A difícil busca por uma alimentação saudável

Consumidores buscando alimentos saudáveis na Feira ecológica do Bom Fim em Porto Alegre. Crédito: Anderson Aires

Em meio a uma agricultura que  se utiliza cada vez mais de agrotóxicos, a busca por alimentos livres desse veneno cresce entre os consumidores.

Textos e fotos: Anderson Aires / Colaboração: Jordana Pastro
Jornalismo Ambiental/Manhã

A busca por uma alimentação saudável é cada vez mais recorrente na rotina da população. Mas até que ponto isso é possível em um país considerado o líder no uso de agrotóxicos na agricultura, muitos deles proibidos em vários países desenvolvidos? Essa é uma das perguntas que cercam a indústria alimentícia brasileira.

O Brasil é um dos líderes mundiais no uso de agrotóxicos graças a uma falta de controle na fiscalização. Segundo os relatórios de 2011 e 2012 do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), um terço dos vegetais mais consumidos pelos brasileiros apresentou resíduos de agrotóxicos em níveis impróprios para o consumo.

A Anvisa analisou 1.628 amostras das quais 589 (36%) apresentaram resultados insatisfatórios. Produtos como arroz, feijão, alface, pimentão e tomate estavam entre as amostras contaminadas.

O Brasil possui problemas alarmantes relacionados ao uso indevido e à falta de informações dos agricultores que utilizam esses venenos. Mas afinal o que são agrotóxicos?

“Segundo a Lei 7.802, de 11/07/89, conhecida como Lei dos agrotóxicos, eles são os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-la da ação danosa de seres vivos considerados nocivos”, explica o engenheiro agrônomo Lauro Bassi, que trabalha na STE – Serviços Técnicos de Engenharia. Segundo ele, os principais tipos de agrotóxicos são: herbicidas, inseticidas, fungicidas.

O uso excessivo dessas substâncias na agricultura causa danos à saúde de quem consome esses produtos. “Os problemas relacionados ao consumo desses alimentos são dos mais simples, como náuseas, dores de cabeça e tonturas até os mais complexos, como alteração nos sistemas respiratório, cardiovascular, pulmonar e neurológico e também problemas como mal de Alzheimer, mal de Parkinson e até mesmo o câncer”, afirma a coordenadora do curso de Nutrição da UniRitter, Jacqueline Schaurich, 52 anos. Ela também cita que esses problemas costumam aparecer em médio e longo prazo.

Para Schaurich os alimentos orgânicos, produtos cultivados sem o uso de agrotóxicos, são uma das principais soluções frente aos alimentos cultivados com venenos agrícolas. “A indústria dos alimentos orgânicos caminha para uma solução, tanto para a questão do meio ambiente, em funções de solo, área e descontaminação, quanto para a saúde dos indivíduos que os consomem e não tenho dúvida que os orgânicos são a principal solução”, garante a coordenadora do curso de Nutrição da UniRitter.

Escala de produção

Mas a questão dos alimentos orgânicos também gera discussões em torno da escala de produção, visto que geralmente esses alimentos requerem um maior cuidado por parte dos agricultores, o que demanda uma maior disponibilidade de tempo. Se não forem bem manejados, perdas maiores no cultivo podem ocorrer.

“A produção do alimento orgânico tem um rendimento muito menor. Então em larga escala, vamos pensar na alimentação mundial, você precisa ter um rendimento grande e com o orgânico isso é difícil, também temos os problemas do maior custo do cultivo desses alimentos”, adverte o professor da disciplina de Toxicologia Ambiental do curso de Biomedicina da UniRitter, Roberto Damiani.

Assim como a professora Schaurich, Damiani ressalta que o consumo de alimentos derivados de uma agricultura com agrotóxicos é prejudicial à saúde. “Nesses alimentos sempre ficam resíduos desses venenos. O tipo de sintomas depende da classe da molécula que foi utilizada e que se acumulou no alimento, mas só um estudo em longo prazo vai poder descrever melhor esses sintomas”, ensina o professor de toxicologia ambiental.

Mas os riscos à saúde relacionados aos agrotóxicos não são apenas em relação a quem consome os alimentos cultivados, mas também de quem os aplica sem o devido cuidado nas lavouras. “Muitas vezes o agricultor vai lá e compra o herbicida achando que aquilo vai fazer bem para a sua lavoura e não tem uma indicação técnica de como aplicar e que equipamento utilizar para não ficar exposto a esse produto e isso gera uma série de acidentes e intoxicações. Infelizmente, isso ocorre com bastante frequência”, lamenta Damiani.

Professor de toxicologia ambiental da UniRitter Roberto Damiani. Crédito: Anderson Aires
Professor de toxicologia ambiental da UniRitter Roberto Damiani. Crédito: Anderson Aires

O uso de agrotóxicos nas lavouras brasileiras é algo natural e ocorre de maneira desenfreada e geralmente sem se levar em conta os problemas, no médio e longo prazo, relacionados a eles. Mas frente a essa questão há o movimento dos orgânicos que, mesmo com todas as dificuldades e limitações, vem a cada dia crescendo mais e ganhando novos adeptos.

A Meca dos alimentos orgânicos

Feira ecológica no Bom Fim conta produtos de agricultores ecologistas de diversos municípios gaúchos. Crédito da imagem: Anderson Aires)
Feira ecológica no Bom Fim conta produtos de agricultores ecologistas de diversos municípios gaúchos. Crédito da imagem: Anderson Aires
No bairro Bom Fim, em Porto Alegre, a feira de alimentos orgânicos de sábado chama, cada vez mais, a atenção pela alta procura dos consumidores por produtos saudáveis.

Texto e Fotos:Anderson Aires                                                                       Jornalismo Ambiental/Manhã

Quem passeia aos sábados pela manhã no entorno do Parque Farroupilha, carinhosamente chamado de Redenção pelos habitantes da capital gaúcha, percebe que o local recebe um toque a mais em sua paisagem. Centenas de bancas dividem espaço e disputam a atenção de muitos consumidores, que esbarram entre as bancas devido ao alto movimento no local.

Trata-se da Feira Orgânica do Bom Fim localizada na Rua José Bonifácio, que já completa 24 anos, conta com cerca de 150 bancas e registra um grande movimento de pessoas em busca de produtos cultivados sem o uso de agrotóxicos. O local é a Meca da alimentação saudável e consciente em Porto Alegre.

“O consumo de alimentos orgânicos a cada dia cresce mais, podemos notar isso pelo alto movimento nas bancas e isso acontece graças à conscientização das pessoas em relação a uma alimentação mais saudável”, afirma Ângelo Bertollo, 49 anos, representante de uma das bancas da feira que começou a vender no local há dois anos.

O cineasta na feira

Carlos Gerbase (de chapéu) em seu passeio na feira ecológica. Crédito: Anderson Aires
Carlos Gerbase (de chapéu) em seu passeio na feira ecológica. Crédito: Anderson Aires

A crescente procura por alimentos mais saudáveis fica evidente na frase do professor de cinema da PUCRS e fundador de uma das primeiras bandas de punk rock do sul do país, Os Replicantes, Carlos Gerbase, que frequenta a feira todos os sábados. “Para quem não conhece a feira e pretende conhecê-la eu deixo um recado: Cheguem cedo”, avisa Gerbase.  Segundo o cineasta, após determinado horário fica praticamente “impossível caminhar pela feira de maneira tranquila”, devido ao alto movimento no local.

Ensinamentos de casa

            Dona Helena Frozi em meio a seus produtos. Crédito: Anderson Aires
Dona Helena Frozi em meio a seus produtos. Crédito: Anderson Aires

Para muitos o comércio de alimentos sem o uso de agrotóxicos trata-se apenas de fonte de renda e estabilidade financeira, mas para outros isso ocorre pelo compromisso com o consumidor, de uma relação séria e confiável de vender produtos de qualidade e que não afete a saúde da população. Uma dessas pessoas é a dona Helena Frozi, 79 anos, 24 deles dedicados a sua banca na Feira do Bom Fim. Dona Helena diz que o cultivo de alimentos de maneira orgânica sem o uso de venenos é algo com base nos ensinamentos que teve. “Fui criada assim desde pequena, sempre me ensinaram a cultivar as coisas assim sem o uso de venenos e de agrotóxicos”, recorda. Ela alerta que o uso de agrotóxicos confunde as pessoas, pois os alimentos que são expostos aos venenos muitas vezes ficam mais atraentes e bonitos e pela aparência enganam o consumidor.  “Com o uso de agrotóxicos os alimentos muitas vezes ficam mais vistosos, mas não tem saúde”, adverte Dona Helena.

A verdadeira agricultura convencional

Produtor ecologista Vasco Machado. Crédito: Anderson Aires
Produtor ecologista Vasco Machado. Crédito: Anderson Aires

“Para nós o convencional sempre foi o alimento      sem o agrotóxico”

Para o agricultor Vasco Machado, 48 anos, a motivação para produzir alimentos saudáveis sem o uso de agrotóxicos também é algo que vem de ensinamentos de casa. “A gente se criou dessa maneira. O alimento produzido com veneno é encarado como convencional, mas para nós o convencional sempre foi o alimento sem o agrotóxico”, pondera. Ele rebate, com base em 15 anos de experiência na feira, a fama de careiros adquirida pelos alimentos ecologicamente corretos. “As pessoas por falta de conhecimento acham que os alimentos ecológicos são mais caros, mas isso não é verdade. Tem muitas coisas aqui que são mais baratas do que no mercado”, garante Vasco Machado.

A banca das variedades

Produtor Moacir Paulett atendendo seu grade público Crédito: Anderson Aires
Produtor Moacir Paulett atendendo seu grande público Crédito: Anderson Aires

Em meio a todas as cerca de 150 bancas que participam da Feira uma delas se destaca. Trata-se da banca de número 57 do produtor rural Moacir Pauletti, 43 anos, que já dedica metade de sua vida ao cultivo e comércio de alimentos orgânicos. Ela é uma das mais movimentadas e apresenta um grande número de produtos, desde leite e queijo até verduras, frutas, sucos e vinagres. Em meio ao atendimento a seus clientes, fiéis, ele conta um pouco do que o levou a trabalhar com alimentos orgânicos.

“Eu cultivava com o uso de agrotóxicos, mas decidi parar de usá-los, pois meu pai acabou adoecendo por causa dos venenos. Temos uma área pequena de cultivo, isso facilita a produção de orgânicos”, relata Moacir que também afirma que os alimentos sem veneno ajudam, e muito, na saúde dos consumidores.  “Na nossa família hoje está todo mundo saudável. Meus pais têm mais de 70 anos e seguem fortes trabalhando”, comemora o agricultor ecologista.

Famílias saudáveis

Cássio   sua esposa e seu filho são frequentadores assíduos da feira ecológica do Bom Fim. Crédito: Anderson Aires
Cássio sua esposa e seu filho são frequentadores assíduos da feira ecológica do Bom Fim. Crédito: Anderson Aires

Ao caminhar pela feira podemos ver muitas famílias passeando pelo local, muitos pais com seus filhos de colo ou que recém estão aprendendo a dar os primeiros passos e, em alguns casos, que ainda nem vieram ao mundo. A dona de casa colombiana Juliana Herrera, 24 anos, e que está grávida, diz que a preocupação com uma alimentação saudável também visa o futuro de seu filho: “Acho que é o melhor para uma boa alimentação para as crianças e para mim que estou grávida, pois penso no futuro de meus filhos. A gente tem que pensar mais em como comemos”, reflete Herrera.

Para o professor de educação física Cássio Lamas, 35 anos, que frequenta a feira há cerca de cinco anos junto com sua esposa e seu filho Tomé, o consumo de alimentos orgânicos além de auxiliar em uma alimentação saudável, também ajuda na educação alimentar da criança. “Acredito que o meu filho Tomé, que ainda não tem dois anos, aprende muito acompanhando a forma como a gente faz as coisas e os valores que nós lhe passamos. Ele passa pelas bancas e já sabe o que é a berinjela, o que é a banana. Eu acho isso uma experiência de vida fantástica”, afirma Cássio.

“É fundamental eu estar com meu ranchinho em casa”

“É fundamental eu estar com meu ranchinho em casa, assim eu resolvo a minha alimentação e a dos meus cachorros”, exalta a repórter fotográfica paulista Avani Stein, 72 anos, que mora em Porto Alegre há cerca de cinco anos e frequenta a feira ecológica do Bom Fim de maneira assídua. “Eu me preocupo com a minha alimentação há cerca de 40 anos, já fiz um curso de macrobiótica e não compro alguns alimentos do mercado, pois são cheios de veneno como, por exemplo, a banana que muitas vezes era alvo de agrotóxicos que tinham como principio básico um dos elementos do agente laranja usado no Vietnã”, alerta a repórter fotográfica.

     Repórter fotográfica Avani Stein. Crédito: Anderson Aires
Repórter fotográfica Avani Stein. Crédito: Anderson Aires

E para a alegria de quem busca uma alimentação realmente saudável, livre de venenos, não há apenas a feira Ecológica do Bom Fim em Porto Alegre (RS). Confira a seguir os endereços, dias e horários.

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