O jornalismo e a responsabilidade ambiental

Por Liliane Pereira
Jornalismo Ambiental / Manhã

O jornalismo precisa mergulhar no assunto ambiental para transmitir todas as suas transversalidades. Já é clichê quando se fala sobre qualquer assunto relacionado ao meio ambiente afirmar que a população precisa se conscientizar das questões ecológicas e criar hábitos que preservem, mantenham e resgatem a natureza. Grande parte da população sabe o que precisa ser feito, mas se acomoda no conforto de empurrar o problema para gerações futuras. Mas há uma reflexão que também precisa ser feita. Essa reflexão é a relação existente entre esse caminho da conscientização e o papel exercido pela imprensa nesse processo.

Assim como muitas profissões o jornalismo também está cada vez mais segmentado. Mesmo assim, baseada nas leituras que faço dos jornais de grande circulação em Porto Alegre, ainda não é comum a existência de setoristas disponíveis para cobrir as questões ambientais. E dizer que elas não ocorrem cotidianamente tal como outros assuntos seria um grande erro. Tudo ao nosso redor durante todo o nosso dia está cercado de questões relacionadas ao meio ambiente. As decisões que tomamos desde o momento que saímos de casa pela manhã até o retorno estão relacionadas com os impactos ambientais. Exemplos disso são escolhas como se deslocar de carro ou usar o transporte coletivo, utilizar a descarga do banheiro abastecida de água potável, jogar o lixo na lixeira ou no chão, fazer a compra de um calçado e decidir entre o couro sintético ou animal, imprimir ou não um e-mail, separar o lixo seco do orgânico entre outras coisas.

Nossa vida é uma teia de relações que liga seres humanos, animais, todo tipo de organismo vivo e a natureza. E se tudo está relacionado, o jornalismo também está. Essa teia pode e deve ser tecida pelas apurações e informações que os profissionais da área da comunicação são capazes de trazer ao público. O jornalista tem um papel importante de costurar os retalhos entre os assuntos do cotidiano e as questões que parecem não ter relação com nossa rotina. Alguns desafios precisam ser superados como a febre de que tudo precisa ser para ontem. Notícia de ontem é notícia velha, mas não podemos generalizar. Não se pode falar sobre natureza sem trazer à tona informações importantes que precisam de tempo para ser apuradas e bem construídas.

O acesso à informação pode transformar a população. Mas para que isso aconteça é preciso que todo o sistema abra mão de sua zona de conforto. A responsabilidade dos prejuízos ecológicos, em grande parte, se origina do desejo excessivo de consumir e de obter comodidade. E esse processo é reforçado pela mídia. A mesma mídia na qual trabalham os jornalistas que produzem matérias sobre o tema. Para que a população mude sua postura, os veículos de comunicação teriam que mudar primeiro o tipo de influência que exercem sobre o público.
É incoerente veicular informações que apenas afirmam que o grande número de carros aumenta a poluição quando pouco se fala no egoísmo de cada indivíduo. Em contrapartida, é conflitante cobrar ações diferentes de uma população que não tem do governo o resguardo necessário para agir de outra forma. Um trabalhador não pode ir pedalando para o trabalho se não houver um local adequado para guardar sua bicicleta, um vestiário em que possa tomar banho e menos ainda se o percurso de ciclovias não for seguro o suficiente para completar o trajeto sem se arriscar. Da mesma forma que nenhum cidadão vai aceitar abrir mão do conforto de seu carro para andar em um coletivo lotado e em condições de precariedade. As ações de transformação precisam acontecer em todos os âmbitos para que a realidade que vivemos comece a mudar.

O termo qualidade de vida precisa ser levado em consideração no aspecto ambiental. Difícil estabelecer tal parâmetro quando o máximo que se faz em casa é separar o lixo seco do orgânico e comprar produtos com embalagens recicladas. Não há como ter uma vida com qualidade real se nossos dejetos estão indo sem tratamento diretamente para nosso principal rio, ou se estamos jogando o óleo utilizado na cozinha ralo abaixo. De algum modo essas moléculas de poluentes voltarão ao nosso organismo através da água. Mas esse conceito precisa ser desenvolvido.

Existe ainda um preconceito que impede que os jornais veiculem a real proporção da crise ecológica mundial. No entanto a informação ambiental de qualidade que não chega ao público alimenta o preconceito popular que desvaloriza locais como o mangue que esconde atrás de um odor fétido a importância para o desenvolvimento e reprodução de inúmeras espécies. Há também a falta de interesse político e econômico em divulgar de forma massiva as consequências ambientais do nosso excesso de consumo e mudar o comportamento comercial da população. Há empresas que se escondem atrás de embalagens ditas ecologicamente corretas enquanto contribuem para a poluição e alimentam o consumo excessivo sem o qual não lucrariam tanto. Logo não é interessante fazer campanhas verdadeiras para obter mudanças de comportamento efetivas.

A imprensa pode ter um papel crucial na informação, esclarecimento e denúncia. A divulgação de informações de qualidade e com a profundidade necessária é o início do caminho para a até então utópica conscientização. Esclarecer mitos também é importante. Planos de aumento do tratamento de esgoto que incluem ligações das residências diretamente ao local em que a água é tratada são recentes e grande parte da população sequer sabe que isso é essencial e o quanto influencia na qualidade da água que bebemos. Denúncias sobre irregularidades ambientais também precisam ser feitas mais frequentemente. A exposição de órgãos passíveis de corrupção que trabalham diretamente com as questões ambientais certamente inibirá casos futuros. Exemplo é a Operação Concutare que expôs em 2013 irregularidades no licenciamento ambiental no Rio Grande do Sul. A exposição do caso na mídia deixou muitos cidadãos atentos à situação e despertou no governo a necessidade de reconstruir, através de ações positivas, a imagem dos órgãos envolvidos.

O jornalismo tem cada vez mais o dever de se engajar nos temas ambientais e o poder de auxiliar na mudança de postura tão necessária. A conscientização ambiental e o papel da mídia nesse processo são retalhos que precisam ser costurados para o bom desempenho da cidadania e da responsabilidade ecológica.

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Texto elaborado após leitura dos artigos Cidades em mutação (Roberto Villar Belmonte), Verde como dinheiro (Regina Scharf) e Perceber a biodiversidade (Eduardo Geraque), publicados no livro Formação & informação ambiental: jornalismo para iniciados e leigos (Summus, 2004), organizado por Sergio Vilas Boas.

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