Jorge Furtado: arte e a sua função de ensinar

Furtado explica como foi a construção para elaborar o filme “Ilha das Flores” – Crédito: Rayana Garay

Em entrevista exclusiva ao blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter, o cineasta Jorge Furtado fala sobre os principais problemas que afetam o meio ambiente e reflete sobre o que podemos mudar no cenário atual das nossas cidades.

Rayana Garay Cândido
Jornalismo Ambiental / Noite

O diretor e roteirista Jorge Furtado foi um dos destaques deste ano da primeira edição da Virada Sustentável de Porto Alegre. Na ocasião, Furtado explicou sobre o filme “Ilha das Flores” que trata o problema do descarte do lixo na Ilha dos Marinheiros, em um tema intrigante para o público que o assiste.  Nove dias depois do evento, o diretor recebeu a reportagem do blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter na Casa de Cinema de Porto Alegre, que fica localizada no bairro Bom Fim.

Em especial,  a conversa foi direcionada a um dos principais filmes sobre a sustentabilidade no Estado do Rio Grande do Sul, que para época de 1989, ano que foi lançado o curta “Ilha das Flores”, foi considerado uma novidade, pois a indústria cinematográfica não explorava tanto o tema. Furtado assina trabalhos consagrados como: “O Homem que Copiava” (2003), “Doce de Mãe” (2012) e “O Mercado de Notícias” (2014). Também coleciona diversos prêmios, tais como: melhor diretor e roteiro no Prêmio Cinema Brasil e  melhor roteiro no Festival de Cinema de Miami (2003).

Nesta entrevista, o cineasta Jorge Furtado fala sobre o descarte do lixo,  sustentabilidade, a arte como forma de conscientização e o curta “Ilha das Flores”. 

Ecologia

Quando eu era pequeno, não existia a ecologia. Quero dizer que ninguém falava disso e nem se preocupava. Parecia que o planeta era um negócio que não ia acabar nunca, tanto faz. A gente pode fazer o que quiser e está sempre sobrando recurso natural. Então, essa conscientização de que os recursos naturais têm que ser bem explorados, que a vida do planeta pode ser finita, começou a partir dos primeiros ecologistas como Lutzenberger e as pessoas daqui que passaram a dizer que eram contra a usina nuclear e comentavam sobre a poluição do Rio Guaíba. Enfim, a gente perdeu um rio por não saber cuidar dele. Então começou, naquele momento, uma conscientização que eu acho que está em uma crescente constante. Desde então, cada vez mais, as pessoas, não com a necessidade necessária, talvez, se conscientizaram de que não dá para misturar lixo orgânico com inorgânico no mesmo saco ou que não dá para usar garrafa plástica e jogar no mar. Tem algumas coisas meio grotescas que achamos esquisitismo hoje alguém fazer. Mas há algum tempo não era e continua, para muita gente, não sendo.

Separação de lixo

Muitas cidades ainda não têm separação de lixo orgânico e inorgânico. Um exemplo é aqui no Rio Grande do Sul. Tenho casa na praia e separo o lixo, pois em Porto Alegre é assim: chega o caminhão e mistura tudo junto. Então, eu penso: ‘não é possível que a gente misture garrafa de vidro com erva de chimarrão, tomate, tudo no mesmo lugar’. É um horror! É um absurdo! Parece ser uma coisa muito grotesca. Como é que nas praias que têm IPTU altíssimos, não tem uma separação de lixo mínimo? Até porque isso é uma conscientização mais recente da sustentabilidade.

Economia

A coleta seletiva de lixo em uma cidade  é auto sustentável. Ela precisa ser paga. Tem todo o começo: o caminhão, o galpão para separar o lixo. Mas depois que ela é estabelecida, a renda obtida pela venda de vidro, de metais, da separação do lixo orgânico sustenta a coleta, então é bom para todos os sentidos. É bom para a natureza e é bom economicamente também. Isso eu acho que seja a novidade mais recente, a gente pensar assim ‘bom, economicamente pode dar uma boa grana, ajudar a natureza e ter uma economia mais sustentável’, porque essa lógica de ter todo mundo o seu carro… Enfim, as cidades estão crescendo de qualquer jeito. Isso vai estourar uma hora. Sem dúvida será um problema.

Estudante de jornalismo da UniRitter Rayana Garay após entrevista exclusiva com Jorge Furtado - Crédito: Arquivo Pessoal
Estudante de jornalismo da UniRitter Rayana Garay após entrevista exclusiva com Jorge Furtado – Crédito: Arquivo Pessoal

Salve a natureza

A gente tem que pensar que a natureza se estraga muito rapidamente, mas ela se corrige muito lentamente.  Porque quando eu era pequeno eu tomava banho no Guaíba. Nós (família) passávamos o fim de semana lá em Ipanema tomando banho de rio. Em pouquíssimo tempo o rio ficou poluído e não podia mais tomar banho. E agora faz 30 anos que estão tentando limpar e ainda não conseguiram. Então, é o tipo de coisa que a prevenção é fundamental, entende? Tu tens que evitar a destruição da natureza e preservá-la porque depois da destruição a recuperação é lenta. Imagina agora com o aquecimento global. Em 2015, tivemos o ano mais quente da história.  As geleiras estão derretendo, o mar está subindo, e se a gente pensar ‘bom, tudo bem, vamos parar com isso’, vai levar 20 a 30 anos no mínimo para começar a reverter isso e se é que vamos conseguir.

O filme “Ilha das Flores”

Eu fui convidado pelo professor da faculdade de educação da UFRGS Nilton Fischer para fazer um vídeo sobre lixo: a separação do orgânico e inorgânico. Quando fui ver o que acontecia com os resíduos, a situação na Ilha dos Marinheiros, foi a partir daí que resolvi fazer o filme. Porém, já estava começando essa conscientização e o próprio professor Nilton trabalhava com os catadores nas Ilhas. Recém estava começando a ideia de ter a coleta seletiva em Porto Alegre (1988) e foi exatamente o ano que eu fiz o filme “Ilha”.

Conceito de resíduos

O lixo não existe. Na verdade, é um conceito. Porque se tu separas o vidro do metal, do resto de alimento, do papel, ele deixa de ser lixo. Ele passa a ser material reciclável, tanto o orgânico como o inorgânico pode ser reutilizado. Então, esse lixo é mais uma questão de conceito. ‘Eu coloco no saco, abro a porta, deixo na calçada e fecho a porta’, o que vai acontecer a partir dali eu estou pouco ‘me lixando’ (risos). Temos que pensar na ideia de ‘bom, isso tem que ir para algum lugar. Tem alguém que leva, tem um custo para prefeitura’, que eu acabo pagando e tem o custo também para a natureza.

O começo do texto tridimensional

Quando eu fiz o filme, o assunto do descarte de lixo estava começando por aqui. Ele tem uma novidade que marca muito: a lógica do hipertexto, digamos assim, antecipa um pouco a internet.

Não tinha internet, mas essa lógica, que para nós é muito comum uma palavrinha azul sublinhado no texto, tu clicas e dali tu vais para um outro, essa ideia de um texto em três dimensões, um texto que não é linear mas  é tridimensional. O filme antecipa isso de alguma maneira porque cada cena se liga com outra.  E essas ligações que o curta faz de que os conceitos são hiper ligados, eu posso dizer que ‘Cristo é um judeu’. Daí, eu ligo com a segunda guerra, falo do dinheiro, Celsio que foi encontrado no lixo e é usado para medir o tempo, entendeu? Essas ligações internas entre os conceitos que a internet popularizou, digamos assim, o filme antecipa de alguma maneira.

Tudo está conectado

A lógica tem a ver com a ecologia também, porque as coisas são interligadas. As pessoas dizem assim ‘eu não tenho nada a ver com a poluição do rio’. Tem a ver sim. Tu produzes lixo, que polui o rio, que polui o Guaíba. Tudo está interligado.  Uma visão holística. Nós estamos todos no mesmo planeta, então o que a China faz nos afeta. A produção de gás carbônico, a queima de carvão, interessa a todos. Então, de alguma maneira, as coisas estão interligadas. Nós somos um planeta só e estamos todos no mesmo barco. Essa ideia é fundamental para a ecologia e o filme tem essa lógica de ligar várias ideias.

Arte conscientizando as pessoas

Tem uma coisa que o Jorge Luiz Borges fala: ‘O cérebro humano  é avesso a argumentações’. Se eu começo a argumentar contigo e digo assim: ‘Olha, eu acho o seguinte: você não devia jogar o lixo fora, assim desse jeito, porque tu podias separar, porque o Rio Guaíba, a ecologia…’, imediatamente isso vai parecer uma aula, uma coisa chata e tu não queres saber. A gente já fica assim ‘aquele cara está querendo me vender alguma coisa’. Se eu começo a argumentar contigo, a gente imediatamente reage meio que contrário a isso. ‘Esse cara esta querendo me passar uma ideia que eu não estou interessado’. Ao contrário da arte, experiência dramaturga, literatura, cultura, música, ela não está tentando te convencer de nada, ela apenas te atrai, tu entras no filme. Então, tu entras em um quadro, em um poema, em um livro, e pelo exemplo dos personagens, pela cena que tu vês acontecer, tu mesmo tiras as próprias conclusões.

Seguir um exemplo a partir de uma obra

Vou te dar um exemplo, bem clássico: se tu pegas um filme ou uma peça como do “Rei Lear” do Skakespeare que conta uma história do pai e suas três filhas. Ele vai separar a herança entre as três. Duas são puxa sacos que ficam elogiando porque querem a grana dele. A outra filha que mais gosta dele, Cordélia, a mais jovem, ela ama muito o pai, mas não fica puxa saco igual as outras. Ela diz ‘Não, acho que isso está errado’. E ele fica furioso com ela. Então, o rei acaba prejudicando a filha que mais gosta dele e ajudando as duas sacanas que roubam ele, certo. Tu vês, assistindo a peça que tem 400 anos de história: ‘Poxa, a gente não deve se deixar seduzir por aquela pessoa que só te elogia, normalmente ela só está por interesse’. Tu entendes isso, vendo a peça, a filha que mais gostava dele era mais sincera, era menos puxa saco e que o rei errou, eu já não preciso te dar um discurso ‘que os pais devem ou  sobre as pessoas que bajulam, são puxa saco’, tu vendo a história, tu mesmo deduz isso. 

Então, se eu fosse fazer um filme sobre as pessoas que comem a sobra dos alimentos dos porcos, ninguém quer saber disso. As pessoas não querem ouvir isso. Mas se eu começo o filme com uma brincadeira: galinha, tomate, tu vais entrando naquela comédia, que quando vês tu percebe já está dentro da história. E aí quando a história já te capturou, tu pensas ‘poxa vida, isso é meio absurdo. Por quê?’. Tu começas a refletir coisas que tu não tinha imaginado antes, mas isso também é um pouco a função do humor, não é só da arte.

O poder do humor

O humor faz com que a gente pense coisas que normalmente tu não pensarias. É como se fosse um pilates para o cérebro. Uma aeróbica para tu exercitar umas coisas: ‘só um pouquinho, por que é errado uma pessoa estar depois dos porcos na prioridades de alimentos? Por quê?’. Poxa, tu nunca paraste para pensar nisso, mas parece tão óbvio. ‘Mas por que é errado? Qual é a diferença de uma galinha e uma baleia? Qual a diferença do japonês e uma galinha? Um tomate e uma galinha?’. Então essas coisas muito óbvias, tu começas a pensá-las do zero como filme propõe.

Cuida do porco ou da galinha

Tu passas a raciocinar: ‘tá, mas só um pouquinho, o ser humano precisa estar a frente dos animais porque nós estamos no poder, somos os donos do planeta. Então, cuidar do ser humano tinha que ser uma preocupação anterior do que cuidar do porco ou da galinha. Devia ser, mas não é. E por que não é? Porque a economia inverte. O porco tem um dono, o ser humano não tem. Então, essa lógica. Mas a economia está invertendo uma coisa. Então ela está errada. Que economia é essa? Que faz  uma criança estar depois dos animais e não como prioridade da escolhas de alimentos. Alguma coisa está errada’.

Função da arte

Então tu começas a pensar essas coisas a partir  do humor. A arte tem essa função de entreter e ensinar de alguma maneira ao mesmo tempo. Tem uma frase do poeta romano Cícero que diz assim ‘O poema ensina ou delicia. Ou ambos – e este é o que vicia’. A ideia de que um poema, de uma obra de arte, poder entreter, divertir, ou poder ensinar. Ou a melhor de todas, que faz as duas coisas ao mesmo tempo. A que entretém e a que ensina alguma coisa. Então, acho que é o objetivo que a gente tenta sempre.

Conscientizar as pessoas

Falta a gente pensar nas consequências das nossas ações do que estamos fazendo. Porque a gente tem um certo reflexo que agimos automaticamente e tu nem pensas sobre isso. Tu pensas assim ‘acordo, abro a torneira para escovar os dentes, fico lá escovando os dentes e deixo aquela água escorrendo. Vou ali e volto.  Fecho a torneira’. Eu não estou pensando da onde vem aquela água, quem tratou, por que tratou, o quanto estou pagando por ela. Tu não pensas nisso e se tu parar para pensar e raciocinar realmente está fazendo, se é que preciso ficar com a torneira ligada, correndo tempo inteiro a água, sendo que estou escovando os dentes, sendo que eu posso molhar a escova, fechar e depois abrir de novo. Só raciocinar o que está fazendo.

Eu preciso de carro para o trabalho? Se eu tenho colegas na escola, faculdade, que podemos se juntar e pegar uma carona. E assim cada dia vai em um carro. Sendo que cabem cinco e por que ir só uma pessoa em cada carro? Se tu começas a pensar e não agir automaticamente, as coisas podem mudar e muito. Então, acho que falta uma conscientização nesse sentido, no que pode ser feita e deve ser feita de todas as maneiras, com uma entrevista, como tu estás fazendo, com um filme, com uma música, com gibi, com uma fala, com um exemplo.

Seguir o exemplo

As crianças têm que ver o exemplo. Esse ensina mais do que a fala. Tu vê a mãe separando o lixo, ‘bom, esse lixo vou reaproveitá-lo, ter uma horta de adubo. Esse aqui, as latinhas, vou vender levando no tal lugar’. Esses exemplos que todo mundo pode fazer, eu acho que é o que falta.

Falta conscientizar e prestar atenção do porquê estou fazendo isso, maquinalmente, não deixar essa luz ligada. Por que é que estou com a luz ligada? Eu podia ter desligado essa luz. Eu entrei aqui, liguei e abri a janela. Não me dei conta que não desliguei a luz. Eu não fiquei pensando o porquê. A gente não podia estar com a luz desligada? Nós estaríamos economizando luz. Então, essa lógica de fazer as coisas sem pensar é o que falta, de raciocinar do porquê estou fazendo isso.

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