Porto Alegre Pode Se Tornar Uma Cidade Resiliente?

Nos dias 1, 2 e 3 de abril ocorreu a primeira edição do evento “Virada Sustentável” em Porto Alegre, que teve como objetivo debater inúmeros temas que envolviam sustentabilidade e resiliência. O município faz parte do Desafio da Resiliência, com o apoio da Fundação Rockefeller e da Organização das Nações Unidas (ONU). O intuito é fazer da capital gaúcha o modelo de cidade resiliente no Brasil.

Por Lucas Bubols
Jornalismo Ambiental / Noite

Professor Jefferson Simões comandando o painel sobre Mudanças Climáticas - Crédito: Lucas Bubols
Professor Jefferson Simões comandando o painel sobre Mudanças Climáticas – Crédito: Lucas Bubols

A Capital gaúcha foi selecionada no fim de 2013 pela Fundação Rockefeller para participar do Desafio da Resiliência. Foi criado um grupo para originar o plano estratégico de ações, contando com representantes da Defesa Civil, do Gabinete de Inovação e Tecnologia, da ONG Centro de Inteligência Urbana de Porto Alegre, da Prefeitura e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) como também outras organizações sociais, empresas e comunidades.

A Fundação Rockefeller foi criada em 1913 nos Estados Unidos da América, com o intuito de promover, no exterior, o estímulo à saúde pública, o ensino e à pesquisa. Um dos projetos da fundação é o 100 Resilient Cities, que ajuda cidades a se adaptarem da melhor forma aos estresses e tensões do mundo atual. Porto Alegre e Rio de Janeiro foram as únicas cidades brasileiras escolhidas. Outras 77 foram selecionadas ao redor do planeta.

Cézar Busatto, secretário municipal de Governança local e chefe do projeto Porto Alegre Resiliente, publicou um artigo no Zero Hora em fevereiro de 2016 informando que havia sido entregue a primeira Estratégia de Resiliência de Porto Alegre. “Nossa meta é chegar até 2022, quando Porto Alegre completa 250 anos da sua fundação com uma cidade ainda mais forte, que cultua a paz e é capaz de prever riscos, que tem uma economia dinâmica e inovadora, com vilas regularizadas e que oferece formas de mobilidade humanas satisfatórias”, escreveu Busatto.

O problema que quase ninguém vê

No Seminário do evento Virada Sustentável, ocorrido no Auditório Araújo Vianna em Porto Alegre, a consultora em sustentabilidade e coordenadora geral do Instituto Supereco, Andreé de Ridder Vieira, apresentou um painel nomeado “Cidade Transtornada (A crise ambiental no espaço urbano)”. Ela diz que acredita em uma cidade capaz de se adaptar, de aguentar as tensões externas e internas. “Eu acredito em cidade resiliente na medida em que a cidade se perceber na sua capacidade. Até onde ela consegue fazer sua autogestão, a gestão do seu território. Com uma visão sistêmica de trabalho em rede”, diz Andrée.

Segundo a presidente da Fundação Rockefeller, Judith Rodin, estima-se que em 2050, 75% da população do planeta estará vivendo nas cidades. Dados da ONU  indicam que 20 anos antes, ou seja, em 2030, pelo menos 66,6% das pessoas estarão nos centros urbanos. A pergunta que se deve fazer é: haverá espaço físico e decente para todos residirem? Mesmo que não se saiba a resposta, é preciso repensar, e quem sabe, refazer os modelos de política urbana, para que os mesmos possam resistir aos choques humanos, portanto, ser mais resiliente.

O acúmulo da população em centros urbanos, que tende a crescer ainda mais, tem uma consequência gravíssima em questão. Para outro painelista do Seminário do evento Virada Sustentável, Jefferson Simões, professor e pesquisador do Instituto de Geociências da UFRGS, as infraestruturas básicas das cidades terão um forte impacto devido às mudanças climáticas, como por exemplo, o esgoto, a água e os sistemas de drenagem. “Infelizmente, o pobre será o mais afetado. O impacto é seletivo”, disse Jefferson. A explicação dele é que essa parte da população urbana vive perto dos rios, das vertentes de morros onde ocorrem deslizamentos de terra, ou terrenos próximos à áreas poluídas.

Professora Andrée discursando durante seu painel sobre Cidade Transtornada: A Crise Ambiental no Espaço Urbano - Crédito: Lucas Bubols
Professora Andrée durante seu painel sobre Cidade Transtornada: A Crise Ambiental no Espaço Urbano – Crédito: Lucas Bubols

Esta parte da população que o geólogo Jefferson Simões cita segue um dos mesmos pensamentos de civilizações antigas, segundo o engenheiro do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS Carlos André Bulhões Mendes. “As primeiras agregações humanas se davam em volta dos rios, próximo às beiradas. Como o Nilo, o Eufrates, etc. Mas todas elas respeitavam as águas. Elas sabiam dos riscos que havia ali, por isso procuravam não intervir na natureza”, disse Carlos, também painelista no Seminário da Virada Sustentável.

Para o engenheiro e professor da UFRGS, a população mais carente hoje em dia segue os passos dos antigos. Entretanto, há apenas uma diferença: as pessoas atualmente não respeitam os rios. Carlos ainda comenta que não adianta se preocupar com o embelezamento do dilúvio em Porto Alegre se o problema maior é outro. “Se eu partir para o problema antes de resolver o nexo de causalidade, a causa e efeito, tudo isso daí é a cereja do topo do bolo. Só que eu só me preocupei com a cereja, eu esqueci o bolo. De onde eu devo começar a resolver o problema? Das nascentes. De cima para baixo. Antes de eu tentar limpar a orla do Guaíba, eu preciso subir o rio e resolver o problema lá de cima”, defende o professor.

Para Carlos André, a cidade é como o corpo humano, e a água seria o nosso sangue, ou seja, obrigatório para que possamos viver. Para a especialista em Gestão Ambiental, Andrée, a água é vital para uma cidade sustentável, que para ela, é o mesmo que cidade saudável. Para que uma cidade seja saudável, em termos de segurança hídrica, é necessária políticas para cuidar das nascentes dos rios. Segundo a diretora executiva do Consórcio Pró-Sinos, Viviane Diogo, em entrevista ao Jornal NH, serão necessários mais de 30 anos para recuperar o Rio do Sinos.  “Segurança hídrica é quantidade e qualidade de água. A água da nascente está sendo afetada. Chegou na cidade. O que as cidades fazem para ocupar seu território? Elas urbanizam até não ter mais condições de infiltrar a água no solo. Então a gente não alimenta o lençol freático”, relata a bióloga Andrée.

O significado

Resiliência é a capacidade de um ou mais indivíduos de se recuperar diante de alguma adversidade e conseguir se adaptar ou evoluir de forma positiva. No cenário ambiental, o significa do termo é a competência de um sistema voltar ao equilíbrio após ter sido perturbado.

A cidade resiliente é aquela que planeja ações para prevenir e combater os problemas que podem surgir, reduzindo ao máximo os prejuízos pessoais e materiais. É comum associar o termo às grandes catástrofes, como terremotos, enchentes, furacões, combate ao tráfico, violência, epidemias, entre outros.

E Porto Alegre, pode ser resiliente?

Porto Alegre não é considerada uma cidade resiliente, e nem será do dia para noite. Os choques naturais e as tensões humanas não param, continuam todos os dias. Portanto, o projeto em que a capital gaúcha está inserida irá ocorrer mediante as perturbações.

De acordo com a consultora Andrée de Ridder, é preciso se preparar para o que vem aí. “O que eu acredito é que Porto Alegre, para ser resiliente, precisa se preparar para as mudanças que estão vindo num ritmo muito avassalador. Não adianta você ter só a raiz daquilo que você construiu, mas você também tem que acompanhar o que vem pela frente, se preparar. Trabalhar muito mais com a prevenção do que com o caos instalado, quando ele já está instalado”, disse.

Conhecida como a “Capital Brasileira do Livro” por ter 97% de alfabetização, Porto Alegre, que tem quase 1,5 milhão de habitantes, já é considerada uma cidade com um nível cultural alto. Durante o Seminário do evento Virada Sustentável, Andrée disse que esta é uma característica “privilegiada” dos porto-alegrenses. “Existe uma condição privilegiada das cidades do sul do país, que é uma questão cultural. Aqui as pessoas estão, pela sua formação, pela sua origem, estão mais preparadas para receber a informação e praticar aquela informação. Acho que isso é uma condição de benefício para Porto Alegre”, reflete a paulista de 48 anos.

Quando questionada se a capital gaúcha poderia ser resiliente, Andrée respondeu: “Acho que sim, porque a cidade tem uma valorização cultural. Porto Alegre se favorece com isso. Apesar de todos os problemas que a cidade tem, como todas as outras. Mas tem um campo fértil. E eu acho que o desafio das gestoras da cidade, da sociedade civil, do cidadão, é se entender fazendo parte de uma rede. Porto Alegre pode ser uma cidade modelo nesse sentido de resiliência”.

Com o Desafio Porto Alegre Resiliente lançado em 2016, tendo seminários e inúmeros debates, a pergunta que fica é: a capital gaúcha vai, mesmo, conseguir ser uma cidade resiliente?

 

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