Saúde e qualidade de vida através dos alimentos

Proprietário do sítio de orgânicos, Guido Berger mostra um de seus cultivos. Créditos:Kátia Fantin
Proprietário do sítio de orgânicos, Guido Berger mostra um de seus cultivos. Créditos:Kátia Fantin

Em Gravataí, o Sítio do Guido aposta em produtos     orgânicos e saudáveis através da entrega a domicílio.

Por Kátia Fantin
Jornalismo Ambiental / Noite

Considerados saudáveis, os alimentos orgânicos estão ganhando mais espaço no Brasil, devido sua produção sem o uso de agrotóxicos que respeita o meio ambiente evitando a contaminação do solo, da água e da vegetação. Além disso, o consumo desses produtos virou fonte de renda para pequenos agricultores.

É com base nisso que em Gravataí, Região Metropolitana de Porto Alegre, o Sítio do Guido é sinônimo de bem estar. Professor universitário aposentado, Guido Orlando Berger é um pequeno empreendedor que resolveu apostar na entrega domiciliar desses produtos de olho num público interessado em alimentos de qualidade e saudáveis. Sua propriedade rural de apenas um hectare produz mais de 30 culturas com manejo agroecológico.

O exemplo de produção com sustentabilidade desenvolvida por Guido rende muitas visitas à propriedade. Grupos de escolas são recebidos também pela esposa Sônia, que coordena toda parte administrativa. Lá, os alunos e professores conferem dicas desse agricultor e professor, percorrendo os canteiros da propriedade, tendo a oportunidade de aprender uma mistura de conhecimento científico com a sabedoria de muitos e muitos livros lidos por Guido Berger.

Em 2008, já aposentado, ele resolveu transformar sua pequena horta de consumo familiar em negócio. Possuía a experiência que seu pai havia lhe passado durante anos de trabalho na produção agrícola, porém, tinha uma certeza, plantaria apenas alimentos orgânicos, pois perdera seu pai devido a uma série de complicações na saúde pela exposição prolongada aos agrotóxicos. “Naquela época não havia orientação, as pessoas queriam mesmo era vender”, lamenta Guido. “Quero mostrar às pessoas a grande eficácia que uma alimentação sem agrotóxicos possui e conscientizá-las”, ressalta o produtor ecologista.

“Errei muito no começo”, relata Guido, pois a cada dia surgiam dúvidas sobre o plantio e seu auxílio sempre foram os livros. “Tive que aprender além do que meu pai havia me ensinado. Recorri aos livros. Eles foram meus ‘professores’ para construção desse sonho”, cita com orgulho ao relembrar de todas as dificuldades enfrentadas no inicio. Todo o trabalho é realizado com a ajuda da esposa Sônia e de um funcionário, sem esquecer é claro do seu trator, brinca Guido. “O trabalho é bem corrido, tudo é manual, mas gostamos do que fazemos”, reconhece.

Comércio eletrônico e entrega em casa são alguns diferenciais

Há seis anos, o Sítio do Guido trabalha com 80 a 90% de sua produção voltada a tele-entrega de cestas com produtos hortigranjeiros orgânicos, em determinados pontos de Gravataí, Cachoeirinha e Porto Alegre. Segundo Guido, o número de pessoas que vai até o sítio para comprar pessoalmente é muito pequeno. “É necessário nos adaptarmos, nos modernizarmos para mostrar que mesmo com a correria do dia a dia, é possível consumir alimentos saudáveis”, ensina.

Hoje, eles atendem diariamente um restaurante gourmet e duas escolas da capital. E semanalmente entregam 230 quilos de verduras, também vendem frango sem antibiótico, ovos, frutas e mel.

Busca por orgânicos quase triplicou nos últimos três anos

Uma das hortas de verduras orgânicas do Sítio do Guido - Créditos: Kátia Fantin
Uma das hortas de verduras orgânicas do Sítio do Guido – Créditos: Kátia Fantin

Guido realizou uma pesquisa em seu sítio, surpreendendo-se com o resultado. Nos últimos anos a procura pelos produtos orgânicos praticamente triplicou. “Estamos com o pé no freio, pois não temos condições de entregar mais, tivemos que nos limitar”, informa Guido.

Segundo a nutricionista Catiane Silveira, “a mídia tem muita influência nesse crescimento, por possuir alto poder de causar impacto na vida das pessoas. Os meios de comunicação têm mostrado de diversas maneiras o prejuízo que os agrotóxicos causam isso conscientiza a população, mostra que pequenas escolhas mudam a vida”, avalia.

Nessa grande procura, a maioria das pessoas que o Sítio do Guido atende já teve algum tipo de doença ou possuem filhos pequenos e querem preservá-los. “Cerca de 60% das pessoas que atendemos é devido à recomendação médica pelos orgânicos, ou são pais conscientizados sobre a questão da saúde de seus filhos”, relata o agricultor. Segundo a nutricionista Catiane Silveira, “a medicina aponta a cura de diversos males através da alimentação saudável, até na prevenção do câncer”.

Mesmo com o crescimento na procura por alimentos orgânicos, o maior mercado doméstico de agrotóxicos do mundo atualmente é o Brasil, seguido pelos Estados Unidos, de acordo com o estudo Regulation of Pesticides: A comparative Anallysis, publicado em 2013 pela Universidade de Oxford. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em oito anos a quantidade utilizada por área plantada no país mais que dobrou, passando de 70 quilos por hectare em 1992 para mais de 150 quilos em 2010. Nessa avaliação, o Brasil aparecia em sexto lugar, e o Rio Grande do Sul como o Estado que mais utiliza agrotóxicos. Atualmente, o Brasil já é o país que mais consome agrotóxicos.

Agroecologia, uma parceria inovadora que ganha força no campo

Há muito tempo a sociedade vem buscando estabelecer estilos de agricultura que sejam menos agressivos ao meio ambiente e capazes de proteger os recursos naturais, tentando fugir de um estilo de agricultura formado a partir dos novos descobrimentos da química agrícola. Surgiram diferentes denominações como: orgânica, ecológica, regenerativa, biodinâmica etc.. Muitas vezes essas alternativas não conseguiram solucionar os problemas socioambientais que já estavam acumulados e se agravando cada vez mais.

Nesse ambiente de busca e construção de novos conhecimentos, foi que nasceu a Agroecologia, um novo trajeto para a construção de agriculturas de base ecológica ou mais sustentáveis. Os agricultores como Seu Guido fazem parte do grupo agroecológico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater/RS), que apoia o cultivo e o comércio da produção agrícola através de ações em vários municípios.

O objetivo da Agroecologia, segundo a Engenheira Agrícola da Emater de Gravataí Vanessa Sperotto, é “incentivar os agricultores sobre práticas de conversão de sistemas de produção convencional para o sistema de produção orgânica”. Explicou também que “tudo é muito bem trabalhado, muitos assuntos são tratados individualmente, outros em grupo como o manejo dos solos, adubação verde, uso de caldas para o controle de pragas e doenças, compostagem, entre outros”.

“Já existia um trabalho com agricultores para a conversão de sistemas de produção convencional em um sistema de produção orgânico, mas somente em 2014 foi iniciado o trabalho da Agroecologia em Gravataí”, informa Vanessa Sperotto. O Ministério de Desenvolvimento Agrário contratou a Emater/RS como instituição prestadora de serviços de assistência técnica e extensão rural para realizar a Chamada Pública de Agroecologia, que visa consolidar e ampliar processos de promoção de agroecologia existentes.

“Em Gravataí já temos 24 famílias beneficiárias na Chamada Pública de Agroecologia”, destaca Vanessa Sperotto. O grupo de agroecologia da Emater/RS, na qual Seu Guido participa, realiza reuniões de mobilização das parcerias e com os agricultores realiza o diagnóstico das propriedades, fazendo o planejamento das ações a serem trabalhadas, tratando também de assuntos técnicos sobre o sistema de produção agroecológico.

Em Gravataí, atualmente alguns agricultores, inclusive Guido Berger, estão no processo da agroecologia. “O seu Guido trabalhava na área urbana e retornou à área rural, produzindo hortaliças há cerca de cinco anos”, lembra a engenheira agrícola. O grupo de Agroecologia da Emater/RS foi criado para incentivar os agricultores a trabalharem no sistema de produção de base ecológica.

Uma ideia sobre “Saúde e qualidade de vida através dos alimentos”

  1. Parabéns pelo artigo. Tenho lido muito a respeito, e vejo muitas inciativas, principalmente em escolas, estão incentivando a implantação de hortas infantis para conscientizar as crianças e seus familiares, a grande importância da alimentação saudável. Faço um trabalho voluntário em um Centro de Assistência Social onde atendemos mais de 150 familias carentes, e lá também estamos implantando a Horta. Espero sinceramente que num futuro não muito distante possamos ter pessoas mais saudáveis com uma qualidade de vida bem melhor.
    Abraço
    Viviane Fernandes

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *