Lara Ely: “A pauta ambiental é transversal”

Lara Corrêa Ely é graduada em Jornalismo pela Famecos/PUCRS e tem mestrado na mesma faculdade com projeto de pesquisa em jornalismo ambiental - Credito: Arquivo Pessoal
Lara Corrêa Ely é graduada em Jornalismo pela Famecos/PUCRS e tem mestrado na mesma faculdade com projeto de pesquisa em jornalismo ambiental – Crédito: Arquivo Pessoal

A jornalista Lara Ely, setorista de meio ambiente do jornal Zero Hora de Porto Alegre (RS), relata nesta entrevista os seus primeiros passos no jornalismo ambiental e fala sobre as dificuldades que enfrenta atuando na área.

Por William Dias
Jornalismo Ambiental / Manhã

Nascida curiosamente em um dia que nevou na cidade de Porto Alegre, no 24 de agosto de 1984, Lara Corrêa Ely começou a “carreira” de jornalista no jornal do colégio, o Alarido, onde escrevia poesias, notícias sobre as gincanas que organizava, olimpíadas e temas variados. Selecionada na promoção “Seja jornalista por um dia”, com 11 anos publicou pela primeira vez no jornal Zero Hora. Lembra como se fosse hoje da acolhida que recebeu na redação do jornalista Carlos Urbim (1948-2015), um dos melhores textos da imprensa gaúcha. Naquele dia a pequena Lara virou jornalista.

Por que escolheste o Jornalismo?
Lara Ely – A palavra escrita sempre foi algo presente na minha vida. Foi um caminho natural, pois quando eu pensei em qual profissão escolheria, me decidi: vou escrever, vou ir para uma profissão que a pessoa precise escrever. Lia Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda. Eu sempre gostei de ler.

E o jornalismo ambiental?
Lara – Quando estava no segundo semestre do curso de Jornalismo fiz um intercâmbio de seis meses no Canadá, através do Projeto Rondon. O tema transversal desse programa foi a sustentabilidade. Lá eu trabalhei com educação ambiental e com portadores de necessidades especiais. Quando eu voltei, eu nunca consegui esquecer essa experiência interdisciplinar. Foi muito forte. Não consegui deixar esse assunto passar batido por mim. Então as pautas que tratavam desse tema eu queria fazer, os problemas da cidade que se relacionavam com esse assunto era sempre a minha sugestão de pauta em qualquer trabalho em que eu estivesse. Na minha monografia fiz um estudo aprofundado sobre comunicação e sustentabilidade. Sem dúvida foi amor à primeira vista. Eu vejo que pensar a sustentabilidade de um ponto de vista integrado é pensar o futuro, a vida que a gente vai ter daqui pra frente.

No início, quais foram as principais dificuldades?
Lara – Em primeiro lugar é a questão de oportunidade de trabalho, já que não é uma área muito ampla e consolidada como o jornalismo esportivo, cultural ou econômico, que são áreas bem demarcadas onde você tem referências, espaços para colunas e veículos segmentados. No jornalismo ambiental, há quase dez anos quando eu estava começando não tinha muitos canais. Hoje já tem mais blogs, mais programas e canais. Então a primeira questão foi essa: onde trabalhar? Eu não imaginava que trabalhando na Zero Hora eu poderia fazer matérias desse tema, então foi muito uma escolha no escuro, onde eu sabia que teria que traçar meu próprio caminho. O espaço para abordar o tema ainda está sendo conquistado. Hoje estou conseguindo ganhar mais espaço para tratar temas como alimentos orgânicos, tecnologias sustentáveis e iniciativas inspiradoras. Mas no início foi bem complicado.

O que o mundo precisa para ser sustentável?
Lara – As pessoas precisam acreditar mais no próprio poder que elas têm de transformar as coisas. Ser sustentável é complexo e ao mesmo tempo simples. Tem que estar bom para as gerações futuras, ter uma forma de manter as gerações presentes e ser algo que caiba no nosso bolso. Tem a dimensão do ambiente, mas também tem a do dinheiro. Então para o mundo ser sustentável as pessoas tem que acreditar que precisam começar por si mesmas. Desde uma ideia transformadora para beneficiar alguém, divulgar uma iniciativa bacana diferente, fazer um projeto de arrecadação de fundos, implantar uma nova tecnologia para construir a tua casa ou adotar um novo veículo para ir trabalhar, bicicleta ou transporte público. Pensar de outra forma. Por exemplo, ao invés de ir sozinho no carro eu vou propor uma carona solidária para ir cinco pessoas no mesmo carro. Isso seria pensar na lógica econômica, no trânsito e na poluição, ou seja, pensar nessas soluções sustentáveis que são extremamente simples. Então, eu acho que para o mundo ser sustentável a gente precisa reverter a lógica da aceleração contemporânea para fazer aquilo que a gente acredita, seja lá o que for. Não é uma área só do meio ambiente, ela toca também em saúde, em economia, em cultura. Eu acho que é preciso subverter todo o tipo de pressa e o individualismo, a coisa de que eu só vou fazer bem se fizer sozinho e se eu for o primeiro, como em uma competição, mas sim adotar um sistema de colaboração e cooperação.

“Sempre que posso eu tento
contar a história de alguém que
está fazendo algo inspirador”

Como isso está presente na tua vida?
Lara – Na questão de mobilidade, eu ando bastante de bicicleta. Até pouco tempo eu andava sozinha de carro, mas revi isso e agora eu divido carro com o meu namorado para que cada dia a gente possa usar menos o carro. Já na questão de alimento, eu adoro cozinhar, então eu sempre procuro reaproveitar ao máximo os alimentos e também procuro menos comida com embalagem, por exemplo. Procuro comprar na feira tudo o que eu posso porque isso faz com que eu tenha menos lixo no final. Na questão de troca, tudo que eu não uso mais eu tento rever se tem um senso útil para alguém, seja um livro, uma roupa. Aqui no jornal ultimamente eu tento fazer matérias que inspirem as pessoas a serem mais sustentáveis, não que eu faça apenas isso, mas sempre que eu posso eu tento contar a história de alguém que está fazendo algo inspirador.

Qual o papel do jornalismo diante dos desafios ambientais do nosso tempo?
Lara – Eu acho que esclarecer, com todo o recurso que a gente tem hoje de dados, de ferramentas multimídias e audiovisuais, todos os lados de uma notícia. Para mim, o jornalismo ambiental não é o tipo de “jornalismo de bandeira”, onde eu levanto uma bandeira e digo “viva o meio ambiente”. O jornalismo ambiental para mim é aquele em que tu olhas para a pauta ambiental e vai pegar as melhores fontes de todos os lados para esclarecer. É um pouco jornalismo científico também. Nós temos, por exemplo, a questão da água, da escassez hídrica. Tu tens que mergulhar nas razões dessa crise, olhar no que isso impacta e que outros países passaram por isso, as soluções que as pessoas estão achando para lidar, e para isso não é necessário estar em uma editoria de meio ambiente. Isto pode estar em uma editoria de economia ou de mundo, pois a pauta ambiental não é exclusiva de um nicho do segmento ambiente, ela pode estar presente em outros segmentos, ela é transversal no jornal.

Qual foi a pauta ambiental mais difícil de fazer até agora?
Lara – Difícil não saberia dizer, pois eu vibro a cada vez que faço uma pauta ambiental. Mas a que talvez tenha demandado um pouco mais de esforço foi uma reportagem especial sobre o arroio Diluvio, a maior que já fiz. Foram sete páginas editadas em um domingo, no espaço nobre do jornal. Fomos desde as nascentes, percorrendo vários morros da cidade onde tem nascente. O difícil foi tornar essa história interessante pra todo mundo, não só para quem se interessa em meio ambiente.

Lara Ely durante a cobertura da Rio+20 realizada em parceria com o site O Eco e a ONG Internews - Crédito: Arquivo Pessoal
Lara Ely durante a cobertura da Rio+20 realizada em parceria com o site O Eco e a ONG Internews – Crédito: Arquivo Pessoal

E como foi cobrir a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) realizada em junho de 2012 no Rio de Janeiro?
Lara – Eu tinha entrado recentemente no jornal e soube de um projeto que estava levando jovens jornalistas que quisessem fazer a cobertura. Ganhei a bolsa e então passei dez dias no Rio de Janeiro com outros vinte jornalistas de várias partes do mundo participando da cobertura especial para o site O Eco. Foi muito legal porque eles nos colocaram em eventos específicos, e foi difícil ao mesmo tempo porque foi muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Dar conta disso sozinha foi um pouco assustador, mas foi muito legal porque me deu oportunidade de correr atrás da máquina, todas aquelas discussões que estavam acontecendo eu tinha que reportar para o Rio Grande do Sul inteiro. Foi uma responsabilidade muito grande. Eu dormia pouco, acordava nervosa e dormia nervosa sempre pensando “o que é que eu vou fazer hoje, aonde que eu vou, quem ou vou entrevistar”, e tudo em inglês, francês e espanhol. Muitos momentos foram difíceis nessa cobertura.

Tem algum projeto na área ou algum que recomendasse para quem se interessa pela temática?
Lara – Tenho sim, tem um projeto que está sendo desenvolvido, que está sendo formatado neste momento, que consiste em contar como a sustentabilidade acontece no dia a dia das pessoas a partir das coisas mais simples que as pessoas fazem todos os dias, que é comer. Eu acho que a alimentação é o que toca todo mundo, então o projeto se chama Dia de Feira, que é contar histórias assim de como é que o alimento chega à nossa mesa, alimentos orgânicos, a história dos agricultores, é um projeto independente que eu escrevi para o Garagem Criativa, no Tecnopuc. Eu gosto bastante do programa Cidades e Soluções, criado pelo André Trigueiro na Globo News, sempre procuro acompanhar porque eu acho que o formato que ele tem é muito legal de olhar assim, o que as cidades estão fazendo.

Para Lara Ely, o que é jornalismo ambiental?
Lara – É trazer um pouco mais daquilo que está fora da redação, fora da tecnologia, pegar a origem das coisas, de onde elas vêm e contar as histórias da natureza, dos recursos naturais e da matéria prima das coisas. É quase como uma arqueologia da vida que a gente tinha antes de ser tão industrializado.

 

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