Remada contra a maré dos impactos ambientais

Remada da Virada 2016 põe o Guaíba no foco do debate por sustentabilidade - Crédito: Maureci Junior
Remada da Virada 2016 põe o Guaíba no foco do debate por sustentabilidade – Crédito: Maureci Junior
Visando mobilizar a sociedade através da inspiração e da criatividade, debate sobre o meio ambiente ocupa o espaço urbano da capital e levanta a bandeira da sustentabilidade. Durante três dias, a Virada Sustentável convidou Porto Alegre a discutir sobre os temas ambientais de forma abrangente, promovendo um diálogo engajador que visa repercutir socialmente através do esporte, da arte, da política, da economia e da educação. O evento foi marcado pela prática de atividades ao ar livre, como a Remada da Virada, e acabou com uma mensagem de reflexão no Auditório Araújo Vianna.

Maureci Junior
Jornalismo Ambiental / Noite

Às 10 horas da manhã do sábado, 2 de abril, mais de 100 atletas e desportistas reuniram-se na orla do Guaíba, no bairro Ipanema, na zona sul da capital. O dia até era de competição, mas a motivação dos participantes era especial, pois além do campeonato de Stand Up Paddle (SUP), também era dia de remar pela vida do Lago Guaíba. A Remada da Virada foi uma das atrações do projeto Virada Sustentável, que marcou o final de semana dos porto-alegrenses com vários eventos gratuitos, organizados com o objetivo de evidenciar e promover a conscientização sobre temas relacionados à sustentabilidade.

A Associação Brasileira de Esportes Náuticos (Abena) abraçou a ideia e aproveitou a 1ª Etapa do Campeonato Gaúcho de SUP Race 3 Estrelas para realizar uma ação ambiental em defesa do Guaíba. A Abena convocou publicamente seus associados a comparecer no local e fazer uma limpeza na orla. A intenção da Associação, ao colaborar com o projeto Virada Sustentável, era de conscientizar as pessoas sobre a importância da preservação do Guaíba e mostrar que o lixo recolhido pelos atletas não vai parar no Lago por acaso.

E se a intenção da Virada Sustentável era que houvesse o engajamento pela causa, a própria postura dos remadores já demonstrava que o objetivo estava sendo alcançado. “Não queremos que isso acabe. Iniciativas como essa são fundamentais para que as próximas gerações também possam ter o privilégio de praticar esporte no Guaíba”, afirmou o porto-alegrense Roberto Ody, atual campeão gaúcho de SUP Race na categoria máster. Enquanto tirava seu equipamento do carro, Ody dizia que iria entrar na água para defender seu título, mas ressaltou que colaborar com o projeto de sustentabilidade do Guaíba era a razão mais importante de estar ali. Sobre a limpeza da orla, o remador comentou que a conscientização deve estar, inclusive, nos hábitos cotidianos, e lembrou da necessidade de haver locais apropriados para alguns ritos religiosos, que acabam deixando plásticos, restos de alimentos e até mesmo animais mortos na beirada do rio.

Após a Remada, atletas realizaram limpeza da orla em Ipanema - Crédito: Maureci Junior
Após a Remada, atletas realizaram limpeza da orla em Ipanema – Crédito: Maureci Junior

Com volume de água de 1,5 bilhões de metros cúbicos e aproximadamente 496 km² de área, o Lago Guaíba abastece diariamente, só na região metropolitana da capital gaúcha, mais de 4 milhões de pessoas e, em todo o seu curso, recebe poluição industrial, lixo e esgotos a céu aberto direta e indiretamente de mais de 250 municípios que compõem a sua região hidrográfica. Além de ser um singular patrimônio histórico e cultural da grande Porto Alegre, abriga em sua orla três grandes clubes de vela e outros locais importantes, como o Estaleiro Só, o Cais do Porto, Usina do Gasômetro, o Anfiteatro Pôr do Sol, etc.

O Lago possui um ecossistema com rica biodiversidade de fauna e flora. Do centro da cidade até as imediações de Ipanema, predomina a paisagem urbana e a água é mais poluída. Mas, a partir daí, à medida que vai adentrando a zona rural da cidade e se afasta da grande concentração de esgotos e dos dejetos industriais, o lago ainda pode ser desfrutado pelos porto-alegrenses. Já na altura de Viamão, próximo à divisa com a Laguna dos Patos, ocorre o seu espraiamento, fenômeno esse que acaba espalhando também a poluição e torna o rio até mesmo balneável em alguns pontos, de acordo com a Secretaria do Desenvolvimento Sustentável do Rio Grande do Sul – Sema.

Evento aposta na criatividade para a compreensão do conceito de sustentabilidade

Já consolidado em São Paulo, o Virada Sustentável chegou pela primeira vez em Porto Alegre com atrações que contemplaram diversas frentes sociais, buscando, essencialmente, promover a sustentabilidade. Além do Remada da Virada, na orla da zona sul, outras modalidades esportivas, como o skate e o ciclismo, atividades artísticas, culturais, shows e palestras tomaram diversos pontos da cidade entre os dias 1 e 3 de abril, sempre com debates marcados pela convicção sobre a importância das pautas ambientais.

Virada Sustentável renova as esperanças de um Guaíba limpo - Crédito: Virada Sustentável/divulgação
Virada Sustentável renova as esperanças de um Guaíba limpo – Crédito: Virada Sustentável/divulgação

A partir do relato dos organizadores, era possível perceber que havia algo especial no evento, que era justamente a forma bastante sedutora de provocar a reflexão do público, com uma abordagem capaz de ser absorvida em diferentes esferas da sociedade. Um dos coordenadores do evento, Dhiogo Severo, que estava em Ipanema acompanhando a Remada, aponta vários aspectos positivos na iniciativa, mas destaca a importância de se mobilizar a sociedade de uma forma inspiradora e criativa. Segundo ele, isso permite que a mudança no estilo de vida das pessoas aconteça, mas de uma forma que não seja “castradora”, e sem que elas tenham a “sensação de censura de hábitos”.

Ao refletir sobre a necessidade desta transição, Severo fez menção ao papel da máquina para a sociedade: “no passado, a máquina foi um tipo de salvação, e realmente teve papel decisivo no desenvolvimento da humanidade, mas não podemos continuar idolatrando isso. Não precisamos ser contra o motor, mas temos que achar outra forma de utilizá-lo”.

Em outro ponto da cidade, quem se dirigia ao Auditório Araújo Vianna, pela Av. José Bonifácio, deparava-se com a barraca verde de uma ONG bastante conhecida por quem acompanha o debate ambiental no Brasil, e o nome, escrito na placa frontal em letras garrafais, não deixava dúvidas de que o papo daquele sábado era mesmo sério: GREENPEACE. A convite do Virada Sustentável, o Grupo de Voluntários de Porto Alegre, que existe desde 1992 (mesmo ano em que o Greenpeace chegou ao Brasil), aproveitou o evento, também, para divulgar as atuais campanhas da ONG a nível nacional: Desmatamento Zero, Salve o Ártico e a campanha Tapajós – que tenta evitar a construção de mais de 40 hidrelétricas na bacia daquele rio, o que iria submergir quase 400 km² e desmatar mais 2.200 km² de floresta amazônica. Confira aqui relatório completo sobre os impactos das hidroelétricas na Amazônia.

Segundo o coordenador Emerson Prates, a atuação do Grupo de Voluntários do Greenpeace de Porto Alegre consiste em manter a interatividade com ONGs locais para saber das necessidades da comunidade com relação à sustentabilidade; promover a conscientização sobre possíveis soluções (como fontes de energia limpa, por exemplo) através da distribuição de material informativo e da pintura gratuita em camisetas; além, é claro, de fiscalizar e denunciar qualquer tipo de crime ambiental. Emerson aproveitou a entrevista para deixar o endereço de e-mail para quem quiser participar das campanhas: greenpeacecomunicacao@gmail.com .

A mensagem que veio do Araújo Vianna

Painel Arte e Cultura usa criatividade para passar mensagens de alerta - Crédito: Maureci Junior
Painel Arte e Cultura usa criatividade para passar mensagens de alerta – Crédito: Maureci Junior

Enquanto os remadores exercitavam os corpos na orla de Ipanema, recolhendo o lixo e mostrando o valor do Guaíba para a prática esportiva, no palco do Auditório Araújo Vianna, na região central de Porto Alegre, o exercício ficava por conta do cérebro. Era hora de pensar sobre a nossa turbulenta relação com o planeta. Compreender o passado. Fazer um balanço do presente. E, principalmente, projetar um futuro que – não tem alternativa – precisa ser mais consciente. E os pensadores que subiram ao palco não apenas cumpriram com a missão de apresentar formas interessantes e criativas de se pensar e lutar pelo meio ambiente, mas tiveram, através do pensamento, uma performance digna dos grandes “atletas”, pois conseguiram passar suas mensagens ao público de uma maneira reconhecidamente cativante.

Em meio a palestras, apresentações de teatro e comunicação musical, o público era provocado por imagens alarmantes – algumas trágicas – que apareciam no telão e complementavam os discursos. Os oradores, invariavelmente, deixavam claro que possuíam autoridade para falar do assunto, fosse através do embasamento que demonstravam em relação a detalhes minuciosos do tema que abordavam, ou mesmo através de informações e da explanação de dados que elucidavam as consequências da ação do homem sobre a natureza.

Ailim Schwambach mostra imagens de uma das grandes tragédias ambientais do Rio Grande do Sul - Crédito: Maureci Junior
Ailim Schwambach mostra imagens de uma das grandes tragédias ambientais do Rio Grande do Sul – Crédito: Maureci Junior

Durante o painel “Educação para a sustentabilidade”, a professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Dra. Ailim Schwambach, valorizou o evento dizendo, sorridente, que era a primeira vez que usava sapatos de salto alto. Mas tão logo começou a falar e a timidez foi dando lugar à firmeza de quem acreditava na mensagem que transmitia. Ailim afirmou que confia fortemente no resultado de um trabalho que aborde questões de sustentabilidade e que seja voltado para a educação.

Segundo ela, através de programas que mesclem teoria e prática, as aulas de ciências e de biologia podem ser muito eficientes e aproximar os alunos dos problemas reais do seu cotidiano. A palestrante explicou a importância de se aprofundar o debate nas escolas e falou, também, que é possível obter retorno com a mobilização individual, pois esse processo tende a transcender para o coletivo. E citou o exemplo de sua experiência pessoal, ao relatar que sua iniciativa acabou por mobilizar a classe política e, assim, conseguiu obter melhores condições para desenvolver o trabalho educacional na sua cidade.

No mesmo painel, o filósofo e professor em pós-graduação de Psicologia da Educação, Dr. Fernando Becker, foi enfático ao direcionar seu discurso para alguns métodos comumente utilizados pelos educadores. Becker explicou que há basicamente três metodologias para a construção do conhecimento, através de diferentes pressupostos epistemológicos, que são: a pedagogia diretiva, a não diretiva e a relacional. Entre as quais, afirmou que a pedagogia relacional, na qual o conhecimento é construído em via de mão dupla – entre o professor e o aluno – seria a melhor forma de se trabalhar a educação ambiental nas escolas.

Ainda dissertando sobre a educação para a sustentabilidade, o professor Doutor deixou uma sugestão para os gestores do ensino: “menos auditório e mais laboratório!”, e repetiu esta frase de forma veemente, para sustentar que o experimento prático tende a dar melhores resultados do que muitas apresentações em auditório. Enquanto Becker falava à plateia, atrás dele o telão estampava um slide com o seguinte questionamento: “Como pode um professor ensinar conhecimentos científicos, se continuar pensando conhecimento como ciência?”.

Pensadores debatem sobre o meio ambiente no palco do Araújo Vianna - Crédito: Maureci Junior
Pensadores debatem sobre o meio ambiente no palco do Araújo Vianna – Crédito: Maureci Junior

Já no tema Arte e Cultura, a palavra ficou por conta do cineasta Jorge Furtado e do artista visual Eduardo Srur, sob a coordenação do historiador, arqueólogo e professor, Dr. Francisco Marshall. O artista paulistano Eduardo Srur, de cara, revelou viver um dilema que, em parte, era familiar a muitos dos porto-alegrenses que o escutavam: “trabalho na marginal do Rio Pinheiros e, da janela do meu ateliê, olho todos os dias para um rio cheio de garrafas pet, no qual não posso nadar, pescar ou praticar esportes, porque ele já não tem vida”.

Srur se destaca nas obras de intervenção urbana, utilizando o espaço público para chamar a atenção das metrópoles para as questões ambientais. Seu trabalho representa uma crítica aos conceitos sociais e visa despertar a consciência para um novo olhar em relação à estética. Em uma de suas intervenções, o artista plantou uma árvore de 20 metros de altura, de cabeça para baixo, no Parque do Ibirapuera, cidade de São Paulo. A ideia era confrontar as leis da natureza, “como fazemos com as paisagens das nossas cidades”.

: Artista planta eucalipto de ponta cabeça em São Paulo para chamar a atenção sobre os problemas ambientais - Crédito: divulgação/site
: Artista planta eucalipto de ponta cabeça em São Paulo para chamar a atenção sobre os problemas ambientais – Crédito: divulgação/eduardosrur.com.br

Todos em torno do planeta Terra

O último painel ficou por conta da apresentação teatral e musical “Cantabilidade”, na qual os atores interpretavam personagens com perfis diferentes e interesses opostos no que diz respeito à sustentabilidade. Um casal de namorados, em que ela era consumista ao extremo e ele mais preocupado com o meio ambiente, travava acaloradas discussões a respeito de suas divergências, sentados no banco de uma praça. Ali, encontravam outro casal de amigos, mas em situação oposta. As interpretações seguiam, intercalando encenações e música, com uma essência que nitidamente almejava atingir a plateia pelo aspecto emotivo.

O desfecho da peça mostrou “vitória do bem”, com os casais unidos e pensando de forma mais homogênea. Ao final da apresentação, os atores trouxeram ao palco um grande globo, que representava o planeta Terra. A cena de encerramento tinha os quatro personagens no palco, já sem tantas divergências, vendo o mundo de forma mais responsável e conectados em relação ao tema central. Assim, tratavam então o globo de maneira respeitosa. E a mensagem do último ato foi realmente marcante: assim que a atriz concluiu sua fala, subiu o som da trilha musical e o globo da Terra foi lançado para a plateia. Instante em que a emoção espalhou-se pelo Araújo Vianna.

Atores lançam globo terrestre para a plateia - Crédito: Maureci Junior
Atores lançam globo terrestre para a plateia – Crédito: Maureci Junior
Público assume o protagonismo do espetáculo - Crédito: Maureci Junior
Público assume o protagonismo do espetáculo – Crédito: Maureci Junior

A sensação de quem estava presente era justamente a de inclusão e compartilhamento. Pronto! O objetivo do evento estava simbolicamente representado. O “planeta”, que até então era propriedade dos “astros da peça”, desceu do palco e, agora, era de todo mundo. Como um bem comum compartilhado por todos, ia de um lado ao outro do auditório, passando de mão em mão. Quando as luzes se ascenderam, todos – público, palestrantes, funcionários, jornalistas, enfim – formavam um grande círculo na frente do palco e dançavam, de mãos dadas, em torno do globo. Todos, em torno do planeta Terra.

Após o encerramento, em entrevista exclusiva para o blog Jornalismo Ambiental UniRitter, o professor Francisco Marshall, um dos idealizadores do seminário, fez uma primeira avaliação do evento como um todo: “No sentido mais amplo, entendo que o desenho atingiu o efeito desejado, pois o público conseguiu fluir a ideia geral, que era ter ciência, arte, cultura, sociedade, política, visão do meio empresarial, enfim. Tudo em um ambiente de reflexão e motivação ética. E esse primeiro efeito é possível de se aferir até pelo grau de felicidade do público. O segundo efeito nós vamos verificar a médio prazo, quando veremos a concretização dos resultados dessa mobilização”.

Enquanto conversava com a equipe do Jornalismo Ambiental UniRitter, o professor foi abordado por um cidadão, que havia assistido ao seminário e, além de cumprimentar o idealizador pelo evento, fez questão de revelar que em função de alguns problemas que foram mostrados ali, estava saindo do Auditório motivado para agir e cobrar soluções para as demandas ambientais da sua cidade. Apesar de morar em Viamão, Luciano admitiu ter se sentido envergonhado com as imagens da nascente do Arroio Dilúvio, que foram mostradas no telão durante o painel “Educação para a Sustentabilidade”.

Virada Sustentável de Porto Alegre termina com emoção no Auditório - Crédito: Maureci Junior
Virada Sustentável de Porto Alegre termina com emoção no Auditório – Crédito: Maureci Junior

E para sintetizar o que aconteceu em Porto Alegre nestes dias de debate sobre o meio ambiente, fiquemos com a profundidade da reflexão do Dr. Francisco Marshall: “Compreender o conceito de sustentabilidade deve gerar uma consciência capaz de perceber que é virtuosa a cidade que se torna amigável para o ciclismo, e que vai se tornando amigável por um patrimônio comum, desfrutado como espaço público pelo cidadão, que logo, vai ser crítico das intervenções cujo único beneficiário é a especulação imobiliária, ou o tirano, que ceifa vidas e que nos ilude com o pseudo conforto que é o carro, o veículo motorizado e a sua indecente prioridade sobre a cidade.

É o mesmo cidadão que vai entender que a sua atitude individual repercute no coletivo, então ele não apenas precisa separar o seu lixo, mas precisa exigir que essa tecnologia seja cada vez mais eficiente no seu ambiente de trabalho, na sua escola e na coleta da sua cidade. E eu tenho certeza que é esse mesmo olhar crítico, essa sensibilidade, que irá interferir em todos os cenários, em momentos diferentes, com linguagens ou com parceiros diferentes. Mas com a mesma finalidade, que é a mudança da nossa base rumo a uma qualidade de vida efetiva (sustentabilidade)”.

 

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