Cosméticos: a indústria sabe o que está vendendo, mas o consumidor não sabe o que está usando

Entre as opções possíveis de cosméticos, as informações nem sempre são claras. Com foco nas maquiagens, saber qual a origem de cada produto pode ajudar na escolha.

Texto: Liliane Pereira e Vanessa Magnani
Reportagem: Débora Pires, Gabriele Torbis, Liliane Pereira, Renata Scheidt e Vanessa Magnani – Jornalismo Ambiental/Manhã

Os primeiros registros de uso da maquiagem são relacionados aos antigos feiticeiros, às pinturas de guerra e à demonstração de hierarquia entre as tribos. Na civilização egípcia, homens e mulheres pintavam os olhos para destacar o olhar. No período da monarquia produtos como o pó-de-arroz e pomadas coloridas já eram utilizados por reis, rainhas e pela aristocracia.

Conforme Daniel Dias, graduado no curso de história pela Universidade Luterana do Brasil, foi no Egito que a maquiagem se tornou um ritual de beleza diário. “É lá que se encontram os primeiros sinais do uso de cosméticos”, explica em entrevista ao blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter.

Desde o final da Idade Média, quando o pensamento da igreja contra a valorização da estética perdeu força, o uso da maquiagem tornou-se novamente um ritual crescente, não apenas entre mulheres, mas também entre os homens. Marcas como Natura, Boticário, Avon e Mary Kay já possuem linhas exclusivas de cosméticos para cuidar da beleza masculina.

Desde o final do século passado, o maior interesse do público por viver de forma menos agressiva ao meio ambiente fez com que a indústria da beleza começasse a se adequar para dar conta dessa preocupação crescente dos consumidores.

Segundo uma pesquisa nacional realizada pelo Ibope a pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o número de pessoas que se dizem preocupadas com o meio ambiente aumentou de 80%, em 2010, para 94%, em 2011.

Empresas de cosméticos passaram a demonstrar mudanças na sua relação com o meio ambiente criando produtos através de processos industriais que agridem menos a natureza, utilizando mais matéria prima natural.

Entretanto, industrializar produtos com origem sintética e responsabilidade ambiental ao mesmo tempo não é uma tarefa fácil. Algumas empresas encontram dificuldades nesse caminho e colocam no mercado itens que contém uma embalagem ecologicamente correta, mas um conteúdo prejudicial ao meio ambiente.

Maquiagem “Verde”

A sustentabilidade virou uma tendência comercial. Desta maneira, empresas de cosméticos passaram a buscar maneiras de serem vistas pelos consumidores como defensoras da preservação à natureza.

A publicidade e o uso de embalagens que se comunicam visualmente com o cliente e reforçam a imagem de produtos que não agridem o meio ambiente tornaram-se uma armadilha para o público, já que algumas empresas utilizam símbolos e apelos visuais que podem induzir o consumidor a uma conclusão errada.

O termo ‘maquiagem verde’ surgiu justamente para descrever propagandas corporativas enganosas que tentam dissimular seu desempenho com a relação ambiental.

A terminologia verde ou sustentável tem sido bastante trazida por grande parte das empresas no mercado. A jornalista e pesquisadora Liége Zamberlan questiona o quão verde realmente são as ações das empresas e o quão sustentáveis são essas ações que estão sendo aplicadas.

“Esse tipo de terminologia entra muito como uma questão de marketing, e as pessoas buscam se familiarizar com isso inclusive para proporcionar a sua marca e elencar numa outra categoria. E isso nem sempre se torna verdadeiro”, adverte Liége Zamberlan, referindo-se à postura das empresas que buscam ser bem vistas através de ações superficialmente ecológicas.

Para inibir essa situação, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) criou recentemente normas para a publicidade que contenha apelos relacionados à sustentabilidade. O objetivo é evitar a banalização do tema e a restrição de informações que possam confundir o consumidor.

De acordo com Eduardo Correa, assessor de imprensa do Conar, em esclarecimento publicado no site do conselho, um anúncio que cite a sustentabilidade deverá conter apenas informações ambientais exatas e precisas que possibilitem a verificação e comprovação.

Como diferenciar maquiagem tradicional, mineral e orgânica

Ao pesquisar sobre maquiagem ecologicamente correta é possível encontrar, além da tradicional, a maquiagem mineral e a orgânica/vegana. Entre as opções ficam as dúvidas. A consultora de vendas Mariana Motta, que trabalha como consultora de vendas de uma marca de cosméticos minerais, conta que os produtos são feitos de ingredientes vindos da natureza, pigmentos puros que não agridem a pele e não obstruem os poros.

“Os produtos minerais são mais refinados e por isso não ficam tão aparentes como algumas maquiagens. É recomendado para quem tem pele sensível ou para quem tem muita oleosidade e acne”, elucida Mariana Motta.

Em relação aos produtos orgânicos/veganos, a proprietária da primeira linha de produtos desse tipo no Brasil, Ananda Boschilia, esclarece, em entrevista concedida por e-mail, que esses cosméticos são produtos sem uso de química na composição, contém no mínimo 95% de ingredientes de origem natural e no mínimo 10% de matéria prima orgânica. “Os produtos não são testados em animais e respeitam a nossa saúde e a saúde do meio ambiente”, garante ela.

Lendo o rótulo

A maquiagem tradicional é ainda muito consumida. Para saber sua composição, basta ler o rótulo. Alguns de seus principais ingredientes são os derivados sintéticos parabenos, conservantes de baixo custo que inibem a propagação de micro-organismos dentro da fórmula.

Segundo o Comitê Científico da União Europeia de Segurança ao Consumidor, todos os parabenos são considerados seguros para o uso em cosméticos nas seguintes concentrações: menores que 0,8% no total de parabenos, ou até 0,4% individualmente.

Para a dermatologista Cristiane Kloeckner Kraemer, não existe uma maquiagem melhor para cada pessoa, é preciso testar. Se houver alguma alteração na pele, então é preciso trocar. “Existem maquiagens da linha hipoalergênicas onde a gente encontra menos conservante e isso acaba dando menos irritação”, esclarece.

Certificadora francesa Ecocert atua no Brasil

“O Brasil ainda não tem nenhuma legislação do governo federal para cosméticos orgânicos, somente para alimentos, quem nos protege hoje são as certificadoras, que no caso da Alva é a Ecocert, a maior certificadora do mundo, de origem francesa. Aqui no Brasil está em Florianópolis”, relata Ananda Boschilla, proprietária da primeira linha de cosméticos veganos no Brasil.

A Ecocert é um órgão de inspeção e certificação fundado na França, em 1991. A certificadora disponibiliza uma lista das empresas de diversos produtos que possuem sua certificação. Priscila Hauffe, consultora da empresa, explicou em entrevista concedida por telefone, que para uma fabricante receber o rótulo de cosméticos naturais e orgânicos é exigido que sua fórmula contenha no mínimo 95% de todos os ingredientes à base de plantas e um mínimo de 10% de todos os ingredientes por peso deve vir da agricultura biológica.

Agricultura biológica é um sistema que produz alimentos de alta qualidade e saúde, através de práticas sustentáveis e de impacto positivo no ecossistema agrícola. Para a etiqueta cosmética natural, a exigência é de no mínimo 50% de todos os ingredientes à base de plantas na fórmula e um mínimo de 5% de todos os ingredientes por peso deve vir da agricultura biológica.

“A certificação de cosmético ainda não está regulada por lei, então as certificadoras do Brasil possuem normas privadas para realizar essa certificação de cosméticos”, explica Priscila Hauffe. Embora a Ecocert certifique a origem dos produtos, a aprovação inicial é da Anvisa.

“É importante destacar a questão da lei brasileira que está nesse limbo. A falta de detalhes das normas sobre cosméticos de cada tipo deixa uma brecha na fiscalização, permitindo que os fabricantes incluam diversos tipos de produtos e aleguem que é natural ou orgânico sem uma comprovação específica”, alerta a representante da Ecocert Brasil.

Sociedade consumista

Para a jornalista e pesquisadora Liége Zamberlan, a sociedade é hiper consumista e isso não vai mudar. A preocupação com a fabricação ou o descarte de cosméticos é ainda pequena e a solução para a mudança deste pensamento encontra-se no conhecimento.

“A educação ambiental vem de base. Nosso trabalho é fazer essa educação iniciar na infância, e quando o indivíduo chegar à adolescência, essa visão ambiental já estará incutida nele, fazendo parte da sua conscientização”, defende Liége Zamberlan.

Enquanto isso, o consumo de itens cosméticos cresce em grande escala. Conforme pesquisa divulgada em 2012 pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) em seu site – www.abihpec.org.br – existe no Brasil 2.426 empresas atuando no mercado desse tipo de produto, sendo que 20 dessas instituições possuem faturamento líquido de impostos acima de R$ 100 milhões.

Quem fiscaliza o que você está usando

Nacionalmente os cosméticos em geral são fiscalizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), através de uma normativa única para todos os tipos de cosméticos.

Para poder atuar no mercado, a regulamentação necessária para as empresas consiste em Autorização de Funcionamento de Empresa (AFE), liberada pela Anvisa, e Alvará Sanitário Municipal ou Estadual.

Após a publicação da autorização no Diário Oficial da União, as indústrias podem solicitar notificações ou registros para os produtos fabricados junto à Anvisa. Já o comércio varejista de cosméticos, perfumes e produtos de saúde não requer AFE e Alvará Sanitário pra funcionamento.

Embora não haja uma regulamentação específica para cada produto, conforme esclarecimento da agência em seu endereço virtual (www.anvisa.gov.br), as normas e os procedimentos necessários para a obtenção do Registro de Produtos de Higiene Pessoal, Cosméticos e Perfumes ou de Alterações de Registro foram atualizados por uma nova determinação.

De acordo com a resolução RDC 04, de 30 de janeiro de 2014, as empresas fabricantes e importadoras desses produtos deverão aderir a um sistema de cosmetovigilância.

Esse processo consiste em ações capazes de detectar, avaliar, compreender e prevenir quaisquer adversidades relacionadas a produtos cosméticos, de higiene pessoal e perfumes. A implantação dessa norma permite o conhecimento dos riscos associados ao uso de cosméticos, e proporciona a prevenção e correção de possíveis danos.

Segundo a agente de fiscalização da equipe de produtos da Vigilância Sanitária de Porto Alegre, Suzana Claro Rodrigues, “é de competência do órgão de vigilância a supervisão e o licenciamento de todo o comércio atacadista de produtos cosméticos, perfumes e produtos de higiene dentro do município de Porto Alegre”. Entretanto, as ações fiscalizatórias só ocorrem quando o Alvará Sanitário é solicitado nas empresas ou quando a Prefeitura recebe denúncias de irregularidades.

Descubra qual é a sua sensibilidade

Liliane Pereira
Jornalismo Ambiental/Manhã

Procurando informações sobre cosméticos percebi que as normas existentes são muito falhas, e as instruções aos consumidores são vagas. Existem diversos tipos de cosméticos e maquiagens, e é difícil entender como é feita a fiscalização e certificação sem que haja uma lei que ampare cada tipo de produto. Por isso, é muito importante ler os rótulos e conhecer as substâncias que podem ser prejudiciais à sua saúde causando alergias. Informe-se, leia a respeito e procure informações seguras. Cosméticos precisam ser usados com os cuidados necessários e suficientes para não causar danos. Cada pessoa tem uma sensibilidade e preferência. É importante que você descubra qual é a sua.

 

3 ideias sobre “Cosméticos: a indústria sabe o que está vendendo, mas o consumidor não sabe o que está usando”

  1. O que mais me identificou com o artigo foi a última frase “Cosméticos precisam ser usados com os cuidados necessários e suficientes para não causar danos. Cada pessoa tem uma sensibilidade e preferência. É importante que você descubra qual é a sua.”
    As maquiagens da fabricante italiana Bellaoggi, vendidas pela empresa Hinode Cosméticos são todas registradas pela ANVISA, sendo altamente seguras para o uso.

  2. Realmente, alguns relatos que já li foi de produtos de maquiagens comprados na china, onde houve reações aos produtos de origem duvidosas ou até mesmo o meio de produção, causando irritação na pele, queimaduras e em casos mais graves sérios problemas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *