partir da troca do governo municipal. No ano de 2016, entretanto, a iniciativa já dava traços de abandono. Sem conseguir arcar com os custos sozinho, Leite foi em busca de apoio na iniciativa privada, mas não obteve os recursos.

A Bituca de Cigarro e o Meio Ambiente

André Simões, 28 anos, é formado em Biologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Questionado sobre ações do descarte inapropriado das bitucas de cigarros no solo, ele explica que “o impacto de uma bituca de cigarro no solo é muito nocivo. Porque, além de contaminar aquela área em específico, ela pode contaminar os mananciais ao redor e até um lençol freático”. Ainda segundo Simões, até animais podem ser atingidos pelo cigarro.

“A reprodução de peixes pode ser tóxica e transformar determinada população dos mesmos em uma população estéril, ou os próprios animais e plantas que dependem daquele solo podem ser contaminados”, relata o biólogo.

André Simões explicou que o descarte inadequado das bitucas de cigarro envenena o solo e contamina até mesmo os lençóis freáticos – Crédito: Aldrey Dorneles / Arquivo Pessoal

Uma região de plantação agrícola também pode ser influenciada pelos efeitos do tabagismo. “Esses vegetais vão ser contaminados assim como se tivesse sido utilizado um agrotóxico”, ressalta Simões.

O descarte inapropriado do cigarro possui algumas alternativas e iniciativas de coleta do material, segundo o site Ecycle que reúne informações sobre reciclagem e sustentabilidade. O portal aponta que o descarte do cigarro, quando realizado de maneira correta, serve como matéria prima para siderúrgicas ou cimenteiras, além de servir para o processo de reutilização do papel e plástico.

Publicado por Janaina Marchi, Emanuelle Machado e o pesquisador Marcelo Trevisan, o documento apresentado no XVI Encontro Internacional sobre Gestão Empresarial e Meio Ambiente busca alternativas para coleta e descarte de bitucas de cigarro. O portal Ecycle também mostra alternativas de empresas que realizam coletas do material .

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem cerca de 1,6 bilhão de fumantes no mundo. Diante desse número, a prática do descarte incorreto da bituca resulta em sérios danos ao meio ambiente.

No ambiente urbano de uma cidade, por exemplo, uma bituca de cigarro demora até cinco anos para se decompor naturalmente, principalmente quando jogada no asfalto, pois o material utilizado na fabricação de filtros, o acetato de celulose, é de degradação demorada, segundo dados do site Ecycle.

Em Porto Alegre, as estações ao longo dos corredores de ônibus são os principais “depósitos” de bitucas, alterando até mesmo esteticamente a cidade. Além disso, no descarte inapropriado, a bituca de cigarro contribui também para enchentes e contaminação de córregos.

A prática de jogar bituca em estradas próximo a florestas causa ainda mais danos. Já não bastando as mais de 4700 toxinas presentes, se for descartada ainda acesa e próxima a vegetação seca, pode causar incêndios de grandes proporções – ainda mais em dias quentes.

Duas faces de um vício

Segundo a psicóloga especialista em psicologia clínica e organizacional Nelir Bandeira, as pessoas buscam inconscientemente no tabagismo uma forma de preencher um possível vazio, ou para relaxar do estresse e ansiedades que o cotidiano urbano proporciona.

Brunna Araújo, estudante, tem 26 anos e costuma fumar durante à noite. Segundo ela, a faz relaxar. Começou a fazer uso da droga em 2008, junto com uma amiga, e desde lá fuma com frequência. Já Deise Freitas, 25 anos, começou na adolescência por influência de amigos. Atualmente, funciona como uma fuga do estresse urbano ou de situações que a deixam nervosa. Liliane Santiago, 30 anos, trabalha como técnica de saúde bucal e também consome o cigarro que lhe proporciona um “bem-estar”.

O tabagismo é um vício no qual, na maioria das vezes, o consumo de uma unidade não é suficiente. A facilidade de ser encontrado em estabelecimentos comerciais como supermercados, lojas de conveniência de postos de gasolina ou tabacarias, dá a ideia de que é um produto normal, como qualquer outro, disponível para uso quando e onde quiserem. Sendo muito consumido pelas ruas, o descarte da bituca mais comum para as pessoas é ação de apenas jogar no chão, quase que automaticamente após o término do cigarro. No entanto, o verdadeiro problema deste fenômeno não é o descarte inadequado e sim a continuidade do hábito de fumar.

Largar o vício do tabaco é uma tarefa difícil. A abstinência causa ansiedade extrema. Formada em psicologia pela Universidade La Salle, Cássia Bernardy associa a dificuldade de largar o vício do tabagismo ao hábito.

“A dependência ao cigarro está envolvida em diversos processos que fazem com que as pessoas continuem fumando. São mecanismos complexos que levam as pessoas ao vício do tabagismo sejam eles sociais ou psicológicos, comportamentais e químicos”, analisa Cássia. Questionada sobre a dificuldade de largar o vício, ela explica que está vinculado tanto ao prazer como também ao hábito.

Cássia Bernardy liga a dificuldade do vício diretamente à força do hábito. Crédito: Arquivo Pessoal

“Largar algo que já virou um hábito e que dá prazer não é simples. O cigarro tem todos os fatores de ser facilmente encontrado e consumido. Uma vez que uma pessoa associe o cigarro a um estado de relaxamento, largar o hábito de fumar vira uma missão difícil, mesmo tendo ciência de que aquilo faz mal para ela”, expõe a psicóloga.

As origens da droga

O cigarro é uma das poucas drogas legalizadas em vários países. Fabricado originalmente com a folha seca e granulada do tabaco enrolada num papel com a presença de um filtro ou não, o item nasceu dos restos dos charutos consumidos pela alta sociedade europeia do século XV. Os moradores de rua coletavam as sobras de charutos da aristocracia, enrolavam num papel e consumiam novamente o material.

Perigo ignorado

Atualmente, fumar cigarro é uma prática que pode ser considerada comum dentre as pessoas, apesar das propagandas sobre as consequências do fumo expostas nas embalagens. O cigarro provoca danos primeiramente ao corpo humano, como insuficiência respiratória, crises de asma, enfisema e bronquite pulmonar, além de ser o fator principal da ocorrência de câncer, não só de pulmão, como de boca, laringe, rins, bexiga e até colo do útero. Além dos danos aos seres humanos, o produto prejudica o meio ambiente, seja pela sua fumaça tóxica ou pelo descarte inapropriado das bitucas ao solo. E mesmo assim, ainda existem muitos fumantes.

Porto Alegre é a segunda capital brasileira com o maior número de adeptos ao tabagismo, segundo dados do Portal da Saúde. O estudo aponta que cerca de 13,6% dos residentes da cidade são fumantes. Mesmo com a extinção das propagandas de cigarro da mídia, alertas do Ministério da Saúde nas embalagens e com a vigência da Lei Antifumo que proíbe o consumo do mesmo em ambientes públicos fechados e abertos, o mercado do tabagismo ainda resiste. Contudo, uma pesquisa feita para a revista científica The Lancet apontou que a população de fumantes no Brasil diminuiu consideravelmente no período de 1990 e 2015. Nesse ínterim, a porcentagem de fumantes no país caiu de 29% para 12% entre os homens e de 19% para 8% entre as mulheres, indicando queda de mais de 50% de usuários diários.

Em meio ao descaso, uma alternativa viável

As doenças pulmonares, descarte inapropriado e destino incerto de resíduos estão ligados diretamente ao consumo do produto. Em 2014, uma pesquisa internacional mostrou que os brasileiros fumam 17 cigarros por dia e isso se reflete na forma de como a nicotina encontra seu destino.

A alternativa para o descarte são iniciativas sustentáveis baseadas na reciclagem. A ideia da bióloga mineira Bárbara Sales, de 26 anos, por exemplo, foi transformar bitucas de cigarro em porta copos. O que teve início como pesquisa para o seu trabalho de conclusão de curso, logo se tornou realidade. No início, Bárbara coletava as bitucas pelas ruas de Belo Horizonte de forma manual e em alguns coletores instalados nos bares da cidade.

Para tratar destes resíduos, a bióloga colocava as bitucas de molho em um componente químico por cerca de uma semana. O material então era submetido a um cozimento a 200 graus até virar uma massa. Depois disso ocorria um processo que deixava as partículas mais homogêneas, para então ocorrer a secagem e a confecção do porta copo de bitucas.

Uma solução definitiva?

Pelo Código Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre, sancionado em 2014, consta que é proibido jogar lixo no chão. Ainda assim, a população continua com o hábito. No caso de bitucas de cigarro, a política é a mesma. Em 2014, a Câmara dos Deputados aprovou a multa aplicada especificamente a quem descartasse uma bituca de cigarro no chão. O texto também contempla a obrigação de estabelecimentos que comercializem carteiras de cigarro ou material semelhante que disponibilize recipientes adequados para descarte.

Uma vez que já existe a consciência coletiva de que o tabagismo causa danos à saúde, o resíduo faz mal ao meio ambiente e que existem leis e iniciativas que contornem a situação, a solução definitiva é parar de fumar.

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