A Vila Nova dos pêssegos

A história dos descendentes de italianos que presenciaram a ascensão e a queda da produção de frutas no bairro da zona sul de Porto Alegre que vem sendo ocupado por empreendimentos imobiliários.

Nos meses de fevereiro e março florescem os pés de pêssego. A colheita das frutas ocorre entre setembro e novembro – Crédito: Thuane Liesenfeld
Nos meses de fevereiro e março florescem os pés de pêssego. A colheita das frutas ocorre entre setembro e novembro – Crédito: Thuane Liesenfeld

Por Thuane Liesenfeld
Jornalismo Ambiental / Manhã

Abalada pela concorrência de outras regiões, a produção de pêssegos no bairro Vila Nova não é mais a mesma. Muitas famílias desistiram de suas plantações e venderam suas terras para empreendimentos imobiliários que avançam pelo sul de Porto Alegre (RS). Algumas ainda resistem produzindo fruta.

Seu Valdomiro Paz da Silva, 70 anos, morador da Vila Nova há mais de 50 anos, conta que quando veio para o bairro já era grande a produção. Existiam muitas chácaras e os terrenos eram cobertos de frutas. “Era tudo na beira da cerca, os pêssegos caíam para fora. Nós nos deliciávamos”, recorda Valdomiro.

Definitivamente, eram as lavouras que complementavam a paisagem do bairro, lembra. “A gente tinha um ambiente mais puro: era muito verde, pouca estrada e muito plantio. Uma época que nunca vou tirar da memória e que se pudesse voltaria atrás para revivê-la”, confessa o morador septuagenário.

A Vila Nova é conhecida em Porto Alegre pela sua Festa do Pêssego, criada em 1985 como um grande evento e oportunidade para os agricultores locais venderem suas colheitas e ensinarem um pouco da cultura italiana para os visitantes que, curiosos, iam até o local provar o sabor que só o pêssego da Vila Nova tinha.

Segundo o Sindicato Rural de Porto Alegre, de quase 100 famílias que plantavam pêssego, apenas 26 ainda sobrevivem da fruta no bairro Vila Nova. Quase todos têm relação com a Festa do Pêssego e outros vendem seus produtos direto em mercados de bairro ou na Central de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa).

A produção de pêssegos em Porto Alegre caiu de 38 milhões de frutos produzidos em 1991 para um milhão em 2013, segundo dados da Fundação de Economia e Estatística. Já a área colhida, que era de 616 hectares em 1991, despencou para 100 hectares em 2013. Confira a tabela:

Produção de Pêssegos em Porto Alegre
Fonte: FEEDADOS da Fundação de Economia e Estatística

Apesar da decadência dos dez últimos anos, a Feira do Pêssego ainda acontece nos meses de novembro, em uma promoção conjunta da Prefeitura da capital gaúcha com o Sindicato Rural de Porto Alegre, Emater/RS-Ascar e Sistema Farsul, conforme dados do site da Prefeitura de Porto Alegre.

A crise

Outros municípios gaúchos começaram a produzir pêssego com qualidade. Produtores rurais de Flores da Cunha, Pinto Bandeira, Farroupilha e Otávio Rocha descobriram métodos de plantio para o cultivo da fruta no clima mais frio da Serra Gaúcha. Com o aumento da produção, o preço da fruta caiu.

O ex-produtor Silvio Alberto Passuelo, 49 anos, relata que ficou inviável manter a agricultura devido aos impostos cobrados e à baixa valorização da fruta. Era muito gasto com mão de obra e pouco rendimento, informa ele. Com todos esses problemas, vendeu parte dos seus 2,5 hectares para loteamentos.

Ainda sobram alguns pés e galhos e são eles que sustentam a esperança do pêssego na Vila Nova - Crédito: Thuane Liesenfeld
Ainda sobram alguns pés e galhos e são eles que sustentam a esperança do pêssego na Vila Nova – Crédito: Thuane Liesenfeld

Seu Julio Passuelo, 78 anos, tio de Silvio, lembra que em um ano recebeu tanto dinheiro com os pêssegos que comprou um automóvel, mas “podia ter comprado oito”. Recorda ainda que quando as primeiras famílias chegaram à Vila Nova, a região não passava de um canto atirado (ler box sobre os Pioneiros).

Além da família Passuelo, outras também perderam o interesse em manter uma agricultura que não lhes proporcionava mais retorno. Com o tempo e com muita rapidez, os pés que foram podados durante anos com cuidado para que produzissem em boas quantidades e com qualidade, já não eram mais tratados.

Pela raiz, algumas famílias escolheram acabar com os pessegueiros. “O que eu mais sinto falta é das brincadeiras, de subir nas árvores, da fruta direto do pé e também de ajudar meu pai trabalhando na plantação. Se eu tivesse condições, gostaria de continuar a tradição da minha família”, reconhece emocionado Silvio.

A resistência

Luciano Bertacco (direita) com seu irmão Flavio Bertacco na fazenda da família - Crédito: Thuane Liesenfeld
Luciano Bertacco (direita) com seu irmão Flavio Bertacco na fazenda da família – Crédito: Thuane Liesenfeld

Como a família Passuelo, os Bertacco também vieram da Itália por volta do ano de 1890. Flávio de Souza Bertacco, 35 anos, conta que seu bisavô, que se chamava Batista, chegou na Vila Nova preparado para criar uma lavoura nas terras que adquiriu. As plantações, como esperado, renderam bastante.

Foi uma época de ótimas vendas para a família, conta Flávio. Após anos produzindo e adquirindo recursos, a produção hoje, por herança familiar, está nas mãos de Flávio e de seu irmão Luciano de Souza Bertacco, 42 anos, que assumiram a gerência da Cia das Frutas Bertacco.

A família  resistiu às dificuldades e se manteve firme na produção. Hoje, além de pêssegos, planta tomate, quiabo, abobrinha Itália, abobrinha tronco, pepino e uva. São 12 hectares de terras na Vila Nova e investimento de mais de 40 mil pés de frutas e verduras em São Jerônimo (RS).

Flávio admite que mesmo tendo muitos recursos e em torno de 40 pessoas para ajudar na colheita, a dificuldade é grande. “Cada ano que passa compensa menos. A mão de obra subiu, o adubo subiu, tudo subiu, menos o preço pago pelo pêssego, que continua o mesmo. Cada ano aperta mais”, informa.

O crescimento dos lotes e da população na Vila Nova aumenta as dificuldades na safra. “Tivemos que trocar o pêssego de lugar porque as pessoas começaram a roubar a fruta na beira da estrada. Com isso, foram mais dois anos perdidos cuidando do pé para no terceiro ano ele começar a produzir”, relata o produtor.


Flávio diz que o retorno é pequeno e a venda não compensa, mesmo com as variedades de alimentos que são produzidos em suas terras. “Pro meu filho eu não quero mais isso, pois ganha muito pouco pra muito trabalho e investimento. É muito sacrificante, não tem feriado, não tem fim de semana, não tem tempo”, lamenta Bertacco.

Os pioneiros

As antigas plantações de pêssegos da família Passuelo era ponto de diversão para Inês e Helena, filhas de Júlio Passuello. Ano de 1971 – Crédito: Arquivo Pessoal / Reprodução
As antigas plantações de pêssegos da família Passuelo era ponto de diversão para Inês e Helena, filhas de Júlio Passuello. Ano de 1971 – Crédito: Arquivo Pessoal / Reprodução

Localizado há apenas 15 quilômetros do centro de Porto Alegre, o bairro Vila Nova foi colonizado nos anos 1890 por cerca de 35 famílias italianas. Os primeiros a chegar foram os Lariva. Assim que conheceram a região relataram o que encontraram: topografia, solos e clima favoráveis para a produção de alimentos.

Os Passuello também ajudaram a desbravar a Vila Nova. Ângelo Passuello veio do norte da Itália trazendo consigo a agricultura das videiras e das pereiras. Ângelo logo conseguiu produzir uma safra de uvas e peras tão boa que começou a comercializar as frutas no centro de Porto Alegre.

Assim que faleceu, deixou como herança suas terras para o filho e o neto. Depois de décadas produzindo incessantemente, a sustentabilidade da agricultura foi parar nas mãos do neto, João Passuello, que tomando a frente da lavoura levou adiante a cultura que seu pai e seu avô lhe ensinaram.

No final dos anos 1970, quando a uva começou a perder valor, João Passuelo aderiu à produção de pêssego, relembra seu filho Sílvio Alberto Passuelo, 49 anos. Assim como os demais produtores da Vila Nova, a família aderiu aos pessegueiros. Foi o momento do pêssego que fez a Vila Nova deixar uma marca doce na capital gaúcha.

“O meu pai (já falecido) era um dos que mais produzia e cultivava a ‘pessicultura’, tudo por causa do meu avô. Ele fazia questão de nos ensinar como plantava e cuidava da lavoura. Foram épocas gloriosas em que aprendi o que é trabalhar em família”, relata o produtor Silvio Alberto Passuelo.

Silvio recorda que chegava a produzir 25 mil caixas de nove quilos por safra. Com o crescimento da “pessicultura” (como ele chama carinhosamente a cultura do pêssego) a partir dos anos 1980, a Vila Nova chegou a ser considerada uma das principais regiões produtoras do Brasil. Não é mais.

Vila Nova rural em imagens

O pêssego no Brasil

O pêssego é uma fruta de primavera e apresenta 80% de sua oferta no Brasil entre os meses de setembro e janeiro. Ele tem diferentes usos: consumo in natura ou processado. De acordo com os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008-2009), os brasileiros adquirem em média 213 gramas de pêssego anualmente, sendo assim, o Brasil tem 1,11% da produção mundial da fruta.

O IBGE registra a produção de pêssego em cinco estados brasileiros: Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Só a Região Sul produz aproximadamente 74% da oferta nacional. O Rio Grande do Sul é o maior produtor, com 57% do cultivo no país já que é um dos estados que apresentam melhores condições de clima e solo, segundo a Embrapa.

No território gaúcho, a produção de pêssego está dividida entre a região de Pelotas e a região da Serra. A Região Metropolitana de Porto Alegre também produz a fruta. Os municípios que se destacaram (2009-2011) são: Pelotas, com média de 23 mil tons/ano; Bento Gonçalves, com 18.785 tons/ano; Canguçú, com 18.666 tons/ano; e Piratini, com 10.227 tons/ano.

A importação de pêssego no Brasil corresponde a 1,8% da produção mundial, sendo o 18º maior importador do fruto. Os dados da Alice Web (sistema brasileiro que registra por mês o volume, o valor, a origem, o destino e o porto de entrada dos produtos importados e exportados pelo Brasil), mostram que a quantidade importada cresceu de 16 mil em 2008 para 23 mil toneladas em 2013.

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