InGá, um instituto em defesa da biodiversidade

ONG de Porto Alegre busca, através de ações e debates, construir uma sociedade sustentável.

Coordenador do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais, Paulo Brack – Crédito: Apedema / Divulgação
Coordenador do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais, Paulo Brack – Crédito: Apedema / Divulgação

Por Rafaela Barboza
Jornalismo Ambiental / Noite

Agir localmente e pensar mundialmente, trabalhar pela transformação social, promovendo a justiça socioambiental e modos de vida saudáveis, em harmonia com a natureza, é o lema que o Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá) acredita e leva como bandeira para o desenvolvimento de um planeta sustentável.

O trabalho do InGá é feito por meio de pesquisas, educação e comunicação como processos contínuos, críticos e transformadores, acompanhamento e proposição de políticas públicas responsáveis, fiscalização do cumprimento da legislação ambiental e realização de projetos e ações socioambientais.

O Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá) nasceu a partir da união de diversos fatores que ocorriam simultaneamente no cenário ambiental da capital gaúcha nos anos 1990. Um grupo de estudantes e professores do curso de Biologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que na época era ligado ao Núcleo de Extensão Macacos Urbanos, dentro da própria Universidade, desenvolvia um projeto que mapeava a espécie do bugio-ruivo em Porto Alegre e sentia a necessidade de um grupo que discutisse e construísse uma sociedade sustentável.

Também havia a necessidade de criação de uma organização com estrutura jurídica para receber apoio no campo das pesquisas biológicas em Porto Alegre e coincidiu com o encerramento da ONG Comissão de Luta pela Efetivação do Parque Estadual de Itapuã (Clepei).

Alguns integrantes, que acreditavam na luta, deram continuidade ao trabalho através do Instituto. Então, em 7 de abril de 1999, homenageando uma árvore nativa da América do Sul, com poder de regeneração do solo, nascia o InGá, fundando pelos “ingazeiros”, como são chamados os militantes do Instituto.

Atualmente a ONG conta com seis pessoas na sua equipe. São biólogos, bacharéis em Educação Física, Artes Gráficas, Artes Visuais e do campo da Geografia e Filosofia, que dedicam seu tempo de forma voluntária para lutar pelas mais diversas causas em todo o estado do Rio Grande do Sul, atuando principalmente na região de Porto Alegre.

O biólogo e coordenador-geral do InGá, Paulo Brack, conta, por email, que há alguns anos o número de voluntários era maior. “Muitos dos ‘ingazeiros’ passam em concursos públicos no estado ou no resto do País e acabam se desvinculando por falta de tempo ou vontade”, afirma Brack.

Para o ingazeiro e tesoureiro da ONG, Vicente Medaglia, a grande dificuldade de manter o Instituto é a tentativa de cooptar parceiros para atuar. “O InGá é mantido por trabalho voluntário. Além disso, existem dificuldades de gestão de projeto coletivo, não remunerado e democrático. A grande questão é como aproximar pessoas que se dediquem à causa”, diz Medaglia.

Assembleia Geral do InGá - Crédito: InGá / Divulgação
Assembleia Geral do InGá – Crédito: InGá / Divulgação

Visão ecológica do mundo

São diversos os campos de atuação dos “ingazeiros”, mas todos eles são voltados à biodiversidade, como às áreas naturais de Porto Alegre, políticas públicas em espaços de representação, educação ambiental, plantas alimentícias não convencionais (PANCs), agrobiodiversidade, agricultura urbana, feira da biodiversidade, entre outras. Além de fiscalizar o cumprimento legislação ambiental.

A ONG também busca construir uma visão onde a ecologia tenha papel fundamental na sociedade. Ser um meio de discussão, que não é suscetível aos interesses econômicos, e sempre ampliar conversas e visões, disseminando o debate em busca de uma sociedade sustentável.

Segundo Medaglia, formado em Filosofia na UFRGS e mestre em desenvolvimento rural pela mesma Instituição, é necessário construir ou discutir uma sociedade realmente sustentável. “Os principais agentes se eximem de tomar atitudes. A grande questão que se pode levantar é a fixação sobre o crescimento econômico, fixação de uma sociedade que é emoldurada por uma natureza finita”, ressalta.

O ingazeiro se refere ao descaso que as grandes indústrias e a população vem tendo com meios naturais que não são renováveis. A necessidade que o consumidor tem em sempre querer uma nova tecnologia fruto de uma fonte não renovável, que acaba por degradar o meio ambiente sem a preocupação de como mantê-lo intacto, ou ao menos não polui-lo. São características do mundo pós-moderno, onde o excesso de fabricação, necessidade de vendas para que os grandes empresários obtenham mais lucro, ocasionando o consumismo desenfreado.

Feira da Biodiversidade / Vicente Medaglia - Crédito: Arquivo Pessoal
Feira da Biodiversidade / Vicente Medaglia – Crédito: Arquivo Pessoal

“Esse crescimento econômico não pode ser infinito, ele também tem que ser finito, e na verdade, o que deveria acontecer é a distribuição da riqueza existente. Presenciamos a concentração dessa riqueza. A retórica da sustentabilidade tem um limite na ganância humana”, defende o filósofo.

Na avaliação de Paulo Brack, um dos maiores agentes da degradação do meio ambiente é a especulação imobiliária e a poluição hídrica de arroios e do Guaíba. “Através de publicidade, a população pode se conscientizar sobre o que acontece no meio ambiente onde vive”, defende o coordenador da InGá.

Debates, palestras e denúncias

Como forma de militância, o InGá participa de conselhos de meio ambiente. Promove debates e palestras. Divulga e denuncia os descasos e ataques ao meio ambiente e aos direitos socioambientais. Também possui uma página e uma rede de e-mails entre os ingazeiros, onde são repassadas informações e as campanhas sobre o meio ambiente.

Segundo o biólogo Paulo Brack, o mais importante, hoje, é pararmos para pensar onde nossa sociedade hegemônica capitalista vai chegar. “É preciso levantarmos a bandeira urgente por um outro paradigma que recupere as formas de relações ecológicas colaborativas, solidárias, desprendidas, desapegadas, e não as formas atuais competitivas e que prezam pela acumulação doentia de capital, fonte maior da degradação ambiental”, salienta Brack.

Luta vitoriosa

Rio Pelotas, fronteira RS e SC - Crédito: InGá / Divulgação
Rio Pelotas, fronteira RS e SC – Crédito: InGá / Divulgação

O InGá, em parceria com outras ONGs e o Ministério Público Estadual, conseguiu barrar a construção da Usina Hidrelétrica de Pai Querê, no ano de 2013. A Hidrelétrica seria construída no rio Pelotas, divisa do Rio Grande do Sul com o estado de Santa Catarina, e previa a devastação de 6 mil hectares de mata nativa e cerca de 200 mil araucárias e diversas espécies de peixes, entre diversos outros tipos de espécies exóticas.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) acabou por indeferir o pedido de licença, entendendo que o mais importante era preservar a biodiversidade existente.

Por uma cidade realmente sustentável

Uma cidade ou um planeta sustentável é possível a partir de projetos e mobilizações tanto da sociedade quanto dos governos. Para Paulo Brack, é possível frear o desmatamento pela especulação imobiliária através de divulgações, denúncias e a atuação da população junto aos conselhos ambientais e ao Ministério Público, no âmbito Estadual ou Federal.

Porém, a Capital do Estado não prevê plano de sustentabilidade. “Poderia ser qualquer plano. Inicialmente passaria por definir os limites para à expansão urbana, para a poluição hídrica, aérea e pelos resíduos sólidos”, ressalta Brack.

Quanto à mobilidade urbana, Brack acredita que a maioria dos políticos e governantes tem visão imediatista e não está interessada nestas questões. “O transporte público deveria ser uma bandeira não só das ONGs, mas do público em geral”, avalia o biólogo.

Devido a todos os problemas ambientais no mundo, um dos maiores e mais preocupantes da atualidade é a poluição eletromagnética, que é gerada através da grande rede de comunicação sem fio, como ondas de televisão e rádio, uso de aparelhos celulares via satélite, que é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como cancerígena.

De acordo com Vicente Medaglia, esse tipo de situação não importa em um sistema capitalista. “Para contermos esses grandes problemas ambientais, somente uma mudança individual, moral e ética da sociedade. A ampliação da consciência, não só ambiental, como da humana para um mundo mais sustentável”, afirma o ambientalista.

Mas para que toda a destruição provocada pelo homem possa ser reparada é necessária uma grande transformação na humanidade. É isso que o InGá promove. É por essa transformação que os ingazeiros lutam.

Doações

O Instituto conta com doações de colaboradores para se manter. Toda doação é bem vinda para que o InGá possa dar continuidade ao trabalho que vem desempenhando há quase duas décadas. Saiba como fazer sua contribuição através do e-mail inga@inga.org.br.

InGá

Casarão do Arvoredo
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